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Vita & Virginia: os caminhos de Vita Sackville-West e Virginia Woolf

O encontro e o florescer de um dos romances mais curiosos do século XX é o tema do filme Vita & Virginia, o qual resultou na criação de um dos livros mais aclamados na literatura mundial escrito por Virginia Woolf: Orlando: Uma Biografia.

Na década de 1920, Vita Sackville-West (Gemma Arterton) e seu marido, o diplomata Harold Nicholson (Rupert Penry-Jones), chocavam a sociedade britânica com suas visões avançadas sobre o casamento. Em uma sociedade conservadora e atenta à opinião alheia, a relação do casal sempre foi aberta, porém Vita era quem sustentava os olhares feios e julgamentos, uma vez que Harold mantinha os seus casos no âmbito privado (uma lei proibia casos homossexuais para homens, mas não para mulheres). Não muito longe dali, os Woolf eram vistos pela mesma sociedade como pessoas com quem não deveriam se envolver devido aos seus ideais boêmios, mas não somente, visto que Virginia (Elizabeth Debicki) e Leonard Woolf (Peter Ferdinando) mantinham um relacionamento platônico, baseado no companheirismo e na segurança.

O filme se inicia com o encontro entre as duas autoras em uma festa dada pelo cunhado de Virginia, todos parte do Grupo Bloomsbury, grupo de artistas com visões modernas sobre o mundo. Vita sempre se mostrou fascinada pela figura de Virginia e a sua genialidade, ainda não reconhecida pelo público, enquanto a última se questionava o motivo da primeira vender mais livros do que ela. “Popularidade nunca foi sinal de genialidade”, responde Vita.

Vita & Virginia

Vita & Virginia é baseado na peça teatral de mesmo nome que dramatiza as cartas de amor trocada entre as duas. Apesar das críticas mistas sobre a sua narrativa e liberdades tomadas na mesma, o filme traz um senso poético para esse momento da vida de Vita e Virginia, além de contar com canções que nos faz embarcar na sonoridade e devaneios dos sentimentos de ambas.

Virginia Woolf era descrita por seus amigos como reservada e quieta. No filme podemos observar que o amor não era a principal meta dela nem de seu marido, mas sim o trabalho na pequena editora que eles criaram. A saúde mental da autora também é retratada no filme, constantes dores de cabeça e debates se a sua loucura era, na verdade, sinal de genialidade, com a simbologia das heras tomando conta dos ambientes e corvos tentando lhe devorar. A depressão sempre foi a maior inimiga de Virginia, os seus constantes pensamentos sobre a morte fizeram parte de sua vida até o fim, e a doença, ainda pouco falada na época, a privou de experiências que ela gostaria de viver.

Vita Sackville-West foi uma autora que vendeu muito na sua época. No filme ele é descrita como espontânea, livre e à frente de seu tempo. Vita constantemente chocava a sociedade britânica com seus casos sáficos e as frequentes fugas com Violet Trefusis, sua grande paixão desde a adolescência. Determinada a se conectar com Virginia, Vita lhe envia cartas e prometendo o seu próximo manuscrito para a Hogarth Press, editora dos Woolf, assim consolidando o contato entre as duas.

“A verdade é que me preocupa não me ser permitido desejar do mesmo modo que você.”

Em uma das primeiras viagens de Vita e Virginia foi para Knole, a casa da família Sackville. Virginia estava aflita com o início de sua amizade com Vita, que não deixava esconder a sua verdadeira atração por ela, e, surpreendentemente, se entristece ao ver que outros dois amantes de Vita foram convidados para a viagem: Geoffrey Scott (Rory Fleck Byrne) e Dorothy Wellesley (Karla Crome), sem compreender ainda muito bem os seus sentimentos.

A falta de atração sexual está entre os tabus daquela época, em que tudo que fugia ao padrão heteronormativo não era discutido, e há diversas suposições do motivo pelo qual Virginia não sentia esse tipo de atração. Apesar de Vita não ter sido a sua única amante, não há muitos registros dos outros casos de Virginia; no mais, o amor entre as duas é a evidência de que o sexo não é a parte principal de um relacionamento e o mesmo pode se dizer do seu casamento com Leonard, a quem ela também amava imensamente.

No entanto, sendo produto de sua época, Virginia se sentia deslocada, quebrada como é dito no filme. Em uma cena, enquanto fala sobre o seu relacionamento com Vita com a irmã, Vanessa Bell (Emerald Fennell), e com Duncan Grant (Adam Gillen), ela se preocupa que não lhe seja permitido desejar alguém do mesmo modo que os outros, ao que sua irmã responde que ela é capaz de amar e que existe diversas formas de fazê-lo. Duncan diz o que talvez é a mensagem mais relevante: “Sexo não é a coisa mais importante”.

Por mais sexual que fosse a relação entre as duas, o sexo estava longe de ser o que as unia. A intensidade dos seus sentimentos por Vita fez com que Virginia explorasse sensações e sentimentos nunca vividos por ela; Vita fazia Virginia se sentir viva e lhe inspirava a escrever. Escrever sobre Vita foi a forma que Virginia encontrou de compreender a incógnita que sua amada significava para ela.

“Com frequência eu penso que romance é apenas não conhecer completamente a outra pessoa. É o não conhecer que nos enlouquece.”

Nigel Nicolson, filho de Vita e Harold, disse que Orlando é a “mais longa e encantadora carta de amor escrita pela literatura”. Ao escrever Orlando, Virginia Woolf disseca a personalidade de Vita, o feminino e o masculino, a simplicidade e o sofisticado, o que era realmente dela e a ficção que a autora criou da outra. Vita, para Virginia, é feita por fragmentos que ela não consegue entender e então ela a transforma em uma história por inteiro, com a complexidade e o auxílio que apenas a escrita proporciona à Virginia.

O filme nos dá a entender que a criação de Orlando é a despedida de Virginia a Vita, romanticamente. A forma como ela mergulhou nessa paixão, rapidamente e profundamente, foi contrária como a forma com que ela percebeu que precisava deixar Vita ir, lenta e dolorosamente. Sempre enciumada com os outros casos de Vita, a mesma havia dito à Virginia que a magoaria com o tempo se a deixasse. Virginia sempre foi uma mulher que precisa do certo e de um chão estável para se segurar em suas crises, algo que Leonard representa, e por mais que Vita, espontânea, fosse boa para tirar Virginia de sua zona de conforto e experimentar o mundo, a longo prazo esse arranjo só piorava o seu estado mental.

O romance das duas acabou em algum momento entre a criação de Orlando e a sua publicação, porém o amor não se esvaiu. Vita e Virginia continuavam trocando cartas e declarações de amor até o momento da morte de Virginia. No fim, elas percebem como o encontro das duas foi responsável por fazê-las crescer, tanto pessoalmente quanto profissionalmente. Apenas um capítulo de suas vidas que seria eternizado na história da humanidade.

“Tenho vivido tanto tempo em você, que agora que a vejo, pergunto-me se você existe ou foi apenas inventada por mim.”

Vita & Virginia brinca com as sensações de uma paixão repentina e profunda. As cartas trocadas pelas autoras são misturadas e a produção tem a liberdade de dar novas vozes às falas pelo bem da dramatização, assim como a cronologia de seus acontecimentos. A superficialidade em como o filme aborda o que talvez foi o maior momento da vida de Vita Sackville-West e Virginia Woolf é o seu maior pecado. Quando o espectador percebe a parcialidade da narrativa, que insere estereótipos pelo bem do drama, o filme perde todo o seu potencial.

Para compor o longa-metragem, a trilha-sonora feita por Isobel Waller-Bridge auxilia em toda a atmosfera do universo criado por Chanya Button e, sem ele, o ritmo e os sentimentos desenvolvidos durante o filme não teriam sido os mesmos.

No mais, Vita & Virginia é um convite para os admiradores e curiosos investigarem melhor quem foram suas personagens, quais sentimentos uma despertou na outra e o resultado desse romance. Orlando mudou a vida de Virginia Woolf e Vita Sackville-West além de ter transformado percurso da literatura mundial; o que nos deixa a questão: o que seria do mundo sem as grandes paixões?

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