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Praça Paris: a volta do cinema de Lúcia Murat

A cineasta Lúcia Murat costuma dizer que seus filmes refletem momentos de sua vida e assuntos pelos quais ela se interessa. No atual momento que o Rio de Janeiro vive, o de uma intervenção militar extremamente arbitrária, não parece surpresa que seu novo filme, Praça Paris, aborde justamente a violência social e estrutural que assola o Brasil.

Praça Paris é o 13º filme de Murat, depois de Em Três Atos, o filme favorito dessa que vos fala. Como uma fã que ama e respeita o trabalho de Lúcia, sinto como se a mulher das pedradas estivesse de volta. Praça Paris é um tijolaço na cabeça, de um jeito mais claro, mais parecido com o que ela fez em filmes como A Memória Que Me Contam e Quase Dois Irmãos. Sem floreios, sem poeticidade. Algo que adoro na obra de Lúcia, aliás.

Lúcia Murat: de guerrilheira à cineasta

Praça Paris

“Lúcia Murat é uma guerreira”, declarou Grace Passô, uma das protagonistas de Praça Paris, durante a discussão sobre o filme no Festival do Rio. Não é à toa: a cineasta é uma guerreira no sentido literal e figurado. No literal, ela integrou a Guerrilha do Araguaia, foi presa e torturada durante a ditadura civil-militar. Conheceu Stuart Angel de perto. Para ela, ainda estamos na transição para a democracia, e a maior prova da fragilidade de todo esse processo democrático é o golpe institucional que vivemos hoje. No figurado, Murat é uma sobrevivente. O cinema, como ela gosta de dizer, foi uma condição de sobrevivência para ela.

A sétima arte foi uma continuidade para a vida de Lúcia, que, como tantas outras, teve a vida destroçada pela ditadura civil-militar. Em 1989, ela rodou seu primeiro filme, Que Bom Te Ver Viva, e o levou para o Festival de Toronto. Uma estreia para ninguém colocar defeito. No filme, Murat discute como a ditadura afetou o corpo e a mente de diversas mulheres. Irene Ravache interpreta o superego de todas as sobreviventes que dão seus depoimentos. Lúcia mistura documentário e ficção para mostrar que sobreviver é uma forma de resistência.

A partir de Que Bom Te Ver Viva, a cineasta não parou mais. A classificação de seu cinema como político não lhe agrada — e a mim também não. Todo cinema é político. Na realidade, na minha opinião, chamaria o cinema de Lúcia Murat de “cinema da violência”. Todos os seus filmes, dos mais poéticos aos mais crus, contam com a presença da violência, seja ela física ou simbólica. A velhice ganha ares de violência poética Em Três Atos, já a visão que os estrangeiros têm de nós brasileiros transforma-se em violência simbólica em Olhar Estrangeiro. O cinema de Lúcia Murat quer discutir e mostrar a violência em todas suas facetas, e acredito que isso tenha muito a ver com as próprias violências que ela sofreu durante o período em que esteve presa. Com Praça Paris, não podia ser diferente. Aqui, a violência institucional e racial é um dos laços que amarra o filme.

Uma narrativa conduzida pela violência

Praça Paris

Praça Paris é o primeiro filme de suspense, digamos assim, de Lúcia Murat. O roteiro foi escrito por ela e Raphael Montes, escritor famoso por romances como Suicidas. Para mim, ele revive, à sua maneira, o que havia de melhor no cinema noir dos anos 40 e 50: um mistério aliado a uma forte crítica social. Quando falo em mistério, não quero dizer um assassinato, e sim algo nos personagens que não nos é revelado, laços que o filme não faz questão de desatar ao acabar. Isso faz parte dos objetivos da Lúcia, que declarou na discussão sobre o filme no Festival do Rio que ela não queria oferecer respostas. Queria colocar lenha na fogueira.

A trama nos apresenta a história de Glória (Grace Passô), ascensorista na Universidade Federal do Rio de Janeiro, cuja vida se cruza com a de Camila (Joana de Verona), psicanalista com a qual ela começa um tratamento terapêutico na mesma universidade. Glória e Camila vêm de mundos completamente diferentes: enquanto a primeira mora na favela, é uma mulher negra, sujeita ao racismo e a todo tipo de violência, a segunda é uma portuguesa, branca e de classe média, que vem ao Brasil estudar a violência e se considera bastante progressista.

Camila começa a tratar Glória, mas há algo ali que não funciona. Não funciona porque a psicóloga não consegue entender a dimensão exata do que Glória vive. O distanciamento de Camila da violência física, sexual e do racismo pelo qual sua paciente passa desde a infância a impede de lhe propor uma solução. A cada consulta, Glória revela algo sobre sua vida, desde o abuso sexual perpetrado por seu pai desde que ela tinha 12 anos até o fato de ter um irmão, Jonas (Alex Brasil), um traficante de drogas, na cadeia. Camila, por sua vez, fica cada vez mais apavorada, até desenvolver uma fobia, um medo de que Jonas irá persegui-la, já que ela trata a irmã dele.

A ideia de falar sobre empatia e violência surgiu, segundo Lúcia, há mais ou menos dez anos, quando uma amiga que trabalhava em um centro para carentes lhe contou sobre os jovens psicólogos, estudantes de mestrado, que atendiam pessoas em situação delicada como a de Glória e desenvolveram um medo de que seus parentes, muitas vezes encarcerados, fossem atrás deles.

Para Lúcia, é possível uma psicóloga branca criar empatia por uma mulher negra e, infelizmente, toda uma parte em que se falava sobre isso, ao meu ver essencial para o filme, caiu do roteiro, pois, segundo a cineasta, prejudicava o suspense do filme. Também compactuo com a visão de Lúcia, mas vou além: nós brancas podemos e devemos ter empatia por aquilo que não vivemos, como o racismo e a violência estrutural que decorre dele, mas jamais sentiremos na pele o que é viver isso. No caso do filme, é por não viver no dia a dia, e vir de uma realidade tão distante dessas questões, que gera toda a paranoia da psicóloga, que é levada por Lúcia Murat a níveis extremos.

Camila é uma metáfora de qualquer pessoa branca que se diz ser empática e progressista. Em uma das cenas mais geniais de Praça Paris, uma menina branca entra no elevador, assistindo a um vídeo com cenas de violência. Ela diz: “Cara, que terrível.” Glória olha para ela de canto, com um sorriso levemente debochado, como se soubesse da banalidade que domina aquela cena. Isso porque, para ela, a violência é banal, digamos assim. Quem nasce na favela, como Glória, naturaliza a violência desde muito cedo, porque morrer é a regra nesses lugares. Acho que essa cena diz muito sobre nós, como pessoas brancas em geral. Há uma falha em entender de verdade o que está em jogo em uma intervenção federal no Rio, ou mesmo na questão das UPPs nas favelas. Praça Paris mostra que o entendimento total da dimensão dessa violência leva à loucura e à paranoia. No caso de Camila, ela fica tão enlouquecida com aquela situação, com o fato de não poder ajudar sua paciente, que isso a torna uma pessoa sem empatia, racista e grosseira. Acontece uma inversão de valores e, lá pelas tantas, a psicóloga parece reproduzir o mesmo racismo velado que está presente na sociedade brasileira.

Praça Paris expõe a violência racial e militar de maneira nua e crua. Lúcia mostra bem como as duas coisas se misturam, ou seja, se você é uma pessoa negra, já é automaticamente suspeita de algo, como o final do filme nos mostra de maneira tão trágica. Em outra cena, Glória é agredida por policiais militares, que insistem que ela sabe dos planos (e será mesmo que havia planos?) de seu irmão. Segundo o Anuário de Segurança Pública, a polícia militar do Rio de Janeiro é que a mais mata e também a que mais morre do país. Quem está morrendo? Jovens, pobres e negros. Lúcia, ao rodar Praça Paris, não quis propor respostas, mas fazer com que a gente discuta esse assunto que, querendo ou não, é um problema de todos. É um problema social da maior importância.

O novo filme de Lúcia Murat vem em um momento em que ouvimos relatos de tanques na Barra da Tijuca, zona nobre do Rio, enquanto outros lugares estão sem segurança alguma. Dessa forma, a pergunta que fica é: intervenção para quem? E para quê? No episódio do podcast Mamilos sobre a intervenção, o relato de uma moradora de uma comunidade chamou a minha atenção. Ela diz que conviveu a vida inteira com a violência, que aquilo que estava acontecendo durante o carnaval, os arrastões e afins, não era novidade. Aquele cenário era comum para ela, ou seja, isso só teria virado de fato um problema quando a violência desceu para a zona nobre da cidade.

Pensar e repensar a violência é estar em contato constante com questões de raça, classe e de história do Brasil. Praça Paris é só a ponta do iceberg de um problema que começou com a escravização de milhares de negros durante a colonização do Brasil e que, infelizmente, perdura até os dias de hoje.

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