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Sister Rosetta Tharpe ou, simplesmente, a mãe do rock ‘n’ roll

A História está repleta de revolucionários, homens e mulheres que contestaram costumes ultrapassados, sistemas culturais e políticos repressores e crenças limitantes. Com o rock ‘n’ roll, gênero musical transgressor por natureza, não seria diferente. No entanto, diversas figuras que mudaram os rumos da história acabam esquecidas ou completamente apagadas das narrativas que conhecemos. Com o rock ‘n’ roll não seria diferente. Pode ser surpresa para muitos, mas o gênero musical comumente atrelado a juventude, rebeldia e nomes como os Beatles, Bob Dylan e Led Zeppelin nasceu em uma igreja de negros nos Estados Unidos e pelas mãos de uma mulher negra e possivelmente queer.

Assim como todas as manifestações culturais, o rock não tem uma data exata de surgimento e criador único, mas foi um movimento que surgiu nos Estados Unidos dos anos 50, resultado de uma mistura do blues e rhythm ‘n’ blues, conhecido como R&B, gêneros da música afro americana, com as músicas da sociedade branca estadunidense, o country e o folk. O blues exerceu grande influência sobre esse novo gênero, não apenas pelo uso da guitarra, baixo e bateria, mas sobretudo por seu caráter contestador.

O blues tem origem nos negros escravizados trazidos da África para o continente americano e suas work songs [música de trabalho], cantadas em meio às plantações de algodão como forma de manifestação do sofrimento e opressão a qual os negros foram submetidos devido ao sistema escravagista. Com o passar do tempo, muitos negros escravizados se converteram ao cristianismo e o ritmo ancestral africano e as work songs foram costuradas às passagens da Bíblia.

As igrejas de negros nos Estados Unidos foram peças importantes para a existência do rock ‘n’ roll, como também para o Movimento dos Direitos Civis. Esses locais foram palco de discursos de figuras como Martin Luther King e das primeiras apresentações de cantores, músicos e compositores influentes para a música norte-americana, como a jovem prodígio Rosetta Nubin, nascida em Cotton Plant, Arkansas, em 20 de março de 1915.

Sister Rosetta Tharpe

Quando criança, Rosetta deixou o sul dos Estados Unidos na companhia de sua mãe com destino ao norte do país, um movimento comum a muitos negros na época, uma vez que o racismo e as leis de segregação eram muito mais presentes no extremo sul do país, marcada pelas plantações de algodão e pela mão de obra escrava que ainda ressoa nos aspectos sociais, políticos e culturais da região.

Ainda muito jovem, Rosetta já demonstrava imenso talento musical, o que a levou a se apresentar em igrejas de diversas cidades. O segredo que atraía tantos admiradores era uma combinação de elementos que tornaria Rosetta uma artista ovacionada em diversos palcos, para além dos púlpitos das igrejas: voz encantadora e, sobretudo, inventividade e habilidade com a guitarra. A combinação do estilo rural e urbano, bem como sua presença de palco também se tornaram parte da marca de Rosetta.

Aos dezenove anos, a artista se casou com um pastor, mas o relacionamento durou apenas alguns anos. Rosetta então mudou-se para Nova York, onde se apresentou com importantes músicos, incluindo os ícones gospel The Dixie Hummingbirds e The Jordanaires, composto por cantores brancos — a colaboração entre artistas brancos e negros era um tabu na época —, surpreendendo a plateia que não estava acostumada a ver um artista negro à frente de músicos brancos.

Seu primeiro sucesso comercial foi a canção “Rock Me”, apenas uma das músicas de Rosetta a encantar plateias e influenciar músicos do calibre de Chuck Berry, Little Richard, Johnny Cash e Elvis Presley. Seu single “Strange Things Happening Every Day”, de 1944, foi a primeira música gospel a atingir o top 10 da Billboard. Os vocais de Rosetta Tharpe, seus solos de guitarra e performance enérgica atraíram milhares de jovens, negros e brancos, inspirando gerações que, muito cedo, já conheciam o nome da artista.

“Todas as crianças que cresceram nos anos 40 e 50 a conheciam como uma superstar. Aquele era o canto que todos tinham em seus ouvidos. O ritmo que ouviram, a instrumentação que ouviram, teria sido o piano santificado e o tipo de guitarra que eles conheciam pelas gravações de Rosetta. Então, acredito que seja justo dizer que há um pouco dela em todo rock ‘n’ roll” Anthony Heilbut, produtor musical.

Sister Rosetta Tharpe

As performances de Rosetta Tharpe revelavam todo o seu carisma e atitude que se tornariam condição essencial a qualquer um que se denominasse músico de rock ‘n’ roll. Entre muitos membros da igreja e no período inicial do blues, a música valorizada era a que falava sobre Deus, morte e o Paraíso; a dança e, por consequência, as canções dançantes da precursora do rock, era considerado pecado. Músicas de Rosetta, como “Tall, Skinny Papa” foram rejeitadas por parte da comunidade religiosa, mas a artista tinha orgulho de sua música. Rosetta desafiou convenções de gênero e raça sem abandonar suas raízes e sua fé, sendo conhecida por, frequentemente, durante suas apresentações, olhar para os céus como se, ao cantar, estivesse se comunicando com Deus.

Na vida pessoal, Rosetta teve diversos relacionamentos, sendo o mais duradouro com um homem chamado Russell Morrison, que se tornou seu agente e com quem a artista ficou casada por mais de duas décadas. Também houve muita especulação que, anos antes, Rosetta teve um relacionamento amoroso com a também cantora gospel Marie Knight. As duas saíram em turnê e gravaram músicas de sucesso, como “Up Above My Head”. Apesar de a relação ter sido confirmada por conhecidos da artista, nenhuma das cantoras confirmou os boatos. Gayle Wald, biógrafa de Rosetta, afirma que a revelação pública de uma relação amorosa entre as duas teria dado fim à carreira de ambas as artistas.

A influência do estilo musical e performance de Rosetta Tharpe não se limitou às fronteiras dos Estados Unidos. Em 1957, ela iniciou uma turnê na Inglaterra, apenas o começo de muitos shows por toda a Europa. As novas plateias então conheceram o verdadeiro blues e gospel norte-americano, bem como a grande influência para o rock ‘n’ roll que seria uma febre entre jovens de diversas partes do mundo.

“Sister Rosetta Tharpe era qualquer coisa menos comum e simples. Ela era uma mulher grande e bonita e divina, para não mencionar sublime e esplêndida. Ela era uma poderosa força da natureza. Uma guitarrista e cantora evangelista. Sabe, ela viajou para a Inglaterra com Muddy Waters e outros artistas de blues no início dos anos 60 e eu tenho certeza de que há muitos garotos ingleses que pegaram uma guitarra elétrica depois de vê-la” — Bob Dylan na Theme Time Radio Hour.

Com o passar dos anos e o rock ‘n’ roll tomando forma e atingindo diversas casas dos Estados Unidos, o gospel de Rosetta perdeu espaço para músicas que tinham maior apelo comercial na juventude branca, até então a emergente classe consumidora do país. Artistas negros como Chuck Barry fizeram grande sucesso com suas músicas sobre garotas, carros e festas, mas foi o garoto de Memphis, Elvis Presley, que se tornou o maior ícone do rock ‘n’ roll, que incorporava a linguagem e o sentimento de revolta do blues e que passou a ser tocado por pessoas diferentes, de diversos países e, dessa forma, absorvendo novos elementos à sua estrutura musical.

Sister Rosetta Tharpe faleceu em 9 de outubro de 1973, na Filadélfia, aos 58 anos em decorrência de um derrame. Em 2008, 35 anos após sua morte, o governador da Pensilvânia declarou o dia 11 de fevereiro como sendo o Sister Rosetta Tharpe Day, e apenas em 2018 o nome da cantora foi incluído no Hall da Fama do Rock & Roll.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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2 comentários

  1. O documentário Elvis Presley: The Searcher é o primeiro que vi onde é admitido como o rhythm & blues não foi só uma inspiração, mas influenciou diretamente a sonoridade dele. É um ótimo documentário, que realmente vai fundo nas raízes musicais de Elvis e da história da música, mas ainda assim não tem menção a Sister Rosetta. Acho que, pra além do apagamento histórico comum, há uma falta de cuidado quando se olha do ponto de vista da valoração das figuras femininas nesses movimentos históricos.