Categorias: LITERATURA, MÚSICA

Senhoras e senhores: Amanda fucking Palmer, sem interrupções

Se você estivesse em Boston entre os anos de 1998 e 2002 e fizesse um passeio até a Harvard Square, provavelmente encontraria uma noiva de dois metros e meio de altura sobre um engradado de plástico, imóvel. Sempre que alguém deixava algo dentro da caixinha na sua frente, a estátua tomava vida, retirava uma flor de seu buquê, se abaixava lentamente em direção ao seu benfeitor e lhe entregava a flor. Com os olhos, ela diria “Obrigada… eu vejo você” e, por um segundo, eles compartilhariam um momento.

Amanda Palmer é cantora, compositora, performer, escritora e — acho que é bastante correto chamá-la assim — digital influencer. Quando tudo na internet ainda era mato, Amanda já estava tinha uma newsletter sobre os seus próximos shows, contava tudo sobre a sua vida em um blog e organizava apresentações surpresa pelo Twitter.

Começou a fazer aula de piano aos 12 anos e se formou em uma faculdade de artes aos 22. Entretanto, antes de se tornar a cantora e compositora que conhecemos hoje, ela trabalhou por cinco anos como estátua viva nas ruas de Boston. Conhecida como a eight-foot bride (noiva de oito pés ou noiva de dois metros e meio — referência ao fato de que ela se vestia de noiva e subia em cima de uma caixa) a personagem teve, e ainda tem, um papel muito importante na sua carreira.

Aos 25 anos de idade, Amanda formou sua primeira banda: The Desden Dolls, na qual atuava ao mesmo tempo como agente, empresária e assessora de imprensa. Cuidava do mailing da banda, da divulgação dos shows e não fazia uma distinção entre amigos e fãs. Em cada show, ela sempre se lembrava de coletar uma lista de e-mails para alimentar a newsletter. Isso ainda 2001.

Desde o início da sua carreira, Amanda fez questão de manter uma relação de proximidade com os fãs. Ela fala bastante sobre isso em seu livro, A Arte de Pedir, lançado em 2014. No livro, Amanda conta que sempre achou essa parte muito importante, aquele era o seu público e ela precisava mantê-lo perto, informado e recebendo a atenção devida.

A “relação especial” que ela nutriu com os fãs desde o começo chamaria bastante atenção da imprensa quando seu álbum se tornasse o maior projeto musical da história do financiamento coletivo, arrecadando 1,2 milhão de dólares com a contribuição de quase 25 mil pessoas. Lançado em 2012, Theatre is Evil tornou Amanda mundialmente conhecida.

Agora, em 2019, no dia 8 de março, Amanda lançou o seu novo álbum, There Will Be No Intermission, com 20 músicas divididas entre faixas instrumentais, regravações e produções inéditas. As composições de Amanda, assim como a sua obra em geral, são diretamente influenciadas pelas suas experiências e o que acontece na sua vida. A sua produção tem sempre um caráter muito íntimo e aberto, está tudo ali pra quem se der ao trabalho de tentar entender a história que ela quer contar.

Amanda Palmer

Fazendo uma viagem desde a sua infância até a sua experiência como mãe, o álbum conta muito sobre a vida de Amanda. A canção “Judy Blume” é referência à escritora infanto-juvenil estadunidense de mesmo nome. Sua obra é mundialmente conhecida, mas também envolta por polêmicas. Seus livros falam sobre sexo, bullying, racismo e masturbação. Os livros de Judy Blume eram a companhia de Amanda quando ela não tinha amigos e foram eles que a ensinaram a pensar e a entender que ela não era estranha, e que ela não estava sozinha.

Um dos poucos amigos que Amanda teve na infância foi Anthony. Em seu livro, ela conta histórias sobre ele, seu melhor amigo e mentor espiritual. A turnê do álbum de 2012 foi adiada quando ele recebeu o diagnóstico de leucemia e a previsão de apenas mais seis meses de vida. Amanda decidiu que precisava estar com ele nesse período e cancelou a turnê. Ele se recuperou e, contrariando o diagnóstico, viveu mais alguns anos, tendo falecido em 2015.

Na música de abertura, “The Ride”, há uma comparação entre a vida e um passeio de montanha russa, ambos contendo altos e baixos imprevisíveis e, apesar de você poder descer quando quiser, é mais indicado sentar e aproveitar a viagem. A vida em si é só uma viagem, e você precisa se lembrar disso. Ela adota uma visão sobre como a morte é inevitável, mas que isso não é o mais importante, o importante é caminho que se tem até ela, a vida que você vive.

As canções “Bigger On The Inside” e “Machete” também fazem referência a Anthony. A primeira fala sobre um período bastante conturbado na vida de Amanda. Seu amigo doente, uma turnê cancelada, toda tensão dos atentados que aconteceram na Maratona de Boston em 2013 e a intensificação dos ataques de haters, que chegaram a ameaçá-la de morte. Na música, ela fala sobre como lidou com isso na época e até hoje. Já “Machete” é sobre a coleção de armas, facas, luvas de boxe e mais um monte de coisas relacionadas que pertenceram a Anthony. Apesar de ser um pacifista, ele gostava do paradoxo que a coleção criava, e após sua morte deixou tudo para Amanda, que não fazia ideia do que fazer com tudo aquilo. A música é de 2016, mas agora ganhou uma nova versão.

Em seu livro, Amanda fala bastante sobre o seu processo de criação através da “teoria do liquidificador artístico”. Em suas canções, ela costuma usar temas íntimos e pessoais, e tem uma tendência a deixar que as coisas se misturem pouco, sendo realmente possível identificar a que/quem ela se refere.

“A minha tendência é deixar que as coisas se misturem apenas de leve, isto é, costumo colocar o liquidificador na velocidade baixa. Numa escala de um a dez, ele fica no três. Se você olhar, ainda reconhece os ingredientes: no gaspacho artístico final, pode ter um dedo decepado e triturado, mas, se observar a tigela com atenção, ainda dá para vê-lo boiando ali.”

O que é importantíssimo nessa teoria — e é algo que Amanda coloca bastante em evidência no seu livro — é a compreensão de que existem formas muito diferentes de se fazer arte. Não há certo ou errado e não há um artista mais artista que outro. Não funciona da mesma forma para todo mundo. Alguns artistas ligam o liquidificador em uma velocidade muito mais alta e todas as coisas se misturam. É o caso do marido de Amanda, o escritor Neil Gaiman.

“Neil escreve ficção sobre coisas muito irreais: um livro sobre um garoto criado por fantasmas num cemitério; um Estados Unidos com deuses novos e antigos em batalha pelo destino da humanidade; graphic novels em que uma estrela caída do céu se revela como uma garota com a perna quebrada. Neil põe o seu Liquidificador Artístico no onze. Em geral, o leitor não faz a menor ideia de onde se assentaram as suas experiências de vida naquele purê superfino do produto final. Você pode sentir o gosto de um dedo, mas não dá para identificá-lo como dedo humano.”

[…]

“Não existe o “caminho certo” para se tornar artista de verdade. Você pode achar que vai ganhar legitimidade se fizer um curso de artes, se for publicado, se for contratado por uma gravadora. Mas tudo isso é conversa mole e está só na sua cabeça. Você é artista quando diz que é. E é um bom artista quando faz outra pessoa sentir ou vivenciar algo profundo ou inesperado.”

Na faixa “Voicemail for Jill”, uma das mais importantes do disco, Amanda liga e deixa um recado na caixa de mensagens de Jill, uma mulher que fez ou está a caminho de fazer um aborto. Ela fala sobre como a sociedade não vai tratá-la com compreensão e que sim, isso é difícil, e é o momento estranho, mas ela não precisa de uma “sala de julgamento dentro da própria cabeça, onde ela é juíza, acusada, defensora e vítima ao mesmo tempo” (“and you don’t need a courtroom inside of your head/where you’re acting as judge and accused and defendant and witness”).

Amanda, que já passou por três experiências de aborto, sempre coloca a questão em evidência nas suas redes sociais e tem a legalização do aborto como uma das suas causas mais importantes. Na música, ela tenta confortar outras mulheres que passam pela mesma situação dizendo “olha, eu entendo, é uma merda, mas vai ficar tudo bem”.

“A Mother’s Confession” foi lançada em 2016 e já é uma velha conhecida dos fãs. A canção fala sobre o filho de Amanda, Anthony, ou Ash, quando ele ainda tinha alguns meses de idade. Por meio de confissões difíceis, ela fala sobre o peso, a culpa e os desafios da maternidade. Nenhuma mãe é perfeita, mas não é isso que a sociedade espera delas e é perceptível a culpa que Amanda sente enquanto conta as situações difíceis que passou com o bebê, tentando descobrir esse negócio de ser mãe.

“Estou tentando me manter em paz por dentro
Eu sei que é difícil ser uma mãe
Mas essa bagunça é tão gigantesca
Eu me pergunto se deveria ter tido um filho”

“I’m trying hard to stay at peace inside
I know it’s hard to be a parent
But this mess is so gigantic
I wonder if I should have had a child”

Logo no início da canção ela conta sobre o dia que deixou o bebê sozinho por um minuto enquanto ia ao banheiro — afinal, ele tinha quatro meses, e ela achou que ele não iria conseguir se mexer. Ele conseguiu, e ela assistiu de longe enquanto ele caía. Ao mesmo tempo aliviada e culpada, ela confessa que “pelo menos o bebê não morreu” (“at least the baby didn’t die“).

E esses aprendizados da maternidade levam a outra música, “Look Mummy, No Hands”, também uma regravação de Amanda, na qual ela fala sobre sua mãe e sobre o processo de se tornar independente e achar que sabe tudo que precisa saber quando se é jovem. Agora, já adulta e com seu próprio filho, ela é capaz de entender melhor a própria mãe e as coisas que ela dizia.

“Olha, mamãe, sem as mãos
Estou tendo que fazer tudo sozinha
Olha, mamãe, sem as mãos
Eu costumava dispensar você, agora eu só sinto a sua falta”

“Look, Mummy, no hands
I’m having to do it all by myself
Look, Mummy, no hands
I used to dismiss you, now I just miss you”

Em “Drowning In The Sound” há um tom mais sério, e é a Amanda adulta falando sobre as coisas que ela vive hoje. A letra fala sobre a situação da política dos EUA, mudanças climáticas — entre os alertas e a negação, o movimento #MeToo e toda inconveniência que é a divulgação da verdade (“e a mídia não é falsa, é só muito inconveniente”/“and the media’s not fake, it’s just very inconvenient”)

Em “The Thing About Things”, ela trata do significado que nós damos para algumas coisas e como esses significados podem nunca ter realmente existido, nós às vezes só inventamos porque sim. Em uma publicação em seu blog, ela conta sobre o dia em que escreveu essa música. Finalizando, em “Death Thing”, que há alguém que entende quem é, tem orgulho das coisas que viveu, do que fez e que finalmente conseguiu entender e aprendeu a lidar com a morte.

Amanda é uma artista, e recebeu esse título porque decidiu que assim seria. Seu novo disco faz um caminho completo, começando e terminando em duas formas distintas de se olhar para a morte, passando por toda experiência de uma vida. Nos últimos 15 anos, Amanda tem feito apresentações, shows, concertos, gravou CDs, um TED Talk e escreveu um livro mas, mesmo assim, diz que “nenhuma forma de arte performática jamais alcançará a condição de A Noiva de Dois Metros e Meio”.

Tudo acontecia em um instante, a entrega de alguma coisa, o movimento, a entrega da flor, e a troca de olhares, mas havia intensidade, realidade. Assim como o disco é como um ciclo, assim também é a produção artística de Amanda. Ela não tem medo de demonstrar sua vulnerabilidade. Na verdade, é esse o objetivo de Amanda e da sua produção artística: ser realmente vista.

“Só pelo fato de vermos as pessoas — realmente vermos e sermos vistos —, a gente ganha e confere realidade mútua.”

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