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One Day at a Time sob a ótica de classe: Lydia, Elena e o discurso do american way

Cancelada em 2019, One Day at a Time se tornou, em pouco tempo, um marco das produções da Netflix. Embora tenha sobrevivido até a terceira temporada por causa de uma campanha feita pelos espectadores para aumentar consideravelmente os pontos de audiência, a série não conseguiu ir além disso, deixando um buraco no seu roteiro tão bem amarrado e um número considerável de fãs entristecidos.

É claro que a atitude de não permitir uma última temporada, ainda que menor, pelo menos para um final verdadeiro, passa por questões que vão além da falta de pessoas assistindo. Faltou publicidade e faltou interesse em fazer prosperar uma série — um reboot, vale acrescentar — com elenco majoritariamente não-branco e de humor crítico. Ao contrário do que aconteceu com Fuller House — continuação do clássico Full House, também produzida pela Netflix —, que continua em produção, agora em sua quinta temporada, One Day at a Time precisou lutar outras batalhas além da falta de interesse do público, a começar pela razão pela qual esse público poderia, afinal, não estar interessado.

Até a notícia de que seria cancelada, e mesmo depois dela, o grande marco da série e a razão pela qual ela era e ainda é tão defendida é o humor que se afasta dos clichês americanos. A série mostra, ainda, uma família de classe média dos Estados Unidos — mas sob outra ótica, falando sobre um outro tipo de família, a partir de piadas bem construídas e que não se perdem no humor bobalhão característico das sitcoms. Contudo, mostrar uma família de classe média dos Estados Unidos significa, também, mostrar um discurso que, embora se assemelhe ao progressismo, falha em criticar efetivamente o sistema onde se insere, e que exalta o american way of life [o jeito de vida americano] mesmo quando parece se afastar dele.

Que One Day at a Time cria um novo jeito de fazer comédia nós sabemos. Mas até que ponto essa “nova comédia” é, de fato, um confronto aos ideais que moldam a nossa sociedade, e até que ponto ela serve como outra história, que se apropria de lutas para alimentar um sistema de consumo que não se preocupa em encerrá-las? Até onde os Rivera-Alvarez estão de fato se afastando do padrão de uma família da indústria cultural?

Lydia Rivera e o estereótipo cubano dos Estados Unidos

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Dos clichês reservados às mulheres latinas nas produções televisivas, Lydia Rivera (Rita Moreno) — ou abuelita, como rapidamente aprendemos — não escapa realmente de nenhum. Seja pelo sotaque extremamente carregado, embora viva nos Estados Unidos desde muito jovem, seja pelos hábitos católicos, pelo gosto por comida apimentada ou pelo comportamento que remete a uma versão mais velha da latina sexy, ela encarna o papel que todos já vimos antes, e que, é certo, encanta e cativa, mas não é exatamente original.

Habituada a contar histórias da sua juventude e carregando sempre um tom saudosista dos seus anos em Cuba, o grande destaque de Lydia é o discurso que exalta seu país e suas origens a todo momento, como se nenhum outro lugar do mundo fosse bom como lá era. A partida para os EUA nos parece sempre um trágico conto — uma menina obrigada a deixar sua família para trás e mudar de país para escapar de um regime totalitário vai com seu marido para uma terra estrangeira, na qual não é bem-vinda, sem conhecer o idioma local, em busca de uma vida melhor e mais justa — e, mais importante, uma ferida nunca cicatrizada no coração da abuelita. Sua terra mágica, seu país de orgulho, deixado para trás de repente, graças ao ditador Fidel Castro.

Contudo, para alguém cujo amor mora em Cuba, é justamente no ponto da saída do país que o discurso de Lydia assume um tom caracteristicamente americano: o de que toda a Revolução Cubana foi, no fim das contas, um grande desastre, e que o governo dos Estados Unidos foi o verdadeiro salvador de vidas ao oferecer programas que permitissem aos latinos assolados pela tragédia recomeçarem as suas vidas. É evidente que não cabe discutir, aqui e agora, um movimento tão complexo quanto o da Revolução; mas é também evidente que o discurso progressista da série tem a sua primeira grande incoerência ao abordar esse fato. Não porque Lydia deveria apoiar a ditadura de Castro para ser verdadeiramente progressista, mas porque a série encerra em uma dicotomia batida e superficial de bom versus mau; um debate que passa por privilégios e pelo problema das classes sociais.

Nunca é abordado, por exemplo, que o programa do governo americano que tira Lydia dos braços da ditadura atendia principalmente a classe média, e não a população mais pobre, o que já garantia à abutelita uma condição de vida consideravelmente satisfatória, dada a enorme desigualdade social do país na época. A série também ignora o passado histórico de Cuba como última colônia latina a conseguir se tornar independente, a partir de um processo que dura mais de trinta anos e conta com duas guerras. Não fala, ainda, sobre o governo de Batista e sobre a dominação dos EUA sobre essa ilha, com leis absurdas que prejudicavam o desenvolvimento interno e que ajudaram a criar o sentimento anti-americano.

Caindo em clichês tipicamente usados pelos liberais para caracterizar Cuba e seus fatos históricos como um produto do comunismo mau, a série coloca em Lydia, uma latina orgulhosa de suas origens, um discurso que só lhe cabe dentro de um contexto altamente privilegiado e que, no entanto, não é demonstrado. Mascarando questões de classe e de desigualdade, apresenta-se a primeira grande incoerência da série: Cuba é o melhor lugar do mundo, mas só quando vista sob a ótica (e o domínio) americano; fora desse contexto, valem suas músicas e suas comidas, mas os processos que levam à construção da cultura são enterrados e esquecidos.

Elena Alvarez e a militância (da classe) média

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Enquanto Lydia é a representação do estereótipo cubano na série, sua neta, Elena (Isabella Gomez), é o exato oposto: apesar da herança latina, ela não fala muito bem o espanhol, tem a pele levemente mais clara, não tem o cabelo muito cacheado (como o da mãe, por exemplo) e, no geral, se adapta bem à vida americana sem deixar clara a origem da sua família, ainda que se orgulhe dela. Mas as discrepâncias entre ela e sua abuelita são mais profundas: Lydia é uma típica mulher católica que obedece às regras sociais de gênero impostas a ela desde a infância; Elena, por sua vez, questiona essas regras o tempo inteiro. Uma das ferramentas mais usadas pela série para construir o humor é justamente esse confronto “geracional” entre as duas.

Elena é militante e isso fica explícito desde o primeiro episódio. Seja enquanto luta pelo meio ambiente, seja enquanto explora questões relacionadas a gênero, sua construção ao longo das três temporadas da série nos mostra uma menina cada vez mais engajada em lutas sociais, preocupada com o uso correto e não ofensivo dos pronomes, que se descobre lésbica (e inicia um relacionamento com uma pessoa não-binária), que denuncia o machismo mesmo em suas formas mais sutis e que subverte, de maneira emocionante, alguns dos padrões de comportamento — como no episódio da sua quinces. É verdade que a série retrata com cuidado a sua transformação em uma mulher consciente, mas não quer dizer que não haja, nesse trajeto, uma falta.

Enquanto feminista, Elena questiona diversos dos papéis que são impostos a ela, mas não chega ao fundo deles, não examina a sua estrutura. Quando a sua abuelita pede que ela use maquiagem para ficar “mais bonita”, por exemplo, a adolescente prontamente responde que não concorda que deva fazer algo que a deixa desconfortável apenas para agradar outras pessoas; seu discurso deixa claro que toda mulher deve ter o direito de escolher se quer ou não usar maquiagem, mas em nenhum momento debate de onde esse desejo/gosto por usá-la vem. O mesmo acontece com outras questões, inclusive nas denúncias mais sutis de machismo. Por mais alto que seja seu engajamento (e ele é altíssimo!), a série não faz nenhum esforço para que ele seja profundo; as reclamações e denúncias levantadas são sérias, mas não são levadas a lugar algum.

Essa postura não condiz com a personagem que Elena se presta a ser. Seu feminismo e suas ideias margeiam debates sociais importantes, mas não analisam a sociedade. Para alguém com tanto acesso à informação e que de fato faz uso dela, os debates estruturais mais sérios abandonam a personagem o tempo todo, como fica claro no episódio em que Schnider (Todd Grinnell) decide transformar o prédio em um condomínio. Elena prontamente critica a atitude e denuncia a gentrificação associada a ela, mas, ao longo do episódio, nenhum debate sobre classe é efetivamente feito. Na verdade, o discurso se perde entre a compreensão e o perdão absolutos, como se “uma boa oportunidade de negócios” fosse uma motivação válida e o fato dela prejudicar inúmeros inquilinos de baixa renda fosse um efeito colateral inevitável, nada mais.

Ainda que faça parte de uma classe média que precisa batalhar muito para sobreviver, o discurso de Elena não faz esse recorte. As críticas ao governo trumpista em nenhum momento atingem políticas econômicas ou o efeito dessas políticas na população mais carente. Ela não é a parte pobre da população, nem está perto disso, mas por vezes parece não lembrar que também não está perto da parte rica — como quando reclama de usar o transporte público porque “ele tem um cheiro esquisito”, uma das posturas mais pouco condizentes com a personagem que a série retrata.

Problematizar é bom — pero no mucho

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One Day at a Time estreia como uma alternativa ao humor branco e padrão da Netflix (e de outras grandes produtoras, vale dizer), trazendo uma família que efetivamente não é rica, de origem latina e de maioria feminina para o protagonismo reservado a um elenco específico por muitos anos. Levanta questões importantíssimas ao longo de suas três temporadas, não só no que diz respeito à gênero, mas passando por esferas como a construção da masculinidade, problemas de saúde mental, dependência química, relações familiares complicadas, estresse pós-traumático, sexo, políticas de inclusão, as problemáticas implicações do discurso sobre “fazer a América ótima de novo” etc. Mesmo seus personagens masculinos não são rasos ou mal construídos: Alex (Marcel Ruiz) também subverte noções de masculinidade o tempo inteiro, e Schnider não se envergonha ao falar de sua luta contra o vício em álcool.

A grande questão é até onde esses debates levantados pela série pretendem ir. A ideia é incomodar a audiência a ponto de provocar mudanças ou simplesmente verbalizar que esses problemas existem? É ecoar a manifestação de milhares de pessoas ao redor do mundo por direitos e sobre problemas reais da nossa sociedade ou apenas fazer com que esses problemas sirvam como motor para que o espectador abra o site todos os dias em busca de mais um episódio? Até onde a suposta militância de One Day at a Time realmente vai, em termos de práxis, se a série se perde e se contradiz em tantos momentos?

É difícil confiar em uma indústria para criar conteúdos que criticam justamente o que sustenta essa indústria: o sistema de classes. E não é que One Day at a Time precise ser, necessariamente, uma série anti-capitalista — tanto que ela não é. Mas o que me parece importante é analisar que, dentro de um contexto capitalista, uma série que se propõe a pensar questões sociais, mas não se propõe a mudá-las, ou a provocar nos seus espectadores a necessidade de mudança não apenas de posturas, mas do sistema que absolve e permite essas posturas, não passa de uma série que usa um discurso apenas para fins lucrativos.

Nos tempos em que vivemos, enxergar Elena ou Lydia em uma série produzida por uma grande empresa é relevante e aquece o coração. One Day at a Time cativa porque não se quer ser só mais uma série sobre uma família rica com problemas e porque mostra, na medida do possível, pessoas reais, como eu e você. Mas é precisamente porque estamos vivendo o momento que estamos que cair na armadilha de que a série não é apenas mais uma série — construída para lucrar em cima de uma postura social que, hoje, rende dinheiro sem necessariamente render debates — é arriscado, de modo que toda reflexão precisa ir mais fundo. Caso contrário, continuamos vítimas do sistema que nos oprime (ou que permite nossa opressão), porém com frases de efeito mais bonitinhas.


* A arte em destaque é de autoria da editora Ana Vieira

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3 comentários

  1. Nossa, você verbalizou perfeitamente o incomodo que eu sentia assistindo a série! Apesar de gostar bastante de ODAAT, o discurso de Lydia, principalmente, me dava muita aflição e eu ficava me perguntando se eu que tava querendo problematizar e pedir demais de uma produção que nunca ia passar dessa posição progressistinha liberal americana. Mas acho que o momento pede sim que a gente critique, adorei sua análise!

  2. Nossa, corresponde exatamente a tudo que eu estava sentindo e não conseguia achar uma forma de explicar. Tanto que resolvi procurar uma crítica porque apesar do revisionismo histórico, é sim uma série boa pra começar abordar muitos tabus com a família. Mas eu queria poder contextualizar isso pra eles. Muito Obrigada! <3

  3. Gostei da sua crítica, fiquei incômodado com algumas opiniões e cenas em relação a Cuba de Fidel, o que me fez procurar criticas na internet sobre a série, em um mundo repleto de informações e fácil você acreditar no que as pessoas dizem para você como verdades manipuladas. A história é feita por quem ganha a guerra, não pelo que perde.