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The Red Sleeve: sobre as escolhas que fazemos e onde elas nos levam

The Red Sleeve é um pequeno fenômeno.

Vivemos em uma era onde um “pequeno fenômeno” da cultura pop não é nada — não quando lidamos todos os dias com obras como Vingadores, o multiverso do Homem-Aranha ou até mesmo com séries que promovem grandes eventos televisivos, como Game of Thrones. Mesmo assim, a existência do k-drama é, por si só, um triunfo.

Escrito por Jung Hae-ri e Kang Mi-kang e dirigido por Jung Ji-in, o sageuk (como eles chamam os dramas históricos na Coreia do Sul), tem uma história que é complexa, agridoce e cheia de nuances, ao mesmo tempo que quebrou alguns recordes e conseguiu uma audiência significativa para a emissora MBC. A trama começa mostrando um pouco da infância de Yi San (JUNHO, do grupo 2PM) e Deok-im (Lee Se-young), quando ele era apenas o príncipe da Coroa e ela uma court maid (empregada em treinamento do palácio da realeza). Como é comum na maioria dos dramas, o destino dos dois se cruzou quando eram ainda jovens, sendo a dinâmica deles foi selada ainda nessa época: com San lutando para sobreviver aos abusos do avô, enquanto Deok-im tinha que lidar com os problemas de ser uma garota destinada a viver, basicamente, com um destino determinado.

Para entender porque Red Sleeve é tão interessante e porque a história, que carrega uma difícil missão, conseguiu ter um ótimo desenvolvimento e resolução, é preciso saber que a trama cria um paralelo entre a jornada individual de Yi San e Deok-im, sendo que o destino de ambos se cruzam de maneira que não apenas reforça a história de amor, mas também seus arcos como personagens interessantes e fortes. Afinal, um romance só funciona em seu equilíbrio quando os protagonistas estão em pé de igualdade — tanto de personalidades como em questões narrativas. Ao longo dos 17 episódios, nenhum dos dois abre mão da sua verdadeira essência e quanto mais a trama se aprofunda nesse aspecto, mais fica claro que estamos assistindo ao que é, em sua forma mais simples, uma tragédia.

The Red Sleeve

Várias perguntas permeiam a narrativa, sendo que a primeira é: o Rei ama a court maid. Mas será que a court maid ama o Rei? Quanto mais San ficava apaixonado por Deok-im e aprofundava seus sentimentos para algo que ia além da atração comum, as perguntas também se tornaram mais complicadas de responder: será que Yi San nunca vai conseguir atender aos sentimentos de Deok-im? Ou Deok-im vai acabar cedendo a algo que ela lutou sua vida inteira contra? A resposta, para minha surpresa, foi muito mais complexa do que apenas uma ou outra.

Atenção: este texto contém spoilers!

Depois do primeiro episódio, que estabelece muito bem a dinâmica de Yi San e Deok-im, a narrativa avança alguns anos e mostra que o príncipe ainda está a espera para tomar o lugar do avô como Rei, e a court maid ainda está sendo treinada para assumir seu lugar dentro da estrutura do palácio. Sem saber exatamente qual o papel que eles tiveram na vida um do outro ainda na infância, Deok-im segue sua rotina treinando e contando histórias para suas colegas — e ganhando dinheiro para isso. Dinheiro que, segundo ela, pretende mandar para o irmão conseguir estudar e se formar como guarda. É com seu trabalho na biblioteca que ela conhece San, disfarçado como professor do príncipe. Se, quando eles se encontraram antes, ele era um menino perdido e com medo, agora é um homem arrogante e ciente do seu dever perante sua nação, treinando incansavelmente para cumprir com o seu destino. Já Deok-im, que antes era uma menina cheia de vida, agora é uma mulher inteligente, perspicaz e leal. Ela tem amigas, sonhos, esperanças e, principalmente, uma vontade de manter sua voz — ainda que seja apenas vivendo de uma maneira simples e modesta.

Tanto Yi San quanto Deok-im entendem muito bem os papéis que eles têm perante a sociedade que estão inseridos, e entendem também o preço que pagam pessoalmente por tais papéis. San, por exemplo, tem que lidar com a perda constante das pessoas que ama e a solidão de ser criado por um monarca tirano. Abusivo e violento, seu avô teve que agir (e executar) contra o príncipe da Coroa Sado, pai de San, que foi acusado de estar mentalmente instável. As consequências do que aconteceu, no entanto, San teve que absorver sozinho. Como uma criança que tinha tudo que lhe era possível quando se trata de conforto e bens materiais, e ao mesmo tempo nada, San se tornou alguém que não sabe lidar com os sentimentos e frustrações. Ao mesmo tempo, também é um homem que entende perfeitamente seu objetivo como futuro Rei, deixando transparecer uma faceta que sente empatia pela sua nação e aqueles que vivem nela, assim como um entendimento profundo sobre seus deveres, uma vontade de fazer algo mais.

Apesar de ter perdido os pais muito cedo e ter sido separada do irmão por causa disso, Deok-im cresceu conhecendo o amor e lealdade na sua forma mais pura — ao contrário de San. Seja com suas três melhores amigas e irmãs por escolha, Son Young-hee (Lee Eun Saem), Kim Bok-yeon (Lee Min-ji) Bae Kyung-hee (Ha Yul-ri), ou pela forma como desenvolveu uma ligação com sua superior, Court Lady Seo (Jang Hye-jin), a protagonista cresceu confortável para ser quem ela é: alguém que gostaria de passar pela vida de forma tranquila, ajudando e amando aqueles que são próximos a ela e cultivando seus hobbies para além da vida que tinha dentro do palácio.

Os momentos em que Deok-im tem com San dentro de sua biblioteca, quando ela não sabe sua verdadeira identidade, são inocentes, simples e fáceis. Os dois começam de desentendendo, mas logo estabelecem uma rotina calma e tranquila, onde ela transcreve seus livros e ele simplesmente a assiste. Ele se sente livre para ser apenas ele, sem a pressão da monarquia, enquanto ela apenas sonha com as possibilidades que existem na sua vida que, apesar de ser dedicada ao palácio e à realeza, ainda envolve algumas aventuras e certa liberdade.

Quando ela finalmente descobre a verdadeira identidade de San, a relação dos dois passa a tomar um rumo mais sério. Consciente dos abusos que sofre do avô e do peso que carrega nos ombros, além da solidão, ela jura protegê-lo. E o faz de forma brilhante, ajudando não apenas com a forma como escreve e conta histórias, como também de um jeito literal — mandando sinais para ele sobre a chegada iminente dos seus inimigos. O amor de San é verbalizado muitas vezes na forma mais literal possível, enquanto o de Deok-im é demonstrado, basicamente, por gestos e lealdade.

Mesmo fazendo de tudo por ele, Deok-im entende muito bem como seria sua vida caso ela resolvesse se tornar uma “concubina” do homem que ama. Além de nunca ser a prioridade (já que ele teria, por exemplo, uma Rainha), ela também estaria condenada a viver no palácio para sempre, presa e sem amigas. Seria o oposto da vida que ela tinha pensando para si. Apesar de amar San e demonstrar isso de todas as formas que consegue, Deok-im resiste e não entrega essa parte tão fundamental da sua personalidade, preferindo amar a si primeiro. Ele, acostumado a ter tudo o que queria, não consegue entender sua resistência ou de onde vem os seus sentimentos.

Apesar de ser uma grande história de amor, Red Sleeve é, principalmente, o coming of age da protagonista, que vai, aos poucos, abrindo mão de pedacinhos de si para conseguir proteger aqueles que ela ama. Quanto mais se infiltra na vida e na política do palácio, mais a menina sorridente e viva de antes desaparece, dando espaço a uma mulher que ainda carrega toda aquela inteligência perspicaz, mas também uma dureza em relação às coisas ao seu redor. A história de toda personagem mulher no palácio que de alguma forma acabou perdendo sua voz, faz um paralelo direto com a jornada de Deok-im entrando em contato com o que significa realmente ser uma mulher no contexto social em que vive. A luta para manter sua integridade e crenças é uma que exige sacrifício em vários níveis, mas ao mesmo tempo faz com que ela seja uma das melhores e mais complexas protagonistas de qualquer drama que já vi.

“His Highness is dear, but myself is dearer. So I will never drive myself into pain. If I cannot have it all to myself, I would rather not have it at all.”

“Vossa Majestade é querido, mas eu mesma sou ainda mais. Nunca vou me infligir dor. Se eu não posso ter tudo, não quero ter nada.” 

Na culminação da trama, Red Sleeve é uma tragédia não apenas porque tem um final triste e agridoce, mas também porque sua jornada é, essencialmente, marcada pelas perdas. As perdas literais e as metafóricas. A perda de Deok-im, que lutou até o fim para manter sua voz, impossibilitada de ceder aos seus desejos verdadeiros, só para no final ter que abrir mão de parte fundamental de si mesma. E a perda de San, que conseguiu ser um Rei justo e honesto, mas nunca conseguiu realmente entender o que Deok-im estava sentindo. Ainda que ele tenha experimentado a vida com ela por um momento, os dois nunca tiveram a possibilidade de concretizar com profundidade o que um sentia pelo outro, justamente porque ele nunca foi capaz de entendê-la. Sua vontade de liberdade e a luta para manter sua dignidade é algo que o Rei nunca compreendeu, sua natureza fazia com que isso fosse impossível. Isso não quer dizer que ele não a amava, ou vice-versa.

Ao chegar no final do drama, a menina viva e intensa que existia no começo do drama, não existe mais. Ao tomar a decisão de finalmente se entregar ao que ela sentia por San, e abrir mão de uma parte de si mesma no processo, Deok-im se rende sabendo que o Rei jamais poderia entendê-la. E essa, no final, é a grande tragédia da história.

The Red Sleeve

Tudo isso poderia ter sido um desastre, glorificando aspectos complicados dentro da própria narrativa. Contar uma história de amor que é essencialmente trágica sem cair em velhas problemáticas é um trabalho complicado que quase ninguém conseguiu fazer até hoje; mas esse não é o caso aqui. Red Sleeve explora uma história de um amor que é intensa, porém limitada pelas circunstâncias. As roteiristas deixam claro, pelas ações de ambos, que eles se amam sim, mas isso está longe de ser o suficiente. Não é o suficiente para San, e com certeza não é o suficiente para Deok-im, que sofre as consequências das suas escolhas.

Em certo momento dos últimos episódios, Deok-im diz para San que já se perguntou diversas vezes como teria sido a vida de ambos se ele não fosse um Rei e ela uma court maid. Eles teriam se amado? O amor teria crescido para algo além de uma tragédia? Talvez algo saudável, completo e duradouro? San apenas responde que “nunca nem sequer tinha pensado nisso”. Apesar de parecer ser um diálogo simples, ele diz muito sobre a dinâmica de ambos: San nunca colocou seus deveres como Rei de lado pelo bem do seu relacionamento com Deok-im, porque seu senso de honra é o que motiva basicamente todas as suas ações.  Até mesmo quando ela tem o primeiro filho deles, ele não vai até ela na mesma noite porque seu papel como Rei é, antes de mais nada, consolar a Rainha, que nunca conseguiu engravidar. Então é óbvio que ele nunca pensou em como seria uma realidade alternativa.

Mas para Deok-im, essa realidade faria toda a diferença. No final, a escolha de ficar com San é da protagonista. Ele está pronto para deixá-la ir para sempre, quando ela cede aos seus desejos e escolhe ficar ao seu lado como uma “concubina real” (como eles chamavam as amantes oficiais do Rei na época). O sacrifício aqui é que ela sabe que San nunca será capaz de entender seus sentimentos e frustrações, mas ela está cansada de lutar contra o que sente, e acaba cedendo. Isso, por si só, é uma grande tragédia. E só funciona dentro da narrativa por dois motivos diferentes: primeiro porque a história nunca deixou de abordar a disparidade de poder que existe na dinâmica, nem por um momento; e porque o amor dos dois é uma realidade. San ama Deok-im, e Deok-im ama San. Eles se amam pelos momentos quietos de cumplicidade, onde ela oferecia conforto, e San era apenas ele mesmo, e não um Rei. Momentos que foram roubados no meio da turbulência de um mundo desigual, cruel e pouco gentil. E se isso não fosse construído de uma forma tão orgânica (potencializada pela atuação e química dos atores), o k-drama teria sido um verdadeiro desastre, ao invés da grande obra-prima que foi.

Apesar da grande força de Red Sleeve estar principalmente na forma como ele desenvolve seus dois protagonistas, o drama vem também com o pacote completo: a OST é intensa e a fotografia não apenas é incrível, como na maioria dos sageuks, mas também reflete muito sobre os personagens e seus desejos mais profundos. A água, por exemplo, é usada diversas vezes para mostrar a forma como os personagens escondem e mascaram seus sentimentos. Nas diversas cenas que os dois se desencontram por causa da forma em que se sentem, por exemplo, o reflexo de San na água é mais claro, cristalino, refletindo a forma clara a que ele se refere aos seus sentimentos, enquanto o lado de Deok-im, que esconde o que sente para proteger sua identidade, está sempre mais escura, como se coberta por lama. As flores escondidas pelo palácio também tem um significado interessante, sendo que todo momento emocional para ambos é pontuado pelo “nascer” das flores — ou, pelo menos, com a auge da beleza das flores no geral. Quando o relacionamento deles chega em mais em uma estrada sem direção, as flores do lugar, que são o refúgio de ambos, para de florescer.

O drama oferece dois finais possíveis: para aqueles mais otimistas, a história pode ter acabado com ambos juntos, felizes e esperando uma criança, como o capítulo 16 se encerra. Depois de tanto sofrimento e desilusão, parece justo que eles tenham esse momento de paz e tranquilidade. Já o episódio 17 funciona como uma espécie de epílogo. Eis aqui o que acontece com os dois depois de felizes para sempre. Deok-im enfrenta as consequências da sua decisão, e San sofre sem conseguir entender que nunca poderia ter a mulher que ama — não completamente, pelo menos. É triste e devastador, mas como a maioria dos dramas que vi, existe uma fagulha de esperança: anos depois de que Deok-im morreu e San está no seu leito de morte, ele a vê outra vez, em uma realidade alternativa. Ela insiste para ele voltar e cuidar do seu povo, mas aqui, ao contrário do que acontece anteriormente, San escolhe ficar ao seu lado. Não como Rei, mas como um homem. Esse é o momento em que eles finalmente podem ficar juntos, sem estarem presos às suas limitações que existiam outrora. É um conforto para San, que perdeu o amor da sua vida, para Deok-im, que sonhava em ter uma vida diferente ao lado dele, e também ao público, que acompanhou a história de amor de ambos. Nesse momento, as flores já nasceram outra vez, e estão mais brilhantes do que nunca.

“E então esse momento se tornou a eternidade”, Deok-im diz nos momentos finais.


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2 comentários

  1. Análise perfeita! Eu amei a história mas fiquei desolada por ela também. O amor nem sempre é suficiente, e The Red Sleeve mostrou isso com maestria.

  2. Estou aqui após assistir esse Dorama, que assim como “Betwen Lovers” (Faça chuva ou faça sol), só intensificou o fato do Jun-ho (Yi San), na minha opinião, ser um ator de altíssimo calibre, e pra mim, o top 1 atualmente, e esse dorama, sem duvidas me deu essa certeza. De fato sua análise foi perfeita, e o final do episodio 17, com essa frase que a Deok-im deixou no final… simplismente sem igual … QUE DORAMA, QUE OBRA DE ARTE …