Categorias: CINEMA, LITERATURA

A maravilhosa cidade do futuro: o legado de Thea Von Harbou

O livro Metrópolis (1925) de Thea Von Harbou não é apenas um exemplar da literatura, mas também do cinema, além do movimento artístico e cultural intitulado Expressionismo Alemão. A obra é considerada ousada, inovadora e que desafiava os padrões sociais vigentes, possui um valor artístico e cultural inestimável, sendo reconhecida como um dos principais pilares do gênero de ficção científica distópica, e, consequentemente, influenciando múltiplas áreas da cultura pop, como Star Wars, Blade Runner, Batman (Tim Burton), “Radio Ga Ga” (videoclipe da banda Queen), o filme De Volta para o Futuro, “Express Yourself” (videoclipe da Madonna), além de álbuns musicais como The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart (Sepultura) e Meliora (Ghost).

A princípio, a obra foi traçada como um roteiro para o filme, que foi dirigido pelo marido de Thea na época, Fritz Lang, mas foi romanceada logo após as filmagens terem terminado e publicado antes do filme ter estreado. O registro de Von Harbou se trata de uma ficção científica muito diferente daquelas que temos hoje em dia, como as de Asimov e Philip K. Dick. Tal escrito possui uma narrativa lenta e a protagonista da história é a própria cidade de Metrópolis, deixando os demais personagens, não menos importantes, em segundo plano e repletos de simbologia.

The Von Harbou

A sociedade da obra, como na maioria das obras distópicas, é dividida entre duas classes: os operários, que vivem em uma cidade subterrânea na própria Metrópolis — que trabalham arduamente para manter as máquinas da cidade em pleno funcionamento —, e a elite — que permanece nos mais altos arranha-céus, em seus deleitosos jardins floridos e usufruindo do conforto tecnológico que lhes é acessível.

De maneira própria das literaturas distópicas, a obra é repleta de críticas sociais, todavia, possui como diferencial alusões a Torre de Babel e obras dos escultores Oskar Schelemmer e Rudolf Belling, enaltecendo a imponência e a beleza de Metrópolis, um local suntuoso e monumental. Para além disso, também produz menções religiosas, como a Estrela de Davi e a Prostituta de Babilônia. Um outro momento simbólico é quando Freder, filho de Joh Freder — criador da suntuosa Metrópolis — vai ao subterrâneo para encontrar Maria, remetendo à descida aos Infernos, de Orfeu, além da divisão bíblica entre o Céu e o Inferno.

A deslumbrante escrita de Thea demonstra um modelo futurista e atreve-se a dizer que vai ao encontro do Manifesto Futurista de Marinetti, como por exemplo, na marcha liderada pelo robô Maria:

“’Maohee!’” voou o grito acima. ‘Dance — dance — dance — Maohee!’
Mas a procissão em chamas era liderada por uma garota. A garota era Maria. E a garota estava gritando com a voz de Maria:
‘Dance — dance — dance — Maohee!’
Ela cruzou as tochas como espadas acima de sua cabeça. Ela balançou elas para a direita e para a esquerda, brandindo-as como se fossem um chuveiro de fagulhas caindo pelo caminho. Algumas vezes parecia como se ela estava montada nas tochas. Ela ergueu seus joelhos até seu peito, com uma risada que trouxe um gemido dos dançarinos da procissão.” 

Ou quando Georgi, um dos personagens, ergue-se até a cidade de Metrópolis:

“Ah, o inebriado da luz: êxtase da santidade! Ah, grande cidade de Metrópolis com seus mil membros, construída com blocos de luz! Torres de Feixe! Montanhas íngremes de esplendor! […]”

Cena do filme Metrópolis.

De mais a mais, para a primeira metade do século XX, a presença de veículos voadores movendo-se por edifícios é singularmente encantador, ainda mais quando foguetes eram apenas sonhos científicos. Admitir que aviões transitem entre edifícios é absolutamente provocativo, criando um impacto visual a partir de uma leitura que é possível ser identificada, por exemplo, em O Quinto Elemento (1997). Desta forma, com os exemplos citados, na 11° seção do Manifesto do Futurismo de Marinetti, consta o seguinte:

“Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafo aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta.”

Como apresentado, Metrópolis procura atingir um modelo futurista em um contexto fordista e de urbanização desmedida. O livro exibe diversos receios que a sociedade da primeira metade do século XX possuía, como os usos implacáveis da tecnologia, a inquietude em relação a expectativas do desemprego visto que a máquina poderia substituir o trabalho humano, levando a uma desumanização, uma mecanização, e o paradoxal isolamento do homem em um mundo superpopuloso. Tais desconfortos eram possíveis de serem vistos em outros filmes da época, como o famoso Tempos Modernos (1936), mostrando a alienação do trabalho ou o operário ser engolido pela Máquina, são retomados pelo cineasta inglês.

thea von harbou
Thea Von Harbou e Fritz Lang, 1923.

Outro tópico interessante na distopia de Thea é que a obra não critica a máquina, mas a mecanização do homem perante a ela. Tal questão é possível de ser verificada com os desastres que se iniciam na obra a partir da destruição das mesmas pelos operários. Tal destruição deve-se ao pensamento dos proletários em serem descartados como mero objetos pela criação do robô. A apresentação da figura robótica na literatura é curiosa. Na literatura, o termo “robô” foi utilizado pela primeira vez na peça de teatro chamada Robôs Universais Rossum de Capek, em 1920. É curioso notar que, na peça de Capek, o termo Roboto (Robô) era utilizado como sinônimo de escravo, termo que se assemelha ao que aqueles que viviam no subsolo que controlavam as máquinas como operários escravos.

Ademais, uma curiosidade notável acerca do livro escrito por Thea Von Harbou e do filme realizado por Fritz Lang é que ambos eram casados. Todavia, em 1932, Thea se juntou ao partido nazista NSDAP e Lang preferiu fugir da Alemanha, negando a proposta feita pelo Ministro da Propaganda na Alemanha Nazista, Paul Joseph Goebbels. Fritz Lang hoje é considerado um dos maiores cineastas existentes, ao passo que Harbou chegou a trabalhar em dois filmes de propaganda nazista, e hoje em dia é completamente esquecida. A pergunta que fica é: sua depreciação se deve ao seu passado nazista? Por ser mulher? Leni Riefenstahl também foi uma mulher colaboradora de Hitler e é reconhecida até hoje. Acredito que o fato que Leni nunca ter estado às sombras de um homem, como Thea ficou em relação a Fritz, seja a resposta. Mas esta já é outra questão a ser discutida.


Referências
VON HARBOU, Thea. Metrópolis. São Paulo: Aleph, 2019.
MARINETTI, Filippo Tommaso. Manifesto do Futurismo. 1909.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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