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Love, Death & Robots e a representação da mulher nos gêneros punk

A série antológica de animação Love, Death & Robots ganhou em 2021 mais uma temporada que, assim como a primeira, enche os olhos com um visual impressionante. O original Netflix, de Tim Miller (Deadpool) e David Fincher (Mindhunter), reúne vários estúdios e estilos gráficos em curtas de ficção científica. A produção traz um olhar peculiar sobre a sociedade — e em especial, sobre as mulheres.

Assim como outros gêneros, a ficção científica não é lá muito exemplar no que diz respeito à representação feminina. Ao mesmo tempo em que temos personagens memoráveis positivamente como Princesa Leia (Star Wars), Sarah Connor (Exterminador do Futuro) e Ellen Ripley (Alien – o 8º Passageiro) é recorrente que obras do tipo sejam misóginas de alguma forma. Afinal, produtos culturais são resultado do tempo e do espaço social em que estão inseridos.

Em 1953, o escritor Isaac Asimov fez um artigo para uma revista no qual ele comentava sobre três tipos de ficção científica: gadget (o foco da história é uma tecnologia); aventura (quando o gadget/tecnologia é usado como suporte da narrativa, mas não é a própria narrativa) e social (a tecnologia está lá, mas o foco está em como ela alterou a vida e as relações humanas). Portanto, a ficção científica é um grande conglomerado com subgêneros que vão se multiplicando até onde a criatividade permite.

Dentro desse universo, Love, Death & Robots usa os chamados gêneros punk para contar suas histórias, e esses gêneros se encaixam no social, descrito por Asimov. Pois, refletem sobre os avanços tecnológicos enquanto projetam questionamentos realistas em torno do que é ser humano no sentido filosófico.

Como os episódios não passam de 18 minutos nas duas temporadas, não há um aprofundamento desses temas. Eles são usados como gancho e, no caso dos mais bem amarrados, outras discussões podem ser levantadas. Mas, no geral, o que se tem é uma pincelada de um escopo maior, como nos episódios A Vantagem de SonnieA Testemunha e Boa Caçada, da primeira temporada, que são bons exemplos disso por terem protagonistas mulheres, com enredos mais alusivos. Os dois primeiros são cyberpunk e se passam nesse mundo sombrio e difícil, característico do gênero.  Em “A Vantagem de Sonnie”, a personagem do título é marcada física e psicologicamente pela violência. É uma vítima que decide fazer do ringue de luta a sua jornada de vingança contra seus agressores.

Também nesse cenário de representação pessimista está ambientado “A Testemunha”. Nele acompanhamos uma mulher que presencia o que acredita ser um assassinato e dá início a uma fuga do suposto criminoso, numa espécie de looping dessa situação. Aqui, chama a atenção o fato da personagem ficar praticamente toda a trama sem roupa, mesmo nos momentos sem justificativa. Por mais que se trate de uma animação voltada para adultos, não dá para ignorar o male gaze (olhar masculino, na tradução literal), como bem destaca o canal mimimidias.

Em “Boa Caçada” a violência contra o feminino volta a ser elemento central do enredo, numa história silkpunk. Calcado no cyberpunk, o termo surgiu com Ken Liu, escritor e tradutor norte-americano nascido na China, no romance The Grace of Kings (2015). E é dele o conto que inspirou o episódio. O subgênero tem inspiração na cultura clássica asiática, mesclando tecnologia e materiais orgânicos como seda, bambu e papel, além de componentes de misticismo. O episódio traz todas essas referências para falar sobre a amizade de um jovem inventor com um espírito de raposa (hulijing), atravessada por um país dividido entre o mundo antigo e a crescente evolução industrial. O espírito mitológico, que assume a forma de uma mulher, é constantemente caçada por isso, mas começa a ter dificuldade para voltar à sua origem conforme a região vai se tornando mais moderna e perdendo a magia.

Na ficção científica, as metáforas são recursos frequentes para críticas a comportamentos atuais. Seja visualizando um futuro distópico ou especulando um passado vanguardista, o gênero se utiliza de imagens de comparação para suas histórias. A diretora Lilly Wachowski, por exemplo, usou o filme Matrix como uma alegoria da experiência de ser uma pessoa trans — algo que foi levantado por fãs na internet e confirmado por ela na live de 21 anos do lançamento da obra que se tornou um clássico.

O filme tem inspiração em Neuromancer (1984), livro de William Gibson que solidificou o cyberpunk e se tornou referência para essa e várias outras obras do tipo. Vale lembrar que a ficção científica teve entre os marcos iniciais  o livro Frankenstein, de Mary Shelley (1797–1851), publicado muitos anos antes, em 1818.

De lá para cá, outras autoras incríveis surgiram, como Alice Sheldon, Ursula K. Le Guin, Octavia Butler e as brasileiras Melissa Tobias e Aline Valek. São inúmeras obras relevantes. Ainda assim, há no gênero, e seus derivados, espaços que precisam ser ocupados para que séries empolgantes como Love, Death & Robots não deslizem ao abordar temas adultos e apresentem histórias com corpos tão diversos quanto as realidades que imaginam.

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