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Emily in Paris e os clichês de uma vida cor-de-rosa

Se o ditado que diz que “a ignorância é uma benção” tem algum efeito atualmente, ele nos faz refletir que, em uma realidade em que antigas convenções antes naturais na sociedade passaram a ser criticadas, modificados e evoluídas, é impossível não notar. Quantos filmes e séries hoje você assiste e já se prepara para não aprovar ou problematizar assuntos que antes passavam despercebidos? E quantas dessas pautas se transformaram em assuntos corriqueiros com amigas, colegas de trabalho e grupos de apoio?

Hoje, as mulheres se expressam mais e não aceitam menos. E por que será que tantos assuntos passaram a “incomodar”? Porque estamos protagonizando e questionando muitos sentimentos que antes ficavam guardados, fora de debate. Emily in Paris, criada por Darren Star (também criador de Younger), estreou dia 2 de outubro. Totalmente ambientada na cidade de Paris, na França, ela mostra a vida de uma jovem publicitária que muda dos EUA para a França graças ao seu trabalho em marketing. A empresa da qual faz parte em Chicago comprou uma agência menor em Paris e precisa de uma representante da matriz para alinhar processos e campanhas, com o olhar “americano” do business.

Quando numa reviravolta abrupta de eventos, Emily (Lily Collins) é recrutada para substituir sua chefe na empreitada, ela se vê num grande choque cultural ao chegar em Paris. Ela é o tempo todo estereotipada pela equipe como uma americana que só pensa em trabalho, que é metida e que quer colocar o “american way of life” por cima da maneira francesa de se viver. Começando com essa sinopse, já podemos trazer o ponto do preconceito ou estereótipo vivido por Emily no trabalho.

Emily in Paris

A equipe da agência de Paris, comprada por uma empresa maior dos EUA, estava esperando por uma profissional americana que apenas observasse o que eles fazem e não alguém que ditasse algumas regras. Emily é mais jovem que Sylvie (Philippine Leroy-Beaulieu), a gestora do escritório, não fala francês e, de fato, tem um ritmo mais acelerado de trabalho do que o pessoal estava acostumado. Automaticamente, ela é excluída da equipe e passa a ser vista como um incômodo no escritório. Quando, por exemplo, ela chega para um grande cliente da agência de marketing que trabalha e questiona sua campanha publicitária (por ter no comercial uma mulher nua sendo desejada pelos homens ao redor por usar o perfume da marca), ela é vista como a errada, a sabotadora, a que não entende de público. Isso porque ela está traduzindo o que uma cliente em potencial pode sentir ao ver a propaganda: que o produto é feito para os homens objetificarem ainda mais as mulheres e não para as mulheres como consumidoras finais.

Emily constantemente tenta quebrar o padrão de rivalidade já que ela não se posiciona dessa forma. Ela é recebida friamente por Sylvie, mas, mesmo assim, sempre tenta mostrar que estão juntas naquele desafio ou naquela conquista. Seu bom humor e otimismo parecem não contagiar muito a editora chefe da agência, mas o mais importante é que ela segue seus instintos em suas decisões. Até mesmo indo contra algumas premissas da empresa ou sendo proativa demais em algumas situações, o que faz Sylvie ter ainda mais aversão à sua presença.

Por meio do marketing de influência, ela passa de uma criadora de conteúdo para marcas a uma especialista em conteúdo sobre ela. Suas experiências, sua mudança, suas amizades, tudo vai para a rede social. Até que é chamada para sua primeira grande parceria. Quando uma marca usa de uma pessoa “real” para falar sobre seu produto, ela gera muito mais confiança do que apenas um outdoor numa movimentada avenida. É essa conversa e proximidade que o uso de um influenciador proporciona que tem transformado as redes sociais nas novas revistas de tendência.

Emily in Paris

Para uma agência como a que Emily trabalha, esse tipo de exposição não é positivo, muito menos elegante. Porém, são exatamente as ideias digitais, inovadoras e fora do comum que Emily traz aos trabalhos que faz com que ela ganhe mais espaço entre os clientes. Diferente de Sylvie, que a vê como uma ameaça, sua antiga chefe, Madeline (Kate Walsh), a eleva como mulher profissional. Ir para Paris era o plano de Mad e não de Emily, mas, numa mudança de planos, a patroa nunca deixou de incentivar, ajudar e estar próxima de sua mais que funcionária, amiga. Interessante que são duas personagens que têm mais experiência (e idade) que Emily, mas que veem as coisas de forma bastante distinta.

Ao mesmo tempo, a visão de Emily sobre sua nova vida é rodeada de clichês. E, sim, temos que concordar que muitos aparecem na chegada da protagonista a Paris. Ela tem um vizinho charmoso, roupas maravilhosas, conhece uma au pair na praça e já viram melhores amigas, e todo homem bonito que ela conhece tem potencial de se envolver e ela passeia pela cidade luz com ar de turista e não de moradora.

Tudo que se refere ao estilo de vida europeu é retratado como antiquado e conservador — a alta costura em um desfile, o luxo de um hotel, o cliente rico que compra tal marca de colchão, tudo fica no campo do estereótipo. Talvez por isso que muitos franceses tenham odiado a série ao mostrar uma Paris bem turística e nada moderna. Mas como toda a trama de Emily in Paris é contada pelos olhos de Emily, é até natural que ela viva de clichês. Ela foi formada por meio deles, vivendo nos EUA e consumindo o que a França joga ao mundo, como sinônimo de chique, caro e tradicional. Até os looks de Emily são constantemente renegados pela sua equipe, já que ela traz cores, estampas e texturas para seu dia a dia. Ou seja, o choque de cultura vai muito além da língua e chega também no campo das ideias. Quando a já citada campanha de perfume mostra uma mulher nua sendo desejada por homens, enquanto Sylvie a considera uma ótima ideia, Emily sabe que essa estratégia é digna de muito cancelamento.

Emily in Paris

A temporada é finalizada com a protagonista ferindo sua ética, mas ouvindo seu coração, muita amizade por parte das amigas de Mindy, a au pair (Ashley Park) e uma grande dúvida sobre como a relação de Emily e Sylvie vai continuar. Confesso que, para mim, isso chamou bem mais a atenção do que a própria trama romântica que a série tem. Com discussões bem importantes sobre a visão feminina da publicidade, muitos lugares lindos de Paris e muito charme masculino na narrativa, acredito que há potencial para uma nova temporada com ainda mais dramédia.

Emily in Paris tem, sim, seu diversos clichês e ignora a vivência de um mundo real em prol de uma narrativa banhada em cores cor-de-rosa. Tais clichês, inclusive, seriam melhores recebidos caso a protagonista não fosse, novamente, uma menina branca como Emily. Os clichês seriam muito mais válidos e renovados caso a protagonista fosse, por exemplo, a própria Mindy, que consegue ser mais carismática do que Emily em suas poucas cenas. Mas claro, Emily in Paris vem com aquela pitada de vida bem fictícia que a gente adora projetar no nosso momento de suspensão de descrença, no sofá com uma boa pipoca e vinho gelado.

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