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Ghost of Tsushima e o jogar como experiência meditativa

Perda de uma consciência de si, alterações em sua percepção temporal e concentração total e focada no momento presente, além de uma sensação intensa de satisfação. Essas são características de um processo psicológico descrito nos anos 70 por Mihaly Csikszentmihalyi como o Fluxo Cognitivo, ou Flow State, um estado atingido a partir da realização de tarefas específicas e levemente repetitivas como a prática de esportes ou de jogos eletrônicos. Se durante a descrição acima você imaginou algo mais próximo a uma meditação, você não está errado. Ghost of Tsushima, último jogo do estúdio Sucker Punch lançado exclusivamente para a plataforma Playstation 4, não só me aproximou do desejável Flow State em vários momentos, como me proporcionou uma das experiências mais plácidas possíveis no estressante ano de 2020.

Bem no início de Ghost of Tsushima é possível perceber que o que o jogo propõe é uma experiência bem distante do comum para jogos de aventura em mundo aberto, uma experiência de desaceleração e contato mais complexo com uma cultura. Caminhando por uma vila do Japão feudal, em plena invasão mongol na pequena ilha de Tsushima, camponeses te alertam em conversas que cervos são sagrados para a cultura japonesa e que matá-los é uma fonte de azar. Logo, logo quando você é introduzido às opções de caça na natureza da Ilha, você encontra cervos galopando pela floresta — mas se, por acidente, mata um, não é possível extrair nada dele. Este é apenas um dos exemplos de momentos em que Ghost of Tsushima exige que você respeite, e aprenda sobre, a cultura que está encontrando mesmo que virtualmente.

Claro que é possível jogar grande parte de Ghost of Tsushima sem absorver seus detalhes. Na superfície, este jogo de aventura, com gameplay extremamente similar a hits recentes como Assassin’s Creed Origins/Odyssey e Red Dead Redemption 2, acompanha a história linear de Jin Sakai, jovem samurai que após cair em batalha e ter seu tio aprisionado pelos invasores mongóis busca aliados e treina para libertar a ilha em que nasceu. Nessa trajetória você sabe o que esperar: pilhagem em busca de itens, missões no formato de Bandit Camp (acampamentos) para liberar vilarejos, pequenos crimes nas estradas, missões paralelas dedicadas aos arcos dos principais personagens secundários do jogo e grandes batalhas ao final das etapas. São os detalhes, no meio disso tudo, que tornam a experiência de Tsushima absolutamente única no panorama dos jogos e escolher completar o jogo com o troféu de platina faz toda a diferença na imersividade de seu tempo como Jin Sakai.

Para platinar Ghost of Tsushima você precisa passar por todas as missões secundárias da história tanto as dedicadas aos personagens coadjuvantes, quanto as dedicadas a personagens espalhados pelos pequenos vilarejos da ilha. Neste jogo focado em um protagonista masculino, dentre os principais coadjuvantes você encontra mulheres guerreiras, uma história tocante de amor LGBT e conflitos de classe repletos de camadas de significado. As histórias dessas missões são profundas e complexas, e colocam em questão os verdadeiros custos pessoais de uma guerra. Além disso, você precisa completar cinco lendas japonesas para obter habilidades especiais, e a riqueza de detalhes dessas lendas, em narrativa e visual, é estupenda. Para completar, você precisa completar um conjunto peculiar de pontos de interesse dentre eles pontos em que você deve se sentar, contemplar a natureza e escrever diferentes haikus (poemas tradicionais japoneses), pontos em que você deve tomar banhos termais e refletir sobre acontecimentos recentes do jogo, e santuários em que raposas guiadas pelo espírito de Inari te levam em busca de amuletos que fortalecem suas habilidades. Tudo isso te força a reduzir seu ritmo, pausar, refletir e admirar a natureza belissimamente renderizada pelo Sucker Punch, que leva aqui os gráficos do PS4 aos seus limites antes do surgimento da nova geração do console.

A mecânica de combate em Ghost of Tsushima também é pensada para amplificar essa sensação de Flow State, com um aumento de dificuldade gradual e definido e uma árvore de habilidades e movimentos que exige destreza com botões simultâneos em pequenos intervalos de tempo. O mais interessante na evolução de combate neste jogo é a fusão inteligente de habilidades de stealth e combate direto na mesma missão, e por vezes, até mesmo na mesma luta. Com o conceito de Stances (posturas), você é forçado a se adaptar a diferentes oponentes em batalhas coletivas, escolhendo a postura de Jin Sakai de acordo com a arma que o oponente porta. Quando você se acostuma a realizar essas trocas, a sensação de satisfação ao ver a adaptabilidade de seu herói a diferentes estilos de combate é imensa.

Ghost of Tsushima te obriga a realizar algumas escolhas enquanto controla Jin Sakai, se apoia menos no efeito que essas escolhas causam em linhas narrativas e mais naquilo que aquelas escolhas significam emocionalmente para o jogador e o personagem. Não segue os moldes de jogos como Mass Effect e Heavy Rain na incorporação de decisões do jogador como motores da história, mas mesmo assim força você a passar pelo processo subjetivo de escolher que tipo de Samurai você é. Nada é absoluto no jogo os valores mais estáticos de narrativas ocidentalizadas de samurais, a honra, a família, o nacionalismo, tudo é colocado em questão e apresentado com pontos positivos e negativos. Em tempos difíceis como os capturados nessa narrativa não existe um só caminho correto.

Não é difícil se perder no universo de Ghost of Tsushima, se sentir embalado pelo vento que toca as árvores e te guia pro seu próximo objetivo, acompanhar as raposas e pássaros dourados que te levam para santuários e lugares mágicos, sentir a dor poética de uma missão que te obriga a apenas tocar uma melodia na flauta ao lado do túmulo de um dos seus maiores amigos. Dessa maneira, o Flow State nessa obra se aproxima de um estado meditativo algo que realmente pode te tirar da superficialidade do cotidiano e te submergir em pequenos detalhes. Se você deixar Ghost of Tsushima tomar o seu tempo e desacelerar seu dia, o que você ganha é bem maior que um troféu de platina para sua PSN é uma sensação de paz.

Ana Clara Matta é a fantasma Dickensiana da blogosfera passada. Editora do finado portal de música independente Rock’n’Beats e criadora do blog de cinema Ovo de Fantasma, hoje sai ocasionalmente de sua caverna para comentar cultura pop (e menos pop) e acredita que o objetivo da vida está na frase “Eat, drink, and be merry”.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira.

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