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Ansiosa, eu?: um relato sobre estigma, doenças mentais e cultura pop

A ansiedade atinge 9,3% da população atualmente no Brasil, o país com maior número de diagnósticos desse tipo no mundo, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde. O Transtorno de Ansiedade Generalizada, ao lado da depressão (em que somos os quintos no ranking da OMS), é um dos diagnósticos de doenças mentais que mais cresce no mundo inteiro. E as mulheres são as mais afetadas nesse quadro, com fatores biológicos (como ciclo menstrual e menopausa) e culturais (como maior facilidade de procurar ajuda) envolvidos na diferença.

É difícil falar sobre ansiedade pela falta de clareza no diagnóstico, afinal, ela é uma condição normal da vida humana e em algum grau é até esperada em determinadas situações. Quando afeta a vida de maneira significativa, aparecendo em momentos aleatórios, de forma intensa e duradoura, é sinal de algo está fora de lugar, mas muitas vezes não reconhecemos isso de imediato, o que faz com que a ajuda externa qualificada seja necessária.

Também é difícil falar sobre isso porque sou uma dessas pessoas da estatística, e a primeira vez que entendi que algo estava errado de verdade (e não era uma invenção da minha cabeça) foi numa sessão de terapia. O privilégio de fazer acompanhamento profissional diz muito sobre os recortes de classe que estamos falando. O acesso ao tratamento psicológico e/ou psiquiátrico ainda é restrito a quem pode pagar e essa não é a realidade de muitos. Além da barreira financeira, existe uma barreira social, a barreira do estigma. Muitas pessoas sequer cogitam visitar um psicólogo ou psiquiatra por ser coisa de gente “louca” ou alegando não precisar disso. É sobre essa barreira que vamos falar.

Randall Pearson e os ataques de pânico

Ansiedade

Em This Is Us conhecemos personagens por inteiro, dramas reais e pessoais tratados com delicadeza. Já foi discutido aqui por que uma série de drama em pleno 2018 conseguiu o respeito da crítica e do público, e o amor como legado é um dos principais pontos. Mas além disso, a série consegue tratar de temas atuais com propriedade, entre eles a ansiedade, e ser representativa para muitos que a assistem.

Na narrativa da família recém-criada, somos apresentadas aos irmãos Kate (Chrissy Metz), Kevin (Justin Hartley) e Randall (Sterling K. Brown). Randall é um menino negro, adotado por uma família branca de classe média no mesmo dia em que os gêmeos Kate e Kevin nasceram. Extremamente inteligente, Randall se destaca tanto entre os alunos da sua idade que vai estudar em uma escola particular. Ainda jovem, ele demonstra habilidade e facilidade com os estudos, combinados com um perfeccionismo e medo de falhar que o levam a ter crises de ansiedade e ataques de pânico.

Num dos episódios vemos Randall, ainda menino, ter um desses ataques enquanto faz o dever de casa e Kevin não o ajuda. Se o adolescente Kevin vai embora, adulto, o irmão não repete o erro e deixa a estreia de uma peça para acolher Randall, num momento assustador, mentalmente e fisicamente exaustivo. Além de mostrar os sintomas do ataque de pânico de forma realista (suor, hiperventilação, mãos tremendo, visão borrada, afastamento da realidade), a série apresenta a dificuldade de Kevin em lidar com a crise de Randall. O que fazer? Muitas vezes família e amigos não sabem lidar com doenças mentais e o afastamento muitas vezes é doloroso. Estar presente, do jeito que conseguir, pode ser uma saída melhor.

O ataque de pânico de Randall é explicado na série pelo estresse de vários eventos somados: conhecer o pai biológico que tem câncer, pressão no trabalho, ausência em casa, segredos antigos de família… A cena foi aclamada pelo público afetado, que agradeceu aos roteiristas e ao ator por levantarem a temática de forma adequada e realista, como diz Sabienna Bownan, em texto do Bustle:

“[…] quando um programa como This Is Us revela que até mesmo a pessoa que você acha que tem tudo em sua vida pode estar lidando com algo como ansiedade, serve como um lembrete de que qualquer pessoa pode ter um problema de saúde mental. Também abre conversas entre familiares e amigos que podem estar sofrendo em silêncio por medo de serem julgados. Quando os transtornos de ansiedade são mostrados de forma realista na TV, todos se beneficiam.”

A visibilidade é importante quando pensamos no estigma que acompanha as pessoas diagnosticadas com doenças mentais, já que atua na normalização de uma condição julgada desviante pela norma padrão. Ver não só Randall, mas outros personagens em obras de ficção lidarem com problemas de saúde mental traz o tema da esfera privada para a esfera pública e o faz menos tabu.

Para Erving Goffman, sociólogo, as interações sociais se dão de forma ritualizada, seguem regras e causam expectativas de ambas as partes. A metáfora encontrada pelo autor é o da peça de teatro, em que todos interpretam papeis e apresentam uma fachada, ou máscaras que revelam apenas características boas ou adequadas ao momento. Tudo que não revelamos, fica no fundo, nos constituindo e fazendo parte de nossa identidade, porém longe dos olhares da plateia que nos julgaria e nos isolaria ao menor sinal de desvio. Esse isolamento social é resultado do estigma. Se a pessoa é rotulada como diferente da norma praticada, acaba à margem. Mas se estamos cada vez mais ansiosos, como sociedade, porque esse rótulo traria estigma?

Aza Holmes, identidade e TOC

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Aza Holmes é uma adolescente comum de 16 anos, com uma melhor amiga que escreve fanfics de Star Wars, vai à escola e é órfã de pai. A premissa do livro é envolver as duas amigas numa busca por um empresário milionário desaparecido. No meio do caminho, Aza reencontra Dave, um crush antigo, e eles acabam se envolvendo romanticamente. O mistério é apenas um fio condutor que serve a uma narrativa melhor e mais complexa: Aza tem Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e está em tratamento, assim como o próprio John Green, autor da obra.

A história de Aza é como a de milhares de outras pessoas no mundo, mas o isolamento e a solidão acabam sendo o mais comum. O TOC, assim como o Transtorno de Estresse Pós-Traumático e os ataques de pânico, estão englobados no que os médicos chamam de transtornos de ansiedade. Os transtornos de ansiedade são o tipo mais frequente de transtorno mental e acredita-se que atinjam por volta de 15% dos adultos nos Estados Unidos.  Além de ser difícil assumir a doença como algo que te constitui, é difícil fazer os outros compreenderem o porquê do seu comportamento. As conversas de Aza com sua analista e com ela mesma, talvez pelo conhecimento de causa do autor, são acuradas e sensíveis. A garota tem muitas questões com o transtorno e a ansiedade que a acompanham, para além das questões existenciais que rondam a vida adolescente.

A relação de Aza com as falhas, o tratamento e a aceitação de si própria são importantes na construção da identidade da personagem. Os caminhos do pensamento da garota seguem uma lógica própria, mas é fácil acompanhá-la na aflição de acreditar que vai comer algo e pegar uma bactéria, de entender os comportamentos repetitivos e seguir na espiral infinita que a esgota frequentemente. Lidar com tudo isso muitas vezes é desesperador para quem está de fora, como a mãe e a melhor amiga, mas é desesperador também e principalmente pra quem sofre com a doença. E o livro nos transporta para a vida e a cabeça de Aza de forma que é quase impossível não ser empático. Em vários momentos, conversando com amigos e família, fiquei sem palavras para explicar o que estava sentindo ou pensando em momentos de ansiedade e paralisia. Lendo Tartarugas Até Lá Embaixo foi a primeira vez que vi uma crise de ansiedade tão bem descrita, além de me sentir menos só e menos exausta de pensar sobre o meu próprio transtorno.

A fachada que apresentamos para o mundo é uma versão de nós, mas assim como um corte de cabelo ou a cultura, doenças mentais também fazem parte da nossa constituição e isso desespera Aza. Se eu sou minha doença, quem eu sou? Se eu tomo remédio e abafo essa doença, não sou mais eu que estou falando? O quanto de mim é doença e o quanto não é? São questões que não se resolvem para ninguém, mas deixam pistas do quanto a identidade é fundamental para entendermos o estigma.

Goffman, mais tarde em sua produção, ao teorizar sobre a rotulação (labelling) juntamente com outros teóricos do interacionismo simbólico como Howard Becker (pesquisador dos estudos sobre comunidades estigmatizadas dos centros urbanos que desenvolve uma teoria sobre o desvio social e os chamados outsiders) vai identificar o rotulação como um processo em que duas ou mais pessoas interagindo assumem papeis. O rótulo só existe se existe alguém que não tem aquele rótulo.

O estigma é um desses rótulos e Goffman o conceitua como um “atributo profundamente depreciativo; algo que possa ser considerado um defeito, uma fraqueza, uma desvantagem. Em resumo, estigma seria o resultado de uma tensão entre atributo e estereótipo”, segundo Liana Biar. O estigmatizado é “aquele que não está habilitado para a aceitação social plena”.

Aza nos mostra como ter TOC a torna diferente e o quanto ela não quer ser diferente, ao mesmo tempo em que ninguém é igual. Se todos somos diferentes, o quanto de diferença é aceitável socialmente? As relações de poder que tomam forma na sociedade acabam influenciando as normas aceitas e as marginalizadas. Ter uma doença mental que não é visível, mas afeta diariamente sua capacidade de ser produtiva numa sociedade capitalista é algo que foge à norma e é isso que Aza nos revela.

O que a história contada por Green apresenta é a tensão constante entre ter uma doença que é estigmatizada e não ter como escapar. É quase como se ao usarmos o rótulo (ou aceitarmos o diagnóstico), deixássemos de ter para ser o estigma. É o estigma fazendo parte da construção da própria identidade e do eu. Aza luta contra o medicamento, mas acaba aceitando que ele a deixa melhor e que ela o TOC e a ansiedade estarão ali e fazem parte dela, mas não a definem. Chega a um ponto em que a vida prática se impõe e enquanto tentamos entender a nós mesmas e as nossas questões, precisamos continuar vivendo (mesmo que seja com a ajuda de medicamentos e terapia e isso não nos torna piores que ninguém).

As redes sociais e a ansiedade

Ansiedade

Os pesquisadores Ranyella Siqueira e Hélio Cardoso nos ajudam a entender porque a estigmatização é um processos construído socialmente: “as pessoas são estigmatizadas somente num contexto, o qual envolve a cultura; os acontecimentos históricos, políticos e econômicos e uma dada situação social, ou seja, a estigmatização não é uma propriedade individual”. Logo, as mudanças sociais acabam por influenciar esse processo, alterando progressivamente a maneira como ele acontece.

A internet proporciona vários espaços que abrem as possibilidades de se relacionar com a ansiedade e transtornos mentais de maneira geral. Uma dessas maneiras, gerada talvez pelo equilíbrio entre anonimato e exposição das redes sociais, são os relatos pessoais publicados em blogs (aqui e aqui) e os vídeos no YouTube, como os das blogueiras Karol PinheiroNátaly Neri. Em redes como o Instagram, também vemos contas que abordam a saúde mental e ansiedade se multiplicarem, como a Anxiety Support e a recém-criada Não Fuja do Pânico. A blogueira Emily Shuman, do Cupcakes and Cashmere, também escreveu recentemente um texto de update sobre a ansiedade na vida dela. Os dois motivos que ela expõe são: “1. Desestigmatizar problemas de saúde mental. / 2. Para lembrar aos outros que você não está sozinho. Ansiedade pode ser uma luta solitária e eu acho que falar sobre isso realmente ajuda.”

Com a parte boa de aumentar a visibilidade e diminuir a sensação de que somos poucas e temos algo de errado, vem também os problemas: muita desinformação, “dicas” e achismos que podem piorar a sensação de quem lê/assiste do outro lado da tela. O estigma, lembremos, é construído socialmente e pouco a pouco, tentamos desconstruí-lo falando de nossas experiências pessoais e relatando nossos processos na esperança de que fique mais fácil lidar com tudo. É importante e animador quando encontramos eco nas leituras, séries, filmes e personagens que também fazem parte da nossa vida através da cultura pop.

Para ler mais: GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1983;
GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1982;
Good in a Crisis, por Alex Ronan (em inglês);
“O conceito de estigma como processo social”, de Ranyella de Siqueira e Hélio Cardoso;
“Racismo cotidiano leva ao estresse agudo, ansiedade e depressão”, de Silvia Nascimento;
“A ansiedade e eu”, por Natália Schiavon.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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