Como retratar um ícone que transcendeu o esporte e se tornou parte do imaginário coletivo brasileiro? Essa é a missão ambiciosa da série Senna, da Netflix, que, em seis episódios, conta a história de Ayrton Senna, um dos maiores pilotos de Fórmula 1 de todos os tempos. Com o objetivo de apresentar o piloto para uma nova geração, a série acompanha sua trajetória desde os primeiros passos no kart até o auge de sua carreira na Fórmula 1, explorando seus momentos de glória, a rivalidade com outros pilotos, como Alain Prost, e sua busca incessante pela perfeição. Também é abordada a trágica corrida de Ímola, em 1994, que culminou na morte do piloto, um marco doloroso para os fãs de esporte.
Com direção de Vicente Amorim e um orçamento de 250 milhões de reais, Senna é a maior aposta da Netflix no Brasil, tendo como principal desafio a humanização do piloto. Nesse contexto, embora tente explorar aspectos interessantes de sua vida, como os conflitos com a imprensa, a gestão da carreira e os sacrifícios pessoais, essas questões não são devidamente desenvolvidas, ficando no meio do caminho — em grande parte porque a série não faz um recorte claro de tempo, abrangendo toda a carreira do piloto. Ao buscar imortalizar o ícone, a série opta por um retrato idealizado de Senna, falhando ao não explorar mais profundamente a complexidade de sua personalidade.

A abordagem “chapa branca”, embora esperada devido ao envolvimento da família Ayrton na produção, simplifica demais a figura do atleta. O “defeito” do personagem, por exemplo, é sua competitividade e desejo de vencer, uma característica comum a qualquer esportista, mas que, na série, se torna o único foco, sem qualquer nuance. Esse retrato superficial é comparável a uma resposta genérica em uma entrevista de emprego, quando alguém diz que seu “defeito” é ser perfeccionista — uma justificativa pronta e sem revelações mais profundas.
Por outro lado, a série acerta em diversos aspectos técnicos e emocionais. Retratar a velocidade de uma corrida é um desafio enorme, mas Senna consegue fazê-lo de maneira magistral, superando até mesmo produções como Rush (2013), de Ron Howard, que aborda a rivalidade entre os pilotos Niki Lauda e James Hunt. A produção de Senna conseguiu recriar a sensação de velocidade com uma combinação de efeitos visuais e imagens de arquivo, transmitindo não apenas a velocidade real das disputas, mas também a emoção e a tensão que marcam cada momento da corrida. A série consegue, assim, transportar o público para dentro das pistas, permitindo que sintam a adrenalina que Senna vivia.

Em especial, o quinto episódio, que recria a histórica vitória de Senna em Interlagos, em 1991, é um dos momentos mais emocionantes da série. Quando o câmbio do carro de Ayrton travou na sexta marcha, o piloto precisou de um esforço físico sobre-humano para controlar o carro até a linha de chegada. A série transmite com fidelidade o sofrimento e a determinação de Senna nesse momento decisivo. A narração de Galvão Bueno, interpretada por Gabriel Louchard, é outro ponto alto, trazendo uma carga emocional que transporta o espectador diretamente para aquele momento histórico.
O elenco é um dos grandes trunfos da produção. Gabriel Leone, no papel de Ayrton Senna, entrega uma performance sólida, conseguindo capturar com precisão a determinação, o espírito competitivo e a sensibilidade do piloto. Sua atuação, ao longo de toda a série, constrói um retrato convincente de um homem que, apesar das adversidades — como o preconceito enfrentado no início da carreira, a perseguição por ser um piloto de fora do circuito europeu e as decisões políticas que impactaram sua trajetória — nunca deixou de ser apaixonado pelo que fazia.

Gabriel Louchard, interpretando Galvão Bueno, também merece destaque. Sua performance evita cair nas armadilhas de uma imitação exagerada, trazendo uma versão genuína do locutor que se tornou uma das vozes mais emblemáticas da Fórmula 1 no Brasil. Já Pamela Tomé impressiona com sua semelhança com Xuxa, não apenas fisicamente, mas também nos gestos, na entonação e no timbre de voz, o que torna sua interpretação ainda mais marcante. E ainda que a série seja sobre Ayrton, e não seus relacionamentos, é uma pena que a produção tenha se rendido à pressão da família ao retratar Adriane Galisteu, interpretada por Júlia Foti, de maneira breve e sem importância.
Com uma produção de escala internacional, filmada em vários países e com milhares de profissionais envolvidos em diversos locais do globo, Senna é um feito impressionante em termos logísticos. Porém, o desafio de recriar não só a carreira, mas também a emoção que Ayrton Senna despertou no Brasil, é o que torna a série única e digna de ser assistida tanto por fãs do esporte quanto por aqueles que desejam entender o impacto de um dos maiores ícones do Brasil.

