Estrelado por Lucy Hale e Nat Wolff, Which Brings Me To You (em tradução livre, O Que Me Traz Até Você), de 2023, acompanha Jane, uma jornalista freelancer, e Will, um fotógrafo publicitário, no que parece uma noite durante um casamento. Previsível, mas aceitável, a comédia romântica, porém, surpreende ao colocar os dois personagens, tão opostos e, ao mesmo tempo, muito parecidos, em uma jornada pelo passado para entender como chegaram àquele ponto.
Jane e Will apresentam uma química instantânea desde o primeiro ato e, em um texto natural, que se aprofunda a cada cena, Lucy e Nat conduzem o filme com mais maestria e delicadeza do que o esperado, tornando a produção uma grata surpresa no catálogo do Prime Video. Isso porque, apesar de ser rotulado como uma mera comédia romântica, não segue somente as convenções do gênero, recaindo também no drama ao abordar as questões humanas e pessoais dos protagonistas, vividas em relacionamentos passados, os quais repassam ao longo da longa noite em que a história se passa.

O filme segue uma proposta parecida a da série de comédia Lovesick (Netflix) onde, inicialmente, o personagem principal revisita mulheres de seu passado romântico para informá-las que contraiu uma DST (Doença Sexualmente Transmissível). Apesar da motivação questionável, isso leva Dylan (Johnny Flynn) a adentrar uma jornada de autoconhecimento, revivendo traumas e, de certa forma, podendo consertar erros e remediar arrependimentos, que o acompanham em seu presente.
Assim é com Jane e Will, que se colocam no passado um do outro de forma quase onipresente e, principalmente, sem grandes julgamentos — até certo ponto —, uma vez que acabaram de se conhecer em um casamento de forma despretensiosa. Essencialmente, eles não se importam um com o outro para sentir ciúmes de experiências anteriores ou rir de uma primeira experiência amorosa ou sexual desastrosa — até passarem a se importar.
Através desse ponto de vista, que serve tanto a eles como aos espectadores, é possível notar como existe uma evolução ao longo dos anos, para bem ou para mal, e que, por trás das aparências, há muito o que descobrir sobre essas duas pessoas, o que torna a produção muito instigante do começo ao fim. Enquanto a protagonista de Lucy possui uma certa tendência a se apaixonar por homens que precisam de “conserto”, o que a tornou um pouco mais cética e ácida no quesito amoroso, Will parece viver a vida de forma mais leve e despretensiosa, conferindo um aspecto mais suave ao filme, muito em razão de uma personalidade mais positiva em relação a vida. É como se a frase “escrito por uma mulher” se encaixasse perfeitamente nele, apesar de todos os dramas vividos anteriormente.

Há uma citação da personagem Eve (Genevieve Angelson), uma de suas namoradas do passado, que define perfeitamente o motivo pelo qual subsiste a fascinação de Jane e do público em relação a ele. Ao ser questionada porque queria ficar com ele, em um insight de insegurança jovem, ela define: “Porque os outros caras com quem estive eram críticos. E caminham pelo mundo com os braços cruzados. Você está sempre de braços abertos. E é lindo. Quem não se apaixonaria por isso?”
Ainda, é ele quem dá o ritmo ao filme através de uma atuação que possui drama quando deve ter e que se mantém necessariamente carismática nos momentos mais descontraídos. O personagem chega nessa nova leva de comédias românticas, que aparentemente encontrou seu auge com a série Ninguém Quer (Netflix), estrelada por Adam Brody e Kristen Bell, onde os protagonistas masculinos se mostram mais vulneráveis e abertos à mulher, demonstrando e verbalizando o que realmente sentem, sem jogos, o que Will passa a fazer mais e mais ao longo da produção, embora tenha se demonstrado fascinado e interessado por Jane desde o início.
De outro lado, Lucy Hale, finalmente, acerta uma comédia romântica, que dá real dimensão à sua protagonista, fugindo do estereótipo de roteiros de respostas rápidas e vazias, como O Jogo do Amor e do Ódio (2021), de inimigos para amantes, que não têm, de fato, motivos para serem inimigos, como Pais de Pets (2023). Em Which Brings Me To You, Jane tem uma origem católica, de forma que fica implicado que teve uma criação muito rígida e, por isso, é alguém que deseja experimentar todas as experiências possíveis, o que a coloca em diversas encrencas. Apesar disso, em certo ponto, também é alguém que tem medo de enfrentar as consequências dessas escolhas, por isso, acaba sempre encontrando meios de boicotar suas próprias relações, inclusive essa que está se delineando ao longo da produção.

Sensível e engraçado sem se esforçar, Which Brings Me To You é feito com cuidado para agradar, tanto em relação à história quanto em termos técnicos, ao colocar Jane e Will em belos cenários nas redondezas de Nova York e sob uma fotografia bem pensada e dinâmica, especialmente para levar o encantamento que os personagens sentem um pelo outro a quem assiste, além da trilha-sonora conveniente e elegante, que conta com canções originais, que complementam perfeitamente o clima do filme, como “It Had to Be You” (Spencer Hutchings, Danielle Nicole e Davey Nate), “If You Keep Leaving Me” (Anderson East) e “When It Was Wrong” (The California Honeydrops).
Assim, apesar de a história se passar no intervalo de apenas uma noite, Which Brings Me To You é capaz de criar algo crível e uma real conexão entre os protagonistas. Se a proposta é que os personagens se conheçam através de experiências passadas, o filme se revela uma produção que não apenas alcança seu objetivo, mas que possui um peso de vida real em meio a muitas comédias românticas genéricas. Baseado no livro de Steve Almond e Julianna Baggott, o filme consegue prender até o ato final sem sequer prometer a felicidade convencional ao gênero, muito por conta da abordagem realmente criativa, o que faz valer a pena cada minuto acompanhando o crescer da intimidade entre Jane e Will.

