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Pretty Wild: o melhor pior reality da TV

Se você algum dia já achou que Paris Hilton e Kim Kardashian traziam as cenas mais absurdas de reality shows que eram possíveis, você ainda não conhece Pretty Wild. É o melhor e o pior que o gênero tem a oferecer, condensado em uma temporada concomitante com um julgamento criminal. Só mais um dia em família, certo?

A série retrata o dia a dia da família Neiers. Andrea Arlington é uma mãe um pouco peculiar: ela, que havia sido modelo de lingerie nos anos 80, é empresária das filhas mais velhas, que também buscam uma carreira na área. Enquanto isso, dá aulas em casa, ela mesma. Mas as lições da escola geralmente são preteridas por ensinamentos baseados em O Segredo e avanço nas carreiras das meninas.

São três filhas. Tess, Alexis e Gabby. Tess é, na verdade, filha adotiva de Andrea e incorpora o estereótipo de party girl com destreza. Ela vive saindo com os amigos, bebendo e foi nomeada, na época, como Cyber Girl of the Year, prêmio anual da Playboy para a modelo de maior destaque em seu site. Entre a vida de socialite, uma atividade e outra, Tess tentava avançar a carreira de modelo e mostrar sua imagem sexy na frente das câmeras.

Gabby Neiers é a filha mais nova. Menos interessada nos eventos sociais e festas que as irmãs, até por conta de sua idade, ela acaba perdendo espaço em cena no reality. Faz o papel, normalmente, da figura racional da família. Ela não tinha idade o suficiente para posar nua para portfólios de modelo nem ir a baladas para ser um rosto bonito, então não pode ter o estilo de vida de falsa socialite que as outras garotas têm.

E aí temos Alexis. Alexis Neiers é o que realmente faz que esse programa seja o melhor e o pior de um reality. A proposta, que era seguir uma família de Los Angeles cujas filhas tentavam entrar na indústria de entretenimento, foi rapidamente trocada quando Alexis é acusada de fazer parte da gangue de jovens que invadia casas em Hollywood: a Bling Ring.

A história, que foi recontada anos depois no filme homônimo de Sofia Coppola (com Emma Watson no papel de Alexis) se resume a um grupo de adolescentes e jovens adultos que notam o estilo de vida dos ricos e famosos. Alexis vivia essa vida dupla: apesar de nem rica nem famosa, ela estava próxima o suficiente de Hollywood e da indústria de entretenimento.

O resto da única temporada acompanha a prisão, o julgamento e a sentença de Alexis, assim como tudo o que isso representa para sua carreira e família. O jeito de party girl dela e de Tess acaba ficando de lado com as acusações e as loucuras tomam outra proporção. Quando Nancy Jo Sales, repórter da Vanity Fair, oferece a Alexis a chance de fazer uma entrevista e contar seu lado da história, as coisas explodem. A matéria não sai como Alexis queria e coloca ela e seus amigos como “adolescentes obcecados por fama”.

A premissa de Pretty Wild pode ser fútil, assim como tantos outros realities por aí. Duas jovens tentando carreiras como modelo, mas que passam grande parte do seu tempo com drogas e festas? Ou se dividindo entre frequentar lugares de celebridades e sua vida mais comum? Mas a reviravolta judicial faz com que o programa tome novas interpretações e, para o bem ou para o mal, se torne um exemplo do que a cultura de celebridade faz no mundo. É fácil olhar para essa família obcecada pela fama e por status e julgá-las, expondo suas atitudes destrutivas. Mas é mais complexo analisar como duas garotas sentem que precisam disso e só têm sua aparência como meio para serem bem sucedidas em Hollywood.

De certa forma, o próprio reality em si é uma análise metalinguística do poder de destruição da exposição. Alexis e seus amigos, na busca pela emoção dos roubos que realizavam nas casas de celebridades — assunto que é melhor discutido no filme de Coppola —, acabam se colocando em conflitos com a lei. Ao tentar usar Nancy Jo Sales para limpar seu nome, Alexis acaba se colocando em uma posição ainda maior de escrutínio público. Então uma questão é posta: seria justo? Não julgá-la por cometer os crimes, claro, mas por tentar alcançar fama do modo que fosse. Estamos, afinal, vendo um reality sobre a sua vida. O fato de um acontecimento dramático surgir no enredo é uma sorte para a produção, mas a audiência acompanha o julgamento do crime assim como os leitores da Vanity Fair e a sociedade estadunidense em geral. Quando chamamos as garotas de narcisistas e fúteis, seria justo dizer isso se somos nós quem damos a elas essa atenção?

Os nove episódios, mais do que mero entretenimento, podem ser vistos como uma análise da cultura de celebridade: nós as construímos e destruímos em um piscar de olhos. Garotas como as da família Neiers, que nunca chegam a conquistar a fama de verdade, são pegas de uma vez pela infâmia. Anos depois, elas frequentaram reabilitações e Alexis é casada, tem uma filha e advoga pela sobriedade. Ela deu uma entrevista à Vice em 2013, contando sua história.

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