Categorias: TV

Spin Out e o problema de fazer séries com base em um algoritmo

Depois que a Netflix lançou Stranger Things o mundo nunca mais foi o mesmo. Não só porque a série foi um sucesso absurdo (que apelava para a nostalgia dos anos 80), mas também porque nessa pequena obra de ficção científica, a plataforma de streaming descobriu ouro. Desde 2016, quando a primeira temporada do seriado foi lançada, várias outras produções usam exatamente da mesma fórmula para dar certo — com pequenas variações. I Am Not Okay With This, Sex Education, The End of the F*cking World. No primeiro momento pode parecer que elas não são nem remotamente parecidas, mas na essência, são praticamente iguais. Exatamente a mesma coisa acontece com alguns filmes, e é por causa disso que algumas pessoas encontram tanta dificuldade em achar alguma coisa remotamente interessante para ver no catálogo. Afinal, a sensação de que você já viu aquilo e nada parece ser bom (ou novo) é constante. Enquanto isso acontece, originais como Tuca & Bertie, por exemplo, acabam sendo canceladas. Spin Out (ou Spinning Out, como você preferir), de certa forma, se encaixa exatamente nesse padrão.

Spin Out não chega exatamente sem os seus problemas. O fato de que ela existe e é diferente do que aparentemente faz sucesso dentro da Netflix, no entanto, fez com a série se tornasse um risco. Ela iria alcançar o seu público, criar uma base sólida de fãs? Ou ela iria apenas ser mais uma das milhares produções lançadas semanalmente na plataforma, que eventualmente acabam canceladas?

A resposta chegou muito mais cedo do que todos esperavam. Apenas algumas semanas depois de ser lançada, a série sofreu um cancelamento brusco e sem muitas explicações. A Netflix não costuma liberar seus números de audiência, mas por sair um pouco da fórmula pré-estabelecida do suposto sucesso, Spin Out não terá uma segunda temporada, ainda que a narrativa tenha deixado muitas pontas abertas para uma eventual continuação. Exatamente a mesma coisa aconteceu com One Day at a Time, Anne With an E e como citado anteriormente, a própria Tuca & Bertie. Aos poucos, séries originais (BoJack Horseman, Cara Gente Branca, etc) são canceladas para abrir espaço para um produto espremido do puro creme da fórmula. Nesse cenário, o risco vale a pena cada vez menos. Mas afinal, valeria a pena manter Spin Out mesmo com todos os seus riscos?

Atenção: este texto contém spoilers!

Criada pela ex-patinadora Samantha Stratton, a série acompanha Kat Baker (Kaya Scodelario), uma jovem mulher que vive com a mãe, Carol (January Jones), e sua irmã, Serena (Willow Shields), em uma pequena vila isolada em Idaho. As três carregam vários fatores importantes em comum: além do sangue e da aparência, o amor pela patinação no gelo é basicamente o que as move. Se antes Carol perdeu a sua carreira e suas chances de ganhar as Olimpíadas, ela projeta todas suas frustrações nas filhas, que dão literalmente suor e sangue para conseguir chegar nas grandes competições. Além dos transtornos causados pela patinação, a matriarca também é bipolar, algo que passou para Kat e é um grande empecilho na vida de ambas.

Spin-Out

Assim como outras séries que falam sobre o sacrifício no esporte (como Dare Me), a patinação no gelo toma grande parte da trama de Spin Out. Segundo Kat, patinar é algo tão necessário para ela quanto respirar, sendo que ela não consegue se imaginar fazendo qualquer outra coisa na vida. Mas, para continuar seguindo carreira na área, ela tem que esconder o fato de que herdou a bipolaridade da mãe — já que a imagem de perfeição é tão importante quanto a técnica esportiva em si. Nessa linha, a produção tenta levantar uma discussão sobre saúde mental e como o mundo vem mudando quando se trata desse tipo de doença. O único problema é que a visão que eles abordam sobre isso é errática e superficial, fazendo com que o assunto se torne cansativo. Apenas uma forma dramática de avançar a narrativa.

Como a doença das duas protagonistas é um dos grandes catalisadores da história, tudo gira em torno de como as pessoas ao redor lidam com a doença. Kat, que consegue manejar muito bem a forma como a doença a atinge e toma remédios frequentemente, é a grande peça chave dessa parte da história. Para reforçar ainda mais a imagem de perfeição que tem que passar dentro e fora da patinação, ela aceita fazer uma parceria com Justin (Evan Roderick) — mesmo que tenha passado sua carreira como uma patinadora solo. Essa junção prematura, no entanto, é complicada não só porque a protagonista não pode contar sobre sua doença, alienando todos os seus amigos e inclusive o próprio Justin, como também porque os dois compartilham uma história romântica complicada.

Um ano antes de se tornarem parceiros de patinação, Kat estava no meio de uma recaída e de um episódio maníaco, quando teve uma one night stand com Justin. Mas por causa da sua instabilidade na época, ambos acabaram não levando o relacionamento para a frente. Isso afeta muito mais Justin do que Kat, que passa grande parte da série checando todas as caixas do protagonista que parece ser um babaca, mas no fundo não é. Ele cobra posicionamentos da sua parceira que são impossíveis para ela, justamente por causa da confusão da sua mente. Como ela não chega a se abrir completamente sobre tudo que acontece na sua vida, ele não consegue entendê-la, e Kat se fecha cada vez mais.

Grande partes das ações de Justin vem de um lugar de privilégio e na maioria das vezes é complicado entender suas motivações. Rico, homem, branco e extremamente talentoso, ele não consegue se conformar que talvez Kat não queira um envolvimento romântico com ele, não quando está acostumado a ter sempre tudo o que quer — o que ele mesmo admite. Por mais que esse comportamento seja absurdo e, francamente, bastante irritante, a dificuldade de Kat em se abrir com as pessoas ao seu redor e ser honesta sobre sua doença é um dos grandes empecilhos para a parceria no gelo, que demora a gerar bons frutos. Justin não quer dar o braço a torcer e não entende como ela não pode corresponder a atração física que ele sente, ao mesmo tempo que Kat está muito envolvida com seus problemas pessoais e traumas. Eles demoram para encontrar ritmo e química, e quanto mais um descobre sobre o outro, e exploram suas vulnerabilidades, mais a técnica deles na patinação se aperfeiçoa.

Spin-Out

Logo que Spin Out começa, descobrimos que a carreira promissora de Kat teve um final (quase) abrupto quando ela cai durante uma competição, e bate a cabeça. Por causa da ansiedade e o combo de remédios que contém sua bipolaridade, ela não consegue mais alcançar todo o seu potencial, sendo cada vez mais deixada para trás. Sua dinâmica com Justin também é parte fundamental para que ela recupere a capacidade de tentar outra vez e realizar saltos grandiosos e perfeitos. Afinal, a patinação em dupla é um esporte que requer muita confiança, algo que eles desenvolvem de forma gradual e sincera.

Ainda que o transtorno bipolar seja o principal assunto abordado pela produção, abuso e racismo também são pautas frequentes. Por meio da carreira de Serena, por exemplo, a obra tenta explorar não só a solidão que ela sente ao conviver com duas mulheres que tem transtorno bipolar, além do seu abandono paternal, mas também como esse aspecto fez com que ela se tornasse vulnerável. É assim que ela acaba se envolvendo com um médico muito mais velho do que ela — lembrando que Serena é menor de idade e tem apenas 16 anos. A obra sempre deixa claro que ela está sendo abusada, mas não parece se importar o suficiente em abordar um assunto tão importante quanto esse de forma profunda. No meio de tantas assuntos paralelos sendo explorados simultaneamente, a história de Serena acaba negligenciada e deixada para escanteio — ironicamente, muito como acontece com a personagem na sua trajetória.

Já para falar de racismo, a história coloca Marcus (Mitchell Edwards) no centro. Sua jornada é um pouco melhor do que a de Serena, mas não por muito. Ao longo dos episódios, a narrativa mostra um personagem que é estudioso, inteligente e dedicado. Ele trabalha como gerente no bar do hotel do pai de Justin e esquia nas horas vagas, sonhando em um dia ir para as Olimpíadas. Para isso, ele tem que desistir de uma vaga na escola de medicina de Stanford, sendo que grande parte do seu dilema é tentar entender seu papel no mundo e as oportunidades que lhes são apresentadas. Marcus é um homem negro, em uma vila que é predominante composta por pessoas brancas. Com alguns flashbacks, o roteiro mostra o racismo que seus pais sofreram quando ele era pequeno e como isso se compara ao que acontece com ele agora. Tudo isso serve para que ele finalmente entenda seu papel como atleta e assuma uma mensagem de representatividade e inclusão, servindo como inspiração para meninos negros mais jovens, que ainda procuram por seu lugar no mundo. Mesmo assim, toda essa trajetória é formada por frases clichês e um texto que simplesmente não consegue se aprofundar nos temas apresentados, preferindo apresentar situações que começam e terminam no lugar comum.

Entre trancos e barrancos, a mensagem principal da série é que o mundo realmente está mudando e falar sobre doenças mentais não deve ser mais um paradigma — ou muito menos atrapalhar a carreira de alguém (seja no esporte ou não). E mesmo com todos os defeitos, os resultados nesse assunto são mais satisfatórios do que nos outros dois.

Apesar do maior problema de Spin Out ser originado na narrativa, não existe muito a se falar sobre ela nos outros aspectos também. As coreografias no rinque são bonitas o suficiente, assim como os figurinos, mas nada se sustenta devido a falta de química entre os atores principais e a dificuldade de se aprofundar na conexão entre eles. Justin e Kat são um ponto fora da curva, já que eles tem a melhor relação da série, mas os outros relacionamentos não atingem todo o seu potencial. Kat e Carol, por exemplo, têm várias conversas sobre a doença que elas compartilham, e dificuldade que ela lhes trouxe para criarem uma conexão, mas nenhuma delas emociona ou irrita, são apenas vazias.

Spin-Out

A mesma coisa acontece com Kat e sua melhor amiga Jenn (Amanda Zhou). Acostumada a sempre ficar em segundo lugar em relação a Kat, as duas entram em brigas que são basicamente resumidas a problemas com “garotos”. Antes por causa de Justin, depois por causa do médico que abusa de Serena — que ao mesmo tempo mantém um relacionamento com Jenn. Apesar da personagem também ter uma narrativa que fala sobre um machucado sério na sua perna, e como ele vai afetar a sua carreira no gelo e sua dinâmica familiar, tudo isso é deixado em segundo plano para colocá-la em situações ridículas com homens que não são nem de perto tão bons quanto ela. Ou dignos da sua atenção. Em 2020, era de se esperar que uma amizade feminina não se resumisse a isso.

No final, a narrativa que mais vai fazer falta é a história da treinadora de Justin e Kat, Dasha (Svetlana Efremova), uma ex-patinadora que teve um romance breve com uma mulher durante a adolescência, mas largou tudo para seguir com sua carreira na década de 1980, onde a intolerância contra casais LGBTQ+ era ainda maior. Algo que, devo acrescentar, também explorado de forma vaga pela história. Com uma vida estável nos Estados Unidos, no entanto, ela procura sua amada mais de 40 anos depois, mas a série não encontra tempo para desenvolver o que acontece após o reencontro, não deixando claro se elas se acertam ou não.

O bate e volta constante entre Justin e Kat, entre Kat e sua família ou até mesmo entre Kat e Jenn acaba deixando o público cansado e dispersivo, fazendo com que seja difícil manter a atenção na série durante muito tempo. É possível perceber uma grande influência de tempos mais simples na narrativa de Spin Out. Diferente de outras séries da Netflix, aqui fica evidente que as maiores inspirações vieram de fontes novelescas (também conhecida, lá fora, como as famosas soap operas), ou até mesmo séries que fizeram sucesso no final dos anos 90, onde a dinâmica entre os personagens ainda era mais importante do que desenvolver narrativas e reviravoltas constantes. De certa forma, a série resgata uma época onde a televisão tinha menos seriados que tentavam replicar o sucesso ou a experiência do cinema blockbuster.

Mesmo sendo uma das séries que mais fogem da fórmula Netflix e com uma história que entretém, apesar do texto superficial, fica a sensação de que tudo aquilo poderia ter sido explorado de forma mais satisfatória. Uma segunda temporada seria a oportunidade perfeita para encerrar alguns pontos deixados em aberto, além de se aprofundar nas questões pertinentes que foram tão negligenciadas pelo roteiro durante a primeira temporada. Mas, graças ao mundo das fórmulas, nada disso será possível. Assim como Anne With an E, Tuca & Bertie e muitas outras, nunca terão oportunidade de crescer e amadurecer.

O mundo dos streamings se tornou cada vez menos um lugar para séries como Spin Out, transformando-se, no lugar, em mais e mais fórmulas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

11 comentários

  1. Ainda estou no sexto episódio, mas assistir essa série sabendo do cancelamento chega a ser mais triste do que o próprio cancelamento, vejo cada manejo na história e sabendo que não terá continuação pra essa história incrível é desapontável. Acho que a série foca em muitos assuntos que a maioria do público pode se encontrar, uma família com transtornos mentais, abusos, e a enorme pressão em cima dos competidores, aqueles que passaram por algumas dessas situações sentem o peso enorme da mesma, o medo de se machucar em uma competição, lidar com o transtorno bipolar, assim como relacionamento abusivo entre mãe-filho(a), e a materialização dos sonhos e objetivos dos pais no filho, aqueles que um dia se encontraram em alguma dessas situações entendem o peso enorme que os personagens passam, o ruim é no final não conseguir ver o final para todas essas histórias, saber o fim dos personagens.

  2. chega ser um crime, não continuar com esse trabalho, isso é muito lindo, é uma arte os movimentos a dois perfeitos e encantador de se ver. muito triste por não ter continuação.

  3. Respeito sua crítica, porém penso totalmente o contrário de você. A série foi incrível. A escritora teve uma sensibilidade extraordinária para falar sobre tantos assuntos importantes.

  4. Achei a série incrível, inclusive assisti novamente após receber a triste notícia do cancelamento. Queria que tivesse um abaixo assinado ou algo parecido só para voltar ao ar rsrs. Vale a pena!

  5. Eu também amei a série..Fiquei muito triste de saber que não teria continuação, muitas janelas ficaram abertas, e acredito sim que valeria a pena continuar! Assisti mais de uma vez, quando soube que não continuaria! Tudo o que envolve arte sou apaixonada.. e achei a história incrível!

  6. Nossa ainda nem terminei, estou no oitavo episódio e já vivendo um luto sabendo que não terá mais quando acabar. É difícil eu realmente me conectar de verdade com uma série e, por um acaso (ou não), outra série que me conectei demais foi Anne With an E que também foi cancelada. Acho que não nasci para esse mundo de séries todas iguais. Só me resta raiva e talvez assistir a série novamente depois para sentir um pouco dessa obra de arte de novo. Achei uma série de sensibilidade incrível.

  7. Na verdade, estava adorando a série. Assuntos muito atuais que precisam ser discutidos e desestigmatizados. Não deveriam ter cancelado.

  8. Comecei a ver a série sem saber que tinha sido cancelada. Terminei com a sensação de que ela merecia muito mais. É frustrante pensar que uma produção que tem potencial foi cancelada por não se tornar um fenômeno instantâneo. O público fica sem respostas e a produção perde a oportunidade de crescer e conquistar mais audiência. Uma pena, especialmente pra uma série que tratava de assuntos relevantes pra toda a sociedade.