Categorias: CINEMA

Troféu Valkirias de Melhores do Ano: Cinema

“Ainda que tenham sido responsáveis por filmes de sucesso de público e crítica, mulheres continuam excluídas de uma série de premiações”, escrevemos em 2017, o que continua a ser verdade um ano depois. Em 2018 vimos uma mulher ser indicada ao Oscar de Melhor Direção — a quinta em 90 anos; a primeira desde 2010, quando Kathryn Bigelow levou a estatueta para casa por Guerra ao Terror — e outra a alcançar o feito ainda inédito de ser indicada na categoria de Melhor Fotografia do mesmo prêmio. O aspecto extraordinário de suas conquistas, no entanto, não nos permite esquecer que esse ineditismo parte da existência de uma estrutura que só agora começa a ser, de fato, questionada, e que o machismo continua a existir em muitos lugares e de vários tamanhos.

Há muito a ser feito; mais do que histórias que abordam as diversas existências possíveis de uma mulher; mudanças que não acontecem de uma hora para outra e seria ingenuidade acreditar que sim. Seguimos em frente, portanto — e, a julgar pelas produções que nos acompanharam nos últimos doze meses, seguimos mais bem acompanhadas do que nunca.

A Forma da Água, Guillermo del Toro

Por Yuu

Vencedor de quatro Oscars, incluindo o combo de Melhor Filme e Direção, A Forma da Água, foi originalmente lançado em 2017, mas só chegou aos cinemas brasileiro em fevereiro deste ano. Para nós, ele merece entrar na lista não por ter sido reconhecido pela Academia, mas por ser um filme com uma história fascinante que mistura drama, folclore e elementos fantasiosos, ambientado na década de 60 nos Estados Unidos em meio à Guerra Fria. No protagonismo está Elisa (Sally Hawkins), uma jovem muda que trabalha como zeladora em uma base secreta estadunidense; atividade que realiza em silêncio, comunicando-se com seus amigos por expressões faciais e linguagem de sinais.

Não trata-se, contudo, de uma obra de ficção científica, mas uma fábula que narra a história de amor entre uma princesa e uma criatura fantástica, como destaca seu narrador ainda na introdução, e que, para existir, precisa lutar contra as investidas de um vilão tão tradicional quanto o homem branco norte-americano. Escrito e dirigido pelo próprio Guillermo Del Toro, A Forma da Água não deixou de causar alguma polêmica à época de seu lançamento, mas ater-se somente ao aspecto sexual da narrativa ou a uma única cena é ignorar sua verdadeira mensagem, aquela mais profunda e poética sobre um sentimento que existe em muitas formas e tamanhos. Seus personagens são pessoas deslocadas, socialmente marginalizadas — seja por alguma deficiência, orientação sexual ou raça —, o que também possibilita leituras que vão além de um simples conto de fadas. Como é comum em sua obra, Del Toro une o contexto histórico e político a elementos fantásticos, construindo alegorias tão vívidas quanto seu universo. O resultado é impressionante.

Aniquilação, Alex Garland

Por Thay

Inspirado no best-seller homônimo escrito por Jeff VanderMeer, Aniquilação foi uma das apostas da Netflix para a ficção científica com leves pitadas de horror. Com Natalie Portman no papel de Lena, bióloga e ex-soldado, acompanhamos a expedição liderada por ela até a misteriosa Área X, local contaminado por um estranho fenômeno alienígena. Aniquilação é uma história que reúne o improvável, o belo e o assustador envolto em cores fortes e um visual único onde nada é o que parece ser enquanto nos enchemos de questionamentos a respeito da vida, do universo e tudo o mais.

Como adaptação, Aniquilação consegue empolgar muito mais do que seu material original ainda que não esclareça todas as dúvidas que surgem durante o desenrolar do filme — e não há o menor problema nisso. A magia do longa está justamente em deixar espaço para a livre interpretação de quem o assiste, nos deixando ao lado de Lena no que tange a decidir se a mutação que toma conta da Área X é boa ou má para o planeta Terra e a raça humana. Outro ponto positivo de Aniquilação reside em seu elenco majoritariamente feminino: mesmo que nem todas as personagens sejam desenvolvidas com o mesmo grau de profundidade que Lena, é sempre refrescante ver mulheres cientistas, soldados e exploradoras tomando a liderança de expedições que, antigamente, só veríamos em filmes cheios de caras protagonizando.

Para saber mais: Aniquilação: a vida, o universo e tudo o mais

Bohemian Rhapsody, Bryan Singer

Por Mia

A cinebiografia de Freddie Mercury é, incontestavelmente, um dos melhores filmes do ano. Claro que o fato de eu ser fã do Queen influencia em tal afirmação, contudo o que me fará lembrar deste ano cinematograficamente é esse filme. Cinebiografias sempre são complicadas, pois é difícil encaixar a vida de uma pessoa que realmente existiu em apenas pouco mais de duas horas. Alguns aspectos sempre ficarão de fora e é quase inevitável alterar momentos da vida de alguém para torná-los mais palatáveis às telas, porém Bohemian Rhapsody conseguiu cumprir com o que prometeu e nos mostrou uma face de Freddie pouco conhecida da mídia: a de um homem tímido e que apenas buscava seu lugar no mundo.

Com um elenco sensacional como Rami Malek e Gwilyn Lee, Bohemian convence e emociona ao contar a história do jovem imigrante indo-pársi que, por causa da guerra, teve de ir com sua família para um continente distante, onde sofreu com a xenofobia britânica. O filme é delicado, contudo vibrante, assim como o próprio Freddie era. Uma bela homenagem para uma pessoa que viveu sua verdade e é um exemplo para tantos até hoje.

Desobediência, Sebastián Lelio

Por Tany

Com o passar dos anos a quantidade de casais ou personagens lésbicas no cinema aumenta. Neste ano tivemos o lançamento de pelo menos dez filmes de médio e alto orçamento focados em personagens LGBTQ+ e, pelo menos, cinco chegaram ao cinema. Porém, a grande maioria deles tem algo em comum: estão lidando com a descoberta da sua orientação sexual. É nesse ponto que Desobediência se sobressaiu para mim.

A história de Ronit (Rachel Weisz) e Esti (Rachel McAdams) não é da descoberta de um amor, mas a forma de lidar com quem são enquanto tudo e todos ao seu redor não aceitam isso. Ronit, depois de mais de dez anos, volta para casa após a morte do pai e é nesse momento que reencontra seu primeiro e único amor, sua melhor amiga Esti, atualmente casada com seu melhor amigo de infância. Em uma história mais convencional, talvez o filme se resumisse na descoberta da paixão, e sexualidade, do casal ou em um caso de amor escondido. Desobediência não fala somente sobre a aceitação de ser quem você, mas das consequências — abrir mão de tudo e todos para viver o que acha correto ou viver uma mentira? — e de suas origens e criação dentro de uma comunidade judia ortodoxa. É um novo caminho a ser abordado sobre personagens homossexuais, felizmente, saindo do comum dos dramas de descoberta ou morte às lésbicas.

Para saber mais: Crítica: Desobediência; Disobedience: somos as escolhas que fazemos

Eighth Grade, Bo Burnham

Por Tany

Existem alguns momentos de transição muito específicos na vida de um jovem, sendo a passagem entre o ensino fundamental e médio, uma das mais importantes. Pra cada pessoa o último ano antes do ensino fundamental é um grande ritual. Você deixa de ser criança, aos olhos dos adultos, para virar adolescente, mas não é simples assim porque nessa idade tudo tem uma importância muito maior. São vários primeiros momentos que não iremos esquecer nunca mais: o primeiro menino que gostamos, o primeiro beijo, a formação da nossa “primeira” personalidade.

Em Eighth Grade, Kayla (Elsie Fisher) é uma menina de treze anos que está tentando sobreviver ao seu oitavo escolar. Ela não é magra nem gorda demais, nem bonita nem feia demais, não é nerd e não é a menina mais popular da escola. Ela só é uma garota que tem inseguranças com seu corpo, com sua personalidade e com tudo ao seu redor. O filme de estréia do diretor e comediante Bo Burnham é um diário deste ano tão importante na vida de um jovem. Não existe um drama ou uma comédia escondida atrás do dia-a-dia de uma pré-adolescente, mas isso que fez a história tão especial para mim. Apesar de não poder me identificar com algumas inseguranças, como a pressão de mídias sociais tão cedo na vida, ainda o acho muito genuíno em retratar o que os jovens passam atualmente.

Eu, Tonya, Craig Gillespie

Por Thay

Baseado livremente na vida de Tonya Harding, ex-patinadora olímpica norte-americana, Eu, Tonya mostrou-se o palco perfeito para Margot Robbie brilhar. A atriz encarnou com maestria a atleta que viveu um sem número de situações de má sorte, desentendimentos e uma boa dose de talento para meter os pés pelas mãos. Criada pela mãe Portland, Oregon, nos Estados Unidos, Tonya cresceu em uma comunidade pobre e em um lar abusivo e sem amor, o que a levaria a escolhas equivocadas durante toda a vida. O talento maior de Tonya, ela sabia desde criança, era a patinação, e por isso se esforçou o quanto pode até chegar ao topo ao executar o salto Triplo Axel, uma das manobras mais difíceis do esporte, em um campeonato oficial em 1991.

Eu, Tonya mostra a difícil ascensão da atleta e a queda meteórica no ostracismo quando é descoberto o plano de seu marido da época, Jeff Gillooly (Sebastian Stan), para ferir sua colega de profissão, a patinadora Nancy Kerrigan (Caitlin Carver), com o intuito de facilitar a vitória de Tonya no campeonato. A agressão foi encomendada sem o conhecimento de Tonya, mas até o fato ser explicado para a mídia a bagunça já estava feita e a reputação de Tonya, por menor que fosse à época, completamente manchada. Com algumas falhas consideráveis — fazer de agressões e relacionamentos abusivos alívio cômico não é a melhor das estratégias —, Eu, Tonya configura entre algumas das melhores produções do ano pelo brilhante trabalho tanto da protagonista defendida por Margot Robbie quanto pela LaVona Golden de uma inspirada, e agora, detentora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel, Allison Janney.

Para saber mais: Crítica: Eu, Tonya

Infiltrado na Klan, Spike Lee

Por Anna Vitória

Infiltrado na Klan marca o retorno de Spike Lee ao cinema blockbuster e à sua boa forma enquanto cineasta. Consagrado por filmes marcados com forte teor de crítica social, como Faça a Coisa Certa e Malcolm X, cujo foco estava principalmente nas relações raciais dos Estados Unidos, faz sentido que o diretor tenha escolhido esse momento para mostrar como ainda é capaz de esmerilhar suas próprias fórmulas e trazê-las em grande estilo para a contemporaneidade através de um filme engraçado, cativante, cheio de boas cenas de ação, além de profundamente pungente.

Risos nervosos talvez seja a melhor expressão para definir a história, baseada em fatos reais, de Ron Stallworth (John David Washington, filho de Denzel Washington), primeiro policial e detetive negro do Departamento de Polícia de Colorado Springs. Nos anos 70, Ron infiltrou-se na Ku Klux Klan, grupo supremacista branco de extrema direita, passando-se por um homem branco usando como avatar seu colega policial Flip (Adam Driver). É dessa forma que ele passa a ter acesso às reuniões do grupo, uma congregação dos famigerados cidadãos de bem cujo intuito é fazer a América boa para os americanos. Antes de se infiltrar na KKK, Ron havia participado de reuniões da resistência negra para coletar informações sobre ações do grupo que eram vistas pela polícia como ameaça ao incitar a violência. Essa experiência, aliada ao relacionamento que ele desenvolve com Patrice (Laura Harrier), ativista estudantil e muito provavelmente militante dos Panteras Negras faz com que ele se confronte com seus valores e o leva a pensar no que significa ser um homem negro dentro da polícia e como ocupar esse espaço. Se não fosse pela decoração das casas e o figurino — excelente! — em que impera a gola rulê, Infiltrado na Klan poderia muito bem ser um filme sobre o momento que estamos vivendo agora, e se resta alguma dúvida as cenas finais deixam isso claro e nos fazem engasgar com a própria risada depois de um desfecho otimista. Esse riso, no entanto, em vez de ser um reflexo contra o desconforto, como muitas vezes acontece em Corra! e outras sátiras sociais, é também uma arma de resistência usada por Spike Lee para rir dessas figuras encapuzadas e escancarar sua pequenez e seu ridículo, mas o nervoso sempre vem, porque o diretor também não nos deixa esquecer que essas pessoas são reais e estão ao nosso redor, cada vez mais barulhentas.

Lady Bird – A Hora de Voar, Greta Gerwig

Por Fernanda

É sempre difícil saber quais entre os filmes que geram buzz durante a temporada de premiações vão sobreviver ao tempo, mas eu apostaria na longevidade de Lady Bird, pelo menos enquanto a adolescência feminina não se tornar tão lugar-comum em Hollywood quanto são as histórias sobre homens brancos jovens ou velhos. Meu carinho pelo longa de Greta Gerwig provavelmente vai estar sempre ligado à crítica que Alissa Wilkinson escreveu na Vox, construída em cima da fala da Irmã Sarah Joan (Lois Smith) para Lady Bird/Christine (Saoirse Ronan) sobre amor e atenção serem a mesma coisa; Wilkinson a estende ao filme como um todo, enxergando-o como uma carta de amor à cidade de Sacramento, à adolescência feminina e ao “sentimento de estar sempre do lado de fora dos lugares onde a vida real está acontecendo”.

A vida real na verdade não acontece naquele outro lugar mítico do qual parecemos estar sempre longe enquanto estamos crescendo e tentando descobrir quem somos, mas aqui, agora e o tempo todo: na escola, no hospital, na igreja e no estacionamento. A carga de vida que Greta insere em todos os momentos de seu filme — nos bailes e nos brechós, nos cafés da manhã de segunda-feira e nos jantares de Ação de Graças — nos lembra disso a todo momento, e é o que o torna mais encantador. Não somos apenas a parte de nós que gostaria de viver “onde tem cultura” e que pega um avião para ir até lá, mas também a parte de nós que vai com nossas mães olhar casas que não temos condições de comprar. E, nas paredes da memória, eu apostaria que a lembrança das casas vazias perduraria por muito mais tempo do que a do aeroporto.

Para saber mais: Como Greta Gerwig conta uma história de amor

Mais uma Chance, Tamara Jenkins

Por Anna Vitória

Nas muitas entrevistas que deu na época do lançamento de Big Little Lies, Reese Whiterspoon disse que depois de uma certa idade as atrizes são condenadas a passar o resto da carreira fazendo papel de mãe. Existe muito a ser dito sobre o universo da maternidade, e Big Little Lies é prova disso, mas o título de “mãe” aqui é usado como sinônimo de coadjuvante pouco desenvolvida. Depois dos 40, o destino é ser mãe do mocinho, mãe da mocinha, como se antes de qualquer mãe não houvesse uma mulher. Esse é um dos motivos pelos quais dá gosto ver Kathryn Hahn, aos 45 anos, brilhar como uma das protagonistas de Mais Uma Chance, filme escrito e dirigido por Tamara Jenkins que dá espaço para que a atriz não só vá além do papel de mãe, mas explore as camadas de uma mulher de meia-idade que deseja desesperadamente ser mãe depois de ter priorizado sua carreira até concluir que talvez não seja possível ter tudo, pois esse é o mundo em que nós, mulheres, vivemos.

Mais Uma Chance acompanha a jornada de Rachel (Kathryn Hahn) e Richard (Paul Giamatti) para ter um filho. Embora inclua injeções hormonais, procedimentos de fertilização in vitro, e tentativas frustradas de adoção, o filme é menos sobre a vontade de ter um bebê, o sonho de uma família, e mais sobre o que significa, no sentido mais psicanalítico da coisa, essa perpetuação da espécie que os dois tanto buscam. Rachel e Richard são escritores que dedicaram suas juventudes às suas carreiras e, de alguma forma, foram bem-sucedidos nisso. Ela é uma autora com diversos livros publicados, enquanto ele é um dramaturgo cuja companhia já gozou de muito prestígio. No entanto, fica claro que o momento deles já passou — não só o auge de suas carreiras, mas também, e o que é mais assustador, das suas vidas, com a típica sensação de que falta alguma coisa, que deveria haver algo mais dessa vida. Será que foi certa a decisão deles de não ter um filho? Se suas obras já não têm a mesma importância de antes, como viver pra sempre? Esses sentimentos são intensificados com a chegada de Sadie (Kayli Carter) sobrinha de consideração que vai morar um tempo com o casal, servindo de estandarte a tudo que eles não são mais: jovens, cheios de oportunidade, e férteis, em todos os sentidos possíveis da palavra. Essas discussões profundas e muito humanas surgem de forma bastante sutil na trama, e os atores dão conta dessa carga de ideias incômodas de uma forma gloriosa, principalmente Hahn, que mostra que já passou da hora do cinema comercial reconhecer que mulheres maduras, sejam elas mães ou não, têm histórias pra contar e que mesmo a maternidade pode oferecer mais complexidade do que o gesto de colocar um protagonista jovem no mundo e zelar por ele.

Mamma Mia! – Lá Vamos Nós de Novo, Ol Parker

Por Anna Vitória

A sequência de Mamma Mia, que chegou aos cinemas 10 anos depois da estreia do primeiro filme, foi sem dúvidas a minha melhor experiência cinematográfica do ano, e eu não estava sozinha. Fãs de ABBA sem medo do ridículo, eu e meu melhor amigo nem precisamos sussurrar para cantar junto as músicas do filme, porque as pessoas ao redor estavam fazendo o mesmo, e ouvi relatos que essas reações eram comuns nas sessões onde o filme era exibido. Ninguém economizou risadas altas ou fungadas de choro nos momentos mais dramáticos, assim como eram audíveis os “aaah!” e “oooh!” de surpresa e deleite. Eu quiquei na cadeira de pura felicidade diante da visão da Cher e tenho certeza que pelo menos uma parcela de toda a masculinidade tóxica e virulenta a que fomos expostas em 2018 foi neutralizada no momento em que Colin Firth, Pierce Brosnan e Stellan Skarsgard dançaram “Dancing Queen” juntos.

Tanto a equipe como os personagens de Mamma Mia – E Lá Vamos Nós de Novo compartilhavam a missão de se sustentar sem contar com a presença de Meryl Streep na figura de Donna Sheridan no elenco. A solução foi voltar ao passado, mostrando como se deu o fatídico verão dos anos 70 em que a jovem Donna (Lily James) se jogou no mundo e nas paixões e terminou grávida na Grécia com três possíveis candidatos a pai da criança. No presente, sua filha Sophie (Amanda Seyfried) precisa descobrir que rumo seguir depois da morte da mãe, e os flashbacks na história funcionam como materialização do espírito livre e destemido de Donna que agora vive dentro de cada um que cruzou o seu caminho. Para completar, tudo é pautado pelo repertório do ABBA, e a até a escolha do repertório, com canções menos conhecidas dos últimos discos da banda, quando eles estavam prestes a se separar, representa o tom agridoce que passa por toda a história. Parece estranho dizer que um filme tão solar, estridente, exagerado e deliciosamente ridículo conta uma história delicada sobre luto, mas de alguma forma Ol Parker, que dirige e assina a obra, faz isso funcionar, pois todos os seus grandes momentos estão ancorados em sentimentos reais, e os personagens não têm medo deles.

Para saber mais: Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo: how can we resist it?

Nasce uma Estrela, Bradley Cooper

Por Fernanda

“Será que é mesmo necessária uma quarta versão de Nasce Uma Estrela?”, talvez você tenha se perguntado quando ficou sabendo que era exatamente isso que Bradley Cooper estava fazendo em sua estreia como diretor. Necessário provavelmente não era, mas o que é certo é que o longa de Cooper é bonito e comovente e genuinamente capaz de tocar lá no âmago e fazer sentir — seja através da sua grande força-motriz que é a música, seja através das belas performances do próprio Bradley e especialmente de Lady Gaga. Se Gaga à primeira vista parece quase irreconhecível com seus cabelos escuros e seus figurinos compostos por calça e camiseta, a potência de sua voz e a entrega que ela coloca em sua interpretação de uma relutante recém-chegada à indústria musical logo deixam transparecer que só poderíamos estar diante da grande artista que ela é. Não é só uma estrela que nasce aqui.

O filme é uma reflexão muito bonita sobre a arte, sobre a necessidade de criá-la que transborda mesmo quando se tenta contê-la, sobre aqueles que vivem para ela e sobre até que ponto ela é capaz de redimir ou salvar — não que seja seu papel fazer qualquer uma dessas coisas. Mas, mesmo cheio de pequenos ou grandes momentos sublimes, o longa não traz uma visão puramente romântica; existe o mercado ao qual o artista precisa se adequar se quiser viver de suas criações, para o bem e para o mal, e existem todos os impulsos autodestrutivos que podem até gerar algo de transcendental, mas cobram seu preço. O que não significa que os momentos de beleza e contentamento profundos não existam ou se tornem menos potentes, e Nasce Uma Estrela está cheio deles.

O Ódio Que Você Semeia, George Tillman Jr.

Por Thay

Baseado no livro homônimo escrito por Angie Thomas, O Ódio Que Você Semeia estreou nos Estados Unidos em outubro desse ano mas teve sua distribuição no Brasil comprometida pela pouca valorização que a Fox Films, responsável pela estreia do longa em território nacional, dispensou ao mesmo. Foram poucas as salas de cinema a receberem o filme, e mesmo nas capitais do país se tornou difícil encontrar um horário em que o filme estivesse em exibição. Em um momento político como o que vivemos, não apenas em escala nacional como mundial, restringir o alcance de um filme poderoso como O Ódio Que Você Semeia é um tremendo retrocesso.

No longa acompanhamos a história de Starr (Amandla Stenberg), uma adolescente negra que vive na periferia mas, com o esforço de seus pais, frequenta um colégio particular em uma das áreas mais ricas da cidade. Dividida entre ser a menina da periferia e a estudante de um colégio de prestígio, Starr vê os dois mundos colidirem quando ela presencia o assassinato de seu melhor amigo durante a abordagem de um policial branco. O assassinato, que moverá o filme adiante, ecoa diretamente a cena de abertura do filme onde uma Starr de nove anos de idade, ao lado de seus irmãos de dez e um ano, é ensinada a como deve reagir se um dia for parada por um policial. “Um dia vocês estarão comigo e com certeza vão nos parar. Não significa que fiz algo errado. Posso ter cometido uma infração ou posso não ter feito nada.” O Ódio Que Você Semeia é triste, intenso, visceral e real. É impossível não se emocionar, chorar e pensar: “se você pode aprender a odiar, você pode aprender a amar”.

Oito Mulheres e Um Segredo, Gary Ross

Por Thay

Ao retomar a trama de Onze Homens e Um Segredo, o diretor Gary Ross tinha como missão transformar o novo filme em algo original mesmo que ainda pudesse evocar a trama do longa de 2001. Sua tarefa foi concluída com sucesso e Oito Mulheres e Um Segredo consegue ser dinâmico, divertido e ágil de uma maneira completamente única e especial. Com um elenco estrelado encabeçado por Sandra Bullock e Cate Blanchett, Oito Mulheres e Um Segredo tem a típica trama de um roubo arriscado e um plano mirabolante, mas tudo envolto em um entrosamento perfeito de suas atrizes, diálogos inteligentes e figurinos incríveis já que aqui ninguém é de ferro e todo mundo adora uma haute couture.

Quando Debbie (Bullock) sai da prisão prometendo se comportar, nós já sabemos de antemão que ela não pretende fazer nada disso. Aos poucos ela vai retomando contanto com antigas amigas, cada uma dona de uma habilidade específica, e começa a encaixar as peças de seu quebra-cabeças cuja figura é um roubo durante o icônico Met Gala. Lou (Blanchett) é o braço direito de Debbie, mas logo entram no grupo as personagens de Sarah PaulsonHelena Bonham Carter, Mindy Kaling, RihannaAwkwafina e Anne Hathaway. Cada personagem é única a sua própria maneira, e ainda que possam se mostrar frágeis em determinados momentos, tudo faz parte de um plano maior. A verdade é que Oito Mulheres e Um Segredo poderia ter duas horas com todas as atrizes confraternizando que a gente já ficaria feliz, mas ele é muito mais do que isso — é divertido, inteligente e ágil na medida.

Os Incríveis 2, Brad Bird

Por

Um roteiro que gerações estavam aguardando chega no momento certo com a melhor narrativa que poderia ter sido criada. Dando lugar de fala para a protagonista feminina, mostrando que homem pode (e deve) ser dono de casa também e enchendo nossos corações de amor com a família mais incrível do mundo, Os Incríveis 2 ganhou cinco estrelas aqui no Valkirias porque fez check na nossa lista de filmes que mostram o poder das mulheres: 1) As mulheres não falam sobre homens e relacionamentos de forma direta e incessante; 2) As mulheres, tanto vilã como protagonista, são imprescindíveis para que a história se desenvolva; 3) As mulheres têm o seu próprio discurso e lugar de fala; 4) Helena Pera encoraja Violeta, sua filha, a ser mais destemida e valente; 5) As super-heroínas que se espelham na Mulher Elástica mostram sororidade e admiração quando precisam se unir contra o crime; 6) O papel de mãe = dona de casa é desconstruído com a mulher indo trabalhar fora e o homem cuidando dos deveres do lar. Ou seja, vale a pena ver e rever o mais novo clássico da Pixar em 2019.

Para saber mais: Os Incríveis 2: um roteiro que chegou na hora certa

Pantera Negra, Ryan Coogler

Por Thay

Pantera Negra é, sem dúvidas, um divisor de águas no universo dos heróis no cinema. Tendo aparecido nos quadrinhos pela primeira vez em 1966 em uma edição do Quarteto Fantástico, T’Challa só foi dar as caras no cinema em Capitão América: Guerra Civil, em 2016, interpretado por Chadwick Boseman. Sua chegada às telas de cinema foi muito antecipada não apenas por fãs do gênero mas também por pessoas que, antes dele, não chegava a se interessar realmente por filmes de super-heróis.

Além de ser um filme incrível com um roteiro bem amarrado e cenas de ação de tirar o fôlego, Pantera Negra é, como disse Duds, “ao mesmo tempo uma celebração à África que existe e tudo que ela representa em questão de riqueza humana e cultural, e um canto de lamento à África que poderia ter sido caso sua narrativa não tivesse sido mudada tão brutalmente pelos europeus e o continente pudesse ter se descoberto por si mesmo”. Repleto de referências à cultura africana, à singularidade de seus povos e herança nobre, Pantera Negra ainda consegue nos mesmerizar com personagens belamente construídos, um protagonista leal e destemido, e algumas das melhores personagens femininas de toda a Marvel.

Para saber mais: Pantera Negra vive, e Wakanda também

Para Todos os Garotos que Já Amei, Susan Johnson

Por Yuu

Romances juvenis não me apetecem como antigamente, então é com certa melancolia que digo que não cheguei a ler a trilogia de Jenny Han, Para Todos os Garotos que Já Amei. No entanto, quando a Netflix anunciou que estava produzindo a adaptação do primeiro livro, eu me permiti alguma empolgação, afinal, a história parecia adorável e estava saindo conforme os desejos da autora. Quando o filme foi finalmente lançado, a primeira impressão se fez certa e a experiência de ter um novo teen movie para amar foi um grande respiro em dias tão cheios. Eu o assisti não uma, não duas, mas três vezes em curto período de tempo, me aproveitando da desculpa que eu deveria escrever sua crítica para o site, mas curtindo-o como puro entretenimento.

A trama é centrada em Lara Jean Song-Covey, uma garota americana com ascendência coreana que vive uma vida comum a todas as outras garotas de sua idade: ela vai à escola, interage com a sua família, e de vez em quando se apaixona por algum garoto porque ninguém é de ferro. O diferencial de Lara Jean é que sua timidez não a deixa confessar seus sentimentos para os rapazes, pelo menos não na frente deles. Ao invés disso, ela escreve cartas como forma de entender esses sentimentos, e eventualmente superá-los. A trama do filme é posta em movimento quando as cartas, secretas, encontram seus destinatários e Peter Kavinsky entra em sua vida. Eles fazem um acordo para fingir um relacionamento que vai beneficiar ambas as partes, mas alguns desvios, como bem sabemos, estão fora de controle. Para Todos os Garotos que Já Amei é uma história sobre Lara Jean mais do que uma história sobre Lara Jean e Peter. O filme torna-se fantástico não apenas por ser do tipo levinho que cabe em qualquer ocasião, mas porque prova sem fazer muito esforço que é possível trazer diversidade para o elenco e ainda despertar um tanto de identificação.

Para saber mais: Crítica: Para Todos os Garotos que Já Amei

Podres de Ricos, Jon M. Chu

Por Karina

2018 foi um bom ano para comédias românticas e Podres de Ricos foi um desses deliciosos oásis no mar de caos em que vivemos no segundo semestre. Baseado no romance Asiáticos Podres de Ricos, de Kevin Kwan, o filme acompanha Rachel Chu (Constance Wu) em sua jornada com o namorado Nick Young (Henry Golding) até Singapura, país em que os dois vão a um casamento e Rachel vai conhecer a família de Nick. É nessa viagem que Rachel descobre que Nick e toda sua família são riquíssimos, algo que ela nunca soube durante todo o tempo em que eles namoraram e moraram em Nova York. E é na viagem que ela descobre também que esse mundo dos super ricos de Singapura não aceita qualquer um, o que desencadeia todo o drama, embalado em preconceitos e tradições culturais.

O grande lance de Podres de Ricos é que o filme fez algo que não é visto com grande frequência em Hollywood: trouxe um elenco todo composto por atores asiáticos ou com descendência asiática, além de ser dirigido por Jon M. Chu, que tem descendência chinesa e taiwanesa. Esperamos que o sucesso de bilheteria nos Estados Unidos sirva para mostrar que já passou da hora de vermos rostos mais diversos nas telonas.

Projeto Flórida, Sean Baker

Por Júlia

Assisti a Projeto Flórida bem no comecinho do ano, mas, mesmo depois de todos esses meses, ainda lembro e levo o filme comigo. Boas obras conseguem resistir ao esquecimento, pois elas, de alguma forma, mudam a nossa maneira de ver o mundo, mesmo que nas coisas pequenas e mais insignificantes.

Numa realidade em que é cada vez mais difícil proteger e preservar crianças do mundo adulto, Projeto Flórida conta uma linda história do ponto de vista infantil, sem ser melodramático nem forçado. A beleza pode estar nas coisas mais mundanas e nos lugares mais improváveis, até mesmo num motel no meio do nada. Projeto Flórida me lembrou do quão mágica, importante e libertadora é a imaginação de uma criança, coisa que eu sabia há anos atrás, mas o mundo adulto me fez esquecer. Que bom que existem filmes como esse para a gente poder lembrar.

Para saber mais: Projeto Flórida: a vida é melhor que um cruzeiro

Tully, Jason Reitman

Por Júlia

Poucas as vezes a maternidade é retratada de forma tão real, sem misticismos e fantasias quanto em Tully. Diablo Cody, a roteirista do filme, faz aqui um trabalho incrível e profundo; escreve sobre uma mãe cansada, que busca reencontrar sua identidade, após três filhos. Numa entrevista ao podcast I Think You’re Interesting, ela diz que teve a ideia para o filme quando ficou sabendo da existência de babás noturnas, que cuidam dos bebês durante a noite para os pais (principalmente as mães) conseguirem dormir. É difícil imaginar que dessa ideia sairia um filme tão peculiar, mas Tully está aí para percebemos que qualquer ideia pode dar uma ótima história.

Eu, que gosto dos entre-gêneros, obras difíceis de classificar e que brincam com os tropos e clichês já super-utilizados pela indústria do entretenimento, vi em Tully a realização de que é possível ser profundo, complexo e até sério sem deixar de ser engraçado. Apesar do final talvez chocante e até um pouco trágico, dei ótimas risadas no cinema, que comprovaram, pelo menos para mim, que o humor é essencial, até mesmo quando a história não é das mais felizes.

Para saber mais: Crítica: Tully

Um Lugar Silencioso, John Krasinski

Por Fernanda

Assistir a Um Lugar Silencioso numa sala de cinema foi definitivamente uma das minhas experiências favoritas com cultura pop em 2018. A mistura de drama familiar e terror dirigida por John Krasinski consegue ser ao mesmo tempo entretenimento exemplar e um passo relevante para pensarmos na importância da representatividade, além de trazer em sua realização uma ideia muito criativa — um filme que é majoritariamente dialogado através da língua de sinais. O longa não é cinema mudo, há som por toda a parte e a trilha sonora conduz muito bem a tensão, mas há pouquíssimas conversas em inglês falado, embora o filme seja cheio de diálogos que discutem desde estratégias de sobrevivência até o papel dos pais na proteção de seus filhos e ansiedade deles ao sentirem que não conseguem de fato protegê-los.

Com um elenco muito enxuto, formado apenas por Krasinski, sua esposa Emily Blunt (a química transborda) e os jovens mas talentosos Noah Jupe e Millicent Simmonds, o filme simplesmente não tem pontos fracos em termos de atuação, e as interações entre os membros de uma família que tenta sobreviver na terra arrasada em que se transformaram os Estados Unidos são muito críveis — e capazes de arrancar algumas merecidas lágrimas em seus momentos mais pungentes. Para os que não dispensam explicações e panos de fundo complexos, Um Lugar Silencioso provavelmente não vai funcionar muito bem, já que a explicação que ele traz para seus monstros de audição ultrassensível é nula e a exploração da condição em que se encontram os Estados Unidos logo no começo do filme se limita a uma capa de jornal. Mas nada disso realmente importa, porque o filme tem monstros, não é sobre eles. No fim das contas, é sobre algo bem mais simples: pais, mães, filhos e filhas e os sacrifícios que fazemos por amor.

Para saber mais: Um Lugar Silencioso: um passo adiante

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