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Anna Vitoria

CINEMA MÚSICA

Stefani Coração de Diamante: a vulnerabilidade de Lady Gaga

“I might not be flawless but you know I got a diamond heart” [Eu posso não ser perfeita, mas você sabe, eu tenho um coração de diamante] diz o refrão da primeira faixa de Joanne, álbum mais recente de Lady Gaga, lançado ano passado. Embora pareça uma declaração simples – afinal, poucas pessoas além de Beyoncé podem se dizer infalíveis sem gaguejar – essa confissão de humanidade surpreende quando olhamos para quem é que está falando. Minha sequência favorita de Five Foot Two, mais recente documentário sobre a cantora, é uma montagem de vários momentos que mostram Gaga tentando entrar ou sair do carro rodeada por uma horda de fãs, usando seus figurinos marcantes, óculos escuros, perucas absurdas – lembro que, quando ela surgiu, em 2009, sua figura era tão imponente, impenetrável e desconcertante que eu tinha dificuldades até de assimilar como era seu rosto de verdade – intercalada com a filmagem de Gaga encontrando fãs ano passado, pouco antes do lançamento do disco: de short jeans, camiseta branca e delineador borrado, a cantora dá autógrafos e tira fotos com todos, mas seu olhar é vazio. Dá pra ver bem o seu rosto, e ele mostra que ela está perto de ter um ataque de pânico.

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MÚSICA

Mitski não é a típica garota americana, mas a rockstar do nosso futuro

No início do ano, o New York Times lançou um especial que buscava apontar, através de 25 músicas, aonde o cenário musical estava indo. Entre nomes com propostas tão distintas como Missy Elliot, Mitski, Lady Gaga, Solange, Kanye West e Leonard Cohen, o denominador comum que unia os 25 artistas era que, cada um à sua maneira, todos estavam construindo trabalhos profundamente voltados para a ideia de identidade. Faz sentido. Vivemos um zeitgeist mundial em que esse tipo de questionamento – Quem somos? De onde viemos? – parece pautar toda a nossa produção artística: minorias sociais estão em destaque e seus membros estão descobrindo o que significa ser mulher, ser negra, ser imigrante, ser homossexual, em uma sociedade estruturalmente machista, racista e homofóbica, que sempre suprimiu e apagou essas identidades; a internet permitiu uma autonomia maior para criar, produzir e colocar nossas vozes no mundo, desafiando os meios já estabelecidos e restritos, permitindo que pessoas tenham a chance de dizer a que vieram sem a intervenção enviesada de intermediários. Um exemplo é este site que você está lendo agora.

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TV

Master of None: Aziz Ansari I love you

Master of None

Quando a gente escreve sobre filmes ou televisão, existe esse maneirismo recorrente que é definir obras em que a cidade cenário faz uma participação importante como uma carta de amor àquele lugar – provavelmente Nova York. Outra forma de dizer isso é escrever que a cidade – muito provavelmente Nova York – se transformou em um personagem daquele filme ou série. É um jeito preguiçoso (pois repetitivo), porém preciso de se falar sobre um aspecto significativo de determinadas obras que realmente inserem a cidade onde ela está localizada como um personagem daquela história – e, dependendo do tom, o resultado no fim das contas pode ser uma carta de amor àquele lugar. Não tem como pensar Gilmore Girls sem Stars Hollow, Twin Peaks sem Twin Peaks, e Sex & The City ou Gossip Girl sem Nova York; isso porque a cidade é um contexto importante que vai nos dizer um pouco sobre quem são aquelas pessoas, o que elas procuram, suas limitações e frustrações, como e por que elas chegaram ali e para onde elas querem ir.

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TV

Crazy Ex-Girlfriend e o futuro das comédias românticas

Há pouco mais de um ano publicamos aqui uma defesa apaixonada das comédias românticas que buscava entender os motivos que levaram à decadência do gênero dos frutíferos anos 90 até o momento em que vivemos agora, em que a desconstrução do amor romântico parece ser a palavra de ordem. Nossa teoria favorita segue sendo a que diz que comédias românticas não atraem mais como antigamente não porque as pessoas não acreditam mais no amor, mas porque elas não acreditam mais nas histórias de amor que estão sendo contadas.

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VALKIRIAS

It’s alive – e agora? Um ano escrevendo sobre cultura pop na internet

It’s alive! Foi assim que, um ano atrás, iniciamos os trabalhos do Valkirias, um projeto que começou com sete mulheres que queriam um espaço para falar sobre suas coisas favoritas – cultura pop e feminismo – na internet. A frase inaugural foi uma das tantas ideias que tomamos emprestadas de Frankenstein, clássico de Mary Shelley, estando no monstro da história a nossa maior inspiração: seu tamanho espelha nossa ambição, e seus remendos eram, e ainda são, uma maneira de nos lembrar que somos muitas, que ser mulher é ser muitas coisas, e é essa multiplicidade que sempre buscamos trazer para o nosso trabalho. Além disso, a figura do monstro, o imaginário que ela evoca, é bem ilustrativa para demonstrar um pouco de como esse projeto nos devorou.

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TV

Mexeu com uma, mexeu com todas: uma reflexão sobre assédio, cultura do estupro e cultura pop

Quando li pela primeira vez a carta aberta publicada pela figurinista Susllem Tonani para denunciar o assédio sexual sofrido por ela pelo ator José Mayer, aquilo me doeu profundamente. Não só pela violência do que ela sofreu, mas porque lá estava uma mulher denunciando publicamente o assédio vivido por ela, usando seu nome e sobrenome para dar nome e sobrenome ao seu assediador no maior jornal do país. Um ato imenso de coragem tendo em vista o tipo de tratamento que mulheres vítimas de violência recebem no Brasil e também no resto do mundo, que é o pior possível. Mulheres são silenciadas, hostilizadas, desamparadas por mecanismos que deveriam protegê-las, e culpadas por crimes feitos contra elas, numa escalada bizarra de violência física, psicológica e simbólica. A agressão não acaba depois do ato, mas continua quando duvidam de sua palavra, quando relativizam sua história — “É brincadeira!”, “Não houve intimidação!”, eles dizem –, quando ela não tem a quem recorrer, quando o agressor sai impune, quando o agressor é celebrado, quando ela nem sequer tem noção de que foi vítima de uma violência, não sabe nomear aquilo que sofreu — o que ainda é o caso de tantas mulheres.

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