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Visibilidade Lésbica: falando sobre aquilo que não pode ser mencionado

O dia 29 de agosto foi estabelecido, durante o 1º Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), em 1996, como o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Desde então, agosto vem se tornando cada vez mais um mês dedicado a eventos e comemorações voltados a esse público tão esquecido e invisibilizado durante o ano todo. Foi pensando nisso que resolvemos abrir um espaço merecido em nossa programação para dar lugar a esse especial que busca visibilizar e discutir a participação de mulheres lésbicas na cultura pop, assim como a forma como o tema é abordado e representado nesse meio.

No espetáculo de stand-up Nanette, disponibilizado recentemente no catálogo da Netflix e muito comentado desde então, a comediante Hannah Gadsby parte de histórias reais da sua vida e de suas experiências enquanto mulher lésbica para tocar em pontos sensíveis, delicados, e que precisam desesperadamente ser discutidos. Hannah questiona e subverte o modelo tradicional de fazer comédia e declara de uma vez por todas que não vai mais diminuir sua existência e minimizar as violências diárias sofridas por ela, e por todas as mulheres lésbicas, para poupar a audiência do desconforto dessa realidade. Ao mesmo tempo, ela se posiciona criticamente quanto à própria militância lésbica, que cobra dela uma dedicação exclusiva à causa e ao tema que ela nunca prometeu. Por esse e muitos outros caminhos, a comediante deixa bem claro que a sua própria existência é um ato político, que o fato de continuar viva dia após dia é um ato de resistência.

Não existe um jeito único ou certo de ser lésbica, e ser lésbica não resume nenhuma mulher. Ainda assim, em uma sociedade em que a heterossexualidade é compulsória, desviar disso é perigoso tanto para a nossa integridade física quanto mental; a nossa sexualidade se torna uma questão central em nossas vidas e uma pauta necessária para nossa atuação política. Amar e desejar mulheres por si só é uma forma de resistência em uma sociedade machista, porque é a prova de que é possível viver de forma plena sem homens. É possível amar sem homens. É possível transar sem homens. O homem, aquele ao redor de quem tudo gira em sistemas patriarcais, não tem espaço aqui. Apesar de sabermos bem que até nas relações entre mulheres o patriarcado dá um jeito de colocar o dedo — seja na forma de relações abusivas e/ou na reprodução de padrões de gênero heteronormativos — a premissa básica é a de que nossas relações são horizontais. Não existe aqui nenhuma hierarquia de gênero prévia, socialmente estabelecida e alimentada, que nos coloca em desvantagem. E isso é afrontoso. Isso é perigoso para o patriarcado. Logo, precisamos ser eliminadas — física e simbolicamente.

Nós estamos muito acostumadas a viver em silêncio, nos cantos escuros, a não nos vermos em lugar nenhum. Sofremos diariamente com violências físicas, psicológicas e simbólicas. Apanhamos na rua e em casa, sofremos estupro corretivo, somos alvo de piada, de nojo, de invisibilização. Andamos escondidas nas ruas, com medo, escondemos nossos atos de afeto. Também não estamos nos meios de comunicação ou, quando estamos, é de forma estereotipada ou fetichizada. O termo “lesbian” [lésbica] foi o mais buscado em 2017 segundo estatísticas liberadas pelo portal P ornhub, o maior portal de p∅rnografia do mundo. Até nosso prazer, onde o homem não tem espaço, é subvertido, colonizado e usado em prol do prazer masculino — desde que nos adequemos aos padrões de feminilidade e beleza vigentes. E é só para isso que servimos, o que ficou especialmente claro com a censura sofrida pelo casal formado por Estela (Nathalia Timberg) e Teresa (Fernanda Montenegro) — duas mulheres idosas — na novela Babilônia, que escandalizou o público com demonstrações de afeto, enquanto todas as reais imoralidades cometidas na novela foram aceitas como as coisas mais normais do mundo.

Apesar disso, de forma muito tímida e ainda muito insuficiente, estamos acompanhando algumas mudanças nesse quadro. Se, na minha adolescência, o máximo que se poderia conseguir com a nada saudosa internet discada eram fanfictions nas quais fãs tomavam o poder em suas próprias mãos e inseriam à força em suas obras favoritas a representatividade que sempre lhes foi negada — o que por si só já era um avanço com relação às gerações anteriores, que nem internet tinham —, atualmente existem cada vez mais modelos positivos e variados de mulheres lésbicas nas quais meninas e mulheres que não se sentem contempladas pela propaganda heterossexual onipresente possam se reconhecer e não se sentir tão sozinhas. Para que possam saber que existem muitas de nós por aí e que nossa sexualidade é tão real e válida quanto qualquer outra.

Não é à toa que nos últimos anos mais e mais atrizes e personalidades públicas vêm se assumindo como lésbicas e/ou se relacionando publicamente com outras mulheres. Esse é o resultado de um trabalho árduo de militância que permite que as pessoas reconheçam, aceitem e abracem, para si mesmas e publicamente, sua verdadeira sexualidade. Visibilidade não vai fazer com que pessoas que não sejam lésbicas se tornem lésbicas, mas pode ajudar com que mulheres que poderiam passar todas as suas vidas insatisfeitas e infelizes por não conhecerem sua verdadeira sexualidade ou não conseguirem admiti-la nem para si mesmas encontrem apoio e espaço para viver suas vidas de forma mais plena e verdadeira. Cada uma que se junta a esse movimento faz essa onda crescer, desde a atriz estadunidense Ellen Page, que saiu do armário em 2014 com um discurso emocionante e célebre durante uma conferência de direitos humanos e, desde então, tem militado pelos direitos das pessoas LGBT+, até as atrizes brasileiras Bruna LinzmeyerNanda Costa, que vivem abertamente suas relações com outras mulheres. Não é pouca coisa ter um casal composto por duas mulheres estampando a capa de uma revista de grande circulação, e falando abertamente sobre essa relação em reportagem que não seja para um veículo destinado ao público LGBT+. Não é tudo, não é o objetivo final, mas é um passo.

Tudo isso é muito importante e não são fatos isolados. Não podemos esquecer também que a novela global Malhação, voltada para o público adolescente, que está no ar desde 1995, teve seu primeiro casal composto por duas meninas em 2017. Lica (Manoela Aliperti) e Samantha (Giovanna Grigio), as personagens em questão são duas meninas adolescentes que vivem um romance e (naturalmente) se beijam em frente às câmeras. Uma das personagens principais da série Everything Sucks! da Netflix (Kate Messner, interpretada por Peyton Kennedy) é uma adolescente lésbica — mas a série foi cancelada apenas dois meses depois de a primeira temporada ter sido liberada. Nada disso acontece no vácuo e nada escapa das consequências. Vivemos um momento político intenso e conflituoso, em que os movimentos sociais em constante atividade se chocam com ondas conservadoras imensas. Emissoras de televisão e empresas de telecomunicação não são nada mais e nada menos do que empresas e, como tal, respondem à lógica do capital. Todos os ganhos em representatividade que temos são resposta a um mercado consumidor que passa a mostrar sua cara e exigir ser visto; ao mesmo tempo, a pressão contrária e os protestos do lado conservador podem sim dificultar o processo e nos fazer voltar algumas casas.

No meio disso tudo, representatividade é só uma parcela muito pequena daquilo que precisamos alcançar. Ainda existe um longo caminho a ser trilhado. Ainda precisamos conquistar direitos básicos, como o de permanecermos vivas. Precisamos continuar caminhando até o dia em que a sexualidade de nenhuma pessoa será realmente importante, mas antes disso precisamos passar pelo ponto em que as pessoas vão parar de presumir que qualquer pessoa é heterossexual, e pelo ponto em que casais não-heterossexuais vão ser tão representados em todos os lugares quanto os heterossexuais. Precisamos que a nossa própria existência pare de ser considerada ofensiva, ou ameaçadora ou desconcertante. Precisamos conquistar nosso direito a finais felizes. E isso não é e não pode ser feito só durante o mês de agosto. É um trabalho duro, incessante e desgastante, um trabalho que não pode ser interrompido. E não vai. Nós não vamos parar, não vamos voltar atrás. Esse especial que aqui se inicia é apenas uma pequena homenagem no meio de um movimento muito mais amplo e mais poderoso. Está dada a largada.

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** A imagem em destaque é de autoria de editora Paloma

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