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Ferrugem: o ponto de vista de uma garota exposta na internet é que importa

A sinopse de Ferrugem diz que o filme conta a história de Tati (Tiffany Dopke), uma adolescente de 16 anos prestes a ser vítima de revenge pørn. Vencedor do Festival de Cinema de Gramado em 2018, o longa dirigido por Aly Muritiba ganhou certo destaque por abordar a exposição não consensual de imagens íntimas de uma garota. Pørnografia de vingança, como a expressão em inglês costuma ser traduzida, é um tipo de violência contra a mulher que consegue provocar ainda mais estigmatização da vítima, seja ela uma anônima exposta pelo ex-namorado ou uma celebridade que teve o celular hackeado. O pensamento geral é que ela não foi obrigada a tirar fotos ou gravar vídeos, fez porque quis e agora deve lidar com as consequências. No pôster, a protagonista do longa curitibano aponta um celular para a própria cabeça, sugerindo uma pergunta para o espectador: como Tati vai reagir ao vazamento de um vídeo gravado apenas para ela e para ex-namorado, mas que agora está circulando na internet?

Atenção: este texto contém gatilhos sobre suicídio e revenge pørn, além de spoilers

Vejamos as opções dadas na ficção. Em Para Todos Os Garotos Que Já Amei, a vítima consegue tirar o vídeo do ar em relativamente pouco tempo e, na escola, o garoto popular, que também aparece nas imagens, faz um discurso no meio do corredor sobre como ninguém deve ousar abrir a boca para falar de Lara Jean (Lana Condor). Tudo se resolve e o episódio até vira piada. Parece bom demais para ser verdade. Logo no início de Segundas Intenções, o protagonista parece odiar tanto as mulheres que se envolve com a filha de sua terapeuta e espalha fotos da garota na internet só para prejudicar a reputação da família. Como o filme não é sobre isso, sequer sabemos o que aconteceu depois com a jovem. E, numa das tramas da minissérie Justiça, exibida pela Globo em 2015, um dos personagens principais divulga um vídeo em que uma estudante universitária aparece fazendo sexo com outro rapaz e ela comete suicídio na própria faculdade assim que fica sabendo do vazamento das imagens. Em todos esses casos, o sofrimento de uma personagem feminina é utilizado como recurso do roteiro para fazer a história avançar.

Dividido em duas partes, Ferrugem começa do ponto de vista de Tati. Numa viagem organizada pela escola, ela começa a se interessar por um colega de sala, Renê (Giovanni de Lorenzi). A paquera é clássica: olhares, curtidas nas redes sociais e uma conversa a sós depois de uma rodada de “eu nunca” numa festa. Eles ficam, mas entre um beijo e outro Tati percebe que perdeu o celular. Os amigos são convocados para ajudar a buscar o aparelho, sem sucesso, e a viagem acaba. De volta às aulas em Curitiba, a protagonista é interpelada pelas amigas assim que chega à escola. O vídeo dela e do ex-namorado, que estava salvo no celular perdido, tinha sido divulgado nos grupos de aplicativos de mensagem. Assim, ela não é apenas obrigada a lidar com os comentários ofensivos ditos nos corredores do colégio como também precisa descobrir quem encontrou o aparelho e divulgou as imagens. Ou, utilizando as palavras certas, precisa descobrir quem é o criminoso. No Brasil, ainda não existe uma legislação específica para o crime de divulgação de imagens íntimas sem consentimento e pouco se ouve falar de pessoas que foram punidas por divulgar ou compartilhar essas imagens.

O principal suspeito do filme é, claro, o ex-namorado que também aparece no vídeo, um rapaz que traiu Tati durante o relacionamento. O problema é que a protagonista também desconfia de Renê. Em determinado momento da noite em que eles ficaram, ela mostrava para ele algumas fotos do próprio celular até chegar no vídeo, momento em que resolve guardar o aparelho. Sim, ela faz isso de forma muito suspeita e Renê fica visivelmente curioso. Toda a sequência é um grande indício de quem seria o autor do crime, mas um caminho mais agradável seria acreditar junto com Tati quando ele, ao ser confrontado, diz que não tem nada a ver com a história. O ex-namorado também nega — não sem questionar se ela mesma não teria divulgado o vídeo como uma forma de se vingar dele, que já está namorando outra garota.

Ferrugem

Nessa conversa, também fica claro que a reação das pessoas é totalmente diferente em relação ao rapaz. Até comentam com ele sobre o vídeo, fazem algumas “piadas”, mas o maior problema que ele enfrenta é que a atual namorada fica incomodada com a história. Enquanto isso, Tati é ofendida verbalmente quando caminha pela escola e é assediada pelos garotos que acreditam que o corpo dela agora é público. A mulher é punida socialmente por explorar a sua sexualidade e por ter a intimidade exposta, mas o homem é vangloriado pelos mesmos motivos. Isso não é novidade para ninguém. É assim que começa a fase de solidão de Tati. Ela inventa uma gripe e consegue faltar aulas para fugir de todo o bullying machista que passa a sofrer depois do vídeo. Como é comum nesses casos, ela não tem coragem de conversar com os pais sobre o assunto (“eles vão me matar”, diz mais de uma vez). Uma de suas melhores amigas, ou alguém que aparentava ser sua amiga, nem conversa mais com ela direito por pressão do namorado, que não quer que ela tenha contato com esse tipo de garota, sabe?

Apesar de ter um começo um pouco diferente, já que normalmente a vítima sabe quem cometeu o crime, o caso retratado em Ferrugem é uma história comum. Ela não sabe a quem pedir ajuda, tem medo de decepcionar os pais e faz o possível para que eles não fiquem sabendo do que aconteceu. É um reflexo da dificuldade de entender que essas garotas são apenas vítimas. O slut-shaming que normalmente acontece depois de um caso desses é pesado, e realmente é difícil até de resistir à curiosidade mórbida de ver o que as pessoas comentam sobre o assunto nas redes sociais. A impressão é que nunca mais a vítima vai poder viver paz, nunca mais vai se ver livre dos olhares e dos comentários desconfortáveis.

O isolamento da protagonista é incômodo pelo medo de como ela pode reagir à situação. Tati passa horas encarando o vazio, checa os memes maldosos que publicaram sobre ela, chora no banho. Numa madrugada chuvosa, descobre na bolsa da mãe uma carta da escola convocando os responsáveis dos alunos para uma reunião extraordinária no dia seguinte. Provavelmente uma reunião para discutir o caso. Ela pega a arma guardada no criado mudo do pai, sem que ele acorde, e a coloca na mochila.

De vez em quando, aparecem nos jornais casos em que vítimas desse tipo de exposição cometem suicídio. Talvez por pena as pessoas pensem que foi errado ter visto ou compartilhado imagens privadas em situações parecidas. E, bem, depois é fácil esquecer a preocupação e julgar outras garotas e outras mulheres que passam pela mesma situação. Quem deveria passar pelo julgamento público é o culpado, a pessoa que queria demonstrar poder sobre o corpo de outra, tomando a decisão de divulgar imagens íntimas para prejudicar a reputação da vítima. Falar sobre preocupação com imagem pessoal parece datado, mas quem não se importa com as mensagens que transmite enquanto indivíduo de um grupo social? Mesmo num mundo em que algumas mulheres ganham bastante dinheiro para aparecer nuas em fotos e outras participem de ensaios fotográficos como uma forma de aceitar o próprio corpo, a mulher que tem a intimidade exposta por vingança ou por qualquer outro tipo de demonstração de poder ainda é tratada e julgada moralmente como se ela fosse culpada por destruir a própria reputação.

Ferrugem

Quando Tati leva a arma para a escola, pode-se pensar em duas alternativas à ideia do suicídio: uma ameaça aos demais estudantes para provocar pânico como um pedido de ajuda desesperado ou ainda um tiroteio como uma retaliação. Logo que a primeira aula começa e os corredores ficam vazios, ela sai do banheiro onde estava escondida, se posiciona em frente a uma das câmeras de segurança e atira na própria cabeça. Olhando diretamente ao centro lente para dar a impressão de manter contato visual com todos que vissem as imagens depois. É inevitável torcer para que ela não aperte o gatilho, para que a ameaça seja apenas um grito de socorro, para que ela consiga ver alguma saída para aquela situação, uma saída que não aquela. O caso retratado parece extremo ao mostrar uma vítima que teve que enfrentar a situação sem o apoio até da melhor amiga, mas é verossímil mesmo em tempos de todo um movimento em que mulheres compartilham suas histórias de assédio para que ninguém se sinta sozinha. Nem sempre a ajuda de estranhos é suficiente, e talvez a importância de Ferrugem seja a de alertar as pessoas que estão ao redor de uma vítima como Tati, principalmente amigos e funcionários de escolas, sobre como não agir em casos parecidos.

Na segunda e última parte do filme, o foco da narrativa muda para Renê. Logo fica óbvio que foi ele quem realmente divulgou as imagens, e o motivo de tê-lo feito sequer é explicado. Às vezes um ex-namorado quer punir uma mulher que terminou o relacionamento, mas em outras alguém pode decidir divulgar imagens que vão prejudicar tanto uma pessoa só por compartilhar com os amigos mesmo. Para sentir que tem algum tipo de poder sobre outros. Como parece fácil ser um homem inconsequente. Assim como a culpa de Renê é revelada rapidamente, percebe-se que ele é o verdadeiro protagonista da história, ocupando a maior parte do filme e tendo uma trama mais complexa. Em entrevista ao Adoro Cinema, o cineasta Aly Muritiba disse que a ideia inicial era realmente contar a história de um garoto responsável pelo vazamento de imagens íntimas de uma adolescente. Como fazer o filme com apenas um ponto de vista não seria suficiente para discutir devidamente sobre revenge pørn (“no contexto atual seria muito pouco”, explica o diretor), a parte sobre Tati foi incluída para cumprir tabela.

Ferrugem tem duas partes, duas perspectivas, uma vítima e um agressor. A primeira seção é mais curta, simples e direta. A segunda, mais complexa e tem uma duração maior. Dá para notar facilmente como o personagem de Renê é mais desenvolvido em comparação ao de Tati. Ela só existe enquanto adolescente que se relaciona com outros rapazes, enquanto vítima, enquanto suicida. Como uma foto em preto e branco de seu rosto pendurada na sala de estar da casa dos pais, sorridente e muda. Já Renê tem preferências musicais, até escreve umas letras em inglês de vez em quando e grava as próprias composições. A família dele aparece em tela e o drama doméstico é intrincado: a mãe saiu de casa há mais ou menos um ano e está grávida, o pai ainda não superou o abandono e só a filha mais nova mantém contato com ela.

Qual era a intenção do diretor ao fazer esse filme? Provocar um debate sobre revenge pørn, como ele sempre menciona em entrevistas, ou humanizar um agressor? Existem muitas obras de ficção sobre criminosos, feminicidas, assassinos em série, pedófilos. O problema não é ter um protagonista degenerado, mas fingir que a história é sobre uma garota para depois tratá-la superficialmente como fantoche para dar mais profundidade a um personagem homem. Por mais que alguns diálogos questionem as ideias correntes sobre vítimas — de que se a mulher já cometeu o erro agora tem que aguentar todas as consequências, mas na verdade deveria ter se dado o respeito para início de conversa —, fazendo com que o espectador se identifique com Tati, ao menos na primeira parte da história, no final percebe-se que o principal arco narrativo é o do impacto da situação na vida de Renê. Definitivamente, no contexto atual, isso é muito pouco. Enquanto os dramas vividos por mulheres são abordados apenas em segundo plano, o direcionamento de um roteiro para defender o agressor é inaceitável.

Sobre a repercussão do caso, um detalhe que chama atenção no filme é a celeridade do inquérito policial. Pouco depois do suicídio de Tati, os adolescentes que ajudaram a procurar o celular perdido são convocados para depor numa delegacia. Mesmo com a intimação realizada pelo correio, dois policiais vão atrás de Renê na praia onde ele estava passando o final de semana para garantir que ele iria ao depoimento na segunda-feira seguinte. O medo de sofrer violência institucional é, inclusive, um dos motivos que inibem as vítimas de formalizarem de denúncias, mesmo em delegacias especializadas. Quantas vítimas de revenge pørn você conhece? E, nesses casos, quantos homens foram responsabilizados pelo crime? Ver as instituições funcionando como deveriam é tão falso que parece uma provocação machista da trama. Como se a intenção fosse amenizar a morte da protagonista ao mostrar que as circunstâncias não eram tão ruins. E contribui para essa impressão o foco exagerado no processo de arrependimento de Renê. O roteiro força tanto a tentativa de transformá-lo num “mocinho” que fica impossível se comover com a culpa que ele passa a carregar. Até porque a atuação também não convence muito.

O suicídio em frente às câmeras é simbólico porque faz referência direta à exposição da intimidade de Tati. O olhar raivoso dela naquele momento parece dedicar aquelas imagens que ficarão gravadas no circuito de segurança a todos que não a respeitaram, que invadiram sua privacidade, que a ofenderam. O vídeo do momento do disparo acaba vazando também e o espectador é obrigado a ver a cena novamente, mas a partir do ponto de vista de Renê e de seu primo que, sem pensar duas vezes, assistem às imagens pelo celular. Tenho minhas dúvidas se uma cena tão forte não foi colocada apenas para chocar o público, mas esse não parece ser o caso de Ferrugem. Se o filme tivesse acabado naquela parte, a história de Tati estaria completa. O problema realmente está no que vem depois, quando Renê ocupa o centro da trama. Comparando as duas partes do filme, o final de Tati é um tiro na cabeça e o de Renê é um choro arrependido dentro do carro da mãe, parado em frente à delegacia onde vai depor. Romantizando a culpa que o adolescente inevitavelmente teria que carregar, o fim é tão dramático que chega a ser ridículo.

Ferrugem alcança de leve a proposta de colocar em pauta os problemas derivados de um caso de revenge pørn, mas a história funcionaria melhor como um curta-metragem que acabasse com a morte de Tati — ou com outro destino para a protagonista se a intenção do longa fosse ser mais didático. É torturante para alguém que já passou por uma situação parecida na adolescência ter que assistir a tantas tentativas de justificar as ações machistas de um garoto a partir de problemas familiares. Principalmente porque toda a crise doméstica gira em torno de uma mãe que sai de casa para descobrir quem ela se tornou depois de 17 anos abdicando da própria individualidade para cuidar da casa e dos filhos, algo dito numa discussão entre ela e o ex-marido.

Apesar de Aly Muritiba repetir em entrevistas e até na noite de premiação em Gramado que trabalhou com uma equipe majoritariamente composta por mulheres, a aparente diversidade não superou as falhas na abordagem do tema. Se for para assistir a um filme dirigido por um homem sobre o impacto de um caso de pørnografia de vingança que seja ao menos o drama Depois de Lúcia (2012), do cineasta mexicano Michel Franco. Como no longa brasileiro, a protagonista-vítima também não tem coragem de pedir ajuda ao pai e sofre calada numa situação ainda pior de bullying. São histórias angustiantes que mostram uma verdade: a parte mais difícil é ter que pedir ajuda.

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