Categorias: HISTÓRIA, LITERATURA

Olga: o século XX não foi protagonizado por homens

Com a primeira edição publicada em 1985 pela Editora Ômega, Olga é uma obra que conta a perspectiva da resistência comunista não pelos usuais olhos de Luiz Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança” como é chamado nos livros de história, mas pela trajetória de Olga Benário, sua companheira, amiga e cúmplice. Escrito pelo jornalista Fernando de Morais na época da transição para o governo democrático no Brasil, o livro teve um contexto que impulsionou o interesse pela sua história: foram 21 anos de ditadura militar, com perseguições políticas a opositores do governo, exílio de personalidades da cultura popular e censura de obras artísticas e literárias.

O jornalista Zuenir Ventura, em 1988, chegou a coletar dados a respeito dos vetos durante o período da vigência do AI-5: foram cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e mais de 500 letras de música. Após isso tudo, nasce Olga, livro-reportagem que nos coloca imerso no outro lado da luta armada comunista e que poderia deixar qualquer ditador militar com frio na espinha com sua circulação.

A história nos apresenta primeiro a Olga Benário de apenas 15 anos, nascida e criada em Munique, no sudeste da Alemanha, que já começava sua trajetória na resistência política pela Juventude Comunista, ligada ao Partido Comunista Alemão. Fruto de um lar burguês e uma família judia, Olga foi embora de casa com seu primeiro namorado, um dos líderes do partido, Otto Braun, e já tomava a frente de motins e convocações em praça pública. O grande feito, entretanto, viria em 1928, quando a alemã o resgatou da prisão, à mão armada, e os dois fugiram para Berlim, onde Olga passou a receber treinamentos de pilotagem, tiro, paraquedismo e estratégias de assalto pelo Partido Comunista.

A cerca de 12 mil quilômetros dali, em Buenos Aires, Luiz Carlos Prestes planejava sua volta para o Brasil para formar uma revolução popular durante o governo de Getúlio Vargas. Articulada pelo Intentona Comunista, é na União Soviética que os destinos do Cavaleiro da Esperança e Olga se cruzam e a narrativa de Fernando de Morais ganha força.

Olga Benário

Apuração

Logo na apresentação do livro, o autor nos conta seu método de apuração e seu desejo de ser o mediador da história de Olga, que ficou resguardado durante os anos de chumbo. Fernando de Morais pesquisou toda a historiografia marxista brasileira em busca de traços da comunista alemã, que frequentemente era resumida a “mulher de Prestes”. No que diz respeito às fontes, a maioria já havia morrido, e os que sobreviveram já estavam octogenários. Por sorte, Fernando de Morais conseguiu relatos do que poderia ser a principal fonte: o marido de Olga.

Prestes foi responsável pela cronologia dos fatos com uma memória quase que impecável, além de ter dado o esboço de algumas minúcias da personalidade de sua falecida esposa. Foram coleções de jornais, planilhas de voos, movimentos dos navios em portos e até mesmo uma viagem para, na época, a República Democrática Alemã, que cuidou da apuração dos fatos de maneira mais precisa, além de um acervo fotográfico que compunha o livro com imagens de Olga, Prestes, companheiros de guerrilha e documentos do casal.

Construção narrativa

No geral, a construção textual de Fernando de Morais é marcada pela falta de narrativa dita mais literária, ou “fluida”, o que pode ser desagradável em alguns momentos pela quantidade de informações factuais e descrições de documentações, patentes e ambientações. Além disso, Olga parece ser um livro escrito para amantes da história brasileira, principalmente por ter um enfoque na contextualização política e poucas vezes explorar o lado mais pessoal dos personagens, que só acontece depois da metade da leitura.

Há um distanciamento claro do narrador, que se limita a apresentar a narratividade de uma maneira mais objetiva, sem o uso de adjetivações ou trechos de imersão. O toque dramático da obra aparece, ironicamente, nos fatos. Aparece quando vemos Olga se colocar na frente de Prestes quando são descobertos pelo cerco de Filinto Muller na Rua Honório, aparece quando acompanhamos a deportação de Olga, então grávida, para Barnimstrasse, a prisão feminina da Gestapo e, por fim, aparece na temida página 315: a última carta escrita por Olga um dia antes da sua ida para a câmara de gás.

O impacto de Olga

A obra de Fernando de Morais correu por todo o mundo e sensibilizou muitos que não davam o nome da “esposa de Prestes”. Olga ganhou uma adaptação no cinema em 2004 pelo diretor Jayme Monjardim, com Camila Morgado interpretando a alemã e Caco Ciocler no papel do Cavaleiro da Esperança. Recentemente, algumas das cartas trocadas pelo casal, que estariam no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, a Aperj, foram descobertas por um catador de lixo em Copacabana e chegou nas mãos de um leiloeiro, que, em novembro deste ano, foi impedido pela justiça a prosseguir com o leilão.

Olga Benário

O livro que tenho em mãos e que me fez conhecer a trajetória de Olga Benário é o da primeira edição, de 1985, com capa dura e arte de Sylvia Monteiro. Um presente de um querido parente jornalista que me deu a obra quando iniciei minha graduação em jornalismo. Hoje, já com as páginas amareladas e com uma singela assinatura de 1988 do meu tio Udson, Olga me conduziu até a página 315 ainda com a esperança da narrativa me levar a um final onde a alemã viveria feliz com sua filha Anita Leocádia e Luiz Carlos Prestes. Contrariando uma ingenuidade por parte da leitora, Fernando de Morais foi autor de um livro lúdico, duro, ácido e ao mesmo tempo doce e fraterno, que mostra o lado mais humano do “Outro” no embate político e a importância de conhecer a ‘mulher’ por trás dos, até então, heróis da história.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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