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Skam e a representação da amizade entre garotas

Existem séries e séries. Entre tantos programas de televisão sendo lançados e muita coisa sendo consumida, poucas séries realmente se destacam e tocam nosso coração um pouco mais que o normal. Algumas histórias fazem você simplesmente gostar de (quase) todos os personagens e se importar com cada um deles para saber o que vai acontecer nos episódios; pensar e discutir sobre isso ao mesmo tempo que compartilha tal descoberta com todo mundo. Foi assim que Skam virou uma febre mundial em menos de dois anos.

Skam, que significa “vergonha” em norueguês, é uma série de drama juvenil criada pela NRK que estreou em setembro de 2015 e saiu dominando a Noruega, seu país de origem, e o mundo. Uma mistura de Gossip Girl, mas com pessoas mais gentis; e Skins, mas com uma estética bem melhor; essa série tem se espalhado como febre na internet pelo boca a boca e pelos gifs no Tumblr, Pinterest e outras redes sociais. Skam tem episódios que variam de 15 a 60 minutos e durante a semana são liberados online trechos do próximo episódio: uma das cenas características da série são os personagens em uma roda com amigos ou fazendo outra coisa enquanto trocam mensagens com outra pessoa que não está lá; tudo isso é para lermos, junto com o protagonista, sobre o que se trata tais conversas que são inseridas nas cenas/ imagens soltas no decorrer da semana. Nem sempre tudo que sai online acaba indo para série então temos a chance de voltar para época dos fóruns de Lost e diversas séries que te faziam tentar adivinhar o que ia acontecer procurando pistas e significados, porém, no caso, trata-se de “somente” uma série teen com uma abordagem diferente.

A história dos adolescentes que frequentam a Hartvig Nissen School, em Oslo, é focada em relacionamentos, festas e o dia a dia desse grupo de amigos. Os jovens são apresentados com uma melancolia que vem com o crescimento e fato de precisar lidar com a complexidade do mundo sem nunca trivializar os seus sentimentos. Cada temporada é focada em um personagem específico; a primeira nos apresenta Eva (Lisa Teige), uma menina de 16 anos que entra na escola tendo um relacionamento com Jonas (Marlon Valdés Langeland), seu namorado de longa data, mas sem nenhuma amiga. Acompanhamos ao longo da temporada o fim do seu namoro, a descoberta de um relacionamento com um novo grupo de amigos e o seu crescimento como pessoa. Assim, a primeira temporada é basicamente sobre relacionamentos, tanto amorosos como de amizade, e a descoberta da sua própria identidade.

Já na segunda temporada acompanhamos Noora (Josefine Frida Pettersen), uma menina independente, confiante, e forte que é muito leal as suas amigas e se sente desafiada por tentar resistir a William (Thomas Hayes) um dos “bad boys” da escola. É uma história realista de amor. Mas a temporada que deixou a série popular mundialmente — e a favorita entre a maioria dos fãs — é a terceira, que tem Isak (Tarjei Sandvik Moe) como personagem principal. Ele, que até então identificava-se como heterossexual, se apaixona por Even (Henrik Holm), que está em um relacionamento com uma menina, mas aos poucos vai se revelando para si e seus amigos. O romance entre Even e Isak é belíssimo de ver, assim como a forma com que as pessoas em volta lidam com a homossexualidade dos colegas. O tema foi explorado de uma forma realista e simples ao mesmo tempo, mostrando o amor sem precisar focar no fato de que é entre dois homens, mas sim como jeito que deveria ser tratado: como amor e nada mais.

A quarta e última temporada tem como personagem principal Sana (Iman Meskini), uma muçulmana super inteligente que sempre tem algum conselho para dar e respostas rápidas na ponta da língua.

A quarta temporada é a que mais se distancia do padrão das séries teen, por abordar uma religião completamente diferente do que estamos acostumados a ver em séries por aí. Sana não somente tem que lidar com a forma como o mundo olha para sua religião e, consequentemente, para ela, mas também com seu dia a dia na escola e com o fato de se apaixonar por um garoto que não é muçulmano. Cada episódio tem músicas atuais, diálogos que não parecem que foram escritos por pessoas de 40 anos, e um roteiro que é voltado em conhecer aqueles personagens a fundo, seja por situações que eles estejam passando, sentindo e até mesmo conversando. Acima de tudo ela soube falar por um tema pouco falado em séries jovens atualmente: a amizade. Principalmente entre meninas.

Aviso: este texto contém spoilers!

Na época da escola, nunca fui de ter muitos amigos, pelo contrário; sempre passava meus finais de semana brincando sozinha de boneca, lendo, assistindo filmes da Disney ou jogando jogos de tabuleiro contra eu mesma. As coisas começaram a mudar somente na sexta série, quando realmente me senti querida por algumas pessoas, mas foi preciso me formar no colégio e começar a conhecer pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu para saber o que era realmente ter um grupo de amigas. Pessoas que eu sentia que podia me identificar e conversar sem medo de ser julgada; que, mesmo sendo diferentes de mim, ainda me aceitavam do jeito que eu era, da mesma forma que eu as aceitava.

Assistir Skam e a amizade entre essas meninas foi me deu um sentimento agridoce por sentir uma leve inveja das personagens, visto nunca tive nada remotamente parecido com isso na adolescência, com uma felicidade por saber que hoje em dia a amizade entre meninas adolescentes está sendo retratada de uma forma boa, influenciando positivamente o público. A fórmula da amizade de Skam é simples: elas são verdadeiras umas com as outras. São pessoas diferentes, cada uma com seus problemas, porém são sinceras e confiam em suas amigas para mostrar seu medos e inseguranças sem se preocupar com julgamentos. Parece absurdo pensar que é uma série de jovens onde nenhuma menina competiu com outra em relação a nada, principalmente meninos. Mais surpreendente é pensar que nenhuma delas traiu, mentiu ou fez algo que pudesse machucar alguma amiga por puro egoísmo.

Vilde (Ulrikke Falch) é uma menina ingênua cuja única preocupação é ser aceita pelos populares e se encaixar. Chris (Ina Svenningdal) é engraçada e muito simpática, inclusive acaba sendo o alívio cômico do grupo. Eva, recém saída de um relacionamento, está tentando se encontrar após uma mudança brusca na sua vida. Sana é completamente honesta e leal aos seus amigos, ao mesmo tempo que precisa saber os limites entre sua religião e o que é certo ou errado, para ela, na cultura dos jovens noruegueses. Noora é protetora, sincera e atenciosa, porém muito fechada com seus próprios problemas. Olhando assim, cada uma parece estar vivendo a sua jornada particular, mas conhecendo cada uma conseguimos ver por que todas são essenciais uma para outra.

No início da série podemos ver todas se encontrando, batendo de frente uma com a outra enquanto tentam entender suas diferenças, mas logo se apoiando. “Nós somos as maiores perdedoras nessa escola”, diz Sana logo no início da série. Vilde, que inicialmente não gosta de Sana, tem o primeiro porre da sua vida tentando impressionar um menino, e é Sana quem a carrega de volta para casa e a defende de outras meninas, enquanto o resto das amigas levam suas coisas. Quando contestada, Sana somente responde que “é o que amigas fazem”. São muitas as faces dessas amizades: seja Noora percebendo que Vilde tem distúrbios alimentares ou Eva começando a beber muito depois que termina seu namoro; Noora cuidando da amiga muitas vezes; Sana escutando Noora desabafar para alguém que está apaixonada pela única pessoa que não poderia estar; Chris apoiando Sana quando a mesma confessa que fez algo de errado que pode ter prejudicado Vilde e o quanto está arrependida.

Não é somente de dramas que vivem as meninas de Skam e temos episódios focado na amizade das cinco indo passar um feriado em uma cabana, acompanhando uma delas na ginecologista, escutando música no mesmo fone e dançando, ou momentos de declarações, agradecimentos e carinho sincero (e até um pouco de queerbating). São cenas simples que passam durante toda série que mostram exatamente a ligação que cada uma das personagens vai criando uma com a outra. Momentos especiais que você passa com as suas amigas e que anos depois você vai lembrar, sentindo saudades das pequenas coisas que faziam juntas. Infelizmente, Skam, por melhor que seja, nunca foca na amizade delas como tema principal, mas assim como na vida de qualquer pessoa ela faz grande parte do dia a dia de cada um, de alguns mais do que de outros.

Em nenhum momento a amizade entre elas é perfeita: existem discussões, problemas e falta de diálogo entre todas. Como em qualquer amizade, nós abrimos mão de algumas coisas, passamos por cima dos sentimentos de quem amamos mesmo sem perceber, assim como também reconhecemos nossos erros e deixamos o orgulho para trás. Durante quatro temporadas assistimos todas as personagens amadurecerem e passarem por situações boas e ruins. Não importa quem esteja contra elas e até mesmo se não concordam com o que uma faz, elas sempre estão dispostas a dialogar, ajudar e a cuidar umas das outras. Ainda nos dias de hoje, a amizade em uma série de televisão, principalmente entre meninas, é sempre discutida de uma forma incrivelmente superficial. Não existe a possibilidade de mulheres serem amigas sem em algum momento mentir, ferir, trair ou abandonar uma a outra por algum motivo — geralmente homens. É bem diferente da representação de uma amizade entre homens, que tem até um termo específico: bromance. Qual seria o termo específico para amizade entre mulheres? As chamadas são sempre algo referente ao famoso “amigas e rivais”.

Assistir aos personagens evoluírem, mudarem e experimentarem coisas novas é uma das partes mais interessantes de uma série de televisão; porém, poucas vezes você contesta a que custo existiu esse crescimento e do que foi preciso abrir mão. Por muito tempo, a vida da grande maioria das mulheres na televisão, principalmente nas séries juvenis, foi marcada por personagens solitárias que estão rodeadas de personagens masculinos ou de amigas que na verdade não são tão amigas assim.

A parte triste de tudo isso é imaginar que esse é um dos pontos que aclamam tanto a série. O fato da amizade entre mulheres ser mostrada como ela realmente é: uma rede de apoio. Saber que existem pessoas que estão ali independente da diferença, que mesmo não concordando com tudo que você faz, te aceitando do jeito que você é e defendendo de tudo e todos. Amizade, principalmente entre nós, nunca foi e será algo simples, mas é uma das maiores armas do mundo porque juntas nós somos fortes. Juntas nós temos o poder de mudar o mundo.

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2 Comentários

  • Responda
    Marcello Negreiros
    1 de agosto de 2017 at 11:26

    Essa série realmente é sensacional!

  • Responda
    Lua
    6 de setembro de 2017 at 12:35

    Espero que as relações entre mulheres fiquem mais fortes, e paremos de nos ver como rivais.

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