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As heroínas que “enlouqueceram”: uma reflexão sobre as jornadas de Daenerys Targaryen e Clarke Griffin

Começo esse texto falando que, apesar de gostar muito da personagem Daenerys Targaryen, vivida por Emilia Clarke na série Game of Thrones, entendo muito bem os tropos problemáticos no qual ela foi construída (tanto nos livros quanto no seriado). Ao contrário de Dany, e dos sentimentos controversos que sempre nutri pela personagem, Clarke Griffin (Eliza Taylor), protagonista de The 100, sempre foi uma das minhas personagens favoritas durante muito tempo, e por mais que muitas de suas ações para salvar “seu povo” fossem problemáticas, torci para que ela encontrasse um final feliz: amor, família e um senso coletivo de comunidade que não colocasse um peso tão grande em seus ombros — mesmo que esse cenário fosse pouco provável. 

Se meus sentimentos são diferentes em relação às duas personagens, é impossível ignorar algumas semelhanças que existem entre elas: ambas são líderes naturais, resilientes, mulheres com uma grande quantidade de poder e que não hesitam em fazer o que for preciso para alcançar seus objetivos. Mas não existe nada além que as conecte. As duas vêm de contextos completamente diferentes. Daenerys, de uma série de fantasia, nascida em um universo onde magia existe e o jogo pelo Trono de Ferro é o que move cada um dos personagens, inclusive ela mesma; é parte de uma dinastia chamada Targaryen, do qual, no ponto em que a série tem início, apenas ela e seu irmão, Viserys (Harry Lloyd) são sobreviventes. Seu pai foi morto em um golpe de estado e Viserys sente que, por direito, o Trono de Ferro lhe pertence — o que coloca ambos em uma jornada que os leve diretamente para lá. Já Clarke é parte de uma série sobre um futuro distópico, onde o conceito de magia era refutado pela ciência em cada uma de suas tramas (até a última) e temas como sobrevivência ou o limite aos quais os humanos podem chegar para proteger as pessoas que amam e a si mesmos eram uma discussão central. Nenhuma das duas foram criadas e desenvolvidas em contextos otimistas e alegres, e sofreram por isso.          

Apesar de terem sido figuras diferentes, moldadas em contextos diferentes, recentemente foi possível traçar um paralelo entre a trajetória de ambas e a forma como suas respectivas narrativas as colocaram em situações extremas em que perdessem todo o seu desenvolvimento prévio, adotando atitudes extremistas e imperdoáveis — o que não teria sido um problema se tudo tivesse sido feito com calma. Ao invés disso, porém, a história apela para estereótipos preocupantes, uma escrita preguiçosa e até mesmo uma dose do velho machismo, tão comum entre showrunners homens que gostam de encher a boca para falar que construíram personagens feministas fortes.

Não pretendo, com essa reflexão, julgar as ações das duas; o que fizeram certo ou errado ao cruzarem a linha que as levou a “loucura”, mas justamente entender o que aconteceu dentro da própria narrativa para que elas chegassem a esse ponto e como essas escolhas foram influenciadas por fatores externos, conforme apontado anteriormente. E entender que, apesar de as duas histórias terem terminado em pontos extremos e muito distintos entre si, não existe muita diferença na forma como a trama reduziu o que antes eram duas personagens interessantes e, até certo ponto, bem construídas, para apenas uma sombra do que um dia foram.        

Fogo & sangue

Tenho o costume de lembrar exatamente o momento que escolhi acompanhar certas histórias, e porquê. Em Friends, por exemplo, lembro de ser criança e ver Rachel (Jennifer Aniston) ir até Londres para impedir o casamento de Ross (David Schwimmer), mas desistir ao chegar lá e ver que ele está feliz e apaixonado. Os dois se abraçam em uma cena anticlimática e cheia de sentimentos não ditos, e é basicamente isso. Apesar de só ter visto a sitcom anos mais tarde, essa cena sempre ficou na minha cabeça como a que me fez amar a série. Uma coisa parecida aconteceu com Game of Thrones. Sem ter tido contato com os livros até então, durante a terceira temporada da obra peguei o episódio “And Now His Watch Is Ended” passando de forma aleatória na TV. Na ocasião, Daenerys passa o capítulo inteiro tentando fechar um acordo com um comerciante em Valyria para adquirir um exército de imaculados, escravos. Ela doa um dos seus dragões e em troca consegue o que quer. Lá para o final da transação, e quando tudo parece estar finalizado, Dany não só revela que sabe falar a língua do comerciante, algo que ela tinha negado até então, como também usa o dragão que deveria dar na troca e queima todos os homens que “seguram o chicote” — quanto também utiliza pela primeira vez o termo “dracarys”. Não só ela leva o seu exército (porque ao oferecer liberdade eles decidem ser leais a ela) como também fica com o seu dragão, um pouco mais perto de atingir seu principal objetivo: voltar para Westeros e conquistar seu trono por direito de nascença. 

Na época em que essa cena foi ao ar, e eu comecei a me interessar pelo universo da série e principalmente dos livros, não entendi muito bem os problemas ali. No auge dos meus 17 anos, nem sequer considerei o tropo dos “salvadores brancos” e toda essa questão, ou nem sequer as ações da personagem em si. Tudo aquilo foi vendido como uma vitória. A música, a forma como a cena se desenrola… tudo construído para o público torcer por Dany, ficar feliz por ela estar no caminho certo. Quando ela grita “dracarys” e queima os chefes do tráfico, é tão catártico que me fez querer começar o seriado e torcer por ela. 

Esse tampouco foi o primeiro evento construído para ser visto dessa forma. No final da primeira temporada, por exemplo, Daenerys literalmente queima viva a mulher que lhe deu um golpe, fazendo com que ela perdesse seu filho e o marido. Queimar alguém daquela forma é, no mínimo, uma escolha complicada. E apesar desse também ser vendido como um momento de vitória, não deixa de ser algo chocante e cruel; a atitude de alguém que não tem medo de cruzar linhas para conseguir o que quer e chegar um pouco mais perto de seu objetivo.  

A verdade é que, durante as primeiras temporadas e antes de partir para Westeros, Daenerys teve várias atitudes drásticas. Ela tinha seus objetivos traçados e para alcançá-los escolheu caminhos violentos e alianças problemáticas, mas ao mesmo tempo também sempre mostrou preocupação com o legado de seu pai, conhecido como o Rei Louco, e apesar de ser “impiedosa”, sempre tentou mostrar também seu lado empático. Sempre ouviu seus conselheiros, se manteve rodeada de pessoas com opiniões distintas das suas e até mesmo trancafiou seus dragões quando as coisas estavam saindo do controle nesse aspecto. Apesar dos pesares, ela se tornou uma personagem interessante e ambígua, constantemente em conflito com seu legado, sua natureza e a pessoa que gostaria de ser. 

É por isso que, na última temporada, ao perceber o caminho que os showrunners da série, David Benioff e D.B. Weiss, estavam tomando, tudo pareceu tão estranho de acompanhar. As coisas começam a mudar quando Dany conhece Jon Snow (Kit Harrington) e é convencida a lutar pela causa que realmente importava: a guerra contra o Rei da Noite, líder dos Caminhantes Brancos. Segundo Snow, não havia chance de existir um Trono de Ferro se as pessoas não se juntassem para eliminar o que, até aquele momento, era o grande vilão da série. Daenerys escolhe ajudá-lo, algo que condiz com suas decisões dentro do contexto da série, e é acompanhada de seus três dragões, do exército que conquistou sozinha do outro lado do oceano e parte de Winterfell, que ela caminha para colocar um ponto final nessa parte da história e só então partir para aquele que havia sido seu objetivo desde o princípio. O problema é que, quanto mais ela tenta, mais ela perde.  

Em um espaço de poucos episódios, Dany perde sua melhor amiga, seu fiel escudeiro e a única pessoa que ficou com ela até o final; uma grande parte do seu exército e, o que mais pesa para ela, dois de seus dragões — que ela considerava como seus filhos. É quase como se a narrativa a estivesse punindo: apesar de ter escolhido fazer a coisa certa e lutar para acabar com os Caminhantes Brancos, sua recompensa é a perda de absolutamente tudo o que ama. Mesmo assim, ela mantém seus conselheiros ao redor, a quem escuta e, apesar de discordar deles, ordena que encontrem outra forma de contornar a situação para que ela não precise agir de maneira mais incisiva. No processo, cria a persona louca; a série faz com que a personagem, que se tornou especialista em criar estratégias de guerra e tem as melhores pessoas ao seu lado para isso, se esqueça dos comandos mais básicos, como liderar exércitos e até mesmo os seus aliados, as pessoas que estão lutando pela sua causa — tudo para que os sentimentos de perda e solidão cresçam nela; o que tampouco é condizente, porque, mais uma vez, tudo é feito com pressa, sem atenção e cuidado aos detalhes.       

De acordo com os dois criadores, sempre existiram pistas de que seu desfecho estava gravado em pedras desde o começo. Mas isso é verdade? Se pararmos para analisar, as pistas estavam ali: ações como queimar uma mulher viva eram, de fato, problemáticas. Dany poderia ter seguido outro caminho, um mais benevolente, talvez; algo menos impactante e cruel, com certeza. Mas, ao mesmo tempo, Dany só tinha feriado e matado aqueles que ou tinham se colocado no seu caminho e a prejudicado, ou pessoas poderosas que comandavam esquemas como o tráfico de escravos. Se é verdade que suas boas intenções não justificam os meios, é verdade que a narrativa sempre vendeu sua personalidade dessa forma: bruta, porém justa. Mais do que isso, todos os momentos em que ela usava seus dragões e a violência na mais pura forma foram enquadrados como um triunfo. E se a narrativa constrói como alguém por quem se deve sentir e torcer, é assim que as coisas serão.

Nada teria sido tão difícil de engolir se as últimas temporadas não tivessem se desenvolvimento tão rapidamente. Se a trajetória de Dany não tivesse sido finalizada às pressas e a personagem não fosse reduzida apenas a uma sombra de quem foi um dia. Seja por falta de orçamento, episódios ou até paciência dos criadores, Daenerys perdeu absolutamente tudo o que lhe era importante de uma hora para outra. E no processo de luto, tomou decisões impulsiovas e duvidosas. Ao mesmo tempo, seus conselheiros, ao invés de estarem ao seu lado, logo começam a conspirar pelas suas costas — sendo que, antes, consideravam Dany a salvação dos Sete Reinos. Até aquele momento, no entanto, nenhuma de suas ações tinham sido alarmantes a esse ponto. Sim, Dany queimou os Tarly e as consequências da guerra, a partir de então, passariam a ser mais bem exploradas pela série como algo horrível e triste ao invés de glorioso. Mas até que ponto as ações de outros personagens também não foram terríveis e cruéis?

Arya (Maisie Williams) literalmente se torna uma assassina e busca vingança pela sua família, eliminando várias pessoas, às vezes até inocentes. Sansa (Sophie Turner) alimenta os cães de Winterfell com Ramsay Bolton (Iwan Rheon). Tyron (Peter Dinklage), aquele que achou pertinente conspirar contra uma Daenerys supostamente tirana, matou sua ex-amante e prostituta enforcando-a e, depois, o próprio pai. A diferença entre esse momentos para todas as decisões que Dany tomou nas duas últimas temporadas da série é somente a forma como eles são tratados pela narrativa: como os momentos vingança e crueldade de Daenerys nas primeiros temporadas, as ações de Arya, Sansa e Tyron são tidas como catárticas e poderosas, são consideradas vitórias. Quem não gostaria que Ramsay sofresse depois de estuprar Sansa? Ou que Lorde Frey fosse morto pelas mãos de Arya depois de assassinar de grande parte da família da menina no Casamento Vermelho?  São ações impiedosas e, com toda a certeza, cruéis, mas também muito parecidas com aquelas tomadas por Daenerys. 

O ponto de virada da personagem acontece quando ela finalmente chega a Porto Real para enfrentar Cersei (Lena Headey). Mesmo após a cidade se render, Daenerys escolhe pegar o seu dragão e queimar uma cidade inocente, cheia de pessoas movidas pelo medo, presas em um conflito que não necessariamente tinha a ver com elas. Quando queima a cidade, Dany passa de uma mulher com decisões ambíguas para alguém que literalmente cometeu um crime de guerra. É fácil falar que “Dany sempre iria enlouquecer, por causa do história do seu pai. Além disso, os indicativos estavam ali o tempo inteiro” porque tira toda a responsabilidade da narrativa de realmente criar esse desenvolvimento de uma forma satisfatória. 

Uma coisa que sempre amei em Lost era que a série usava de recursos como flashback, flashforward e foreshadowing não para contar sua história com meias verdades, mas para explorar os personagens. Quem eles eram, quem são e como eles podem melhorar. Esses recursos eram apenas isso, um recurso. No caso de Dany, no entanto, o que era apenas para ser algo usado pela narrativa para ajudar a contar sua história, se tornaram toda a base de seu desenvolvimento. Os foreshadowings (os fragmentos da história que ainda estavam por vir) que a narrativa deu nas primeiras temporadas se tornaram a justificativa para determinar sua ação e isso não é suficiente.

Game of Thrones e The 100 são séries completamente diferentes, mas possuem algo em comum: ambas se esqueceram de criar arcos satisfatórios para os seus personagens e apenas começaram a usar a morte como uma narrativa expositiva feita para chocar — e nada mais. É por isso que o arco de Daenerys é tão frustrante: queimar Porto Real não foi um payoff merecido, mas feito exclusivamente para deixar o público sem palavras e dizer “bom, agora ela realmente não tem mais chance”. Porque, afinal, queimar uma cidade que já tinha se rendido é realmente imperdoável. O ato de uma tirana. Mas para chegar nesse ponto, era necessário passar por vários outros, que foram cortados da história para criar outros momentos de choque, mas sem grande significado em termos de desenvolvimento.

Peguemos como exemplo a morte de Ned Stark. Vivido por Sean Bean, o personagem foi, durante a primeira temporada, considerado o grande protagonista de Game of Thrones. Sua trama estava no centro da disputa pelo Trono de Ferro e, mesmo assim, Ned acaba morrendo. Quando isso acontece, no nono episódio, é um momento chocante, triste e revoltante. Mas esses sentimentos só existem porque, de muitas formas, a narrativa desenvolvera seu destino de forma apropriada, deixando claro que ele iria morrer. Não apenas como foreshadowing, mas trabalhando esse desenvolvimento em cada um dos episódios até o momento final. Ned subestimou seus colegas em Porto Real, não deu atenção a Cersei, não percebeu a crueldade tão presente em Joffrey (Jack Gleeson). Acreditou que seu amigo Robert (Mark Addy), Rei de Westeros à época, havia escolhido uma companheira leal, confiou suas filhas ao reino e, no processo, perdeu absolutamente tudo, inclusive sua cabeça. Sua morte, não por acaso, foi o estopim de vários outros eventos importantes dentro da série: é a partir dela que Robb Stark (Richard Madden) se declara Rei do Norte, toma várias decisões erradas e inconsequentes, morrendo no Casamento Vermelho. E assim vai. Ou seja: nada é leviano ou usado apenas para causar impacto.        

Em entrevistas para diferentes veículos, George R. R. Martin, autor de As Crônicas de Gelo e Fogo, obra literária que inspirou a série, reclamou sobre a forma como adaptações pegam um material que é rico e profundo, transformando-o em algo raso e sem vida. Concordo com ele: apesar de ser uma pessoa do audiovisual e não acreditar que adaptações precisem ser fiéis ao material de origem, acredito que uma boa parte da essência da história original acaba se perdendo no processo. Game of Thrones não é diferente. Durante muito tempo, não consegui esquecer que, nos primeiros capítulos de Daenerys, por exemplo, ela se casa com um homem desconhecido, de uma cultura completamente diferente da sua, mas que não a força ao ato sexual até que ela dê seu consentimento — algo que, no futuro, serve também para aprofundar o relacionamento entre eles e o amor improvável que nasce daquela união. Enquanto isso, na série, Dany é estuprada por Khal Drogo (Jason Momoa) e fica por isso mesmo.  

Com essa nota, pode ser que o final de Daenerys nos livros seja o mesmo? Talvez. É uma possibilidade real que Martin tenha contado para os showrunners qual seria o seu destino final e eles terem trabalhado a partir disso. O que não quer dizer que ele será ruim, mas que com certeza será diferente. E mais honesto. E talvez um encerramento mais digno para uma personagem que se tornou amada, aclamada e acabou destruída pela própria narrativa. O fato de Daenerys ter “enlouquecido” foi uma escolha barata e preguiçosa, que se tornou ainda pior porque ninguém estava realmente interessado em investir naquele drama. Nada pareceu orgânico, apenas uma série de eventos que foram se desenrolando sem sutileza ou verdade, somente para chegar naquele momento final, quando ela queima Porto Real e a Dany que conhecemos é morta para sempre. Se nem os criados estavam envolvidos com a história a ponto de tomar tempo para desenvolver a trama, por que o público estaria, então?  

“Eu aguento para que eles não precisem” 

Se o final de Daenerys foi terrível, ele não chega nem perto da bagunça do desfecho de Clarke Griffin na sétima e última temporada de The 100 — e, de maneira muito pessoal, isso dói mais, já que nunca amei Dany da forma como torci e amei Clarke. Com ela, as coisas foram diferentes nos detalhes, mas a forma como a personagem foi reduzida e apresentada, não como uma pessoa multidimensional e racional, mas um estereótipo, é bem semelhante.   

Clarke sempre foi a líder dos 100 delinquentes juvenis que desceram para a Terra em busca de um novo lar para a humanidade. Tomando decisões difíceis e até mesmo cruéis, a responsabilidade de ser uma mulher tão jovem, mas com um peso enorme nos ombros, foi algo que sempre influenciou a personagem e fez com que ela se tornasse uma pessoa solitária e privada constantemente de criar laços em sua vida pessoal. Clarke perdeu o pai, sua amante, Lexa (Alycia Debnam-Carey), seus amigos e, em certo momento, até ela mesma. Seu lema se tornou “eu não aguento mais para que eles não precisem” e, durante muitos anos, essa foi a mais pura verdade. Julgada e excluída por suas decisões, a única constante em sua vida sempre foi Bellamy (Bob Morley), que oferecia uma espécie de apoio para que ela não enfrentasse tudo sozinha. Entretanto, mesmo nas horas mais complicadas, Clarke nunca matou ou machucou pessoas que estavam no fogo cruzado, que eram inocentes. 

Muito como Daenerys, Clarke sempre foi uma personagem ambígua e complicada. Ela tinha um objetivo em sua mente — proteger o seu povo — e não media esforços para alcançá-lo, mesmo que tivesse que tomar decisões violentas no caminho. Mas ela nunca foi irracional, impulsiva ou até mesmo injusta — o que muda completamente na sétima temporada, arruinando todo o seu desenvolvimento como personagem. 

Clarke Griffin

No final da quarta temporada, Clarke acaba ficando para trás na Terra para dar a oportunidade aos seus amigos de chegarem até o espaço, onde eles passariam os próximos seis anos. Assim, Bellamy e os outros acabam achando que ela está morta, mas o que acontece na verdade é que Clarke passa todos esses anos sozinha, fazendo ligações para Bellamy na tentativa de manter um único fio de sanidade. Até encontrar Madi (Lola Flannery) e se tornar mãe, assumindo todas as responsabilidades sobre a menina.

A quinta temporada da série está longe de ser perfeita, mas tentou abordar o fato de que Clarke tinha seus amigos de volta, mas suas prioridades tinham mudado com a maternidade. Desesperada para proteger Madi, ela toma decisões absurdas, como deixar Bellamy para morrer e trair todas as pessoas que antes eram importantes para ela, além de colocar um colar de choque em Madi para controlá-la — o que, de certa forma, fazia algum sentido naquele contexto. Não deixa de ser abusivo e problemático, mas é possível entender a loucura na cabeça da personagem, mesmo que isso não justifique suas ações. Depois de passar anos apenas com Madi, ela entende que a menina é sua prioridade, que ela não existe além disso. Sua jornada, então, passa a ser tentar colocar sua visão em perspectiva e reencontrar o caminho para se tornar uma mulher completa outra vez e que não se limitasse ao papel de mãe.     

Durante a sexta temporada, as tramas reforçam esse aspecto. Clarke parece entender que Bellamy, afinal, também é parte de sua família e que ela não pode perder isso de vista outra vez. A narrativa, inclusive, vai além para reforçar não só o quanto eles são importantes um para o outro, mas também o quanto Clarke quer ter uma vida completa e lutar pelo seu direito de viver. Ela nunca deixa Madi de lado, mas, aos poucos, começa a entender que existem outras pessoas ao seu redor e que ela não está mais sozinha na Terra. Mais do que isso, Clarke quer fazer do mundo um lugar melhor, sem a violência e o egoísmo que moldaram as ações dos protagonistas durante cinco temporadas. Quando Josephine Lightbourne rouba seu corpo para utilizá-lo como reciepente para sua mente, Clarke luta para expulsá-la, para viver. E encontra seu caminho mais uma vez, provando que tinha um senso de autopreservação e estima intactos, ainda que a narrativa fizesse de tudo para excluir a personagem. Na sétima temporada, no entanto, todo esse desenvolvimento foi jogado no lixo e Clarke se torna uma versão piorada do que era no quinto ano da série em relação a Madi — se é que isso é possível.

O último ano de The 100 começa com Clarke tentando lidar com a morte da mãe e organizando Sanctum, que acaba queimando quando ela tem uma crise nervosa motivada por todas as suas perdas. Quando descobre que seus amigos sumiram, Bellamy incluso, a narrativa faz com que ela pegue o caminho da Anomalia (uma espécie de ponte entre vários planetas) e vá procurá-los. Na sua jornada, ela e Raven (Lindsey Morgan) conversam sobre o fato de que Clarke nunca quebra — o que, no entanto, não é verdade; sua tentativa de suicídio quando fica sozinha na Terra é um exemplo disso. Foi difícil entender porque a narrativa havia colado esse momento no episódio, já que não era algo real. Mas logo fica claro para o que ele serve: é uma espécie de indício do que viria a acontecer com ela. O que não é suficiente. Um foreshadowing. Não foi suficiente no caso de Dany e tampouco é aqui.  

Clarke Griffin

Quando Clarke finalmente chega em Bardo, ela descobre que Bellamy morreu só para, alguns episódios depois, descobrir que, na verdade, ele não morreu, apenas se juntou ao culto do vilão da temporada, Cadogan (John Pyper-Ferguson), que acredita que a humanidade irá transcender e finalmente encontrar paz. Por causa do período que Bellamy passou separado dos amigos e do que descobriu ao encontrar uma luz (que ninguém sabe direito o que é, mesmo depois da série ter terminado), ele passa a agir com Cadogan e tenta convencer seus amigos de que o vilão está certo. Para isso, eles têm que encontrar o chip dos comandantes que estava com Clarke e, mais tarde, com Madi. Sem estar disposta a deixar a filha passar pelo interrogatório, ela mata Bellamy e foge com Madi para a Terra. Um episódio mais tarde, porém, Madi se rende para Cadogan e tem morte cerebral. No momento de desespero, Clarke chega perto de matá-la por “piedade”, sem nem mesmo considerar outra alternativa. No capítulo final, intitulado “The Last War”, Clarke busca, então, vingança e sai em uma espiral de loucura matando todo mundo que vê pela frente — o que, como apontado anteriormente, nunca foi uma característica da personagem, como também não era de Daenerys.    

Assim como Daenerys acaba morta pelas mãos de Jon Snow como uma punição por suas ações, Clarke falha no teste de transcendência e acaba sozinha na Terra, como um castigo por todas as suas escolhas no último ano. Sua jornada durante a sétima temporada, porém, não faz sentido. O fato de que, na sexta temporada, ela trabalhe para fazer escolhas melhores e, junto com Bellamy, tenta encontrar formas de não ceder ao mesmo padrão de egoísmo, violência e ódio que os cercam, demonstra o quanto Clarke regride no ano seguinte. Ao invés de seguir com o arco que vinha sendo traçado para ela, e até mesmo para seus companheiros, a narrativa decide voltar atrás ao ponto de limitá-la apenas ao seu papel como mãe. É comum vê-la afirmando que Maddi é tudo para ela. “Sem Madi não sou nada”, ela diz. E apesar da declaração ser triste e solitária, é também a mais pura verdade. A narrativa não permite que Clarke seja nada além, tornando impossível para ela viver fora do eixo da maternidade, por fim criando uma retratação problemática do que é ser mãe. Assassinar seu melhor amigo, e uma das pessoas que sempre estiveram ao seu lado, só para garantir proteção por uma ameaça que não existia não é normal. Colocar um colar de choque em uma criança para poupá-la de tomar decisões que você considera perigosas também não.      

Se o grande problema com o arco de Daenerys é que nada ali parecia ter sido suficiente para justificar uma mudança tão grande, o de Clarke, antes uma personagem cheia de vida e nuances, é ser reduzida ao ponto de se tornar unidimensional. O caminho para sua iminente loucura estava traçado: as perdas que ela sofre, o que é obrigada a fazer. Mas tudo isso não seria necessário se Clarke não houvesse sido limitada a uma versão absurda e ridícula do que é ser mãe. Se ela apenas pudesse existir além do seu relacionamento com Madi e, principalmente, se tivesse parado de tomar decisões pela filha e escutado o que a menina queria, o que pensava e esperava, tudo teria sido diferente.  

Clarke sempre foi julgada na série. Como todos os personagens de Game of Thrones, os de The 100 praticam atos absurdos e violentos de forma constante. Mas nenhum encontrou tanto julgamento quanto Clarke, da mesma forma como decisões passadas de Dany são usadas contra ela no final, ainda que todos tivessem errado em algum momento. Octavia (Marie Avgeropoulos) é literalmente perdoada por canibalismo e pelos anos que atuou como Blodreina, seu alter ego genocida; Raven, ainda no início da temporada, manda um monte de homens para a morte de forma deliberada, o que também é perdoado; Murphy (Richard Harmon) é… Murphy, um dos personagens mais complicados da série, mas ainda passível de perdão. Todos têm arcos narrativos, alguns bons, outros ruins; ainda assim, eles têm. Enquanto isso, Clarke, a protagonista, foi jogada para escanteio, sua perspectiva ignorada e ela, uma pessoa incapaz de lidar com o que acontece em sua vida. Trauma atrás de trauma foi somadoà mistura, sem que ela pudesse processar. E mesmo depois de tanto sacrifício, de tantas decisões equivocadas e julgamentos, é decidido que ela não merece transcender junto aos seus amigos, ficando presa na Terra sozinha, sempre sozinha.

Mais tarde, eles decidem voltar para ficar com ela, mas isso só acontece porque eles tomaram essa decisão por ela, não porque a narrativa foi justa com Clarke, muito pelo contrário. Mais uma vez, The 100 faz questão de não reservar nem mesmo o mínimo de compaixão em relação a Clarke. E o pior de tudo: no processo ainda transformou a personagem em uma pessoa vazia, sem um desenvolvimento real e palpável.   

Clarke Griffin

Apesar de possuírem arcos diferentes, não consigo deixar de pensar que tanto a trajetória de Clarke quanto de Daenerys são baseados nos mesmos aspectos: uma mistura de machismo e escrita preguiçosa. Como duas séries com premissas que não são necessariamente otimistas, nunca esperei por um encerramento com direito a pôr do sol e finais felizes, mas algo que ao menos honrasse as personagens e suas respectivas jornadas. Daenerys ser limitada a ser a rainha louca pelo histórico de seu pai nos últimos instantes da série, quando sempre houve a preocupação de distanciá-la dessa alcunha, não é satisfatório: é cair em estereótipos prejudiciais e complicados. Limitar Clarke a relação que tinha com Madi, fazê-la matar seu melhor amigo para depois adentrar uma espiral de loucura e vingança não é um arco, mas uma punição, a redução do que um dia ela foi. 

Para não dizer que nada funciona nas últimas temporadas das séries, tanto os criadores de Game of Thrones quanto os de The 100 conseguiram exatamente o que queria: causar choque. As mortes aconteceram, todo mundo comentou e a internet teve reações explosivas. Mas existe uma outra lição que podemos tomar na comparação entre as duas produções: mais de um ano após seu fim, parece que todo mundo esqueceu de Game of Thrones, enquanto outros finais, como o de Lost, são comentados até hoje. Mesmo que as opiniões não sejam unânimes, a série é sempre trazida à tona justamente porque Damon Lindelof, seu criador, encerrou o arco dos personagens de forma justa e honesta, mantendo-se fiel ao que a narrativa havia apresentado desde o começo. Game of Thrones, no entanto, que criou algo apressado e preguiçoso, logo caiu no esquecimento: grande parte do coração da obra, suas tramas complexas sobre a disputa pelo Trono de Ferro, foram reduzidas ou simplesmente desapareceram. É de se imaginar que, daqui algum tempo, esse será o mesmo destino de The 100.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!  

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1 comentário

  1. Concordo plenamente com quase tudo que disse e achei a análise muito boa e interessante, tanto que li tudo até o final, mas só gostaria de comentar sobre o momento em que você disse que Dany não foi estuprada por Khal Drogo nos livros. A personagem nos livros era bem mais nova que na adaptação (13 anos) e Drogo tinha aproximadamente 30, o que pra mim já é considerado errado mesmo se tiver consentimento. Mesmo que a história seja baseada na época medieval, e, realmente, esse tipo de coisa era “normalizado”, ainda assim é claro no livro que ela não gostaria de dizer “sim” na situação, já que seu irmão a estava ameaçando e ela claramente tinha medo de dizer não. Mais pra frente em seus capítulos ela chega até a pensar em suicídio pq não aguenta mais a situação. Enfim, era só isso mesmo que eu queria comentar, mas entendo que algumas pessoas não tenham entendido o tipo de relacionamento que o autor quis mostrar, por esse motivo ele mesmo já disse em entrevistas que o que aconteceu foi sim um estupro, pra não deixar dúvidas.