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The Paradise: uma história sobre ambição feminina no século XIX

A partir do momento em que falamos sobre ambição feminina e posições ocupadas por mulheres no mercado de trabalho, é comum nos restringirmos a um período de tempo bastante limitado, porque essa ainda é a referência mais próxima e forte que temos sobre o assunto. Até a primeira metade do século passado, as atividades exercidas pela parcela esmagadora de mulheres à época ainda se resumiam às atividades domésticas, ao cuidado dos filhos e dos maridos; atividades tipicamente vistas como femininas, muito embora não fossem as únicas. Após duas grandes guerras, o mercado de trabalho sofreu mudanças consideráveis, tornando os espaços ligeiramente mais inclusivos – ainda que nunca iguais. Pensem em Peggy Carter (Hayley Atwell), durante e após a Segunda Guerra Mundial; pensem nas mulheres de Land Girls durante o mesmo período, ou então nas de Downton Abbey ao longo da segunda temporada da série, cujos acontecimentos ocorrem simultaneamente à Primeira Guerra Mundial. São exemplos que ilustram, em diferentes perspectivas, as atividades desempenhadas por mulheres durante grandes conflitos da História; trabalhos que eram fundamentais, é claro, mas que, não por acaso, são deixados de lado quando esses acontecimentos são relatados.

Contudo, muito antes disso, a presença feminina no mercado de trabalho já era uma realidade: embora fossem uma exceção à regra, muitas mulheres – mas nem tantas assim – já desempenhavam funções assalariadas e construíam ativamente esse pequeno grande universo em que hoje caminhamos com mais autonomia. Eram quase sempre mulheres solteiras e de origem humilde, que trabalhavam por necessidade antes de qualquer outra coisa, e que não contavam com quaisquer direitos, quiçá a oportunidade de crescer profissionalmente. Nesse cenário, trabalhar não era algo desejável, tampouco oferecia algum tipo de realização; mas ainda era uma forma de sobrevivência quando as outras poucas lhes falhavam. Ainda assim, ramos específicos do mercado ofereciam oportunidades ligeiramente mais animadoras, como era o caso das grandes lojas de departamento, que, na contramão, transformavam a posição feminina no mercado em uma conquista a ser verdadeiramente celebrada.

Falar sobre lojas de departamento – ou magazines, como ficaram popularmente conhecidas – é também falar sobre a cultura do consumo, em grande parte estabelecida e perpetuada por esses empreendimentos; mas é, ainda, uma forma de falar sobre a representação da mulher em sociedade, porque essas organizações, que se transformaram em verdadeiros fenômenos muito rapidamente, foram responsáveis por impulsionar mudanças significativas no cenário trabalhista para mulheres da época, oferecendo oportunidades e espaços que ainda nos eram negados em outros ambientes. As lojas, que eram o cenário onde essas mudanças aconteciam, constituíam um espaço que servia, ao mesmo tempo, para o consumo e a atuação política de mulheres burguesas, enquanto, pouco a pouco, construíam oportunidades de crescimento, autonomia e ascensão social para mulheres de classes menos privilegiadas.

É justamente essa história – e, principalmente, a história dessas mulheres – que The Paradise busca contar. Lançada em 2012, a série é uma adaptação torta do romance Au Bonheur des Dames, de Émile Zola; ela transporta personagens e acontecimentos que, no original, acontecem na França da segunda metade do século XIX, para a Inglaterra (de todos os lugares, logo ela) do mesmo período. Ali, acompanhamos a trajetória de Denise Lovett (Joanna Vanderham), uma jovem adorável e ambiciosa que sai da pequena Peebles em busca de um futuro melhor e vai viver com o tio, Edmund Lovett (Peter Wight), em Newcastle, onde o mesmo possui uma loja de tecidos. Ao chegar lá, entretanto, Denise descobre que a situação financeira do tio, que sempre deixara as portas abertas e a possibilidade de um emprego em sua loja garantidos para a sobrinha, não é das melhores, visto que os pequenos comerciantes locais foram massacrados pela concorrência, representada pelo mesmo estabelecimento que dá título à série; trata-se de uma imponente loja de departamentos localizada do outro lado da rua – a modernidade que chega a passos largos e ameaça a sobrevivência daqueles que não são capazes de acompanhar seu ritmo intenso. Sem outra saída a qual recorrer – ela não quer voltar para Peebles e também não quer tornar-se um problema para o tio –, Denise decide candidatar-se a uma vaga no departamento feminino da Paradise; uma decisão que, ironicamente, muda toda a sua vida. 

Atenção: o texto contém spoilers!

À primeira vista, Denise é apenas mais uma garota do interior em busca de trabalho na cidade grande. Por trás da figura adorável e de sorriso fácil, no entanto, esconde-se uma mulher ambiciosa e destemida, com uma mente brilhante e ideias revolucionárias, e que não está somente em busca de um emprego, mas sim à procura de uma forma de crescer à altura do próprio potencial; não do jeito arrogante de quem se acha especial demais, mas como consequência de um desejo quase ingênuo de pertencimento e esperança, que é o que a move em praticamente todos os momentos. Denise é uma mulher jovem e inexperiente, que nasceu e foi criada no interior, mas possui uma visão de mundo abrangente e uma criatividade inesgotável, e banca cada uma dessas qualidades com uma coragem surpreendente, especialmente para a época; algo que logo a transformam numa funcionária modelo, a “little champion” [“pequena campeã”, em tradução livre] da Paradise, capaz de emplacar vendas, criar desejos de consumo e soluções para problemas que até então pareciam irreversíveis. Ironicamente, é essa mesma Denise que logo se transforma num problema quando ganha espaço demais. Ninguém diria que um homem tem espaço demais; mas Denise, estranhamente, paga caro pela própria ambição.

O que a série faz, de forma bastante inteligente, embora esteja longe de ser revolucionária, é mostrar como a ambição se transforma num incômodo quando é uma característica ligada ao feminino. Denise é uma heroína perfeita até a página dois: gentil, atenciosa, bonita e delicada, qualidades que a transformariam numa sem muito esforço numa pessoa gostável. O fato de ter ideias incríveis e um ótimo poder de persuasão são detalhes que somente a enriquecem, especialmente para a Paradise, que dá para Denise a oportunidade, que ela gentilmente agradece na forma de lucros infinitos; mas esse é um cenário que muda radicalmente de figura tão logo seu potencial cresce entre a Paradise e o ego enorme de seus funcionários. Mr. Moray (Emun Elliott), o cobiçado dono da Paradise e par romântico de Denise na série, é um homem igualmente ambicioso e muito da relação dos dois se constrói sobre o desejo mútuo de transformar a loja num grande império de vendas. Parece improvável que o romance dos dois torne-se problemático por uma questão tão vazia, mas basta que a carreira de Denise torne-se maior do que o próprio Moray para que ele assuma uma postura hostil. De repente, suas ideias, antes tratadas como algo especial e importante para o crescimento da loja, transformam-se num problema: elas são grandes demais, ambiciosas demais, e onde já se viu mulher ter ambição?        

Em suas duas temporadas, The Paradise utiliza o cenário deslumbrante e sofisticado da loja (o paraíso em tons pastéis onde praticamente todas as ações da trama se desenvolvem) para discutir questões que não são assim tão fáceis – na ficção, mas também em nossa própria realidade – e que passam muito longe do ambiente de sofisticação e deslumbramento que a loja se propõe a ser. Pequenas atitudes problemáticas, naturalizadas ao longo do tempo, mostram suas verdadeiras faces ao longo da história e, de forma direta e indireta, subvertem noções sobre o universo feminino que não se restringem ao período no qual a narrativa é ambientada – existem, afinal, muito mais nuances nessa história, que não é só sobre moda e consumo, embora seja sobre todas essas coisas também, e a série não tem medo de trazê-las à tona. Elas dizem respeito a situações grandes e pequenas, sérias ou nem tanto, que ganham espaço em meio à rotina de trabalho dos funcionários da loja. Já no segundo episódio da primeira temporada, somos apresentas à história de Jocelin (Olivia Hallinan), uma mulher que, embora tivesse tudo aquilo que a sociedade dizia que a faria feliz – um marido rico, uma vida confortável e sem preocupações, etc, etc –, foge por se sentir extremamente infeliz dentro da realidade que lhe fora concedida. Quando a verdade é revelada, após um escândalo que ameaça a reputação da loja, a série não ignora esse fato, e não coloca os erros da personagem em uma espécie de balança capaz de julgar sua culpa ou inocência. Jocelin é uma mulher machucada, que toma uma atitude equivocada na tentativa de reparar seus próprios traumas, sem imaginar que isso pode arruinar a vida de outra pessoa; mas ela não é tratada como uma vilã, muito pelo contrário.

Esse mesmo tratamento é dispensado a outras personagens, sejam elas fixas ou não, que também ganham a chance de contar suas histórias sem serem julgadas pelas suas atitudes – algo que a sociedade se recusava a lhes conceder em igual escala. Miss Audrey (Sarah Lancashire) é a implacável chefe do departamento feminino, uma mulher que ama profundamente seu trabalho, ao ponto de, quando jovem, ter preferido abrir mão de um grande amor e da perspectiva de casamento e filhos, porque todas essas escolhas a impediriam de continuar exercendo suas funções. Ela não conta essa história com mágoa ou arrependimento, mas com a certeza de que fez a escolha certa – uma escolha que, não por acaso, defende com unhas e dentes. Sendo a mulher ambiciosa e destemida que é, ela jamais se acomoda, mesmo estando firme em um cargo de chefia. Seu olhar apurado é o que guia as funcionárias do departamento feminino da Paradise, que ela observa de perto e trata quase como filhas, das quais ela se torna a severa, mas bem intencionada mãe, que não se intimida para chamar a atenção de cada uma delas quando necessário, especialmente quando sente-se ameaçada – por funcionárias mais jovens, por ideias inovadoras, por situações e mudanças que ela não entende muito bem; lembretes de que o tempo está passando, e ela, envelhecendo. Miss Audrey está muito longe de não ser necessária, mas de forma delicada e convincente, The Paradise constrói uma coadjuvante tão complexa quanto seus protagonistas, e mostra que mesmo anos e anos de dedicação e experiência não são suficientes para superar séculos de autoestimas minadas pela sociedade.

Mais tarde, é essa mesma Miss Audrey feroz e implacável que muda completamente de ideia e decide casar-se, mas não passa a ser vista como uma fraude por conta disso. Ela não muda sua atitude, muito menos o modo como enxerga a vida. O casamento não surge em sua trajetória como uma espécie de rendição aos moldes tradicionais que regiam a sociedade na época, muito menos porque essa mesma sociedade – na forma de piadas, regras ridículas e limitações imbecis – lhe disse que esse era o caminho certo a percorrer. É uma decisão natural, como acontece o tempo inteiro na vida de qualquer ser humano; ela simplesmente sente que é aquilo que deseja no momento, e de repente decide que vai se permitir também viver um grande amor, sem precisar pedir desculpas por isso.

Clara (Sonya Cassidy), em contrapartida, é a jovem e ousada funcionária do departamento feminino, que sonha em ocupar o cargo que, no início da série, ainda pertence a Miss Audrey. À primeira vista, Clara é traçada como a típica antagonista; mal-humorada, impaciente, difícil de lidar e que pouco se esforça para ser agradável, características que surgem como um contraponto ao otimismo ingênuo de Denise que, em por outro lado, é uma moça adorável e querida por todos, embora seja tão, se não mais, ambiciosa do que a própria Clara. Eventualmente descobrimos que a jornada de Clara é repleta de episódios trágicos, que pouco a pouco a quebraram por dentro, transformando-a numa mulher dura e pouco esperançosa; e essa é uma perspectiva que muda absolutamente tudo. Antes de mais nada, Clara é uma mulher profundamente machucada, o que transforma suas atitudes, se não numa resposta à altura dos traumas que sofreu, ao menos um reflexo de todos eles. Seria surpreendente a forma como ela lida com a própria vida, conciliando tantas dores e fantasmas com trabalhos, risadas, festinhas e romances, não fosse essa uma atitude basicamente tão humana; porque a tragédia, afinal de contas, coexiste com momentos de alegria, raiva, angústia, porres, brincadeiras e risadas, situações banais do nosso cotidiano e outras nem tanto assim.   

Clara vê em Denise uma rival porque, desde o primeiro momento, ela se torna uma ameaça a tudo aquilo que lhe traz alguma satisfação: o trabalho no qual ela se destaca e em que espera algum dia poder ocupar uma posição de chefia, o homem que jamais será seu marido, mas que ainda é quem lhe dá conforto e carinho quando necessário, fora questões mais profundas que vêm à tona à medida que a série avança, como a filha fora de um casamento que Denise não possui, o fardo de ser uma mãe solteira em segredo, a dificuldade em manter um padrão em seu trabalho que assegure dinheiro suficiente para manter a si mesma e uma criança que sequer sabe que ela existe. Ela se ressente por tudo que Denise é e por todas as oportunidades que ela possui porque muitas dessas oportunidades lhe foram negadas no passado. Contudo, o fato de serem tão diferentes e, ao mesmo tempo, possuírem os mesmos objetivos, não a impede de, eventualmente, enxergar em Denise uma amiga. As duas constroem uma amizade delicada, cheia de pequenos grandes desentendimentos, mas nem por isso frágil ou menos importante. Denise se importa verdadeiramente com Clara e lhe fornece o carinho e atenção que muitas vezes lhe fora negado, recebendo em troca a lealdade de uma mulher tão especial, numa cumplicidade que passeia em uma via de mão dupla fundamental para ambas.

Durante sua primeira temporada, a série dedica boa parte do enredo ao desenvolvimento do romance entre Denise e Mr. Moray, e do triângulo amoroso formado com Katherine Glendenning (Elaine Cassidy), uma jovem burguesa apaixonada por Moray que sonha em levá-lo para o altar; enquanto ele, por outro lado, enxerga na relação uma amizade conveniente aos negócios: ela, afinal de contas, é uma mulher influente, vinda de uma família abastada, com recursos suficientes para bancar suas ideias mais ambiciosas – e Katherine tem plena consciência disso. Ainda assim, ela deseja casar-se com Moray, o que significa que está disposta a fazer qualquer coisa para tê-lo ao seu lado, mesmo que seja necessário lançar mão de alguma manipulação; que ela faz sem em momento algum sujar as mãos. O dinheiro e a influência são suas armas e ela não se faz de rogada em usar cada uma delas em seu favor. Aqui, The Paradise nos apresenta uma nova forma de ambição, mais problemática, é verdade, mas que não existe no vácuo. O casamento, sendo praticamente a única possibilidade de felicidade e realização reservada às mulheres da época, passa a cercar-se de expectativas, que podem ou não ser supridas com a oficialização da união. Sem qualquer perspectiva além, as mulheres que encontravam-se na posição social de Katherine, que eram as que ainda possuíam alguma autonomia na hora de escolher com quem se casar, tinham a possibilidade de construir um relacionamento mais por amor e menos por convenções sociais e acordos familiares. É natural, então, que ela desejasse se unir a Moray, muito embora o sentimento não fosse inteiramente recíproco.

Sua trajetória não se resume ao desejo por um casamento romanticamente idealizado: assim como outras personagens, ela também ganha espaço para contar sua história de forma profunda e independente. Um dos meus momentos favoritos da série, aliás, é protagonizado por ela, quando fala sobre a morte precoce da mãe e conta como seus vestidos a seguraram naquele momento, dando a ela a possibilidade de expressar-se sem precisar utilizar uma só palavra. Não por acaso, os figurinos são um detalhe à parte, construídos de forma cuidadosa e delicada, e que dizem muito sobre a personagem e seus diferentes momentos, que ganham significado com o correr da história.

Não é preciso ser uma vilã caricata para ser ambiciosa, muito menos uma mulher dura e calculista, ou uma heroína que chuta bundas, literalmente, em tempo integral – embora todas essas representações sejam possíveis também. Ao seu próprio modo, The Paradise constrói diferentes perspectivas do que é ser uma mulher que deseja alcançar os próprios objetivos, seja no mercado de trabalho, seja em qualquer outro lugar, e que bancam as próprias metas com uma coragem surpreendente. Em comum, as personagens da série possuem essa vontade intrínseca de alcançar mais do que lhes é concedido e ter uma vida feliz e realizada. Elas são sorridentes, irônicas, severas, delicadas, ricas e pobres, gentis, adoráveis, jovens ou nem tão jovens assim, estão de passagem ou desejam ficar para sempre; mas todas são mulheres complexas e determinadas, humanas até dizer chega, e que não deixam de acreditar por um momento sequer que merecem escrever (e viver!) as histórias que quiserem.

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