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Princesa Mononoke: o equilíbrio entre homem e a natureza

O sétimo filme de Hayao Miyazaki, Princesa Mononoke, do Studio Ghibli, pode ser considerado atemporal. Lançado em 1997, o longa do renomado diretor japonês se passa no Período Muromachi, uma fase do Japão medieval, que vai de 1336 a 1573, mas fala de uma questão (ainda) muito atual: as consequências da exploração desenfreada dos recursos naturais. A trama acompanha, principalmente, a trajetória de três personagens e exemplifica através deles o quão destrutiva pode ser a relação dos humanos com a natureza e com outros iguais, enquanto aponta uma remota possibilidade de equilíbrio entre habitantes e habitat. E isso ocorre em meio a bichos falantes e outros elementos de fantasia, com uma carga de violência e sem maniqueísmos.

O primeiro pilar da narrativa é o jovem Ashitaka, príncipe de uma aldeia que é contaminado por uma criatura após tentar defender seu povo. Ashitaka é aconselhado por uma oráculo local a ir em busca da única cura possível para essa maldição, que pode ser encontrada junto ao Deus Cervo, o protetor da floresta. O personagem dá início a uma corrida contra o tempo antes que a mancha escura da contaminação o tome por completo e o transforme em um demônio. Miyazaki dá um exemplo, no primeiro ato do filme, sutil de como tudo é cíclico quando se trata de seres vivos, sejam eles mágicos ou não. A criatura que contamina o príncipe antes era um Javali, que se transformou em monstro depois de ser atingido por uma bala de ferro a qual, avançando no filme, descobrimos ser produzida por outra aldeia. Seguindo os ensinamentos do químico francês Antoine Lavoisier, a máxima “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” serve como pano de fundo no clássico do Studio Ghibli.

Dando continuidade a sua busca, Ashitaka segue caminho atrás da aldeia que produz ferro, porém, antes de chegar ao seu destino, é atacado por um grupo de samurais. Para tentar se defender o príncipe utiliza seu arco e flecha, mas perde totalmente o controle do braço contaminado e, como consequência, acaba matando vários homens de forma brutal. A busca pela cura, então, se mostra cada vez mais urgente. Nesse ponto do filme, se aborda, de forma rápida, o modo preconceituoso e por vezes o menosprezo a que aldeões como Ashitaka eram tratados no período pré-industrial, em que máquinas e fábricas começavam a tomar a agricultura do país.

Em meio a procura pelo Deus Cervo, Ashitaka descobre uma aldeia muito mais modernizada que a sua, chamada de Ilha de Ferro, a mesma onde foi produzida a bala que atingiu o javali. A região tem uma massiva produção de ferro, sob o comando a Srta. Eboshi. A personagem é amada pelos moradores da ilha e tem deles profunda lealdade, uma vez que ela acolhe ali pessoas marginalizadas pela resto da sociedade, como leprosos e prostitutas. A Ilha de Ferro também é um lugar que serve de refúgio frente a outras regiões, razão pela qual Eboshi teme a invasão de outros ‘homens’ e, consequentemente, a destruição de onde vive. No entanto, ao mesmo tempo em que tenta garantir a manutenção e segurança dessa comunidade, Eboshi também promove uma severa destruição da natureza na região. Dentre aqueles que sofrem as consequências desse “progresso” local, no entanto, estão os animais, Deuses da floresta e, também, a Princesa Mononoke.

Mononoke é uma menina criada pelos Deuses Lobos desde pequena, após ter sido abandonada pelos pais biológicos. Originalmente batizada de San, Mononoke vê que sua casa está sendo destruída pela ganância dos homens e, sem conhecer completamente a realidade desses ditos destruidores, é tomada pelo ódio e pela vontade de matar Srta. Eboshi. É nesse embate, entre lados que não coexistem de maneira pacífica, que Ashitaka se depara e tenta, com base naquilo que sabe sobre ambos, mostrar que é possível haver equilíbrio.

Ainda que Miyazaki não necessariamente escolha um lado no percurso da história, Ashitaka funciona como a bússola moral do filme: é o príncipe quem guia o olhar do espectador para a necessidade do anti-conflito, antes de qualquer combate. Com um olhar externo, Ashitaka compreende a importância daquilo que Srta. Eboshi faz pelos moradores da Ilha de Ferro, ao mesmo tempo em que entende as razões de Mononoke para tentar proteger sua casa. Nessa ótica, o sentimento de proteção que Mononoke tem com os animais e a floresta, é compartilhado por Eboshi num contexto um pouco diferente, mas ainda assim muito similar; as duas tem mais em comum do que supõem. Aqui, inclusive, vale destacar o protagonismo feminino do filme, assim como em várias outras obras de Miyazaki. Ashitaka pode ser o fio condutor na busca por uma cura, mas é nos arcos de Mononoke e Eboshi que são levantados os principais dilemas da história, e são elas as responsáveis pela continuidade da vida em seus lares e tudo o que implica essa manutenção — razão pela qual exista o confronto direto entre ambas.

Um quarto personagem cujo papel é bem menor mas que serve à discussão sobre o ego humano é Jiko, um monge mercenário que encontra com Ashitaka. A personalidade de Jiko é utilizada ressaltar os traços altruístas de Eboshi já que, ao contrário dela — com suas falhas e ações que a redimem —, Jiko é pura ganância e só age em favor dele próprio. Não à toa, Jiko busca atrair Eboshi para um plano ganancioso com a promessa de que ao arrancar a cabeça do Deus Cervo, os animais não seriam mais um problema para ela e para sua vila. No entanto, o interesse real do mercenário nada mais é do que buscar a vida eterna que, segundo uma lenda local, é conseguida com a cabeça do protetor da floresta.

Esse mesmo Deus Cervo, ser místico que protege a floresta, é responsável tanto por dar quanto por retirar vida. Em determinado momento do filme, quando Jiko consegue pôr em prática seu plano e arranca a cabeça do Deus, sua fisionomia muda. Ele deixa a aparência pacífica de antes para se tornar também um demônio que perambula sem rumo, levando destruição por onde passa. Aqui, mais uma vez, a ideia de ciclo é reforçada, neste caso representada pela máxima de que destruição só gera mais destruição, enquanto morte só gera mais morte.

Por fim, e por união, Mononoke e Ashitaka resgatam a cabeça do Deus Cervo e devolvem-na a ele. Com a volta da entidade a floresta se restaura, crescendo até mais bonita e forte do que antes. Por mais que no percurso Princesa Mononoke demonstre sua ideia de que os humanos são seres egoístas e gananciosos, isso não é feito de forma generalizada. Miyazaki deixa nas mãos do espectador tirar suas próprias conclusões de julgamento a despeito da humanidade, assim como da responsabilidade que cabe a cada indivíduo no bem estar coletivo, de homens e animais. Princesa Mononoke ressalta a importância da conexão, da empatia e do diálogo para que uma coexistência verdadeiramente respeitosa seja finalmente possível — e que, em tempos de pandemia, é muito bem-vinda.

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