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It’s a mother-daugther thing: as relações de Gilmore Girls

O alicerce de Gilmore Girls, todo mundo sabe, é o relacionamento de mãe e filha entre Lorelai e Rory Gilmore (Lauren Graham e Alexis Bledel, respectivamente). Os altos e baixos da relação entre elas, os momentos de cumplicidade e companheirismo, as sessões de filmes regadas a muito fast-food e as referências aceleradas sobre cultura pop são parte de tudo o que elas construíram juntas. Tudo aquilo que amamos em Gilmore Girls nasce desse relacionamento entre mãe e filha, e todas as outras tramas partem das duas. Por essas e outras que em nossa semana temática nada melhor do que abordar as relações entre mãe e filha que aparecem na série, não somente a principal.

Gilmore Girls tenta tratar de temas cotidianos, e claro que relacionamentos entre mães e filhas entra nesse escopo – principalmente quando as protagonistas da trama são, que novidade, mãe e filha. Não dá pra negar, no entanto, que mesmo metendo os pés pelas mãos algumas vezes, o que faz girar a dinâmica entre mães e filhas na série – Lorelai e Rory, Emily e Lorelai, Mrs. Kim e Lane – é o amor. As atitudes das envolvidas nem sempre estão isentas de erros, afinal são todas humanas, mas o caminho trilhado por elas mostra que com uma pitada de amor e carinho, é possível contornar as diferenças.

Lorelai & Rory

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Lorelai engravidou na adolescência de seu então namorado, Christopher (David Sutcliffe), e saiu da casa dos pais quando Rory completou um ano de idade. Incomodada e se sentindo pressionada com a superproteção e controle que seus pais, Emily (Kelly Bishop) e Richard (Edward Herrmann), exerciam sobre ela e a criação de Rory, Lorelai decidiu partir para uma jornada imprevisível e difícil, mas que seria feita do jeito como ela bem entendesse. Ser mãe solteira e adolescente não é uma das coisas mais fáceis da vida, mas Lorelai decidiu percorrer esse caminho longe da família que tentou domá-la durante todos os 16 anos em que dividiram o mesmo teto. Não dá pra dizer que esse período foi simples ou fácil para ela, mas acolhida pela dona da pousada em que conseguiu o primeiro emprego e pelos cidadãos de Stars Hollow, Lorelai trilhou seu caminho da melhor maneira possível, sempre colocando Rory em primeiro lugar. 

O relacionamento entre Lorelai e Rory não foi de borboletas e arco-íris o tempo todo, mas pode-se afirmar sem medo que a relação que as duas desenvolveram por todos esses anos é de pura cumplicidade e troca. As duas, que compartilham muito mais do que o apreço por café e citações de cultura pop, percorreram um caminho em que a relação entre mãe e filha vem totalmente pautada na confiança e amizade. Acima de tudo, Lorelai e Rory são melhores amigas e sempre podem contar uma com a outra, seja para decidir sobre uma roupa para um primeiro encontro ou debater sobre qual filme elas devem assistir. Embora Lorelai saiba usar muito bem a “função mãe” quando necessário, na maior parte do tempo ela trata Rory como sua igual. Elas trocam confidências, buscam uma a outra por apoio e não há tempestade que elas não arrumem um jeito de dissipar. Pode demorar, pode doer, mas no final do dia elas se amam o suficiente para exporem suas diferenças de um jeito que possam resolvê-las e voltar às boas.

Lorelai e Rory dividem muito mais do que o primeiro nome, e, como a versão brasileira da série sempre deixou explícita no subtítulo, o tal mãe, tal filha não é à toa. O momento em que fica ainda mais evidente o amor que uma sente pela outra é ilustrado belamente no discurso que Rory profere em sua formatura na Chilton Preparatory School, no episódio 22 da 3ª temporada. Após agradecer o corpo docente da escola e seus avós, responsáveis por ajudar financeiramente com as mensalidades por todos aqueles anos de estudo, Rory agradece àquela que é sua inspiração e melhor amiga, a mulher de quem recebeu o nome e a vida, a mulher que ela mais deseja ser um dia: sua mãe. Enquanto enchia sua casa com amor, livros e música, incansável em seus esforços para dar exemplos de conduta que vão de Jane Austen, Eudora Welty a Patti Smith, Lorelai construiu junto de Rory um dos maiores relationship goals da televisão quando o assunto é mãe e filha.

Emily & Lorelai

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Enquanto Lorelai conseguiu construir com sua filha um relacionamento saudável e amoroso, não dá para dizer o mesmo sobre ela e Emily. Proveniente de um universo em que as aparências contam muito, Emily não consegue entender a filha que se rebela contra os costumes e o método de criação tradicional que ela conhece. Lorelai, avessa a esse mundo esnobe de onde vem os Gilmore, queria mais do que tudo abrir suas asas e voar para longe dessa realidade de etiquetas, bailes de debutantes e tardes regadas a chá, bolinhos e conversas no The Daughters of the American Revolution (DAR). Enquanto Lorelai tenta ao máximo obter a aprovação de sua mãe, Emily permanece irredutível, erguendo uma pilha de frustrações sobre o relacionamento das duas que é rompido quando Lorelai deixa a casa dos pais e leva Rory consigo sem maiores explicações.

Não há como negar que, de fato, Emily Gilmore é um tanto controladora como mãe e avó, sempre desejando estar a par de todos os assuntos que rodeiam Lorelai e Rory. Emily se intromete por diversas vezes nas vidas pessoais de sua filha e neta, e costuma fazer uma bagunça quando tenta ajudar em assuntos que desconhece. Para Emily é difícil compreender como Lorelai pode ter rejeitado uma vida de privilégios e um marido socialmente adequado – algo de que a própria Emily desfruta e não poderia viver sem – e isso acaba por trazer uma camada de rancor para a relação entre elas, quase como se Emily se ressentisse de Lorelai por ela esnobar tudo aquilo que lhe é precioso. Mãe e filha só começam a se relacionar novamente quando, ao precisar de ajuda para pagar as mensalidades de Chilton para Rory, Lorelai vai até a casa dos pais em busca de ajuda e retorna com um acordo semanal para os famosos jantares de sexta-feira a noite.

Emily é uma pessoa tão difícil quanto Lorelai é teimosa – não dá pra dizer que o fruto cai muito longe da árvore nesse caso! – mas as duas se amam. Do jeito torto e complicado delas, mas sim, há amor nessa relação tão pautada pela disputa e discussões acaloradas. Enquanto Lorelai passou boa parte da vida tentando conseguir a aprovação de Emily, tudo o que Emily mais desejava era encontrar meios de ficar mais próxima da vida de sua filha, compartilhar de momentos com ela e compreendê-la melhor, mas o orgulho ferido de todos os anos sempre se colocava entre elas, desencadeando discussões sem fim. Um dos momentos mais especiais entre as duas, no entanto, durante a série clássica no episódio 7 da 2ª temporada, acontece quando Emily e Lorelai participam de um evento beneficente na Chilton e desfilam juntas, criando laços em um dos raros momentos em que não estão discutindo. Embora não seja tarefa das mais simples, é possível superar as diferenças para unir dois mundos tão diferentes quanto Hartford e Stars Hollow.

Mrs. Kim & Lane

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Lane (Keiko Agena) e Mrs. Kim (Emily Kurodapercorrem um longo caminho durante as sete temporadas clássicas de Gilmore Girls. Quem não se lembra da Lane adolescente escondendo seus cds de rock na tábua solta do piso de seu quarto e construindo um mundo particular dentro do armário? Ou como Mrs. Kim simplesmente surtava diante a ideia de Lane se relacionar com um rapaz que não fosse coreano e aprovado por ela? Ou, ainda, como Lane precisava se trocar antes de chegar em casa porque sua mãe não aceitava as camisetas de banda da filha? É inevitável dizer que o relacionamento entre elas talvez seja o mais cheio de tensão e segredos em Gilmore Girls. Não deve ser muito fácil crescer em uma família super religiosa e que não aceita com facilidade ideias diferentes daquelas que sua fé professa. Mrs. Kim, enquanto devota e parte da Igreja Adventista do Sétimo Dia, é uma mãe rigorosa e que, por mais curioso que possa parecer, se rebelou contra a própria mãe, budista. Lane cresceu e foi criada de acordo com as doutrinas adventistas, mas ela tem outras ideias a respeito dos rumos que quer tomar para a própria vida.

Enquanto Mrs. Kim deseja que Lane encontre um bom rapaz coreano (e adventista) (e de preferência que curse medicina) para se casar, o que a filha mais deseja, no entanto, é ser livre para montar sua própria banda de rock, tocar bateria e cair na estrada. Claro que Mrs. Kim não aceita de imediato o sonho de Lane e as duas rompem por algum tempo quando Lane sai de casa, mas não demora muito para que mãe e filha se reconciliem e refaçam os laços. Quando Lane decide desistir de sua banda, Hep Alien, é Mrs. Kim quem impede a filha de abandonar seus sonhos e é ela quem consegue marcar shows para o grupo em diversas Igrejas Adventistas pelos Estados Unidos, mantendo a aspiração de Lane viva.

Na cabeça de Mrs. Kim, tudo o que ela faz é para o bem da filha, mesmo que Lane não consiga enxergar isso a princípio. Os relacionamentos entre mães e filhas em Gilmore Girls são, de fato, pautados pelo amor – mesmo que nem sempre expressos de maneira que todas as envolvidas entendam e aceitem. Ao desejar que Lane se case com um bom rapaz coreano, tudo o que Mrs. Kim quer é um futuro seguro e certo para a filha, quase da mesma maneira como Emily desejava o mesmo para Lorelai quando esta era adolescente. Embora seja durona e rigorosa, Mrs. Kim demonstra o amor que sente por sua filha quando tenta entender as escolhas de Lane. O episódio 19 da 6ª temporada, por exemplo, evidencia esse amor de mãe e filha quando Lane se casa em duas cerimônias, um tradicional casamento coreano, como Mrs. Kim deseja, e um ao estilo de sua avó, com os ritos budistas. A recepção, no entanto, fica ao gosto de Lane com direito a músicas tocadas pela Hep Alien enquanto Mrs. Kim coloca tampões nos ouvidos para não se incomodar com o som ensurdecedor da banda, aproveitando a comemoração na praça de Stars Hollow mesmo assim. Pode ser que nunca chegue o dia em que Lane e Mrs. Kim escutem um álbum de uma banda de rock juntas, mas elas se amam o suficiente para criarem meios de fazerem as coisas funcionarem mesmo com suas diferenças – e não há nada mais belo do que isso.

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4 Comentários

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    Analu
    21 de novembro de 2016 at 15:45

    Thay, adorei o post! Eu acho que colocaria na lista também a dinâmica Anna/April. Sei que é bem menos mostrado e desenvolvido que esses três casos que você citou, mas não deixa de ser algo forte na série (e na vida) pelo menos pra mim. Acho que ela é uma mãe meio Emily também, que acaba sendo controladora e tomando decisões erradas querendo proteger a filha, mas de uma forma diferente, tentando evitar a qualquer custo que a filha tenha frustrações e se machuque… Você não acha?
    Beijos!

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      Thay
      21 de novembro de 2016 at 15:53

      Ei Analu! Fico feliz que tenha gostado do post! E, de fato, não me ocorreu analisar o relacionamento entre April e Anna, me passou batido. E agora que você comentou, realmente Anna tem um tanto de Emily na maneira de criar a filha, e, de novo, é a aquela história de fazer o que acha melhor em nome do amor, né? Mas em nome desse amor é saudável deixar que April conheça o mundo e lide com as próprias frustrações, colocar a menina em uma redoma não ajuda em nada – como a gente bem viu. Obrigada pelo toque! <3

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    Elisa
    21 de novembro de 2016 at 22:42

    Oi, muito bom o post!

    Realmente toda Gilmore Girls é pautada pelas relações mãe e filha. É uma série que fala muito sobre conflito de geração. E é bem isso que você falou. Elas podem discordar de tudo, mas brigam porque se amam, porque querem o melhor para as filhas. O que eu acho mais legal da série é quando ela sobem uma geração e mostram as mães da própria Emily (que na vdd é mother-in-law) e da Mrs. Kim. Quer dizer, enquanto mães elas brigam e educam e parecem muito rígidas. Mas enquanto filhas, são tão rebeldes quanto suas próprias rebentas. O que só prova aquela velha máxima: mãe é tudo igual, só muda de endereço, rs!

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      Thay
      22 de novembro de 2016 at 10:30

      Fico feliz que tenha gostado, Elisa!
      E sim, é bem curioso pensar que a própria Mrs. Kim se rebelou contra a mãe e sua religião, Lane meio que seguiu seus passos sem saber, haha! E mesmo em nossas vidas, as discussões que temos com nossas mães são sempre pautadas por esse conflito, ideias diferentes para gerações diferentes. E tudo bem se, no final do dia, fizermos as pazes, né? Obrigada por comentar!

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