CINEMA

Muito mais do que vestidos: Hollywood, aparência e o valor da mulher no cinema

Se fôssemos elencar alguns dos problemas mais comuns na indústria do entretenimento, o machismo certamente figuraria entre os top cinco ou três – o que está longe de ser uma surpresa. É, afinal, um reflexo de uma realidade que nunca se preocupou em ser gentil com suas mulheres, e que se torna mais evidente à medida que questionamos regras e padrões impostos por ela. Hollywood não foge à regra: antes mesmo de pisarmos neste mundo, a indústria cinematográfica norte-americana já se estabelecia como uma fábrica de sonhos de homens brancos, feita sob medida para outros homens brancos, um lugar onde mulheres não tinham voz, poder ou autonomia.

Quando o Oscar nasceu, em 1929, o cinema norte-americano ainda vivia um período da história cinematográfica marcado pelo star system – o sistema de contratos mantido pelos grandes estúdios entre as décadas de 20 e 60. Eram contratos exclusivos e de longo prazo, que davam pleno controle aos estúdios sobre a carreira e sobre a vida de seus atores, e que estabeleciam, entre outras coisas, como essas pessoas deveriam agir e se portar dentro e fora das telas. De repente, a imagem dos atores se tornou uma parte tão essencial de suas carreiras que o trabalho realizado na tela passou a se moldar às personas que esses atores – principalmente mulheres – incorporavam na vida real.

Atrizes passaram a moldar a si mesmas de acordo com aquilo que era esperado delas – não se envolver em escândalos, estarem sempre maquiadas e bem vestidas, etc –, ao passo que agentes, estúdios e executivos da indústria trabalhavam para cuidadosamente construir uma imagem que deveria ser mantida a todo custo. Com a ajuda da mídia, essa imagem era difundida em diversos meios de comunicação, construindo e perpetuando narrativas criadas de acordo com os interesses dos chefões de Hollywood. Os relacionamentos falsos entre celebridades, papéis escolhidos a dedo para reforçar a imagem desejada para as atrizes, casos de adultério e uso de drogas mantidos em segredo sob chantagem e altos pagamentos; tudo isso fazia parte da indústria e sua obsessão pela criação de narrativas que ultrapassassem as telas de projeção. Não é por acaso que muitas celebridades transformaram-se em mitos que até hoje permanecem no imaginário coletivo: ao abrir mão de suas singularidades enquanto pessoa para dar lugar a uma imagem sem qualquer relação com o real, essas figuras subverteram noções de realidade, construindo um novo universo ficcional e fantasioso que ultrapassa a realidade e ganha a eternidade, numa união entre humano e divino.

O fascínio do público e da mídia com as celebridades não mudou muito ao longo dos anos. Embora o star system tenha entrado em declínio no final da década de 60, celebridades continuaram a surgir, suprindo espaços deixados por estrelas que desapareceram ou perderam sua relevância com o tempo. Contudo, quando falamos sobre mulheres, esse desaparecimento se traduz na forma como o cinema as enxergava, e como enxergam até hoje: objetos que perdem valor à medida que sua imagem não mais supre as expectativas da indústria – uma expectativa que, não por acaso, é pautada pelo olhar do masculino. Casos como o de Maggie Gyllenhaal, que aos 38 anos é tida como velha demais (!) para interpretar a amante de um homem de 55 (!) anos ou de Jennifer Lopez, que sob o estereótipo da diva foi muitas vezes silenciada e tratada como incapaz de tomar decisões, são uma consequência direta disso, além de um indicativo bastante cruel daquilo que é vivido, dia sim outro também. Em Hollywood, mulheres não podem ter opinião, não podem envelhecer, não podem ter autonomia. Elas são o outro, e outros jamais se tornam os sujeitos de uma narrativa.

Embora existam artistas que conseguem manter suas carreiras por muitos e muitos anos, elas ainda são a exceção, quando deveriam ser a regra. E mesmo assim, são mulheres que em algum momento de suas trajetórias viram de perto a face do machismo, que precisaram moldar a si mesmas em função de uma indústria que, com diferentes mecanismos, ainda tenta manter o controle sobre suas novas estrelas – como devem se vestir, portar, os papéis que devem (e podem) assumir, etc. etc. Do contrário, a história contada sobre elas talvez fosse radicalmente diferente daquela que conhecemos hoje. Não é uma realidade tão distante quanto imaginamos.

Ao seu próprio modo, o Oscar também reflete e colabora para a manutenção desses comportamentos. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é, desde 2013, liderada por Cheryl Boone Isaacs, executiva de relações públicas e marketing cinematográfico; mulher e negra que abriu espaço para si mesma em uma indústria racista e misógina. Além dela, a atriz Bette Davis e a produtora e escritora Fay Kanin também estiveram à frente da organização – Davis, por apenas dois meses (ela renunciou ao cargo); Kanin de 1979 a 1983. Contudo, o fato de ser presidida por uma mulher não muda o fato de que a maior parte dos membros da Academia continuam a ser homens brancos, quase sempre acima de cinquenta anos, e que são esses caras que escolhem quem é ou não digno de levar o prêmio pra casa. Não é uma surpresa que tão poucas mulheres recebam prêmios nas categorias técnicas, da mesma forma que, na ausência de categorias específicas para atrizes e coadjuvantes femininas, em uma disputa com seus colegas do sexo masculino, a quantidade de mulheres vencedoras seria, provavelmente, bastante inferior.

E quando falamos sobre o tapete vermelho, esse duplo padrão se torna ainda mais evidente: enquanto mulheres são questionadas sobre seus vestidos, penteados e manicure; aos homens reservam-se perguntas mais complexas sobre trabalho, cinema e as expectativas sobre a premiação. O Oscar não é, em tese, uma premiação sobre quem se veste melhor, mas a forma como a mídia trata as mulheres que atravessam o tapete vermelho diz justamente o contrário. Porque é sobre isso também – ou, aparentemente, é quando falamos sobre mulheres. Esse cenário glamouroso do red carpet – os flashes, a mídia, os fãs – é o cenário perfeito para a perpetuação do mito: as pessoas que por ali passam, com seus belos trajes de gala, são toda a personificação da mágica hollywoodiana, da indústria dos sonhos, de uma realidade deslocada da nossa própria. É um encantamento tão inevitável quanto aquele pedacinho de chocolate após o almoço ou mais um episódio de uma série que amamos demais, mesmo quando não temos tanto tempo assim pra isso. O problema, contudo, reside na forma como a mídia se relaciona com essas figuras. O fato de termos atrizes sendo bombardeadas com questões sobre vestidos, beleza e dietas enquanto homens falam sobre seus Projetos Pessoais™ é um desdobramento da ideia amplamente difundida de que para as mulheres é necessário ser bela, e apenas bela – e o resto é apenas resto. É algo que permeia nossa existência desde o nascimento: desde muito cedo somos lindas, belas, gracinhas, o bibelô do papai e da mamãe; mas nunca inteligentes, carinhosas, engraçadas, criativas, ambiciosas, porque, para a mulher, ser bela já é suficiente.

Só que isso não é suficiente – e todas nós sabemos disso, da mesma forma que todas as atrizes e profissionais da indústria cinematográfica também sabem. Quando atravessam o tapete vermelho de uma premiação como o Oscar – a maior do cinema norte-americano e possivelmente a mais famosa do mundo inteiro –, essas mulheres não querem falar apenas sobre o que estão vestindo ou sobre uma dieta milagrosa: elas querem falar sobre seu trabalho, sobre seus projetos, e exaltar e valorizar as experiências que as levaram até ali, e não há nada mais justo do que permitir que elas façam isso, celebrem isso. Porque afinal, o Oscar é, também, a celebração maior do cinema norte-americano e nada mais natural que essas mulheres, tão fundamentais para a construção dessa indústria, participem de forma completa dessa imensa festa – que é justamente o oposto do que acontece na prática.

Quando Cate Blanchett questionou o câmera do canal E! sobre mostrar homens da cabeça aos pés, da mesma forma que fazem com as mulheres para mostrar os seus vestidos, ou quando Elizabeth Moss mostrou o dedo do meio para a câmera que mostrava as unhas das atrizes, elas chamam a atenção para uma questão que não diz respeito somente ao E!, mas para uma problemática que existe desde muito antes delas nascerem e que continuam mais fortes do que nunca. São pequenos atos de rebeldia que dizem muito mais do que as risadas que se seguem e o tom de brincadeira são capazes de mascarar. Em 2015, dando voz à muitas dessas mulheres, Reese Witherspoon e Amy Poehler – duas das pessoas mais legais de Hollywood – promoveram a campanha #AskHerMore [“pergunte-a mais”], que buscava fazer com que os repórteres que cobriam o tapete vermelho das premiações passassem a questionar atrizes e outras profissionais da área sobre o trabalho realizado por elas e que dessem a oportunidade para que essas mulheres contassem suas histórias.

Ao mesmo tempo, histórias como a da figurinista Jenny Beavan reverberam porque falam sobre um problema que não se restringe ao mágico universo hollywoodiano. Vencedora do Oscar de Melhor Figurino em 2016 pelo seu trabalho em Mad Max: Estrada da Fúria, Beavan teve sua conquista silenciada pela polêmica em torno da roupa que utilizou durante a premiação: jaqueta de couro, calças e sapatos sem salto – uma homenagem ao trabalho que, naquele dia, lhe rendeu um prêmio. Contudo, o que deveria ser o grande momento da figurinista, uma celebração pelo reconhecimento de seu trabalho e do seu talento – uma conquista gigantesca numa indústria tão machista –, ficou marcado pela reação de muitos convidados diante da roupa escolhida por ela. Beavan desafiou o padrão – porque aquilo não a representava, porque não a fazia sentir-se confortável, porque para ela, que sempre trabalhou com moda, roupas são uma forma de contar histórias e isso era o mais importante sobre elas – e ao fazê-lo, foi duramente criticada por isso.

Sua história se torna universal quando pensamos que, em maior ou menor escala, todas sofremos com a imposição dos padrões de beleza, e que, não importa se tentamos demais estar dentro deles ou se os ignoramos de forma magistral: em algum momento, seremos julgadas por isso. Se você não leva sua aparência a sério, não é competente em seu trabalho, não pode ter uma vida social saudável, não pode ser feliz; por outro lado, se preocupar demais é igualmente problemático, fútil, vazio. Não existe um certo, mas infinitos erros que, mais dia, menos dia, todas vamos cometer em algum momento – e histórias como a de Beaven nos lembram exatamente disso.

Mas ela também nos lembra que há esperança – o que talvez seja a grande lição por trás da postura de Beaven quando recebeu o prêmio e após a premiação, mas também de todos os pequenos grandes gestos de mulheres que têm utilizado sua visibilidade para questionar e desconstruir padrões da indústria em que estão inseridas, e também de toda a sociedade. “Somos muito mais do que vestidos”, disse Reese Witherspoon, em 2015. E somos mesmo: mais do que nossos vestidos, nossos saltos altíssimos, nossas unhas coloridas, nosso peso e a forma como usamos nosso cabelo – e que o Oscar seja o lembrete necessário de que nossas vozes podem ser capazes de silenciar aqueles que ousarem dizer o contrário. Amém.

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