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Oscar e o Clube do Bolinha que é a indústria do cinema

Como temos destacado bastante em nossos textos mais recentes, no próximo dia 26 será realizada a cerimônia do Oscar; se não a premiação mais importante do cinema para alguns, definitivamente a mais conhecida pelo grande público. Se o Oscar é ou não a concentração de excelência do cinema hollywoodiano, cabe discutir, no entanto, é notório seu papel como uma excelente janela para analisarmos o mercado cinematográfico estadunidense. Quem são as pessoas fazendo filmes, quem são as pessoas sendo prestigiadas? Quem olha de fora, muitas vezes não tem a noção de que, para se fazer um filme, são necessários centenas de profissionais que trabalham em conjunto, em diferentes cargos, durante meses, às vezes anos, para que o espectador aprecie o resultado de algumas horas. A grande questão é que, atualmente, muitos desses profissionais são homens brancos — e são eles e apenas eles que contam a maioria das histórias que chegam até nós.

Em 2016, o Oscar sofreu um vexame com a hashtag #OscarSoWhite que rodou o mundo como repercussão à lista de indicados ao prêmio, extremamente branca. Nas categorias de atuação, não era possível encontrar uma pessoa não-branca, e os filmes indicados ao maior prêmio da noite, o de Melhor Filme, apresentavam elenco e histórias extremamente brancas, além de equipes majoritariamente brancas em seus bastidores. Não era uma novidade do meio, mas a repercussão foi uma reação inédita até então, tanto na internet quanto durante a cerimônia — muito graças à apresentação do humorista Chris Rock, um remendo de última hora para um problema estrutural muito maior.

Para 2017, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas fez uma mudança estrutural: vários votantes mais velhos saíram, dando lugar a votantes mais novos e de outras nacionalidades que não a estadunidense — o que resultou em uma premiação mais interessante. Assim, temos três filmes com temática negra chegaram a diversas categorias, incluindo a de Melhor Filme, como é o caso de Moonlight, Estrelas Além do Tempo e Um Limite Entre Nós; pela primeira vez, três atrizes negras competem em uma mesma categoria, a de Melhor Atriz Coadjuvante, com Viola Davis, Naomie Harris e Octavia Spencer disputando a estatueta, enquanto Ruth Negga concorre ao prêmio de Melhor Atriz por Loving. Nas categorias técnicas, pela primeira um diretor de fotografia negro foi indicado, Bradford Young, por A Chegada, e também pela primeira vez uma editora negra foi indicada, Joi McMillon, por Moonlight. Acontece que se olharmos todos os 110 profissionais indicados, sem contar atores e atrizes, Joi McMillon é a única mulher negra na lista e Bradford Young é um de apenas cinco homens negros indicados — ou seja, o Oscar está longe, muito longe mesmo, da diversidade.

Se trouxermos essa discussão para a diversidade de gênero, e não de raça, a coisa não melhora muito: desses mesmos 110 profissionais, apenas 16 são mulheres.  De todos os filmes indicados como Melhor Filme, Melhor Filme de Animação, Melhor Documentário e Melhor Filme Estrangeiro, 22 são dirigidos por homens (totalizando 24 diretores) e apenas dois são dirigidos por mulheres. Aí vem a questão: é o Oscar que só premia e reconhece homens brancos ou o mercado só tem homens brancos? Segundo o Centro de Estudos da Mulher na TV e no Cinema, em 2016, de todo mercado audiovisual dos Estados Unidos, apenas 19% dos profissionais eram mulheres; dos diretores, apenas 11% eram mulheres. O cargo com porcentagem feminina mais expressiva é o de produção, com 25%, e o mais baixo foi direção de fotografia, com 7%. Isso significa que, se olharmos para Hollywood, que ainda é a maior indústria de cinema no mundo, vemos que os caminhos estão fechados para as mulheres. Quem está fazendo e quem está no controle da maior parte das histórias que assistimos no cinema ainda são os homens.

É mais frustrante ainda se olharmos um pouco para a história do cinema, especialmente do cinema hollywoodiano. Um história quase nunca contada é a das mulheres que foram pioneiras em Hollywood, na década de 20. Nessa época, o cinema ainda não era a grande indústria que se tornou anos mais tarde; era algo relativamente desconhecido e que não dava muito lucro. Como as mulheres não tinham muitas opções de trabalho no período, foram elas que começaram a desvendar o que seria o cinema que conhecemos hoje. Cineastas como Alice Guy-Blaché, Lois Weber, Mary Pickford e Francis Marion eram regentes de equipes que tinham diversos cargos ocupados por mulheres, fosse no roteiro, na fotografia ou na edição.

É importante destacar também a importância da editora Margaret Booth: muito se estuda sobre os filmes de D.W. Griffith, diretor de clássicos como O Nascimento de Uma Nação e Intolerância, sobre como eles foram revolucionários e introduziram a linguagem cinematográfica que conhecemos hoje, mas pouco se fala como isso se deu muito em parte pelo trabalho de edição desenvolvido por Booth. Dela, porém, nem ouvimos falar. Margaret, inclusive, foi uma das diversas mulheres que dominavam a área de edição na época: como a montagem era feita à mão, o processo era associado à costura e por isso muito indicado à mulheres, que na época estavam mais acostumadas com a delicadeza do processo.

Outro caso que a história do cinema escondeu foi a do primeiro filme de Alice Guy-Blaché, The Cabbage Fairy, também o primeiro filme com um formato de narrativa realizado — os livros só lembram de Georges Méliès quando se fala disso, sendo que o filme dele, o famoso Viagem à Lua, que também possuía uma história concreta, só foi lançado seis meses depois do filme de Alice. Podemos falar também de outra cineasta que citei, Lois Weber, que lançou os filmes mais populares da sua época; era ela quem fazia algo mais próximo aos blockbusters que conhecemos hoje, mas no inicio do século XX. Em 1917 ela cria a Lois Weber Productions, se tornando a primeira mulher, e uma das primeiras cineastas — homem ou mulher —,  a ter seu próprio estúdio dentro da sua própria empresa de produção cinematográfica.

Esses são alguns exemplos de mulheres que foram esquecidas, porque, como dizem, quem conta a história são os vencedores, que nesse caso são os homens. Com a quebra da bolsa de valores em 1929, que levou à Grande Depressão, diversos homens perderam seus empregos e foi nesse momento que eles olharam para o cinema como um investimento. Depois de aprender o que podiam com as mulheres, que já faziam isso há anos, eles foram aos poucos expulsando-as do mercado. O documentário Et la Femme Créa Hollywood, das irmãs Clara e Julia Kuperberg, conta melhor essa história.

Qual é a repercussão disso na prática? Ter essa disparidade imensa por trás das câmeras significa duas coisas: primeiro, a maioria dos filmes são histórias de homens brancos; mulheres são apenas alegorias que ajudam o protagonista alcançar seus objetivos; segundo, mesmo quando esse lugar-comum é quebrado, mesmo quando existem histórias de mulheres, ela não é contada sob o ponto de vista feminino — não somos nós contando nossas próprias histórias e isso faz toda a diferença.

Trabalhando diariamente com o mercado audiovisual, consigo observar essas disparidades de forma mais próxima. Trabalho em uma casa de pós-produção onde sou a única mulher na área técnica, e lido muito mais com trabalhos de diretores homens e, principalmente, fotógrafos homens, do que mulheres; e tudo isso tem o seu peso, cansa. Toda vez que vejo em uma lista de créditos de filmes, principalmente nacionais, nomes de mulheres é um respiro, é um alívio ver que eu não estou sozinha nessa. É claro que o Oscar deve incentivar e prestigiar as poucas minorias que já estão inseridas no mercado e cabe a nós, sempre, fazer barulho enquanto listas tão desiguais quanto as que temos visto continuarem saindo. Mas mais do que isso, precisamos incentivar as meninas a fazer cinema e mostrar que esse é um caminho possível. Mais do que entrar no clubinho machista que é a premiação, precisamos desbravar esse mercado e conquistar nosso espaço. É nosso direito ter voz para contar nossas próprias histórias.

Dani Feno, formada em Comunicação, trabalha com pós-produção de cinema e TV no Rio de Janeiro faz alguns anos, mas sua real especialidade é séries e filmes adolescentes. Gorda e feminista desde criança, acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória. FacebookNewsletter

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