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Mesa redonda: “Oy with the poodles already” – Os 17 anos da estreia de Gilmore Girls

Gilmore Girls

“Please, Luke. Please, please, please.” Em 5 de outubro de 2000, essas cinco palavras foram ditas por Lorelai Gilmore (Lauren Graham), abrindo o piloto de Gilmore Girls que ia ao ar na Warner dos Estados Unidos. Naquela época, muitas de nós ainda não acompanhavam a série, mas durante as últimas dezessete vezes que a Terra girou em torno do Sol, coisas aconteceram e acabamos descobrindo-a em nosso próprio tempo, de uma maneira que a deixou para sempre marcada em nossos corações.

O maior atrativo de Gilmore Girls, para além do que a sinopse nos conta – que a série narra a vida de uma mãe e uma filha que são mais melhores amigas do que mãe e filha –, é a facilidade com a qual nos identificamos com as personagens que constroem essa história e a trajetória de cada uma, porque são personagens humanas cultivando os mesmos sonhos e enfrentando os mesmos desafios que nós. Por isso, a impressão que algumas pessoas têm de Gilmore Girls ser uma série pacata é tão controversa; em meio às situações cotidianas que vivem testando nossas escolhas, como ignorar as nuances na construção de cada personagem? Como cessar a discussão sobre uma série de TV que diz mais sobre a gente do que somos capazes de explicar?

Ao longo de sete temporadas, nos apaixonamos pelos personagens de Gilmore Girls e encontramos conforto na atmosfera acolhedora de Stars Hollow. Participamos de eventos malucos, tomamos partido de caras que não mereciam, comemoramos (e muito!) alguns primeiros beijos e outras conquistas, choramos por términos e outras frustrações. Principalmente, aprendemos com experiências que não foram nossas, mas poderiam ter sido, porque isso é Gilmore Girls: uma religião, um estilo de vida, e nunca nos fartamos de conversar sobre ela. Para comemorar os 17 anos de estreia da série, decidimos, então, fazer uma mesa redonda com algumas participantes do nosso time, e – spoiler alert – falamos muito, falamos rápido, e não falamos o suficiente. Peguem a pipoca e venham com a gente!

Atenção: Esse texto, obviamente, contém spoilers (e alguns palavrões, risos).

THAY: Dezessete anos de Gilmore Girls, já temos um especial contando o “depois” da história que a gente ama – o que mudou pra vocês na forma de encarar a série depois desse tempo todo? Sei que nem todo mundo começou a assistir junto com a estreia, que cada uma encontrou GG em um momento diferente da vida, mas vamos lá.

ANALU: Eu realmente não tenho uma história com a série, porque assisti ano passado pela primeira (e por enquanto única) vez! Encontrei a série aos 24, e fiquei pensando em como seria ter encontrado adolescente, hahaha. Deve ser uma experiência assistir primeiro tendo a idade da Rory e depois estando mais perto da Lorelai… eu fiquei no meio do caminho e cada hora me sentia na pele de uma delas, foi interessante.

ANNA VITÓRIA: Eu comecei a assistir Gilmore Girls bem nova, quando ainda passava na Warner, e a série me chamou atenção de cara porque a Rory e a Lorelai me lembravam muito de mim e da minha mãe. Assim como a Rory, eu era uma menina que levava escola muito a sério, gostava muito de ler e amava cultura pop, queria ser jornalista e eu também morava só com a minha mãe, que também é uma mãe pouco convencional, digamos assim. A cena da Rory puxando a Lorelai pelos pés pra sair da cama e não se atrasar de manhã já aconteceu na minha casa mil vezes, então era interessante ver isso na televisão.

YUU: Muita coisa mudou! Mas a minha visão sobre Gilmore Girls muda sempre a cada rewatch. Atualmente estou no quarto ou quinto rewatch – perdi a conta no meio do caminho – e a minha percepção é diferente da que eu tive no quarto (ou terceiro), e por aí vai. A série, agora chamada “clássica”, que abrange as sete temporadas que a gente conhece tão bem, é onde eu mais procuro referência. Mesmo passando quase um ano, eu ainda não processei completamente o revival.

THAY: Eu também encontrei a série no meio do caminho, na faculdade, por pressão da Yuu (risos). Embora tenha assistido alguns episódios soltos antes, foi só nessa época que sentei e assisti tudo. Lembrava de ser muito como a Rory na escola, e depois fui muito a Rory na faculdade – principalmente a parte “I’ve got about the next two and a half hours planned and then there’s just darkness and possibly some dragons” [“Tenho as próximas duas horas e meia planejadas e então há apenas escuridão e possivelmente alguns dragões”]. Mas nunca larguei nada e roubei um barco.

ANA LUÍZA: Também comecei a assistir no ano passado, pouco antes da temporada clássica chegar na Netflix. Tinha muita curiosidade, principalmente pela Rory, com quem eu já me identificava mesmo sem conhecer direito, mas sempre acabava deixando pra depois e priorizando séries mais recentes ou que ainda estavam no ar. A expectativa que o revival criou acabou mudando isso e aí eu realmente senti que precisava correr atrás do prejuízo. Recentemente, comecei a assistir a série clássica pela segunda vez e muita coisa realmente mudou nesse meio tempo.

FERNANDA: Encontrei Gilmore Girls pela primeira vez quando passava nas tardes da Warner e eu estava começando o ensino médio, talvez. Cheguei a acompanhar a terceira temporada (que até hoje é a minha favorita, tenho certeza de que é por isso) por lá. Mas essa coisa de horário não é comigo, então larguei e só fui assistir tudo direitinho no primeiro ano da faculdade, quando as primeiras temporadas estavam em promoção, aí viciei e comprei tudo, risos.

YUU: Uma coisa que eu acho muito bonita é que não importa em que época da sua vida você conheceu Gilmore Girls, a série acaba escalando a lista de favoritas muito rápido para alguns, porque todo mundo se identifica em certo nível com as personagens.

THAY: É fácil se identificar com a Rory do colégio, né? Principalmente se somos essas pessoas que amam livros, amam cultura pop e tudo envolvido. Mas mesmo nosso floco de neve especial tem suas questões.

ANNA VITÓRIA: Por anos eu estava constantemente vendo Gilmore Girls e de certa forma cresci com a Rory também, porque sempre voltava pra ela quando precisava de coragem (tipo na hora de entrar na faculdade e ver tudo mudar) e também algum consolo. Ano passado foi a primeira vez que vi a série inteira, na ordem, de uma vez só, e o que mudou foi que minha visão idealizada das duas – Rory como uma versão ideal de mim mesma e Lorelai como a pessoa que eu queria ser quando crescer – se alterou completamente. Comecei a enxergar as duas como humanas e falhas, mas isso só me fez gostar mais ainda da série e acho que sua maior força está justamente no quão erradas – e por isso reais – elas podem ser. O rewatch pra mim foi como uma sessão de terapia pesadona que me ajudou a me entender melhor e também pensar muito sobre minha mãe, minha avó, e o que significa ser mãe/mulher/filha/avó no mundo em que vivemos.

ANALU: Eu acho que a melhor coisa da série é justamente isso: elas serem humanas (não só elas, todos os personagens) e terem mil falhas. Eu odiei muita gente em diversos momentos ao longo da série.

ANA LUÍZA: Sim, é muito fácil se identificar com os personagens. Pra quem cresceu com a série deve ser ainda mais incrível, sobretudo pra quem se identifica com a Rory. Ver como a série desenvolve diferentes nuances da personalidade dela, em diferentes etapas da vida, é muito, muito incrível. Gosto muito da época da faculdade – provavelmente porque estava vivendo coisas muito parecidas e me via muito ali também –, mas deve ser incrível ter acompanhado a fase do ensino médio enquanto estivesse vivendo aquele momento específico, e certamente o revival deve ter sido um baque pra muita gente que estava – ou está – mais ou menos na mesma página.

YUU: Lá pelo terceiro ou quarto rewatch comecei a ficar um pouco incomodada em como a série pinta a Rory como a menina dos olhos de todos, e a Lorelai como a super mãe e mulher. Mas ambas vivem metendo os pés pelas mãos tanto na escola/trabalho quanto nos relacionamentos com os namorados e a família.

ANNA VITÓRIA: Eu acho que o revival potencializa essa humanidade delas, por isso ele é tão incômodo de assistir. Acho que ele tem falhas no desenvolvimento das personagens, mas essas falhas não estão no fato de que Rory e Lorelai estejam mais perdidas ainda do que da última vez que nos encontramos com elas. Elas continuam sendo imaturas e fazendo escolhas erradas, e acho que o revival acaba mostrando isso de um jeito mais cru. A série clássica acaba tendo um tom meio idílico que não aparece no revival e acho essa crueza importante porque mostra o quão desesperadamente as duas precisam get their shit together.

THAY: Isso me incomoda, a maneira como o pessoal de Stars Hollow as vê como modelos a serem alcançados, mas na real elas são tão falhas quanto qualquer uma de nós. Mas talvez seja aquela coisa de que, pra quem vê de fora, é tudo perfeito, mas só nós sabemos o que realmente somos e vivemos.

ANNA VITÓRIA: Yuu, mas você não acha que essa idealização não vem muito do olhar dos outros sobre as duas? Percebo isso principalmente na Rory. As pessoas idealizam ela, projetam sobre ela uma expectativa de ser sempre perfeita, de que tudo que ela faz está certo, de que todo mundo sempre vai estar ali pra ajudá-la quando for preciso. É muito difícil não entrar nessa fantasia quando você vive isso desde tão nova, e a Rory tem os momentos dela de ser péssima porque ela é uma pessoa e pessoas às vezes são péssimas e não acho que a série esconda isso, mas talvez os personagens não queiram encarar essa realidade.

YUU: Sim, Anna, acho! Desde a primeira temporada isso é perceptível. As qualidades da Rory são enaltecidas primeiramente pela Lorelai, que foi capaz de ir gritar com o diretor da escola quando ele proibiu a Rory de fazer a prova sobre Shakespeare por ter chegado atrasada. O argumento dela? “Rory é uma menina maravilhosa e merece fazer a prova!” A ta.

FERNANDA: Uma coisa interessante pra mim é que no começo eu me incomodava um pouco com o quanto a Rory era (pelo menos aparentemente e à primeira vista – hoje em dia já problematizamos Rory Gilmore um pouco mais por aqui) perfeita DEMAIS demais, então eu gosto muito desde sempre da famosa trama dela na quinta temporada, porque humanizou a personagem de um jeito que eu não tenho certeza de que era feito no começo.

ANA LUÍZA: Me incomoda um pouco a forma como todos pintam a Rory como uma menina perfeita, mas gosto de como o revival desconstrói isso. Muita gente odiou a nova versão da Rory, disse que ela era um monstro e coisas do tipo, mas acho que tudo sempre esteve ali, os novos episódio só potencializam isso, como a Anna bem falou. Ela não é perfeita, afinal de contas – graças a Deus.

ANALU: Eu acho que o revival fez ela ficar BABACA pra caralho e eu não gostei de muita coisa, mas de fato tava tudo na série clássica já.

ANNA VITÓRIA: Com a Lorelai é a mesma coisa. Ela é muito carismática e cativante, as pessoas se apaixonam automaticamente por ela, nunca esqueço da frase do Luke que fala que ela parece saída de um desenho animado. Mas isso também tem seu lado ruim, né? Ela é absurdamente imatura e infantil, o que faz sentido dado o histórico dela, então, de novo, tá tudo ali.

ANALU: Eu acho genial o plot de quando ela leva aquela negativa no jornal e PIRA porque é o primeiro momento em que ela não é considerada perfeita – mas claramente ela não aprendeu nada com isso pois segue assim no revival se sentindo maior que todos os empregos possíveis.

ANA LUÍZA: Ela sempre foi levada a acreditar que era boa demais e mesmo passando por dificuldades, a arrogância continuava inteira ali. Não é uma surpresa quando ela chega pra entrevista de emprego sem se preparar porque “nossa, sou boa demais pra esse lugar”. Gosto como eles colocam que até sendo muito, muito boa, o mundo não é uma fábrica de realização de desejos, ser muito boa no que quer que seja não garante absolutamente nada.

ANNA VITÓRIA: E outra, ela pode ser muito boa, mas pelo menos antes ela se esforçava pra isso, né? Mas a tendência é a gente ir relaxando mesmo, começando a encarar tudo como dado e achar que só ser muito boa vai automaticamente fazer com que você consiga tudo que quer, mas não é bem assim e o revival escancara isso.

YUU: Ainda na primeira temporada, quando Rory e o Dean terminam o relacionamento, ela se recusa a falar sobre isso, mas eventualmente a cidade inteira descobre e cai em cima dele, porque ele nunca encontrará alguém melhor do que a Rory. Ninguém sabe o que aconteceu, ninguém considera que existem mais camadas na situação do que os dois estão dispostos a discutir, mas a cidade toma partido e assim fica.

ANA LUÍZA: Sim! E é só quando a Lorelai vai tirar satisfações com ele [Dean] é que vem à tona o que realmente aconteceu.

FERNANDA: Acho que parte do problema é que a série é adorável e acredito que é tipo um bálsamo pra todo mundo que cresceu com ela, então talvez falte um pouco do nosso próprio senso crítico na hora de falar sobre ela. Porque ela é contada a partir da visão da Lorelai e da Rory, né? E a Lorelai acha que a Rory é perfeita e pra Rory a Lorelai é o grande modelo. Talvez falte um pouco daquela desconfiança em relação aos (se isso fosse literatura) “narradores”.

ANNA VITÓRIA: Acho que isso que a Fer falou é o principal “salto de percepção” que tive vendo a série depois de adulta. Quando era adolescente eu não pensava sobre isso e comprava automaticamente o que estava vendo sem questionar aquela perspectiva, mas anos depois isso ficou gritante pra mim. Acho que a qualidade da série se revela quando a gente entende que esse “desencanto” não é um defeito e sim uma nova camada da história.

YUU: Concordo, Fer! Depois do revival estou tentando abrir os olhos para isso. Tanto que gostaria de abraçar a Amy [Sherman-Palladino] e dar uma sacudida nela ao mesmo tempo. Se tem alguém que mais se engana com suas próprias meninas é ela, e isso tudo acaba transmitido na série.

FERNANDA: Nossa, Yuu. Totalmente! A Amy é encantada demais com elas, e isso transparece demais, muitas vezes prejudicando a série. No revival, por exemplo, ao mesmo tempo que ela quer fazer aquela crítica aos millenials, parece que ela simplesmente não consegue incluir a Rory 100% na crítica, e fica uma coisa muito mal ajambrada, nem pra lá nem pra cá.

ANA LUÍZA: Com certeza. A perspectiva das duas influencia demais, demais, demais. A própria Emily sofre muito com isso. Muita gente odeia a personagem, mas no fundo ela é humana, uma mulher complexa pra cacete que também foi muito machucada por tudo que aconteceu com a filha. A Lorelai a pinta como um monstro, mas ela não é esse monstro – pelo menos, não o tempo inteiro.

ANNA VITÓRIA: Emily ❤ Gilmore ❤

ANALU: Eu tenho muitos problemas com a Emily e vocês sabem hahaha.

THAY: Acho que a Emily é quem teve o melhor desenvolvimento, levando em consideração a série clássica e o revival.

ANA LUÍZA: O desenvolvimento dela no revival foi uma das coisas mais bonitas que já vi.

ANNA VITÓRIA: Acho o arco da Emily perfeito, muito bonito e humano, tudo que ela sempre mereceu.

YUU: Quais são os momentos da Emily favoritos de vocês?

THAY: Ela teve que praticamente se reconstruir inteira depois da morte de Richard, e isso fala muito sobre a resiliência da personagem.

ANA LUÍZA: Assisti recentemente o episódio em que ela e a Lorelai desfilam juntas. Não sei se é meu momento favorito de todos, mas sem dúvida é um dos meus preferidos.

YUU: Eu gosto bastante daquele momento em “Christopher Returns” [1×15] em que todo o jantar vai por água abaixo depois da discussão com os pais do Christopher, e a Emily vai procurar a Rory na cozinha para dizer a ela que nada disso é culpa dela, e ninguém se arrepende da existência dela. Então ela abre os potes que pegou na geladeira e faz um prato para Rory comer. Gosto desse momento em particular porque é um dos poucos em que o tom de voz dela se ameniza, que dá para perceber quem ela é de verdade (um vislumbre daquela mulher que esquenta sopa para a empregada doente no revival, e não pede para a própria empregada fazer isso nem fica com nojinho de tirar a comida diretamente do tupperware porque não é chique). É só a Emily se importando.

THAY: Yuu, eu gosto demais do arco inteiro da Emily no revival. E era uma coisa que eu não tinha expectativa nenhuma, sabe? E me surpreendeu tanto e de um jeito tão positivo! Foi um acerto dos Palladino [Amy e Daniel] (dentro de tantos erros, desculpa).

ANA LUÍZA: Essa crítica que a Amy tenta fazer aos millenials me irrita um bocado. É caricata a forma como ela representa aquelas pessoas, existe um abismo entre eles e a Rory, como se a Rory fosse, de fato, muito especial, um floquinho de neve. O arco da Emily foi um acerto dentro de tantos erros, de fato.

FERNANDA: E eu tenho certeza de que só foi um acerto entre muitos erros porque eles foram obrigados a fazer uma coisa diferente, já que o Edward Herrmann faleceu.

THAY: Ah Fer, isso é bem verdade, infelizmente.

ANA LUÍZA: Bem verdade.

FERNANDA: Eu não tinha nenhum amor especial pela Emily, achava ela e o Richard extremamente esnobes e controladores, mesmo com os momentos bonitos em família (o que é um ponto muito positivo, acho os Palladino acertavam muito na caracterização deles como… humanos). Mas a trama da Emily no revival foi sem dúvida minha parte preferida, acho que a personagem cresceu tanto, foi muito bonito, bem escrito, bem atuado.

ANNA VITÓRIA: Acho que meu momento favorito é aquele episódio em que ela e a Lorelai vão pra um bar juntas e ela acaba dançando com um bonitão aleatório. Acho que diz tanto sobre ela, principalmente ela panicar no meio e ficar brava de repente. Ela é uma mulher que raramente tem a chance de existir fora do espectro do marido e aquele momento no bar mostra como ela quer e precisa daquela chance de ser ela mesma, se divertir e receber uma atenção que ela nunca realmente tem em casa. E o conflito dela de se sentir errada por viver aquilo é perfeitamente coerente.

ANALU: O que eu acho mais interessante em personagens humanas é que a gente apanha porque fica com raiva delas quando elas estão sendo “a gente”. O momento em que eu mais odeio da Emily é quando ela é imbecil com o Luke e quer separar ele da Lorelai, mas eu também quero muitas coisas horríveis e tenho essa coisa de querer manipular situações pra que elas aconteçam da maneira que eu quero, rs – elas só não vão longe desse jeito, na maioria das vezes eu só quero e depois passo raiva.

ANNA VITÓRIA: Também amo quando a mãe do Richard vai visitar e ela surta. Emily tendo um meltdown tomando uísque de robe é meu patrono.

YUU: Foi no episódio do falecimento da Lorelai I, Anna. Emily ficou brava porque nem morta a sogra dava descanso pra ela. Amo esse episódio!

ANALU: Mesmo assim repito o que eu disse na newsletter uma vez: acho que a gente se acostumou a odiar homens e passar pano pra mulher, desculpa, mas não consigo entender quem taca TANTA PEDRA no Dean, que no fim das contas é só um pirralho de 17 anos fazendo umas cagadas e louva a Emily mesmo quando ela consegue ser MÁ de verdade.

ANA LUÍZA: AI, ANALU, SIM!

YUU: Analu, PREACH.

THAY: Eu sempre defendi o Dean da primeira temporada.

ANNA VITÓRIA: Isso que a Analu falou é muito real, eu me identifico tanto com a Rory que às vezes é insuportável assistir.

THAY: Sei que depois ele se torna um péssimo exemplo, etc., etc., mas o Dean da primeira temporada recebe um ódio gratuito que eu jamais vou entender.

FERNANDA: Será que chegou o momento de falar mal do Dean???

THAY: Não seria falar mal, acho eu.

ANALU: Não vou malhar o Dean, pra mim ele é só tão humano quanto qualquer um dos outros personagens.

THAY: Embora ele erre MUITO em muitos momentos, não dá pra dizer que ele errou sozinho.

FERNANDA: Eu falar mal do Dean, no caso.

ANNA VITÓRIA: Acho que é porque acima de qualquer coisa o Dean é mal desenvolvido. A gente não enxerga as camadas dele, ele é só um cara alto que grita com as pessoas, sabe? Não acho que defender a Emily seja uma questão de passar pano pra ela, até porque ela é manipuladora, elitista e isso não muda, mas pelo menos a gente sabe de onde tudo isso vem. O Dean não tem esse espaço pra crescer.

ANALU: Não entendo porque as cagadas dele são superestimadas.

THAY: E isso não quer dizer que estou passando pano, porque ele se torna bem horrível em muitos momentos, mas a gente não tem a oportunidade de conhecê-lo além daquilo que a Rory conhece.

ANA LUÍZA: Concordo, Thay. Também não consigo entender. É bem verdade que o Dean não é perfeito, mas, de novo, quem é? Ele também só foi humano o tempo inteiro e reagiu ao que estava acontecendo na vida dele. A vinda do Jess muda muita coisa e a Rory não é honesta com ele em vários momentos.

YUU: Atualmente vejo que o Dean, mesmo na primeira temporada, é muito over the top no relacionamento dos dois. Ele ama a Rory mais do que a Rory o ama. Na verdade, acho que a Rory nunca o amou de fato, ela só acreditava que sim, porque não tinha referências anteriores.

ANA LUÍZA: Ela era muito jovem, não tinha nenhuma referência, estava tendo a primeira experiência amorosa com o carinha novo da cidade, é claro que ela se apaixonou. Mas confundir amor com paixão é fácil demais.

ANALU: Deve ser desesperador ver sua namorada CLARAMENTE se derretendo e dando abertura para outro cara. Ainda mais aos 17.

FERNANDA: Então, concordo totalmente com a Anna. Pra mim parece que os Palladino queriam com o Dean o seguinte: um ótimo primeiro namorado! Yay! (Tanto que ele só aparece no revival pra Rory reafirmar isso, né?). E simplesmente não tem desenvolvimento NENHUM. Não acho que seja caso de ele ser homem, porque, gente, eu sou a pessoa que vive humanizando Don Draper por aí. É que o Dean parece um personagem de papel, sinceramente.

THAY: Exatamente. Só que ninguém parece perceber que o Jess é o Dean da primeira temporada em uma nova roupagem.

YUU: De qualquer forma, não tenho como jogar fora tudo que ele fez: dar um presente de aniversário escondido porque a Rory não conseguia contar para a mãe sobre eles, levá-la ao baile de Chilton, construir um bad wording carro pra ela. Ele é afetuoso, mas como Analu disse, ele tem 17 anos. Vai errar pra caramba também.

ANALU: Ah sim, ele de fato é mal desenvolvido, mas isso não me faz odiar ele, é apenas um fato, hahaha.

FERNANDA: Então, é que só consigo ver a faceta insuportável dele hahaha. A gente não vê ele com a família, a gente não vê as expectativas em cima dele, a gente não vê quem ele quer ser, a gente não vê nada.

ANNA VITÓRIA: A única coisa que a gente vê é que ele queria uma namorada nos moldes da mãe dele, uma dona de casa que vivia pra família, o que não ajuda muito kkk. Eu acho honesto ele ter uma faceta humana, mas a série não oferece esse material.

YUU: Discordo, Anna. Nesse episódio da Donna Reed o que ele queria dizer é que algumas mulheres podem e optam por exercer o papel de esposa apesar das oportunidades. É que ficou muito mal interpretado no meio das reações. Ele usa como exemplo a própria mãe que, mesmo depois de casada, tinha um emprego de meio período e ainda cozinhava para a família aos fins de semana. Durante o jantar ele DIZ que não quer que a Rory seja esse tipo de mulher.

ANA LUÍZA: E também discordo do lance da Donna Reed. Na primeira vez que assisti, o que me saltou aos olhos foi o absurdo da situação (como assim um homem querer uma mulher nesses moldes, etc etc), mas assistindo de novo, é bem isso que a Yuu falou: o que ele quer dizer é que tudo bem se a mulher optar por isso, existe essa opção, mas ela não é a única, e não é isso que ele espera da Rory também.

ANNA VITÓRIA: Mas o que eu enxergo é que o Dean tinha problemas com a ambição da Rory e fazia ela se sentir culpada por isso, por querer sair de Stars Hollow. Uma coisa meio de chantagem emocional, sabe? Acho que no fundo os dois se apaixonaram pela ideia que tinham um do outro e o relacionamento nunca daria certo porque eles queriam coisas diferentes, um do outro e da vida. Contraditoriamente, também é essa diferença que atraía um ao outro, porque o Dean gostava dessa ideia da Rory ser inteligente e ambiciosa, da mesma forma que ela gostava dessa ideia de ele ser esse cara estável, gentil e gente boa, mas na prática isso se desenvolve de formas diferentes.

ANA LUÍZA: Sim, essa é uma falha imensa da série. Na primeira temporada eu consigo ver muito claramente os bons momentos dele ao lado da Rory, mas é só isso, coisa que no segundo ano nem acontece mais. Eles têm algumas cenas se beijando, tendo conversas banais, ou então com ele gritando, puto com alguma coisa. Não é como se isso ajudasse muito. Ao mesmo tempo, tem o Jess, que é insuportável em vários momentos, que realmente o provoca e quer incomodar, mas que ganha um pano de fundo mais complexo. Agora o Logan eu adoro, gente, desculpa.

ANNA VITÓRIA: Tipo o Jess. O Jess é péssimo com a Rory? É! Várias vezes! Um babacão! Mas ele tem desenvolvimento (tanto ele como o Logan, aliás), o que deixa mais fácil a gente comprar a versão deles da história e entender melhor a dinâmica. Eles são humanos e são falhos, e a gente sabe de onde vêm essas falhas.

FERNANDA: Não sei se acho que ele fazia a Rory se sentir culpada por querer sair de Stars Hollow, acho que nunca senti isso? Acho que ele acabava fazendo ela se questionar, isso sim, mas porque é óbvio que isso acontecer, afinal.

ANA LUÍZA: Eu não acho que ele [Dean] tivesse esses problemas conscientemente, mas isso foi surgindo com o tempo, quando ele percebeu que a ambição dela e o fato de ser muito inteligente e vir de uma realidade tão diferente (pensem no jantar com os avós da Rory em que o Richard não para de ofender e tentar diminuir o menino) poderia ser um problema pro relacionamento dos dois. Porque lógico, ele aceitava as ambições dela, incentivava e tudo, mas ele também queria que os dois tivessem seus momentos juntos. Sendo humano, é natural que ele se incomodasse, mesmo que racionalmente ele soubesse que era isso que ela queria e que eram expectativas importantes.

ANALU: Eu acho os três namorados dela no mesmo nível de babaquice (na série clássica). No revival o Logan se mostra ainda mais babaca – o que não me surpreende porque sempre achei ele assim.

THAY: Acho que cada um foi importante pra Rory em um determinado momento da vida dela, mas todos são bem qualquer coisa.

FERNANDA: Eu me sinto quase impelida a gostar (ou pelo menos tentar entender) do Jess pelo roteiro da série, sabe? Dentre os três ex-namorados ele é o único que realmente ganha espaço pra amadurecer e se tornar uma pessoa melhor. Acho que uma coisa positiva do Dean é que mesmo que a vida ideal pra ele fosse diferente do que a Rory sonhava pra ela é que ele nunca tentou fazer ela desistir das coisas que ela queria pro futuro.

ANA LUÍZA: Eu gosto bem pouco do Jess, pra ser sincera. De todos, é o que acho mais babaca, embora assistir a série pela segunda vez tenha me feito mudar um pouco de opinião. Mas de todos, meu favorito continua sendo o Logan – que é um cara problemático também, que comete um monte de erros, etc. etc., mas que, acho, ainda é quem tem um relacionamento mais ok com a Rory na série clássica. O Logan do revival é realmente um horror.

THAY: Falando sobre os relacionamentos da Rory, o que vocês esperavam desse tópico no revival?

ANNA VITÓRIA: JESS DESERVED BETTER é meu único hot take, dsclp.

THAY: HAHAHAHAHA, eu achei que foi uma bagunça tão grande que eu até hoje tenho questões a respeito de como essa trama foi conduzida.

ANALU: Pra mim NUNCA FOI UMA QUESTÃO “com qual dos três a Rory vai estar no revival”.

THAY: Então, essa questão eu não tinha também.

ANNA VITÓRIA: Pra mim também não, não sei de onde as pessoas ficaram obcecadas com isso.

ANA LUÍZA: Confesso que pensava mais em outras coisas – a vida profissional, por exemplo, o que ela estaria fazendo, etc etc.

THAY: Sim! A vida profissional era uma coisa que eu queria muito ver.

ANALU: Eu achei que ela ia estar de boas namorando outro e que ia encontrar com os três ao longo dos episódios e pensar sobre o passado, hahaha.

FERNANDA: Bom, gente, acho que eu só esperava que 52 anos depois meu filho Jess Mariano tivesse superado a namorada do ensino médio e não ficasse tristemente olhando através de janelas, mas tudo bem.

ANA LUÍZA: Por mais que a gente passe muito tempo discutindo os relacionamentos da Rory, acho que esse era o ponto que eu menos tinha expectativas pro revival? Esperava que ela estivesse solteira ou então em um relacionamento estável, não aquela palhaçada do cara que ninguém sabia o nome – e o Logan, né.

ANALU: MAS AÍ FOI AQUELA PALHAÇADA DO NAMORADO QUE ERA ESQUECIDO. Eu queria explodir isso. Sério.

THAY: Nunca me importei muito com o “qual dos três”, mas achei totalmente babaca o tal do Paul. Muito desnecessário.

ANALU: Esse plot do Paul é muito nada a ver. Porque ele não é engraçado, ele é só idiota pra caralho.

ANNA VITÓRIA: Cara, eu acho a desconstrução da Rory no revival super pertinente, menos na parte dos namorados. Porque é babaca num nível que nem a Rory nos seus piores momentos seria capaz. E pior ainda é ninguém se importar com isso, sabe? Ai, vamos rir do Paul esquecido kkkkk.

FERNANDA: Gente, Paul pra quê? Pra quê??? Por que alguém achou isso uma boa ideia??? Por que ninguém falou NADA???

THAY: SIIIM FER!

ANNA VITÓRIA: Sem falar que a questão da traição é bastante incoerente com o desenvolvimento dela, né? Esse já foi um ponto sensível pra série e me parece bem estranho ela aparecer como amante do Logan e isso nunca ser tratado de forma séria por ninguém (pelo menos não que eu me lembre).

FERNANDA: Se pelo menos fosse algum, sei lá, cameo de algum ator x que coubesse na piada, alguma coisa que fizesse SENTIDO.

YUU: Paul e Odette deserved better.

THAY: Sim, pobre Odette que nem cara tem.

ANA LUÍZA: Não foi NADA engraçado. E Odette também merecia bem mais, coitada.

FERNANDA: Então, Odette é um plot device, né. Ela nem aparece pra gente focar no drama da Rory com o Logan e esquecer do quanto os dois estão sendo completamente babacas (sendo que não tinha nenhuma necessidade narrativa real dessa traição dupla).

YUU: Essa questão dos relacionamentos foi o que me deixou MAIS CURIOSA para saber o que diabos aconteceu nos últimos nove anos para a Rory ter perdido a moralidade desse jeito. Uma pancada na cabeça, talvez? Porque não é possível, gente. Não é possível ela agir desse jeito, e a Lorelai NÃO FALAR NADA.

THAY: SIM, ainda mais a Lorelai que surtou quando aconteceu com o Dean. Acho que todo mundo estava fora de si, só isso explica.

ANNA VITÓRIA: No entanto, eu gostaria da ideia de ela e o Logan continuarem se pegando casualmente se ambos fossem solteiros.

ANA LUÍZA: Eu também gostaria bastante, risos. Ao mesmo tempo, que fácil colocar os dois com pessoas que não tem rosto e não tem complexidade nenhuma.

THAY: Sim, é uma muleta de roteiro bem mequetrefe. (!)

YUU: Tem horas que esse revival me dá vontade de esquecer Rory Gilmore e focar em Paris Geller, porque, pqp, que mulher.

THAY: AHH, Paris ❤

ANA LUÍZA: QUE MULHER!

ANNA VITÓRIA: Paris segurando a porta com o salto é meu patrono do revival.

ANA LUÍZA: HAHAHAHAHAHA SIM ❤

THAY: SIM!

YUU: Paris precisa lidar com várias questões de insegurança e carência desde o começo, mas ela nunca se deixou abalar por isso. Ela veio de um contexto ainda mais privilegiado que a Rory, mas o fato de que faltava amor e apoio na casa dela a deixou mais resistente aos perrengues da vida real pelos quais ela passou.

ANALU: Paris e Emily são a mesma pessoa em idades diferentes HAHAH.

THAY: Não acho que elas sejam a mesma pessoa, Analu. Vejo tanta diferença entre as duas!

ANALU: As duas [Emily e Paris] são “pobres meninas ricas” que vivem uma pressão que é difícil enxergar quando a gente pensa nos privilégios delas, as duas são manipuladoras e surtam quando as coisas não saem do jeito que elas querem – mas a Emily com mais calma e classe devido aos aprendizados da idade HAHA.

THAY: Ainda assim, não leio as duas da mesma forma.

ANNA VITÓRIA: Não vejo as duas como similares porque pra mim a principal questão da Emily é estar sempre relegada ao segundo plano e nunca ter seu esforço valorizado. Ela é um caso bem típico de “segundo sexo”, e embora ela sofra com isso, ela internaliza que é assim que as coisas são e não tem nada que ela possa fazer.

ANA LUÍZA: Concordo, Anna.

ANALU: Por isso que eu disse que as duas são iguais mas em idades e contextos completamente diferentes.

ANNA VITÓRIA: A Paris nunca cogitou ser apêndice de alguém, e nunca foi. Ela sempre foi insuportavelmente ela mesma, numa intensidade às vezes exagerada, e sempre lutou MUITO pra que seja sempre assim. A maior luta dela é com ela mesma e suas inseguranças.

ANALU: Fosse Emily da idade e da geração da Paris você acha que ela ia se contentar em ser o segundo sexo?

YUU: Difícil dizer, Analu! A gente nunca conheceu o lado da família da Emily para saber quais eram as tradições deles, e o quanto a Emily prezava isso. Aliás – outro defeito da série clássica: HOW COME a gente conhece a mãe do Richard e nunca nenhum membro da família por parte da Emily?

ANNA VITÓRIA: É que a Paris tem uma fragilidade dentro dela, por conta da família, etc, que não enxergo na Emily. Também não imagino a Emily loucamente ambiciosa em termos de carreira, na maior parte do tempo ela está bem feliz sendo dona de casa, o problema é que ninguém valoriza ela por isso. Acho que idade e contexto são determinantes demais pra dizer que elas poderiam ser a mesma pessoa.

YUU: A menina [Paris] foi rejeitada por Harvard, teve um breakdown e superou. Foi para Yale, e se desafiou de uma forma que dá orgulho de ver. Se em Chilton ela fugia das festas como o diabo fugia da cruz, em Yale ela vai para o spring break e beija a Rory no meio da pista de dança.

ANA LUÍZA: Exatamente. A trajetória dela na série é outra que acho incrível. No episódio em que a Rory e a Paris são acordadas no meio da noite pelas meninas da irmandade de Chilton, ela (Paris) está toda descabelada enquanto a Rory levanta perfeita e ela comenta algo sobre isso, não daquele jeito Paris que grita e bate o pé, mas de um jeito realmente sensível. Acho que essa cena diz muito sobre a Paris, sobre ela ter estado à frente por ela mesma, e não porque a vida deu alguma coisa pra ela de mão beijada. Ela vem de uma família privilegiada, é verdade, mas fora isso ela não tinha nada muito além.

THAY: Paris, embora super privilegiada, nunca recebeu nada na vida. Ela sempre teve que abrir o caminho com as próprias mãos. Ela basicamente viu tudo o que ela mais desejava cair de bandeja no colo da Rory. Mas ela não ficou quieta e continuou indo em frente. Paris é uma personagem muito determinada, e mesmo com as mil questões com o casamento (!) com o Doyle, ela tava lá, sendo médica, advogada, especialista em arquitetura neoclássica e odontologista.

YUU: E fez isso muito bem! É uma pena que ainda se veja como inferior em alguns momentos, principalmente com aquela aparição desnecessária do Tristin.

ANALU: Nossa, essa história do Tristin aparecer e ela sair do sério mil anos depois foi um insulto. Pra mim ela riria muito da própria cara de um dia ter dado tanta importância pra ele.

THAY: É tipo o Jess eternamente apaixonado pela Rory, acho. Não vejo motivo pra Paris surtar depois de ver o crush, haha.

YUU: A única coisa boa desse momento foi a cena do salto na porta.

FERNANDA: Nossa, Analu, sim! Às vezes revival tem esses problemas. Tipo, vamos fazer um momentinho justando passado e presente de um jeito engraçadinho!!! Em detrimento da personagem.

ANA LUÍZA: Acho que a reação ao Tristin é só mais uma evidência do quanto a Paris continua sendo uma mulher insegura, mesmo que tenha conquistado tanto e chegado em tantos lugares. Eu gosto disso nela, acho interessante explorarem essa nuance numa mulher que parece tão forte em todos os aspectos. O que, de certa forma, também bate muito em nós: não importa o quanto a gente faça e quão boas sejamos no que quer que seja, ainda existe algum ponto que vai nos desestabilizar e nos fazer questionar uma vida inteira.

THAY: E enquanto Paris estava excelente, do outro lado tivemos a pobre Lane relegada ao nada. Fiquei bem chateada com o não plot da Lane.

ANA LUÍZA: A Lane também me chateia um bocado. Ela merecia muito mais.

FERNANDA: Olha, a Lane eu acho que foi relegada a segundo plano a série toda depois que a Rory saiu de Chilton, então não tinha nenhuma expectativa. Talvez seja um comentário sobre o quanto perdemos das vidas de nossos amigos enquanto vamos crescendo, e acabamos conhecendo vários super amigos de escola só superficialmente (hahaha provavelmente não, não dou esse crédito pra Amy).

YUU: Ah, acho que não, Fer! Aquele plot em que a Lane foge de casa no meio da noite para tocar com a banda e a Mrs. Kim descobre o que ela está fazendo é muito significativo para a personagem. Lane deixa de omitir quem ela é para a mãe e ela tem uma conversa honesta e sensível sobre conciliar o respeito que ela tem para com a mãe e o que ela quer para a própria vida de verdade. É um desafio para as duas. Lane teve todo esse trabalho de ter uma vida dupla porque ela se importava verdadeiramente em não decepcionar a mãe, ela tinha medo do que aconteceria se as duas chegassem a esse conflito, mas foi o que aconteceu. E foi difícil por um tempo, mas a Mrs. Kim teve que aprender que a filha dela é a própria pessoa, não importa o quanto ela tentasse proteger a Lane.

ANA LUÍZA: Concordo, Yuu.

ANALU: Concordo.

FERNANDA: Claro que não, ela só acabou recebendo menos destaque mesmo. Gosto muito do que acontece na relação da Lane com a Mrs. Kim, acho que mostra que a Lane se preocupava em ser alguém de quem a mãe se orgulhasse porque ela gostava e se importava com a mãe, e a Mrs. Kim percebe que é importante que a filha dela seja feliz antes de um ideal que ela tem na cabeça. Dito isso, acho essa relação super complicada.

THAY: Por tudo isso que eu fico bem frustrada com o desfecho da Lane. Ela nunca pode perseguir seu sonho de ser a estrela de rock que queria, e no revival não vemos absolutamente nada sobre ela. A não ser que ela ainda é mãe e esposa. Não que tenha alguma coisa errada nisso, mas não era o que Lane queria pra si.

YUU: Eu não gosto que, entre todos os caras que apareceram na vida da Lane, ela tenha acabado por se casar com o Zach. No mundo ideal, ela teria ficado com o Dave, que estava muito mais em sincronia com ela.

FERNANDA: No mundo ideal onde o Adam Brody não ganhasse um contrato pra fazer The OC. </3

ANA LUÍZA: Culpem The OC, risos.

ANNA VITÓRIA: Sdds David, apenas digo isso.

FERNANDA: Ainda assim, vida que segue e culpo os Palladino pela preguiça de pensar em coisa melhor pra ela.

ANA LUÍZA: Sem dúvida. Mesmo sendo ela mãe e esposa, existia um milhão de possibilidades a serem desenvolvidas, um milhão de coisas que ela podia ser além dessas, mas a preguiça definitivamente falou mais alto.

YUU: Gosto de pensar que tudo que deu errado no revival foi culpa da falta de tempo que a Amy teve para escrever, se planejar, e contratar o elenco de volta. Ela parece aquele tipo de aluna de faculdade que vira a noite para fazer o trabalho final na véspera, e um B- tá bom nesse caso. 

THAY: Acho que tudo o que errado no revival foi a vontade da Amy de pegar a série de onde parou e não considerar o tempo que passou entre elas. Como não pôde escrever a última temporada da série clássica, ela ignorou a existência de tudo aquilo e tocou assim mesmo.

FERNANDA: Nossa, totalmente. Vocês já pensaram estar há nove anos num relacionamento sério, morando com a pessoa, e nunca nenhuma vezinha mesmo falar sobre casamento e filhos, tê-los ou não tê-los, eis a questão? Muita suspensão de descrença pra um revival só.

ANNA VITÓRIA: Isso da falta de comunicação entre o Luke e a Lorelai me incomodou DEMAIS.

ANALU: Isso foi ridículo!!

ANA LUÍZA: SIM! Não faz o menor sentido.

YUU: Eles tiveram um mês para gravar tudo antes de ter que devolver o set para PLL, receberam o cartão verde para contratar a Melissa nos 45 do segundo tempo, enfim. Deu sufoco só de acompanhar.

THAY: Ela teve esse tempo curto de produção, Yuu, mas não pensou no finale que ela queria só nesse meio tempo. E isso reflete muito no que a Fer falou sobre o Luke e a Lorelai. Nove anos em um relacionamento e nunca mencionaram filhos e casamento? Foi demais. E ao mesmo tempo que foi ótimo rever todos os personagens, Stars Hollow, foi tão… estranho? Algumas coisas do roteiro simplesmente não poderiam existir, principalmente a gordofobia. Sério, Amy? Não tinha nada melhor pra cena da piscina?

ANA LUÍZA: Exato. Tempo interfere, é claro, mas Amy não é nenhuma profissional inexperiente, fora que tudo nesse meio costuma acontecer MUITO rápido. Ela deveria ter tido um planejamento maior, ela já deveria ter pensado em planos A,B e C (e quando digo ela, não quero dizer só ela, Amy, mas a equipe que ela provavelmente tinha à disposição). No final das contas, acho que é bem mais uma questão de ter ignorado deliberadamente a sétima temporada pelas questões nos bastidores do que realmente a falta de tempo.

YUU: Na verdade, difícil saber se ela pensou nisso nos últimos nove anos. Talvez ela tenha deixado qualquer aspecto sobre Gilmore Girls suspensa na vida dela até que o contrato surgiu e ela foi obrigada a amarrar algumas pontas, ou fazer um nó cego em outras de uma vez. We’ll never know.

ANNA VITÓRIA: Eu achei toda a construção de Stars Hollow estranhona, nesse aspecto a série parecia um pastiche dela mesma.

ANALU: Melhor coisa do revival além da Emily: O BAR SECRETO. Eu ri tanto.

THAY: E aquele musical tenebroso? Eu queria morrer.

ANALU: AQUELE MUSICAL!

FERNANDA: Nossa, eu senti totalmente uma vibe pastiche, e ficou bem desconfortável porque a série nunca foi assim. Se eu rever um episódio da série clássica agora, depois do revival, é nítido o quanto o tom não é o mesmo. (Mas o bar secreto foi ótimo, coisa que parecia Stars Hollow mesmo.)

THAY: Eu gostei daquela parte meio lúdica com Logan e companhia, mas o musical foi demais pra mim. Eu era a própria Lorelai assistindo tudo aquilo e querendo que um buraco se abrisse pra me engolir. (O bar secreto foi ótimo mesmo, hahaha.)

ANA LUÍZA: A série clássica está aí pra provar que Amy sabe fazer infinitamente melhor.

THAY: Amy sabe fazer infinitamente melhor, de fato, o que me leva a questionar ainda mais o final de Rory com uma gravidez aleatória. Até entendo ela querer fechar um tipo de ciclo, mas achei tão… ruim?

YUU: Sobre isso, me permito citar a própria Rory no revival: “That’s a conversation for another day.” [“Essa é uma conversa pra outro dia.”]

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2 Comentários

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    Amanda
    5 de outubro de 2017 at 19:27

    o revival me deixou bem triste pela Lorelai. nem adolescente ainda, eu assistia à série no SBT sem regularidade alguma – e, ÓBVIO, amava Rory por toda a identificação e tal. mas só fui vê-la inteirinha mesmo já adulta. aí, Lorelai se tornou meu personagem de mais admiração ali. por isso, o revival me deixou cheia de pesares sobre ela.

    enquanto a Emily tem e fecha todo esse arco lindíssimo e todo esse amadurecimento totalmente coerente da personagem, o que realmente a torna ainda mais humana (eu fiquei super fã dela depois disso tb! a Emily original é má, sim – sem desculpas), a Lorelai é a mesma pessoa do primeiro episódio da série original. a mesma. vou até além disso: Lorelai, no fundo, ainda é a mesma adolescente procurando incessantemente pelo amor e aprovação da mãe. e isso doeu demais aqui no meu coraçãozinho, sabe? Lorelai é a mulher phoda e forte que conhecemos e que conquistou aquelas pohha toda. mas e quanto disso também não foi pra “atingir” Emily? fugir de casa grávida nós sabemos que foi (é mais do que só pra se “libertar”. e nós tb sabemos que tudo isso tb teve muito do privilégio e segurança de poder, sim, voltar, caso tudo desse errado). mas será que esse ato não foi só o primeiro de uma série de “olha aqui, então, o que consigo sem você”? pra mim, todo o plot da Lorelai no revival pareceu muito ela ainda atrás da aprovação da Emily. e dói demais isso. ela ainda precisa da validação da Emily sobre tudo que ela conquistou, mas ela nunca teve e nem vai ter. </3 queria uma Lorelai que amadurecesse a ponto de não *precisar* mais disso, mesmo que um dia viesse. a Lorelai que nós conhecemos merece isso. mas, pra mim, ela é a única personagem ali que não cresceu realmente, o que, infelizmente, é uma outra definição de desenho animado, né?

    em tempo:
    AnnaVitóriadocéu! "um pastiche dela mesma" foi a MELHOR definição pra (re)construção da (falta da) alma de Stars Hollow.
    e, COMÁSSIM, Lorelai e Luke nunca conversaram sobre isso em tantos anos? gente, são LO-RE-LAI e LU-KE! tudo que eles fazem é falar! achei sem sentido ALGUM esse plot dessa confusão pré-casamento também.
    nem parece que teve Lane. 😔 LANE DESERVED BETTER.
    não entrarei no mérito sobre Jess e Dean da série original, porque iria praticamente escrever um post novo sobre Gilmore Girls pro Valkirias aqui nos comentários, haha. mas basicamente vou dizer que amei demais esse Jess novo e o amadurecimento pessoal dele, enquanto NUNCA, JAMAIS fui team Jess antes.

    quanto ao Rory-Logan thing, eu achei bem coerente com a Rory apresentada no revival (e com o passado dela na série). é conveniente. pra Rory e pro Logan. é legal fazer parte daquilo ali. é legal ter aquele conforto que ela tinha na casa dos avós, comer naqueles restaurantes e passear por aquele círculo, enquanto na "vida real" ela se acha especial demais pra certos tipos de trabalho, mas é rejeitada por eles. é um relacionamento de conveniência pros dois. pro Logan também. a princípio pode parecer não fazer muito sentido (puxa, é a Rory!) e me deu raiva. achei muita filhadaputice também (e ficava até incomodada real de ser "cúmplice", sem poder falar nada pra Odette kkkk). mas se a gente pensa bem, é coerente. é uma menina que sonhava em ser a próxima Christiane Amanpour, rejeitou uma penca de oportunidades porque estavam aquém dos planos dela, o tempo passou, ela acaba não realizando nada, mas ainda se acha muito especial e não entende como a vida pode ter dado errado (de novo: puxa, ela é a Rory!). logo, ela *merece* estar ali naquele meio com o Logan, right? ela pertence àquilo, certo? só que não. e ela nem se dá conta. ela NÃO QUER um relacionamento com o Logan, ela nunca quis. por isso, o fato d'ele ser comprometido fazer ainda mais sentido nessa história. é conveniente. só os bônus. me deixou meio puta toda essa história? me deixou meio puta. e nem por um segundo acho que tudo isso seja consciente pra Rory. mas FAZ SENTIDO.

    obrigada por esse post, meninas! me senti sentada à mesa com vocês. ♥

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    Luísa
    9 de outubro de 2017 at 01:31

    É ótimo ler um texto sobre Gilmore que realmente engloba opiniões diferentes e tão válidas sobre a série. <3
    Uma amiga minha fez um comentário pertinente sobre o Paul-namorado-sempre-esquecido no revival: ele é um artifício de como a Rory é uma pessoa além dos homens que namora. Me parece que a Amy ficou irritadinha com toda a questão quem-vai-ficar-com-Rory e fez um namorado que não define ela de forma alguma (o que obviamente, não dá tão certo). Achei essa visão a mais coerente sobre o Paul, mas ainda não justifica a existência dele.
    Sobre a Lane, muito me entristece especialmente a parte de que ela não gosta de sexo e que nada é feito para reconcilar ela com isso no revival. A Lane casar, ainda dentro da direção dos Palladino, fez sentido considerando que essa era a parte dela que não se rebelou contra a educação que recebeu — e casar com a pessoa certa (não vou argumentar se Zach é ou não essa pessoa) não te torna uma pessoa menos livre pra ser o que quiser, e pra tentar ser uma rock star no caso dela. Mas daí a ela não gostar de sexo e ainda engravidar?? Queria muito ter visto uma revisão disso, ver a Lane como mulher, não como a muleta da Rory.

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