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Tomorrow: os obstáculos que mulheres enfrentam pelo direito de viver o amanhã

O k-drama Tomorrow (MDC/Netflix 2022) segue a história de um grupo de ceifadores de Jumadeung (submundo) que, ao invés de guiar os mortos para o pós-vida, atuam para evitar suicídios. O drama é uma adaptação do webtoon Naver (2017), de Llama, e tem como protagonistas Goo Ryeon (Kim Hee-seon), Lim Ryung-gu (Yoon Jin-on), e Choi Joon-woong (RoWoon). A cada episódio o trio precisa ajudar alguém que está prestes a se suicidar, mesmo com a reprovação de outras equipes. Tanto na vida como no pós-morte não há espaço para empatia com aqueles que tiram a própria vida. “O mundo empurrou essas pessoas para a beira do precipício. Não menospreze as escolhas delas”, diz Ryeon em um dos episódios. É desta perspectiva que a equipe atua.

“— Alguém, com uma cicatriz tão feia como esta, pode realmente viver uma vida digna?
— Não é feia. É a prova de quão desesperadamente você queria viver.”

(Diálogo entre Goo Ryeon e Yun-hui | Ep. 10)

Contudo, apesar da premissa focada na prevenção ao suicídio, Tomorrow consegue abordar diversas questões por meio das histórias de suas personagens. O suicídio — ou a tentativa em si — não são eventos isolados. Existe toda uma cadeia de ações, sentimentos e vivências que levam uma pessoa ao limite que é considerar o suicídio uma decisão viável. Unindo todos esses elementos, Tomorrow expõe a hipocrisia da sociedade, principalmente por meio das histórias de personagens femininas.

Ao olhar o conjunto dos episódios é impossível não notar como as histórias das personagens femininas se assemelham com ocorrência das mesmas violências em diferentes épocas. Cada violência, abuso e trauma é perpassado por uma continuidade de uma estrutura social sexista, machista e misógina.

Aviso de gatilho: este texto fala sobre abuso, agressão sexual e suicídio!

Atenção: este texto contém spoilers

As violências do cotidiano

No episódio “A Flor que Cai” conhecemos a história de Noh Eun Bi (Jo In), uma mulher que trabalha em uma editora de webtoons e vive com diversos traumas adquiridos durante o ensino médio. Os gatilhos se tornam mais intensos quando Eun Bi precisa encarar a sua agressora que agora é uma popular escritora de uma webtoon focada no combate ao bullying. A agressora, Kim Hye-Won (Chae-Eun Kim), mesmo quando reconhece Eun Bin, não mostra qualquer remorso, chegando a se aproveitar das fragilidades da jovem para retomar as agressões. O caso de Eun Bi evidencia como vítimas de qualquer abuso sempre são silenciadas. Ela não conseguiu apoio ao denunciar a colega na escola e ao mostrar que não estava confortável em trabalhar com Hye-Won, recebeu apenas desprezo do chefe. Para Hye-Won as agressões que cometeu não significaram nada, mas Eun Bi nunca pode esquecer.

Com Shin Ye-Na (Hae-in Han) vemos o impacto da pressão pelo corpo perfeito no episódio “Prisão Sem Grade”. Ye-Na trabalha em uma empresa de cosméticos e tem bulimia, transtorno alimentar que esconde dos colegas de trabalho. Ao longo do episódio descobrimos que durante a adolescência, por ser gorda, Ye-Na sofreu bullying — incluindo violência física e abusos psicológicos. Desde então, ela passou a lidar com seu corpo de uma forma quase punitiva. Já adulta, mesmo estando dentro dos “padrões aceitos”, Ye-Na ainda se sente julgada. Antes era gorda demais, agora é magra demais. Nunca o suficiente. Sempre presa pelos olhares e sussurros.

Uma das interações mais relevantes do episódio é entre Ye-Na e a colega de equipe Jeong Bo Ram (Kim Min-so), que é gorda e não vê isso como um problema. Bo Ram aceita o próprio corpo e o ama, independente dos olhares que recebe e das piadas que precisa ouvir do chefe, pois como ela mesma diz “meu parâmetro de felicidade sou eu mesma”. Ela tem uma autoestima belíssima e não permite que outros a impeçam de fazer o que quer. A conversa entre elas mostra os dois lados da opressão ao corpo feminino e, ao mesmo tempo, serve como ponte para Ye-Na buscar essa mesma visão para si mesma.

“Não tente tanto manter um corpo que não quer. Seu corpo é seu, não de outra pessoa. Você deve amar e cuidar dele” — Choi Joon-woong

No episódio “Respira”, o trio de protagonistas precisa evitar que dois irmãos gêmeos se suicidem. Cha Yun-Hui (Lee Ji-Won) é uma jovem que saiu com as amigas para beber e, enquanto buscava um táxi para voltar para casa, foi agredida sexualmente. Seu irmão gêmeo, que mais cedo havia se recusado a acompanhá-la até em casa, já que ambos estavam no mesmo bar, se culpa pelo ocorrido. Eles estão no limite, com Yun-Hui tendo que lidar com o trauma e o irmão buscando justiça já que no primeiro julgamento o abusador não foi condenado. O abusador de Yun-Hui é um estudante de medicina rico que conta com o apoio da sociedade por não “se enquadrar” no perfil de um violentador, por ser um jovem com um “futuro promissor”. Enquanto isso, Yun-Hui é condenada por todos a sua volta: pais, amigos, mídia, estranhos e até pelo irmão.

“A agressão sexual é o único crime em que as pessoas dizem que a vítima também está errada. Por que ela estava vestindo roupas reveladoras? Por que saiu de noite? Por que estava bebendo? Não há razão que possa justificar um crime”. — Goo Ryeon.

Yun-Hui sente o peso dessas perguntas e acredita que a culpa pelo ocorrido é dela. O medo se torna uma figura presente em sua vida transformando suas roupas, maquiagem, cabelo e sorriso se tornam uma ameaça. Ela vai se apagando para desaparecer e o irmão a acompanha, ambos mergulhados na culpa. Apesar de sempre terem sido unidos, eles não conseguem conversar sobre o ocorrido sem que a raiva tome conta e digam coisas para machucar o outro. Somente quando conseguem se abrir, eles se tornam capazes de se salvarem.

A solidão que vivemos

Lim Yu-Hwa (Min Ji-ah) é uma atendente de loja que já está no oitavo mês de gestação, aguardando ansiosa a chegada de sua filha, Sol. Contudo, complicações na gestação causadas pela exaustão no trabalho e uma agressão por parte de uma cliente impedem que Sol e Yu-Hwa se conheçam. Yu-Hwa poderia estar de licença maternidade, mas estava adiando para garantir mais tempo com a filha recém-nascida. Na Coreia do Sul, a gestante tem direito a 90 dias de licença-maternidade, podendo começar 45 dias antes do parto.

A solidão ao olhar o quarto preparado para receber Sol, as perguntas sobre a bebê que nunca foi para casa, o leite que escorre do peito sem que perceba, a sensação de que o marido não sente falta da filha — são essas situações que fazem Yu-Hwa buscar nos sonhos viver o que não pode na realidade. Lá está sua Sol. Neste caso, a equipe precisa fazê-la encarar a realidade da perda da filha mostrando que ainda há o que ser vivido.

No mundo de Tomorrow, os suicidas vão para o inferno onde ficam vagando em solidão até que possam reencarnar. Contudo, os laços do destino da vida que interromperam são rompidos e nunca mais poderão se encontrar com as pessoas que já amarram. Yu-Hwa, em outra vida, foi mãe de Ryung-gu. Ela foi vendida pelo próprio pai para um prostíbulo onde acabou engravidando. Após ser expulsa, buscou construir a vida com o filho. No primeiro momento, rejeitou a criança, mas ao perceber que para o bebê não importava seu passado e que ele a aceitaria como mãe, passou a amá-lo mais do que a qualquer outro ser. Contudo, após se recusar a ter um caso com o governador da província em que vivia, Yu-Hwa foi estuprada por três de seus capangas. Ela se suicidou logo depois.

Quando nos tornamos apenas uma mercadoria

Tomorrow se propõe a dar espaço às vozes que geralmente são sufocadas pelo silêncio. É desta forma que conhecemos a história das mulheres de consolo. Entre 1910 e 1945, o Japão invadiu e ocupou a Coreia propagando o apagamento da cultura, identidade, política, costumes e da língua local, tornando a população coreana cidadãos de segunda classe no próprio país. Além da violência generalizada, os soldados japoneses se mostraram extremamente cruéis com as mulheres coreanas. Em meio a pobreza de diversas vilas, mulheres e meninas buscavam subempregos para ajudar suas famílias. Desta forma, muitas aceitaram propostas de emprego sem saber que estavam sendo sequestradas por soldados japoneses para a escravidão sexual.

A história das “mulheres de consolo” só se tornou pública quase 40 anos depois, em 1991, quando Kim Hak-sun revelou ao mundo a violência que mulheres e meninas coreanas viveram durante o domínio japonês. Até hoje, o governo japonês não reconheceu devidamente as violações cometidas. Em frente a embaixada do Japão em Seul, capital da Coreia do Sul, está a Estátua da Paz que homenageia as vítimas coreanas da escravidão sexual. É por meio desta estátua que conhecemos a história de Lee Jeong-Mun (Kim Young-ok) e Yun-I (Lee Seo-Yeon). Ambas foram enganadas e levadas para um dos campos em que os soldados japoneses viviam durante a ocupação da Coreia. No local, estupros, violência física, psicológica, tortura e abusos ocorriam diariamente. Naquele espaço, elas não tinham nome. Eram menos que seres humanos.

Ainda assim, mesmo em situações tão adversas, a amizade pode brotar. Jeong-Mun e Yun-I criam uma amizade linda, uma dando esperança para a outra. No entanto, após uma fuga coletiva, a amizade é rompida. Os soldados japoneses não poderiam deixar testemunhas de seus crimes. Yun-I se sacrifica para que as outras consigam fugir. Já idosa, Jeong-Mun relembra a importância que o Yun-I teve em sua vida, e mesmo quando pensa no suicídio ainda há um desejo em seu coração: conhecer melhor a infância de Yun-I e contar a ela o que aconteceu.

O contar e recontar da história apresenta as dores, a solidão e o julgamento que essas mulheres, vítimas da violência, sofreram ao longo de suas vidas, condenadas por sobreviver. Jeong-mun viveu isolada, sem amigos, relacionamentos ou família. Quando voltou para a aldeia em que vivia, após a fuga, recebeu olhares de desprezo. O episódio nos oferece um alento: a oportunidade de descanso para quem viveu no sofrimento e a perspectiva da continuidade da luta pela visibilidade da história das mulheres coreanas escravizadas sexualmente.

O apedrejamento que ainda sofremos

Desde o primeiro episódio, o público vai recebendo pequenas migalhas da história de Goo Ryeon, a misteriosa ceifadora de cabelo rosa. Mas somente nos episódios finais os acontecimentos de sua última vida ganham espaço na tela. Há 400 anos, Goo Ryeon era de uma rica família coreana e vivia com certa liberdade, podia caçar, andar pela cidade e tomar suas próprias decisões, até mesmo para o amor. Já adulta e casada, Goo Ryeon vive feliz até que invasores tomam a aldeia onde reside, matando e sequestrando as mulheres da região. Para salvar sua melhor amiga, Gop Dan (Koo Si-yeon), Goo Ryeon se arrisca pela cidade. Contudo, ambas acabam capturadas.

Longe de tudo que conhecem, Goo Ryeon arma um plano de fuga. Após dias de viagem, correndo risco de morte, Goo Ryeon, Gop Dan e um grupo de mulheres conseguem retornar a Coreia, mas ao invés de serem recebidas com alegria, sofrem com a desconfiança e inimizade do próprio povo. Goo Ryeon passa a ser alvo de comentários pela cidade. Em uma de suas saídas, ela é apedrejada junto com Gop Dan que usa o próprio corpo para proteger Goo Ryeon. A morte da amiga é um duro golpe para ela, que tenta suicidar-se pela primeira vez, sendo impedia pelo marido que a ama e não quer perdê-la. Mas, por indução da sogra e por ver como a população estava tratando sua família, ela se suicida, rompendo os laços com todos daquela vida.

Nos tempos atuais, Goo Ryeon reencontra Gop Dan que reencarnou como Ryu Cho Hui, uma idol que vem sendo perseguida na internet. Novamente, Goo Ryeon assiste a melhor amiga ser apedrejada — desta vez por palavras — por todos os lados sem poder fazer nada. Ryeon, apesar das pessoas que salva, não é feliz. As feridas de sua última vida nunca cicatrizaram e a ameaça de ter que viver novamente a perda de Gop Dan a leva ao extremo de sua dor e raiva. Cho Hui não age como os outros membros da indústria artística da Coreia do Sul. Ela fala o que quer e não teme as críticas, mas não é invulnerável. Seu pai é um viciado em jogo que só aparece para pedir dinheiro, e ela precisa proteger a irmã e a mãe. Enquanto isso, a indústria a cobra para exercer um papel de pura perfeição e sem espaço para sua autonomia.

Esse espelho que existe entre as vidas das personagens mostra como os seres humanos costumam repetir os mesmos erros apenas mudando a forma como o executam. Em diferentes épocas, essas mulheres foram apedrejadas, condenadas, perseguidas e torturadas por pessoas que não as consideram como seres humanos plenos, com direitos, sentimentos e histórias que merecem respeito. Até hoje, situações como essas ocorrem na Coreia do Sul, no Brasil, nos Estados Unidos, na China, no Egito, na Islândia e em diversas partes do mundo. Porque nascer, viver e se identificar como mulher é estar na corda bamba, torcendo para não cair e ser devorada pelos leões. Tomorrow nos apresenta personagens fortes, que lutam por cada amanhã a que têm direito.

“Isso me fez perceber que a última pessoa que tenho que salvar sou eu mesma. No final, nós somos os únicos que podemos nos salvar” — Goo Ryeon

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