LITERATURA

Troféu Valkirias De Melhores do Ano: Literatura

Dando sequência aos trabalhos do Troféu Valkirias, o prêmio mais importante que você respeita, hoje vamos falar de literatura. Esse não era o foco inicial do site, já que a internet está cheia de ótimos blogs e revistas literárias, mas antes de sermos gente que escreve, todas aqui somos gente que lê e isso é uma parte extremamente importante da nossa identidade. Essa seleção é pessoal e não pretende ser um apanhado definitivo do que de Melhor e mais Relevante aconteceu no mundo literário e vocês certamente vão notar algumas ausências, já que o único critério era que falássemos apenas de autoras mulheres. Coincidência ou não, se existe um tema que une as leituras selecionadas aqui, é a questão da identidade. Todos os livros tratam, de certa forma, sobre quem somos e nosso lugar no mundo, um tema que insiste em surgir quando mulheres narram suas histórias, seja do fundo do mar, da escola ou da guerra — e que bom que é assim.

Nossa escolha por falar apenas de autoras mulheres não é uma defesa de uma suposta “literatura feminina”, pois acreditamos na universalidade da experiência humana, mas sim um posicionamento a favor de mais pontos de vista através dos quais olhamos o mundo, adicionando, talvez à força, alguns satélites neste vasto universo — que pode ser grande, mas é todo formado por pessoas, e pessoas cheias de histórias.

Essas são as nossas favoritas.

As Águas-Vivas Não Sabem de Si (Aline Valek)

Por Anna Vitória

Ele ficou muito tempo cantando sozinho, tempo demais. Agora entendia que a linguagem que realmente importava não era aquela desenhada por suas luzes, nem as histórias e conversas transmitidas por vibrações na água, mas aquele senso primordial que só conseguiu ouvir de fato quando o mar ficou silencioso o suficiente para escutar, um chamado que era possível ouvir apenas quando a extinção se aproximava. Mais fundo, mais fundo, ele ouviu os fantasmas dos outros azúlis cantando, e no canto havia um apelo de voltar às origens, um sinal para que se aproximasse, e ele estava quase lá. Faltava tão pouco. O azúli sentiu o impulso de atender àquele chamado amigo, de seguir o caminho que ele indicava, e nem percebeu quando se aproximou da borda da chaminé, as bolhas de vapor lambendo sua cabeça, fazendo seus tentáculos dançarem. Pela última vez cantou sobre a solidão, com força suficiente para deixar sua última canção impressa na água, antes de virar de cabeça para baixo e se dissolver aos poucos, à medida que descia pelo gargalo de um vulcão.

O romance de estreia de Aline Valek — feminista, colunista da Carta Capital, cria da internet e capitã da newsletter mais amada do Brasil, a Bobagens Imperdíveis — nos leva a uma viagem por lugares pouco explorados, escuros e assustadoramente silenciosos, ou quase isso. As Águas-Vivas Não Sabem de Si, publicado pelo selo de fantasia da Rocco, mistura suspense e ficção científica ao contar a história de Corina, uma mergulhadora profissional que está confinada em uma estação subaquática para testar um inovador traje de mergulho. A Estação Auris abriga também dois cientistas que aproveitaram a carona para colher dados para uma pesquisa, mas, enquanto a maioria acredita que o Dr. Martin quer apenas instalar sondas no fundo do oceano para captar o som das profundezas, pouco a pouco vamos descobrindo que, mais do que ouvir, ele está tentando responder ao chamado de uma possível vida inteligente, que o chama para o fundo.

Esse mistério já seria suficiente para segurar a trama, mas Aline Valek se arrisca a ir mais fundo, alternando as intrigas humanas, demasiado humanas, com capítulos contados do ponto de vista de animais marinhos. São polvos, cachalotes, águas-vivas e formas rudimentares de vida que existiam na Terra quando ainda mal havia vida, e a exploração literária que a autora faz da estranha consciência dessas criaturas me tirou do eixo enquanto leitora e também como gente, porque serve de lembrança que o mundo é vasto e, como nos lembra Drummond, cheio de uma natureza que não presta atenção em nós. Esse mergulho – com o perdão da referência besta inevitável – também leva Corina a ir mais fundo, dessa vez para dentro de si, e o que ela encontra lá pode ser mais assustador do que qualquer vida inteligente submarina ainda não descoberta: a sua própria solidão.

Um Carretel de Linha Azul (Anne Tyler)

Por Fernanda

“O problema com a morte”, ela disse a Jeannie uma vez, “é que você não pode ver como tudo fica. Você não saberá o final”

Anne Tyler vem publicando regularmente desde a década de 60, já venceu o Pulitzer de literatura lá nos anos 80, mas esse foi o primeiro romance dela que li. Um carretel de linha azul é um drama familiar que percorre diversas gerações, mas também é sobre o processo de criar histórias, e sobre as mitologias que cada família cria para si mesma. Nações têm seus mitos fundacionais, seus folclores e tudo aquilo que cria uma identidade em comum para seus membros, e as famílias, numa escala menor, funcionam da mesma maneira. É sobre isso que Um carretel… vai falar, mas usando uma estrutura um pouquinho diferente do esperado.

O romance começa nos dias atuais e, depois de estabelecer muito bem todos os pequenos e grandes conflitos existentes na família Whitshank conforme as crianças crescem e os pais envelhecem, ele volta no tempo, e é como se o carretel aos poucos fosse se densenrolando para nos mostrar que, lá no cerne, as coisas nunca foram tão bonitinhas e limpinhas quanto a passagem do tempo e os nosso próprios jeitos de recontar o passado fazem parecer — como é o caso do “azul” do título, quando passamos a entendê-lo. Assim, é interessante o quanto a linguagem do livro enfatiza a questão do contarUm carretel… é um livro longo e de ritmo lento, mas que estabelece seus personagens e as relações entre eles maravilhosamente bem.

Em Algum Lugar nas Estrelas (Clare Vanderpool)

Por Analu Bussular

Lá em cima é como aqui embaixo, Jackie. Você precisa procurar as coisas que nos conectam. Encontrar o jeito com que nossos caminhos se cruzam, nossas vidas se interceptam e nossos corações se encontram.

Não consigo descrever esse livro sem pensar que ele tem açúcar nas palavras. Clare Vanderpool tem um narrativa tão simples e doce que chega a ser magistral. Personagens bem construídos, conflitos condizentes e uma narrativa verdadeira sobre sentimentos como a gente raramente encontra por aí. Nesse ano ~astralmente~ pesado que foi 2016, esbarrar com esse livro foi realmente um presente das estrelas.

Em Algum Lugar nas Estrelas, publicado em uma edição linda da DarkSide, fala de amor em sua forma mais pura: a amizade. Durante sua trajetória, o personagem principal aprende sobre a dor, sobre a saudade, e sobre como ser amigo é ser leal, mesmo que a pessoa seja totalmente diferente de nós e a gente por vezes não consiga entender direito seu modo de viver. Já está permitido ler a lista de compras dessa moça?

Baseado em Fatos Reais (Delphine de Vigan)

Por Thay

O livro era uma espécie de espelho, e sua profundidade de campo e seus contornos não me pertenciam mais.

Baseado em Fatos Reais, da escritora francesa Delphine de Vigan, publicado no Brasil pela Intrínseca, é tão intenso que desde que terminei a leitura estou tentando encontrar palavras para descrevê-lo. É uma leitura tão envolvente e rica que fica até mesmo difícil explicar sobre o que se trata o livro, visto que Delphine mistura realidade e ficção ao criar um enredo intrincado onde verdade e mentira estão separadas por um linha tênue. De caráter confessional e quase autobiográfico, a narradora da trama, que também se chama Delphine, vive uma espécie de “ressaca” e não consegue escrever nada que considere relevante após o sucesso estrondoso de seu livro anterior – algo parecido com o que ocorreu com a Delphine de Vigan, autora. Enquanto enfrenta uma depressão causada pela incapacidade de escrever um novo livro, L. entra na vida da protagonista para nos fazer duvidar de tudo o que acontece, tanto quanto a própria Delphine viria a duvidar.

L. é uma ghost-writer, alguém que escreve livros e textos para serem assinados por outras pessoas, como um escritor fantasma. Não demora muito para que L. ganhe a confiança de Delphine, demonstrando estar sempre disponível e sensível aos dramas vividos por ela. O interesse de L. na vida de Delphine, que, a princípio, parece inocente e até mesmo altruísta, começa a aparentar tons sombrios e angustiantes à medida que o comportamento de L. se torna possessivo e obsessivo. O desfecho do livro me deixa de boca aberta e até hoje não consigo discernir o que foi realidade ou não no relato de Delphine – no caso, autora e narradora. Ficção ou realidade, o fato é que Baseado em Fatos Reais é um relato intenso sobre a literatura, sobre o que os leitores esperam de um livro. Como uma citação do próprio livro bem delimita, “Quando uma verdade tem mais de cinco linhas, é um romance”.

Série Napolitana (Elena Ferrante)

Por Júlia Medina

A vida era assim e ponto final, crescíamos com a obrigação de torná-la difícil aos outros antes que os outros a tornassem difícil para nós.

A escritora italiana, famosa por seus livros e pelo mistério de sua identidade, numa entrevista para o The New York Times diz que nunca escolheu o anonimato, pelo contrário, afinal seus livros são assinados. “O que eu escolhi”, ela diz, “foi a ausência”. A autora foi recentemente exposta por um jornalista italiano, que clama ter descoberto a “real identidade” de Elena Ferrante. Num mundo em que a ficção está sendo desbancada pela vida real, nada é mais lógico que a real identidade de Elena Ferrante seja mais interessante do que sua obra. Mas isso é um erro, porque a obra é sempre muito maior do que seu autor.

A série napolitana, que é uma tetralogia, chegou no Brasil ano passado pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros, e mais dois livros da autora foram publicados aqui em 2016, Dias de Abandono e A Filha Perdida, mas eu só cheguei a ela esse ano; e confesso que foi por causa da polêmica sobre sua identidade. Mas foi só começar a ler A Amiga Genial, o primeiro de sua tetralogia, para perceber que saber quem era a real Elena Ferrante não era mais importante. Os quatro livros da série são o que os teóricos da literatura chamam de bildungsroman, ou romance de formação; aquele tipo de romance que narra a história de um personagem se formando e crescendo, como O Apanhador No Campo De Centeio Jane Eyre. A história é sobre Elena Greco, ou Lenú, e sua amiga Raffaella Cerulo, Lila, em uma Nápoles do pós-guerra. As meninas, antes sempre juntas, vão se distanciando aos poucos, mas nunca completamente. Elas crescem separadas, porém é na ausência uma da outra que elas permanecem juntas.

A série napolitana é sobre duas amigas, mas é também sobre as dificuldades que mulheres enfrentam para afirmar sua identidade numa sociedade machista. A história se passa no século passado, mas é ainda muito atual, dado que a própria autora, ausente por escolha, foi exposta por um homem.

Orange (Ichigo Takano)

Por Sofia

Talvez seja impossível viver sem arrependimentos. Mesmo quando você sabe o futuro… você ainda vai estragar tudo.

Mangás nunca foram uma presença muito forte nas minhas leituras – amo Sailor Moon e li alguns outros shoujo, só que sempre li mais quadrinhos ocidentais, especialmente de super-heróis –, mas os cinco volumes de Orange, presentes de um amigo, subiram imediatamente para o topo das minhas leituras favoritas do ano. A história, escrita por Ichigo Takano, nos apresenta a Naho, uma protagonista doce e amável, que se encontra em uma situação difícil: a de salvar a vida de Kakeru, o garoto por quem é apaixonada.

Orange tem ares de ficção científica e fantasia – a missão de Naho é dada por uma carta da Naho do futuro –, mas não é isso que importa. No fim das contas, Orange é uma história sensível e delicada sobre dor, luto, depressão e sobre o poder e os limites do amor, do companheirismo e da amizade.

Alucinadamente feliz (Jenny Lawson)

Por Yuu 

Eu queria que alguém tivesse me contado essa verdade simples, mas difícil de entender: mesmo quando tudo está dando certo, ainda dá para se sentir triste. Ou ansiosa. Ou desconfortavelmente entorpecida. Afinal, sem sempre se pode controlar o cérebro ou as emoções, mesmo quando as coisas estão perfeitas. […] Se tudo está perfeito e eu estou infeliz, esse é o máximo que posso esperar? A respostá é não. Tudo melhora. Você melhora. Você aprende a reconhecer que o que faz você feliz é muito diferente do que as pessoas dizem que deveria fazer você feliz. Você aprende que não há problema em preferir a sua ideia particular de paraíso (tuitar sobre filmes de zumbi coberta por gatinhos) à ideia de outra pessoa de que fama/fortuna/festas são o auge que todos nós deveríamos almejar. E há algo surpreendentemente libertador nisso.

Eu não tinha o costume de ler não-ficção até começar a ler as sinopses desses livros e perceber o quanto eu poderia me identificar com eles também. A partir de então, tenho olhado com mais flexibilidade para esse tipo de recomendação, e quando tive a oportunidade de ler Alucinadamente Feliz, segundo livro de Jenny Lawson, lançado nos EUA em 2015, mas publicado pela Intrínseca no Brasil em abril deste ano, eu o fiz com certa expectativa. Com o subtítulo de “Um livro engraçado sobre coisas horríveis”, Alucinadamente Feliz oferece o que promete e algo mais.

Considerado pela própria autoria um “apanhado de ensaios bizarros, conversas e pensamentos confusos”, o livro é uma espécie de autobiografia em que Jenny Lawson compartilha sua filosofia adotada — a de ser alucinadamente feliz — em meio a momentos ruins causados pelos seus inúmeros transtornos psicológicos, além da artrite reumatoide e suas outras doenças autoimunes. Em cada capítulo ela compartilha um causo que viveu, conversas com seu marido ou sua psiquiatra, viagens à Austrália e teorias diversas na maior parte das vezes em tom de comicidade irônica, mas com algumas passagens arrebatadoramente sinceras para ser levadas a sério apesar de tudo. Há muito tempo Jenny precisa lutar com os fantasmas da sua própria cabeça, que muitas vezes a impedem de interagir com o mundo, mas ela jamais assume um tom pessimista em meio à sua narrativa. Ao final da leitura você terá experimentado diversas reações, do riso à sensação de conforto por ouvir que, apesar dos dias ruins e da falta de colheres, você vai ficar bem.

A vida invisível de Eurídice Gusmão (Martha Batalha)

Por Fernanda

Eurídice tinha abafado os desejos, deixando na superfície apenas a menina exemplar. Aquela que não levantava a voz ou o comprimento da saia. Aquela que não tinha sonhos que não fossem os sonhos dos pais. Aquela que só dizia sim senhora ou não senhor, sem nem mesmo se perguntar para o que é o sim, ou por que disse não.

O romance de estreia de Martha Batalha nos transporta para o Rio de Janeiro dos anos 1940 para contar as histórias — muito diferentes — das duas irmãs Gusmão: Eurídice e Guida. Uma mais conformada, a outra mais dona de si. Ainda assim, vemos o quanto suas vidas, independentemente dos caminhos que tomam ou tentam tomar para si mesmas, são confinadas pelas convenções sociais e pelo restrito papel da mulher na sociedade.

O tom da narrativa é muito bem-humorado e irônico, e Batalha se utiliza desses dois artifícios para demonstrar o absurdo das situações que são impostas às duas irmãs e às muitas outras mulheres que permeiam a narrativa. A autora cria personagens (femininas e masculinas) com muitas nuances, apresentando-as a fundo e explorando suas origens e, dessa forma, cria um retrato social muito interessante e rico, abrindo espaço para reflexão. Eurídice passa o romance todo tentando construir para si uma vida própria, e é muito frustrante ver todas as suas tentativas sendo tolhidas, mas é particularmente bonito ver o que a inspira no final, porque é algo que com certeza nos inspira também, todos os dias.

Em uma nota de rodapé, vale a pena mencionar a odisseia de publicação do livro: Martha Batalha teve seu livro rejeitado pela maior parte das grandes casas editoriais brasileiras e, depois de muitas portas batidas na cara, acabou vendendo os direitos de A Vida Invisível… para uma pequena e pouco conhecida editora. A autora, no entanto, não desistiu e levou sua obra para a Feira Literária de Frankfurt, na Alemanha, onde o romance caiu nas graças de todos e acabou sendo comprado por uma editora alemã — para depois ser vendido para França, Itália, Portugal, Holanda, Espanha, boa parte da América Latina e também para o produtor de cinema Rodrigo Teixeira, que agora detém os direitos de uma possível adaptação cinematográfica da obra. Foi só depois do boom europeu que Batalha conseguiu chamar a atenção das editoras brasileiras. Como o livro voltou ao Brasil gigante, o contrato com a pequena editora foi cancelado, e A Vida Invisível de Eurídice Gusmão foi publicado pela Companhia das Letras em abril de 2016.

The Kiss of Deception: Crônicas de Amor e Ódio (Mary E. Pearson)

Por Michas Borges

(…) ‘E, ainda assim’, disse o Komizar, virando as costas para mim, ‘ela permanece em silêncio’ . (…) Eu tinha sido silenciada demais por aqueles que exerciam poder sobre mim. Não aqui. Minha voz seria ouvida, mas eu haveria de falar apenas quando isso servisse aos meus propósitos. Não traí qualquer palavra ou expressão. O Komizar e seus governadores não eram diferentes das multidões por quem eu tinha passado no meu caminho até aqui. Eles estavam curiosos. ‘Uma verdadeira princesa de Morrighan’. Eu estava em exibição. O Komizar queria que eu fizesse um show na frente dele e de sua Legião de Governadores. Será que eles esperavam que eu cuspisse jóias da minha boca? Era mais provável que qualquer palava que eu dissesse fosse se deparar com zombaria, assim como havia acontecido com a minha aparência. Ou com o dorso da mão dele. Havia apenas duas coisas que um homem da posição de Komizar esperava, desafio ou submissão, e eu estava certa de que nenhuma das duas melhoraria minha situação. Embora minha pulsação tivesse se acelerado, não deixei de contemplar o olhar dele. Pisquei devagar, como se estivesse entediada.

A série Crônicas de Amor e Ódio, de Mary E. Pearson e publicada pelo DarkLove, selo especial da DarkSide dedicado a autoras mulheres, foi uma grata surpresa que 2016 me trouxe. Não vou mentir: não tinha altas expectativas, pois já quebrei muito a cara com trilogias YA. Porém, o que encontrei desde o primeiro livro, The Kiss of Deception, foi uma história envolvente e ambientada em um universo bem construído. A protagonista, Lia, é uma princesa que, no dia de seu casamento com um príncipe que nunca viu, decide abandonar a vida que sua família planejou para ter sua própria voz e ser dona de seu destino. A partir de então, o que acompanhamos é uma série de acontecimentos e reviravoltas de grandes proporções para o reino todo.

Lia se revela não apenas complexa, mas bastante identificável, com suas falhas e decisões questionáveis. Ela é muito humana e é impossível julgá-la por isso, principalmente porque percebemos que ela aprende e se fortalece com seus erros — o que fica ainda mais evidente na sequência, The Heart of Betrayal. Outro aspecto que me encantou durante a leitura é a relação entre as personagens femininas. Ainda que a história traga alguns clichês (triângulo amoroso e bad boy misterioso, por exemplo), neste ponto a autora optou por fugir da ideia de criar uma personagem que funcionasse como antagonista para Lia; ao invés disso, o que encontramos são relações de amizade pautadas o tempo todo pela solidariedade e a proteção.

O Casamento da Princesa (Meg Cabot)

Por Jé Mazzola

Sempre achei que, ao virar adulta, as coisas seriam menos confusas, mas infelizmente, tudo só fica mais confuso.

O livro de fechamento de uma série que fez a cabeça de tanta gente nos anos 2000 finalmente chegou em 2016. Mesmo pouca gente achando que isso poderia acontecer já que o penúltimo livro tinha um fechamento perfeito, a história que conta como se passaram os próximos anos é incrível! Assim como eu, muitos leitores cresceram lendo as histórias do Diário da Princesa, de Meg Cabot, e acompanharam tudo que ela viveu exatamente na mesma época que a gente. E assim como a Mia cresceu e chegou nos seus 20 e poucos, as leitoras também. E ver esse desenvolvimento dela junto do meu, com o mesmo tipo de entendimento, mesmas vivências (tirando a vida da realeza) transforma completamente a identidade da história.

Meu 2016 foi bem mais completo com esse livro que me mostrou que uma heroína gente como a gente que eu amava tanto anos atrás, continua cada vez mais guerreira, fazendo decisões importantes, se tornando rainha e vivendo um sonho de princesa.

Na Estrada Jellicoe (Melina Marchetta)

Por Paloma

Lembro do amor. É do que preciso ficar me lembrando. É engraçado como esquecemos tudo, menos de sermos amados. Talvez seja por isso que os humanos achem tão difícil superar relacionamentos amorosos. Não é a tristeza que eles precisam superar, é o amor.

Esse livro, na realidade, foi publicado 10 anos atrás, mas levou toda uma década para ser traduzido para o nosso português e lançado em terras tupiniquins, esse ano, pela Seguinte, selo jovem da Companhia das Letras. Na estrada Jellicoe – no original (On the) Jellicoe Road, que também poderia ser traduzido como No Caminho de Jericó, dialogando com a passagem bíblica – conta a história de Taylor, uma adolescente que foi abandonada pela mãe aos 11 anos e desde então vive em um colégio interno sob os cuidados principalmente de Hannah, uma mulher misteriosa que mora em uma casinha dentro do terreno da escola.Anualmente, os alunos do internato enfrentam em uma guerra os adolescentes da cidade próxima e os cadetes da escola militar que acampam perto dali, organizando exércitos, ganhando e perdendo territórios, fazendo reféns e realizando ataques surpresa uns contra os outros. Paralelamente a isso, acompanhamos de forma fragmentada a história de outros cinco jovens, passada no mesmo local.

O começo do livro é narrado de forma bastante não linear e confusa, o que pode deixar o leitor reticente a princípio, mas com o passar da trama a história vai ganhando ordem e sentido, e podemos observar como tudo e todos se relacionam e entrelaçam nesse processo doloroso e assustador que é crescer e enfrentar os próprios traumas que, em última instância, define quem somos como pessoas.

Uma Morte Horrível (Pénélope Bagieu)

Por Lorena

Tá bom, parece que o seu bofe não é nenhum príncipe encantado, mas… Não pode por NELE a culpa por você ter uma vida de merda.

Na minha missão de ler mais quadrinhos em 2016, acabei topando com esse exemplar da blogueira e quadrinista francesa Pénélope Bagieu. Não nego que me chamou a atenção primeiro pelo nome, mas o livro cativa desde o começo. Zoé tem um trabalho de que não gosta — ela é hostess de eventos — e um namorado que só pode ser definido como boy lixo. Um dia ela conhece Thomas, um escritor misterioso em busca de inspiração, e os dois começam a se relacionar, ainda que Zoé não se sinta culta o suficiente para fazer parte do mundo dele.

Foi um dos meus livros favoritos de 2016 não só por colocar como tema as inseguranças que temos em relação à carreira e futuro, mas também pela forma como retrata essa falsa dicotomia entre ser culto e ser uma pessoa comum é levantada. A arte é bem bonita e como nova fã de quadrinhos, adoro tê-lo na estante — no Brasil, o livro é publicado pelo selo Nemo, do Grupo Autêntica. E não quero dar spoilers, mas o final é muito bom.

Vozes de Tchernóbil (Svetlana Aleksiévitch)

Por Luisa Pinheiro

Meu marido começou a mudar, cada dia eu via nele uma pessoa diferente. As queimaduras saíam para fora. Na boca, na língua, nas maçãs do rosto. De início eram pequenas chagas, depois iam aumentando. As mucosas caíam em camadas, como películas brancas. A cor do rosto, a cor do corpo… Azulada… Avermelhada… Cinza-escuro… E, no entanto, tudo nele era tão meu, tão querido! É impossível falar disso! Impossível escrever! E mesmo sobreviver… O que salvava era que tudo acontecia num átimo, não dava tempo de pensar, não dava tempo de chorar. Eu amava meu marido! Eu ainda não sabia como o amava! Tínhamos nos casado havia tão pouco tempo… Ainda não tínhamos tido tempo de nos saciar um com o outro. Andávamos na rua, ele me tomava nos braços e me girava. E me beijava, beijava. As pessoas passavam por nós e sorriam.

Após ganhar o Nobel de Literatura no ano passado, Svetlana Aleksiévitch teve três livros lançados em português (Vozes de Tchernóbil, A Guerra Não Tem Rosto de Mulher e O Fim do Homem Soviético), foi a atração principal da Flip e ficou em destaque nas livrarias por bastante tempo. Definitivamente foi um bom ano para a autora bielorrussa aqui no Brasil. O ponto alto da obra de Svetlana é a escolha de como abordar grandes temas da História a partir da vida cotidiana, das memórias de gente comum, das relações humanas. É desse jeito simples e tão intenso que o leitor entende o impacto da tragédia em Tchernóbil, da Segunda Guerra Mundial e do desmonte da União Soviética.

Claro que Vozes de Tchérnobil, por exemplo, tem seus momentos de história oficial e de explicações científicas sobre radiação, mas ainda é um livro sobre amor, sobre o apego à terra, sobre esperança. E surpreende o trabalho de Svetlana como jornalista. Ainda que ela seja testemunha de parte dessas histórias, ela sabe o momento de se colocar na narrativa e abre o espaço que os personagens precisam. É como se todos os entrevistados, juntos, fossem o protagonista do livro.

Teaching My Mother How To Give Birth (Warsan Shire)

Por Anna Vitória

I am a lover without a lover
I am lovely and lonely and I
belong deeply to myself

Ao contrário de todos os livros dessa lista, esse aqui não é desse ano, mas de 2011. No entanto, foi apenas em 2016 que o trabalho de Warsan Shire ganhou projeção internacional, uma vez que ela foi responsável por boa parte dos textos que compõe as narrações do álbum visual de Beyoncé, o Lemonade. Shire nasceu no Quênia, filha de pais somali, mas se mudou para a Inglaterra quando ainda era bebê. Hoje, aos 27 anos, ela tem dois livros publicados, com uma coletânea a caminho, e foi a primeira vencedora do prêmio African Poetry Prize, concedido pela Universidade de Brunel. No entanto, antes de fazer sucesso mundial com sua parceria com Beyoncé, Warsan já era uma expoente importante da poesia contemporânea nascida na internet, tendo o Tumblr com principal meio de divulgação e agremiação de leitoras e escritoras, em sua maioria mulheres negras escrevendo sobre a experiência de feminicidade, negritude e também sobre deslocamento e pertencimento diante da realidade da diáspora africana.

Esses são os temas de Teaching My Mother How To Give Birth, seu primeiro livro, que também conversa diretamente com Lemonade e as questões abordadas por Beyoncé no álbum de 2016 — família, amor, traição e a vivência de uma mulher negra — e também naquele de 2013, mais focado na sua relação com o corpo e a sexualidade. Foi o trabalho de Warsan Shire — e de outras poetas africanas que descobri através dela, como Nayyirah Waheed e Yrsa Daley-Ward — que me fez redescobrir a poesia, depois de muitos anos dizendo que eu não era uma pessoa que gostava de poesia. Seus versos curtos e diretos, quase na dimensão de um tuíte, me mostraram a verdadeira mágica de um poema, que é nos fazer baixar a guarda e permitir que os sentimentos fluam, na definição simples e bonita de minha amiga Clara Browne. A aparente simplicidade, o tamanho reduzido e os versos reblogados, retuitados e reproduzidos milhares de vezes na internet, numa dinâmica com a qual estou tão acostumada, me ajudaram a baixar a guarda e então os versos de Warsan Shire, carregados de sentimentos fortes e complexos, fluíram em mim e me arrebataram, porque mostraram que tão poucas palavras podem conter multitudes e essa é a verdadeira mágica da poesia.

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