CINEMA

Crítica: Um Limite Entre Nós

Um limite entre nós

Estados Unidos, década de 50. Antes da aprovação da Lei dos Direitos Civis, muitos estados do sul do país ainda viviam um regime de segregação firmemente ancorado nas leis. Nesse contexto, em Um Limite Entre Nós acompanhamos a história de uma família Maxson, formada por Troy (Denzel Washington), Rose (Viola Davis) e Cory (Jovan Adepo), além de Lyons (Russell Hornsby), filho de um relacionamento anterior de Troy.

Atenção: esse texto contém spoiler.

O foco da história é obviamente Troy. Criado por um pai abusivo com 10 irmãos em uma fazenda, ele sai de casa aos 14 anos, passa a viver de roubos na rua, onde conhece a primeira esposa, tem um filho, e eventualmente é preso. Ao sair da cadeia, muitos anos depois, ele conhece Rose e se casa com ela, além de descobrir sua paixão e seu talento para jogar baseball. A idade já mais avançada (como aponta Rose) e a cor de sua pele impedem que ele siga carreira no esporte, e Troy passa a trabalhar na empresa de coleta de lixo para sustentar a família, agora composta por Rose e pelo filho de 17 anos, que vive uma vida de classe média.

O filme, adaptado de uma peça estrelada pelos mesmos atores, é ambientado na cidade de Pittsburgh, Pensilvânia, que fica na parte norte do país, considerada menos racista que os estados do sul. A produção faz questão de deixar claro, entretanto, que nem mesmo essa parte do país está livre do racismo. Ainda que não haja segregação racial oficial, Troy faz referência aos “bairros brancos” e suas tentativas iniciais de conseguir uma promoção para o cargo de motorista são inicialmente rejeitadas porque o posto é tradicionalmente ocupado por brancos, enquanto aos negros é reservada a tarefa de recolher diretamente o lixo — realizada por Troy e pelo amigo Bono (August Wilson).

A trama do filme é ambígua. Por um lado, é mais um dos indicados desse ano a levantar a questão racial, que deve e precisa ser massivamente levantada. Por outro lado, a trama possui uma carga machista bem marcante, que assume muito mais destaque do que a questão racial, especialmente na relação entre Troy e Rose.

um limite entre nós

Troy passa grande parte do filme declarando aos quatro ventos como é apaixonado pela esposa e como ela é maravilhosa e a razão da sua vida. Mas isso não impede que ele descaradamente forme outra família, colocando a família original como um fardo do qual ele precisasse descansar e ignorando descaradamente o fato de que Rose, cumprindo à risca seu papel social de mãe e esposa dedicada, está ainda mais presa e sobrecarregada pelas responsabilidades familiares do que ele, sem nenhuma possibilidade de “descanso”.

Os ciúmes masculinos e femininos têm origens diferentes. Enquanto nos homens esse sentimento é derivado da ideia de posse – outro homem tomando o que é seu (no caso, a mulher) –, nas mulheres o ciúme normalmente tem relação com a ideia de fracasso, de que não somos suficientes. Isso é exatamente o que Troy insinua ao contar à esposa sobre a amante grávida, o motivo da traição, e que não pretende parar – além de estimular diretamente a competição ente mulheres.

À primeira vista, é tentador acreditar que Rose ocupa um lugar de influência dentro de casa. O mito da “patroa” é frequentemente reencenado para fazer parecer que a esposa tem de fato um grande poder sobre a família. A realidade, entretanto, não é bem assim. Sim, Troy entrega o salário para que Rose gerencie, mas ela não tem poder estrutural para fazer coisas simples, como autorizar que o filho jogue futebol americano, nem para se esquivar de criar a filha que o marido teve fora do casamento. Considerando que se trata de uma mulher religiosa e financeiramente dependente do marido em uma época em que a mulher separada é extremamente mal vista pela sociedade, ela não tem nem mesmo o poder de se divorciar livremente.

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A impressão que o filme passa é de ser mais um dos muitos filmes que deseja santificar o ordinário, “humanizar” a história contada, demonstrar que todos os seres humanos têm seus lados bons e os ruins, e que apesar do alcoolismo e de só destratar o filho e menosprezar a mulher durante o filme inteiro, ele é um bom homem que erra acreditando estar fazendo o melhor para a família. Longe de mim exigir perfeição de qualquer ser humano, mas esse tipo de argumento dá abrigo às mais diversas situações de abuso, como vemos claramente em Um Limite Entre Nós.

Ao mesmo tempo, o filme também volta ao mesmo lugar-comum de idealizar o sacrifício e abnegação femininos em nome da família, mesmo diante da clara ingratidão e falta de reconhecimento recebidos. Esse tipo de idealização está fortemente enraizado no inconsciente coletivo, ao ponto de ignorarmos o quanto isso é desumanizante, negando e afastando nossos sentimentos reais e humanos em prol dos sentimentos “elevados” que esperam de nós. Esse estereótipo da figura maternal que abraça todas as dores faz com que se espere que sempre nos coloquemos em segundo plano, dando prioridade aos outros e deixando de lado a nossa própria causa. Viola Davis, com sua atuação magistral, consegue passar ao espectadores, simultaneamente, o estereótipo e a humanidade que ele esconde, deixando-nos antever em relances a dor, impotência e frustração da personagem diante de um mundo e de acontecimentos que estão completamente fora do seu controle. O que prevalece, entretanto, é a santificação da figura falha de Troy, que assume uma aura ainda mais divinizada após a morte do personagem.

Um Limite Entre Nós é um filme com boas atuações, mas que na maior parte do tempo me transmitiu apenas exasperação e uma frustração intensa pela posição que nós mulheres ocupamos na sociedade, representadas fielmente pela personagem Rose. Estou longe de torcer pela obra nas categorias de Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, mas colocar um prêmio nas mãos da Viola Davis por mais um belo trabalho estaria bem longe de ser a pior coisa que poderia acontecer.

Um limite entre nós recebeu 4 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Viola Davis), Melhor Ator (Denzel Washington), Melhor Roteiro Adaptado (August Wilson). 

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1 Comentário

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    Laura Máximo
    8 de março de 2017 at 14:25

    Concordo em gênero, número e grau com o texto. Em alguns momentos, tive ódio físico do Troy e quis pular as falas dele.

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