CINEMA

Crítica: Era o Hotel Cambridge

Era o Hotel Cambridge

Eu fui assistir Era o Hotel Cambridge porque uma amiga convidou. Eu assisti o trailer, entendi só muito por alto a proposta da trama, não me empolguei muito, e fui assistir mesmo assim. Eu ainda nem sabia ainda que era dirigido por uma mulher, e muito menos que seria um baque tão forte.

O filme acompanha o dia-a-dia de uma ocupação no centro de São Paulo em um prédio abandonado que costumava ser um hotel (Hotel Cambridge, abandonado em 2011 e ocupado um ano depois) no período de quinze dias entre a expedição de um mandado de reintegração de posse do prédio e o cumprimento desse mandado. Nas centenas de quartos espalhados pelos mais de quinze andares do prédio moram um número incontável de pessoas – entre brasileiros sem teto de todas as idades e imigrantes refugiados – inseridas em uma realidade e organização próprias que lembram muito o funcionamento de um formigueiro.

Era o Hotel Cambridge é uma produção nacional dirigida por Eliane Caffé, construído de forma colaborativa pela produtora Aurora Filmes, um grupo de estudantes de arquitetura da Escola da Cidade e o MSTC – Movimento dos Sem Tetos do Centro –, que mescla atores profissionais e personagens reais e conta uma história que acontece todos os dias sob os nossos narizes mas permanece, de alguma forma, invisível.

A primeira coisa que chama a atenção no filme é a impressionante a organização interna da ocupação, considerando o tamanho e a quantidade de moradores, sob o comando de Carmen (Carmen Silva, personagem real). Cada pessoa que faz parte da ocupação tem sua função e espera-se que todos colaborem para o bem comum. O que observamos em Era o Hotel Cambridge é um tipo de comunidade que se torna mais incomum à medida que se sobe de classe social. Se entre as classes média e alta é marcante o isolamento e o distanciamento entre vizinhos, em locais como a ocupação mostrada no filme o que se observa é a formação de laços de solidariedade e comunhão real. Os ocupantes cuidam um dos outros, vivem coletivamente e encontram nos olhares uns dos outros a humanidade que o mundo exterior se nega a enxergar neles.

Outro ponto muito interessante de se observar é a relação entre as pessoas e a propriedade, de uma forma geral. Dá para se dizer que a forma de vida comunitária adotada dentro da ocupação muitas vezes foge ao sistema capitalista. As pessoas que moram ali não tratam o prédio como uma propriedade, mas como um recurso. Não é uma ocupação para que eles possam ter o prédio enquanto objeto, é a reivindicação do direito básico de ter onde morar e ser reconhecido como um ser humano. Não importa de quem é o prédio, o que importa é a que fim ele está servindo. Do mesmo jeito, fica implícito em muitas passagens que os moradores frequentemente compartilham alimentos. Os trabalhos ligados à manutenção e à expansão da ocupação não são remunerados, são feitos em prol da preservação do sistema tendo em vistas o bem coletivo que, em última instância, se reflete em um bem particular.

Era o Hotel Cambridge

Se a mentalidade adotada fosse essencialmente individualista e capitalista, bastaria um grupo de pessoas se instalar e trabalhar em conjunto apenas na medida em que fosse necessário para manter o bem conquistado contra outros particulares. Ao contrário, o que se observa é uma estrutura politicamente organizada, interdependente e em constante expansão. Novos sem-teto estão constantemente chegando, e novos prédios são continuamente invadidos para suprir essa demanda social, sem que haja um interesse econômico envolvido. Os moradores que já estão instalados têm obrigação de colaborar para a criação de novas ocupações para abrigar novas pessoas não porque têm algum interesse pessoal e/ou econômico diretamente envolvido, mas porque têm um dever comunitário e social de passar para frente uma colaboração solidária que eles próprios já receberam em algum momento. Isso fica muito claro nas cenas que retratam a ocupação de um novo prédio, em que Carmen faz o lembrete de que ninguém está autorizado a escolher um novo apartamento, mesmo que esses sejam melhores que os atuais – o objetivo não é a acumulação de capital, a criação de um patrimônio, e sim a expansão de um movimento.

À medida que a data do despejo se aproxima, a tensão cresce entre os moradores, mas o que se pode observar paralelamente é a rotina coletiva seguindo normalmente, com cada um cumprindo seu papel e, acima da todos, Carmen cumprindo a função de líder, que não só coordena a organização e cuida para que nada saia dos trilhos, mas também dá o exemplo e ocupa a posição de fortaleza, de âncora. A função dela é essencial porque sem ela toda a estrutura se desmantelaria em caos diante da ameaça que eles estão enfrentando. Esse elemento é muito observável na cena em que, diante da desobediência de uma das moradoras, ela perde momentaneamente a frieza e uma das outras personagens corre para lembrar que ela não pode se desesperar, porque isso seria o colapso de todo o movimento.

Apesar de Carmen estar em uma posição de liderança dentro da ocupação, porém, o que se observa na estrutura da comunidade não é uma hierarquia. Ela comanda a organização e as atividades porque essa é a função dela, e é respeitada porque inspira confiança e porque, em nível mais ou menos consciente, os demais sabem que é do interesse de todos e fundamental para o bem comum que haja cooperação e o mínimo possível de conflitos. A ocupação é uma sociedade paralela, construída à margem dos poderes do Estado e que não pode recorrer a esses poderes – o Estado é o inimigo dos excluídos. Ainda assim, a função exercida por Carmen não é fundamentalmente mais importante que nenhuma outra – a do eletricista, dos coordenadores, do professor de teatro, – todas são absolutamente interdependentes e essenciais ao bom funcionamento do todo.

Era o Hotel Cambridge

Carmen Silva

É muito interessante a quebra de paradigma que a história de Era o Hotel Cambridge representa na apresentação de pessoas invisibilizadas na sociedade, muitas vezes animalizadas no imaginário popular ao ponto de se crer que elas não possam almejar nada além da satisfação de suas necessidades fisiológicas básicas. O que vemos no filme, entretanto, são pessoas completas interessadas em muito mais do que a simples sobrevivência. Acompanhamos aulas de teatro em que as personagens têm a oportunidade de contar suas próprias histórias, uma sala de informática com acesso à internet que possibilita a um só tempo o contato com a família deixada para trás, no caso dos imigrantes, e também alguma forma de integração com o mundo exterior.

O projeto de criar um vlog registrando a vida dentro da ocupação é o elemento central que cria a ponte entre a sociedade paralela criada naquele ambiente e a sociedade “oficial”. O projeto representa uma âncora muito expressiva, fixando aquela outra realidade como existente dentro da realidade socialmente reconhecida em que nós vivemos e, portanto, influenciada pelos mesmos padrões e movimentos sociais que esta, o que força o espectador a reconhecer a existência da história retratada não como uma realidade fictícia, mas uma realidade concreta e muito próxima. Por outro lado, o vlog é um instrumento que demonstra que, apesar de a sociedade existente dentro da ocupação funcionar de forma diversa e em muitos aspectos rejeitar diretamente os valores e costumes reinantes na nossa sociedade, essa segregação que existe não é algo desejado nem buscado. Pelo contrário, existe uma vontade muito forte de ultrapassar as barreiras sociais para ter a sua existência e a sua humanidade socialmente reconhecidos.

O final do filme é especialmente angustiante porque, uma vez que você é obrigado a se deparar com aquela realidade, identificar naquelas pessoas seres humanos exatamente iguais a você, e a reconhecer, assim, a crueldade do sistema em que nós vivemos, não existe forma racional de se justificar certos atos. Nas cenas finais de Era o Hotel Cambridge, a humanidade reconhecida naquelas personagens entra em conflito direto com o tratamento que eles recebem de poderes instituídos que, teoricamente, deveriam representar o povo e garantir o bem comum, quando na realidade violenta pessoas em benefício do capital e da manutenção da ordem das coisas, que tratam as pessoas que vivem à margem verdadeiramente como formigas, a serem esmagadas sem nenhuma crise de consciência no momento em que se tornam incômodos. E é como um formigueiro que a ocupação do Hotel Cambridge é desmantelada, com seres humanos – adultos, crianças e idosos, homens e mulheres – subindo o tanto quanto possível para fugir do fogo e da fumaça, saindo pelo telhado e indo buscar um novo lugar para montar seu formigueiro e reconstituir o seu sistema próprio. Porque despejar pessoas sem resolver o problema que forçou-as a essa situação em primeiro lugar está muito longe de beneficiar qualquer um a não ser o da empresa que recuperou a posse do prédio que eles mesmos abandonaram.

Era o Hotel Cambridge

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