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Fernanda

LITERATURA

Little Fires Everywhere: Celeste Ng e a diversidade da experiência humana

Em uma cidade planejada aparentemente perfeita no interior dos Estados Unidos, uma adolescente, a ovelha negra de uma família tão aparentemente perfeita quanto a comunidade, acende pequenas chamas em todos os cômodos de sua casa, numa disruptura incomum da tranquilidade diária. É assim que Celeste Ng inicia Little Fires Everywhere, seu segundo romance, que vai voltar no tempo para se debruçar sobre o porquê das chamas, e, a partir dessa pequena comunidade planejada, vai discutir como as diferenças de gênero, raça e classe moldam e transformam a experiência humana.

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TV

Escrevendo a adolescência feminina nos dramas de prestígio: o caso de Sally Draper

O diálogo mais famoso de As Virgens Suicidas – “você nem tem idade o suficiente para saber o quanto a vida fica difícil”/ “doutor, você obviamente nunca foi uma menina de treze anos” – diz muito sobre como enxergamos, enquanto sociedade, as aflições das meninas que estão crescendo e criando suas identidades à nossa volta. As angústias que acompanham não só a adolescência como um todo, mas especificamente a adolescência feminina, que adiciona toda uma carga de machismo – inclusive aquele inveterado dentro de nós mesmas, absorvidos de tudo o que nos cerca – à experiência, parecem tornar as garotas adolescentes particularmente interessantes para os contadores das histórias que na verdade não são sobre elas, e sim sobre seus pais. Dana Brody em Homeland, Grace Florrick em The Good Wife, Paige Jennings em The Americans, Sally Draper em Mad Men: todas foram parte de séries que dedicaram uma quantidade considerável de tempo de tela às filhas adolescentes de seus protagonistas, fossem eles oficiais da marinha/ supostos agentes terroristas, advogadas de volta ao mercado de trabalho após o afastamento para serem mães em tempo integral, superespiões soviéticos à noite e pais suburbanos de dia ou então publicitários alcoólatras e tristes.

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TV

This Is Us e o Emmy: por que ver um drama familiar na disputa soa tão diferente em 2017

Maior sucesso recente entre as estreias da tradicional fall season da televisão norte-americana, This Is Us foi recentemente agraciada com dez indicações ao Emmy, incluindo na categoria considerada a mais importante da premiação, a de Melhor Drama. Além de render indicações a sete membros de seu elenco nas categorias de atuação, a série desenvolvida por Dan Fogelman é a primeira da televisão aberta a concorrer a melhor drama desde The Good Wife, em 2011. É um feito bastante significativo, visto que a televisão a cabo, além dos serviços de streaming com sua maior liberdade criativa, menores restrições e menor dependência dos números da audiência americana, têm domínio quase absoluto sobre aquilo que costumamos chamar de “Prestige TV” [em tradução livre, “TV de prestígio”], e são essas produções que vêm dominando o Emmy ano após ano desde o começo da década.

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CINEMA

Crítica: Okja e aquilo que preferimos não ver

Quando eu era criança, não suportava que galinhas prestes a virar uma refeição fossem trazidas para casa ainda com a cabeça. Olhar nos olhos da galinha era a comprovação incontestável de que a carne que eu consumia não surgia magicamente no supermercado, não era produzida em uma máquina, mas antes fora um animal com um coração pulsando. Embora essa experiência não tenha servido para me tornar vegetariana, ou muito menos vegana, vejo nela uma forte semelhança com a polêmica envolvendo o abate de um cordeiro em um programa na televisão – o horror e o desgosto, afinal, também vieram de dezenas de pessoas que consomem carne. Comprar um pedaço de carne no mercado ou no açougue significa se ver diante de um animal com todas as suas características cuidadosamente removidas, de cortes feitos meticulosamente por alguém experiente. Amorfa e bem embalada em plástico filme, a carne moída que vira meu hambúrguer em nada lembra as vacas de olhar moroso que eu costumava ver todas as manhãs da janela do ônibus. É claro que sei de onde ela veio. Mas posso escolher não pensar nisso, se eu não quiser.

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CINEMA LITERATURA

Off the Cliff: por que Thelma & Louise foi um filme fora da curva

Muito antes que eu soubesse que história contava Thelma & Louise, o filme já era uma referência conhecida para mim, citada nos diálogos de muitos outros filmes — ou séries, ou livros –, especialmente quando se tratava de personagens femininas. Foi somente no ano passado, com a chegada de seu aniversário de 25 anos, que finalmente parei para assisti-lo e entendi por que era tantas vezes mencionado. Thelma & Louise me pareceu muito diferente, embora naquele momento eu não soubesse dizer exatamente por quê. É sobre esse porquê que Off the Cliff, livro de Becky Aikman, se debruça. Com um subtítulo no qual se lê “como a realização de Thelma & Louise levou Hollywood ao extremo”, o livro narra os bastidores do filme de 1991 para tentar entender por que Thelma e Louise representaram uma pequena revolução desde a época de seu lançamento até os dias de hoje.

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CINEMA

Nancy Meyers e os sentimentos simplesmente complicados

Em sua resenha de Um Senhor Estagiário, filme mais recente de Nancy Meyers, Richard Lawson afirma que embora a diretora e roteirista receba menos reconhecimento do que merece por suas marcas registradas, um filme de Meyers é algo imediatamente identificável, da mesma maneira que é reconhecível um filme de Quentin Tarantino em seu próprio estilo. É uma comparação interessante não só porque Tarantino já revelou gostar de comédias românticas (além de provavelmente ser  a única pessoa além de mim que considerou Um Senhor Estagiário um de seus filmes favoritos em 2015), mas porque, quando paramos para analisar, é uma afirmação muito verdadeira – em termos de estilo e conteúdo, um filme de Nancy Meyers tem uma identidade muito própria que provavelmente nem todo mundo compra. São filmes sempre esteticamente agradáveis cujos cenários, especialmente os interiores, já se tornaram uma atração à parte, sempre em tons suaves, claros, com uma iluminação bonita. Seus temas são invariavelmente as relações humanas e a maneira como elas afetam diferentes personagens, especialmente as mulheres. Suas personagens têm conflitos que podem parecer pequenos quando colocados em perspectiva, mas que são relevantes para elas e, assim, são levados a sério – mas sem dispensar o bom humor.

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