MÚSICA

6 álbuns de mulheres que merecem sucessores em 2017

Uma verdade universalmente conhecida é a de que todo fã quer sempre mais. Recuperadas da euforia das listas de melhores do ano, quando olhamos para os últimos 12 meses para pensar no que foi bom, no que foi ruim, no que poderia ter sido melhor — mas principalmente no que foi bom, porque aqui nós amamos amar as coisas — chegou a hora de olhar para a frente e pensar no que vem por aí. Um ano novo é uma promessa de novas coisas, novas ideias, novos ícones e, principalmente, a expectativa deliciosa de pensar em todos os álbuns que ainda não foram lançados, mas que podem ser as nossas novas coisas favoritas quando dezembro chegar.

Nessa lista reunimos nomes de algumas cantoras que estão com lançamentos prometidos para 2017 e outras que tudo indica que vem-coisa-boa-por-aí. Vamos relembrar seus sucessos passados, que nos deixaram com vontade de mais, e tentar prever o que elas podem estar preparando. É um ano difícil para o mundo, então sigamos as palavras de Carrie Fisher: “Take your broken heart and turn it into art” [pegue seu coração partido e transforme-o em arte].

Pure Heroine, Lorde

Antes de 2013, ninguém sabia quem era Ella Yelich O’Connor, então uma garota de 16 anos de Auckland, na Nova Zelândia. Com o lançamento de seu primeiro álbum, Pure Heroine, conhecemos Ella como Lorde, num trabalho que encapsula a atmosfera, os sentimentos e as ideias do que é ser adolescente e descobrir o mundo naquela fatia específica de tempo e espaço. Na época do lançamento, Pure Heroine foi vendido como um álbum feito por e para jovens estranhos e deslocados por aí, e o visual e o timbre de voz peculiar de Lorde podem contribuir com essa falsa impressão — falsa porque ela é muito mais que isso, e o sucesso estrondoso do álbum é uma prova disso. A cantora foi abençoada por David Bowie, que chamou ela de “o futuro da música”, sendo Bowie um eterno jovem deslocado no mundo, um alienígena no meio de nós. Contudo, o que faz desses dois artistas tão especiais não é sua estranheza, e sim a abertura que ambos demonstram diante desse estranhamento do mundo de modo geral, e a sensibilidade com a qual eles conseguem transformar esse sentimento em algo universal, nosso, e também muito bonito.

O que esperar: Depois de quatro longos anos de espera, sabemos que Lorde finalizou seu segundo álbum. Ano passado, no dia do seu aniversário de 20 anos, a cantora escreveu em seu Facebook que estava ansiosa para dividir com o mundo esse novo trabalho que, da mesma forma que Pure Heroine foi na sua adolescência, busca registrar o início da sua vida adulta e tudo que ela viveu, pensou e sentiu durante o período após o boom de Pure Heroine, quando ela se afastou dos holofotes para voltar a ser Ella O’Connor e descobrir o que isso significava naquele momento. Vai ser maravilhoso descobrir o mundo, de novo, ao lado dela.

Days Are Gone, HAIM

2013 também foi o ano que nos apresentou às irmãs Danielle, Alana e Este Haim. Vindas de uma família musical, as meninas cresceram tocando com os pais numa banda de covers que fazia shows em feiras, igrejas e escolas na costa oeste americana. Apesar de terem construído sua própria trajetória na música — Este estudou Antropologia Musical na faculdade (com especialização em música brasileira!) e Danielle tocou guitarra nas turnês solo de Jenny Lewis e Julian Casablancas — a sonoridade do álbum de estreia do trio, Days Are Gone, é carregada de influência de seus pais, com cheiro forte de anos 70 (Fleetwood Mac sendo a referência mais óbvia) e da tradicional musica americana. As Haim são ensolaradas, californianas e jovens, e a personalidade das três irmãs fica impressa nas letras do álbum, uma exploração divertida sobre a juventude e o intrigante período dos vinte-e-poucos-anos, com suas descobertas, dúvidas e nuances nas certezas absolutas demais que construímos na adolescência.

O que esperar: Um novo álbum do trio está sendo prometido desde o ano passado, mas o lançamento foi adiado para 2017 porque as irmãs queriam garantir que tudo estivesse perfeito. Assim como Days Are Gone, o sucessor vai ser um trabalho completamente autoral, com o trio presente em todas as etapas de produção, e nas entrevistas as garotas têm descrito o álbum como algo mais cru e orgânico do que o anterior, e fortemente influenciado por Prince — uma grande influência para as irmãs, e morto ano passado. As Haim já apresentaram duas novas músicas para o público, “Nothing’s Wrong” e “Give Me Just a Little of Your Love”, uma amostra do que elas podem estar aprontando, ainda que a própria Este Haim tenha declarado que a gente não faz a menor ideia do que vem por aí. Ok, então!

Night Time, My Time (Sky Ferreira)

Tudo que existe de solar e leve nas Haim parece sumir quando falamos em Sky Ferreira. Com uma carreira tumultuada por polêmicas, problemas com drogas, brigas com a gravadora e acusações de racismo — isso antes mesmo do lançamento de seu primeiro disco! — a cantora já chegou com fama de difícil. Pupila de Michael Jackson, Sky Ferreira mostrou em Night Time, My Time, seu álbum de estreia, lançado em 2013, que temos motivo para estar prestando atenção nela apesar de tudo. O disco pode ser classificado como indie pop e suas letras giram em torno, bem, dessa nossa obsessão recorrente de reflexões sobre início de vida adulta e nosso lugar no mundo. O som é cativante, as músicas grudam na cabeça e dá gosto de ver uma cantora jovem disposta a comprar briga com figurões de gravadora para ter autonomia sobre o próprio som e a imagem que quer projetar sobre si. Sky sabe o que essa indústria faz com as mulheres e não tem medo de discutir o tópico abertamente, bem como criticar coisas machistas que escrevem sobre ela. “Tenho fama de difícil, mas homens de 50 anos estão tentando me dizer como ser mulher!”, ela declarou na época do lançamento, e quando se vê o resultado do álbum, fica claro que essa era uma briga que valia a pena comprar.

O que esperar: Assim como Night Time, My Time, o novo álbum de Sky Ferreira é um produto de idas, vindas, mudanças e adiamentos. Intitulado Masochism, o sucessor deve manter em sua identidade a característica da cantora de preservar o controle sobre seu trabalho, garantindo o máximo de honestidade possível no som e nas letras. O título, segundo ela, veio de um período em que a cantora acreditava que era preciso sofrer muito para viver qualquer coisa que valesse a pena e, consequentemente, produzir uma arte que tivesse significado — daí o masoquismo, a busca pela dor para viver experiências reais. Ela garante que já não vive mais de acordo com essas ideias, mas o álbum é sobre esse período em sua vida. Sky recentemente foi capa da Playboy, numa edição especial produzida e editada por ela (a primeira coelhinha da revista a ter esse tipo de autonomia sobre a publicação!), e também foi anunciada como parte do elenco do remake de Twin Peaks. Vemos coisas intensas no futuro de Sky Ferreira, intensas e estranhas, o que me parece uma expectativa boa de se acalentar.

 Girl Talk, Kate Nash

Ao contrário dos três nomes acima, quando falamos de Kate Nash não estamos mais diante de uma novata na indústria, vivendo com o peso da expectativa do segundo álbum que deve provar que seu primeiro sucesso não foi sorte de principiante — seu disco de estreia, Made of Bricks, completa 10 anos em 2017 e a cantora caminha para o seu quarto trabalho em estúdio. Mas, assim como as artistas acima, Kate Nash foi um jovem prodígio, e o mais legal sobre ela foi a forma como não se limitou a ser eternamente aquela garota ruiva de roupas retrô que conhecemos aos 19 anos no lançamento de “Foundations”, primeiro sucesso de sua carreira. Kate Nash mudou bastante nesses 10 anos, a maior mudança evidente em seu último trabalho, Girl Talk, que representou uma virada em seu som e seus temas recorrentes: Kate abraçou o punk e o feminismo, uma mudança que levou ao fim de seu contrato com a gravadora, culminando no lançamento independente do álbum. Ela aproveitou a deixa para focar em outros projetos, como o de incentivo à educação musical de garotas jovens através da Girl Gang TV; Kate também adotou uma banda só de mulheres que a acompanha nos seus shows e têm tocado junto de outras bandas independentes, todas femininas, em turnês coletivas que lembram as riot grrrls dos anos 90. Muita gente não curtiu a mudança e ela foi bem criticada por seus gritos no palco, mas acho difícil passar isso por cima de uma mudança tão honesta e pessoal. Kate Nash está com raiva, e com razão, deixem ela gritar.

O que esperar: Ano passado a cantora lançou um novo clipe, “Good Summer”, uma faixa leve e divertida que lembra os primeiros anos na sua carreira. Depois de uma temporada de amadurecimento, vida loka e descobertas pessoais em Los Angeles, Nash está de volta à Inglaterra, agora pós-Brexit, e gravou o clipe no jardim da casa de seus pais, nos subúrbios de Londres. A gravação aconteceu na festa de aniversário de 60 anos de seu pai, e toda a farra e alegria que vemos no clipe é real, a vibe feel-good generalizada parece a de alguém que viveu um turbilhão e agora finalmente respira de novo em paz. Em entrevista recente, Kate Nash declarou que gostou do sentimento nostálgico que a música invoca, que lembra seu começo na música, o que nos faz pensar que talvez o sucessor de Girl Talk não seja tão nervoso assim. A segunda faixa lançada, My Little Alien, segue a atmosfera leve e despreocupada. Kate continua sem gravadora e pretende lançar mais músicas ao longo do tempo, de forma solta e despretensiosa, que no futuro formarão um álbum. Não temos nada novo desde novembro, mas pelo menos sabemos que ela está em paz e cheia de ideias!

 St. Vincent, St. Vincent

Um pássaro? Um avião? Uma alienígena? Annie Clark, nome por trás de St. Vincent, é certamente uma força poderosa da natureza, uma enviada do futuro com uma sensibilidade profunda sobre o presente, que veio até nós e trouxe sua música para nos fazer pessoas melhores. Em 2017 seu disco de estreia, Marry Me, também completa 10 anos de carreira, uma história que já lhe rendeu quatro álbuns e um Grammy de Melhor Disco Alternativo por seu trabalho mais recente, St. Vincent. Nessa década, Annie Clark se mostrou uma artista no sentido mais puro da palavra, pela forma como subverte expectativas do gênero, desconstrói suas melodias, e entrega sempre performances arrebatadoras ao vivo, numa entrega carregada da vulnerabilidade sempre acessível pela sua voz delicada e por suas letras engenhosas, sensíveis, puras, surpreendentes. Ela é uma das artistas mais interessantes do momento e aponta para o futuro, sempre três léguas a frente de nós, deixando um rastro que vale a pena seguir.

O que esperar: No final do ano passado, Annie anunciou que lançaria um novo álbum em 2017, mais ousado de tudo que já lançou até agora. Considerando que sua discografia caminhou até agora num crescendo considerável, um disco mais surpreendente que outro, saber que o sucessor de St. Vincent vai se destacar pela ousadia é uma baita expectativa. Ela também já declarou que o pano de fundo político mundial será uma influência na sua criação, porque ela acredita que esse é realmente um grande momento para se criar coisas verdadeiramente transformadoras, que desafiem os ouvintes e o contexto que em que estamos inseridos.

Acho que esse vai ser o trabalho mais profundo e ousado que já fiz. Sinto que o campo está realmente aberto para que pessoas criativas façam tudo que quiserem, e o risco será recompensado — especialmente agora, com as apostas tão altas do ponto de vista político e geo-político. O pessoal é político e portanto não dá pra evitar que o político influencie a arte. E somente a música que tiver algo bem real a dizer vai ser capaz de chegar lá.

 1989, Taylor Swift

Com 1989, Taylor Swift deixou oficialmente de ser apenas uma cantora de country muito bem sucedida para pular diretamente para o status de estrela pop rumo à dominação mundial. A virada em sua carreira, com certeza milimetricamente calculada, lhe rendeu todos os prêmios, todas as glórias e todas as polêmicas — mas depois de conseguir tanto, fica difícil saber para onde Taylor Swift está indo. O que falta conquistar? Red, seu álbum de 2012, já estava distante de suas raízes country, e 1989 colocou a artista com dois pés no pop, com inspiração nos anos 80. A mudança no som também marcou uma nova maturidade em suas letras, nos apresentando uma Taylor Swift vivendo sua melhor vida sem estar necessariamente apaixonada por alguém, deixando um pouco de lado as promessas de amor eterno e romântico para viver encontros furtivos, casuais e fadados ao fim. Ela também está cada vez mais autorreferente, brincando com a percepção que as pessoas — e principalmente a mídia — têm dela, como fica claro em “Blank Space”. Taylor tem sido um dos assuntos favoritos da imprensa nos últimos anos, por todos os motivos certos e errados, e saber o que ela está aprontando — para o bem e para o mal — é do maior interesse de qualquer pessoa interessada em cultura pop.

O que esperar: Ao contrário de sua tradição nos últimos dez anos (!), ano passado Taylor Swift não lançou um álbum novo em novembro. Sabemos que ela está colaborando com Drake (!), um movimento que parece bastante estratégico tendo em vista que ele é um nome importante na cena do r&b e do rap, que tem sido ‘O’ som do momento, um bonde que talvez ela não queira ficar de fora — e que com certeza vai gerar muita controvérsia. Sua participação na trilha sonora de 50 Tons Mais Escuros ao lado de Zayn segue apontando para uma virada mais madura em sua carreira, seguindo o caminho que ela começou a traçar com o 1989. Também sabemos que Taylor Swift sempre escreve de dentro para fora, e seu maior talento é transformar suas experiências e sentimentos em músicas que são como histórias, pessoais o suficiente para soarem sempre honestas, mas perfeitamente calculadas para conquistar a todos. Nos últimos anos ela viveu alguns grandes (e bem públicos) momentos em sua vida pessoal, como o fim de dois namoros e a épica treta com Kanye West e Kim Kardashian, então chuto que ela deve ter um bocado a dizer sobre tudo isso. Pessoalmente, sigo na esperança de que ela lance uma nova experiência de narrativa midiática subvertendo tudo que é dito e escrito sobre ela, num grande golpe publicitário que deve começar com seu namoro com Tom Hiddleston, mas divago. Sabemos que ela não dá ponto sem nó e certamente agora está num porão planejando uma nova forma de dominar o mundo enquanto ri da nossa cara, mas enquanto não descobrimos a natureza do golpe — e sua sonoridade — só nos resta esperar.

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