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Visions of a Life: O “não-apenas-grunge” do Wolf Alice e a representação da melancolia britânica

Se você é um amante do bom e velho grunge — gênero musical que surgiu em Seattle (EUA) na década de 1980, revelando grupos como Sonic Youth, Pearl Jam e Soundgarden — provavelmente você se apaixonará pela banda britânica Wolf Alice. A influência sonora é perceptível já no primeiro single de sua carreira, “Fluffy”, lançado pelo grupo em 2013: somados à potência dos instrumentos, os gritos da vocalista Ellie Rowsell nos remetem aos anos 90 de Courtney Love e de sua banda Hole. Mas engana-se quem acha que o grupo britânico limita-se a isso. Assim como afirmou Ellie em entrevista à revista Nosey em 2015, de fato, é difícil não rotular as coisas (e com a música não seria diferente). Entretanto, a banda tem como proposta abusar de diversos gêneros, influências e propostas musicais.

Prazer, mundo, este é o Wolf Alice

A banda surge em 2010 como um projeto acústico da vocalista Ellie Rowsell e do guitarrista Joff Oddie. Mas no mesmo ano, o duo desiste da ideia e chama ao projeto a baterista Sadie Clayre e o baixista James DC — os quais em 2012 são substituídos, respectivamente, por Joel Amey e Theodore Ellis, consistindo na atual formação da banda. Inclusive, o clipe da canção “Fluffy”, lançada em 2013, brinca com a mudança sonora que a banda percorre ao longo de seus dois primeiros anos de vida: no vídeo, temos o encontro de Ellie e Joff — uma dupla que toca folk na internet e que dedica suas canções a gatos fofinhos — com os rebeldes Joel e Theo, regados à muito The Clash. A junção resulta em um rifle de guitarra, grito e até mesmo em martelada no computador utilizado anteriormente pelo duo.

Com dois EPs e indicada a diversos prêmios britânicos como artista revelação até então, a banda lança o seu álbum de estreia, My Love Is Cool, no dia 22 de junho de 2015. O trabalho foi a entrada com o pé direito da banda na indústria musical. A partir daí, o grupo fez turnê com diversos artistas, como The 1975, Foo Fighters e Queens of the Stone Age. A música “Moaning Lisa Smile” foi indicada ao Grammy Awards 2015 de Melhor Performance de Rock; já a fofíssima “Bros” foi indicada à Melhor Canção Musical e Liricamente no Inor Novello Awards, prêmio da Academia Britânica de Compositores. O álbum também foi indicado como Disco do Ano no Mercury Prize de 2015 — o principal prêmio da música britânica.

O Mercury Prize não veio em 2015, mas chegou em 2018 com o segundo álbum da banda, Visions of a Life, lançado em 29 de setembro de 2017. Com o prêmio, a banda entra para a história da música britânica, batendo nomes consagrados como Liam Gallagher, Lily Allen, Arctic Monkeys e Florence and The Machine. Além disso, Visions of a Life surge como o resultado da banda em fugir do estigma grunge. “Definitivamente, não é um disco grunge. É muito mais corajoso que isso, é um mix de gêneros no álbum. […] Usamos instrumentos de diferentes formas, como Joff [Oddie] usando sua guitarra como um sintetizador”, conta Ellie Rowsell à revista NME, em 2015.

Visions of a Life e a pluralidade melancólica da vida

Visions of a Life traz em sua capa uma jovem bailarina, que não por acaso é a tia de Ellie Rowsell. Em entrevista à NME em 2017, a vocalista conta que o conceito do álbum surgiu a partir da utilização da música como plataforma de expressão das diversas visões da vida que ela teve, tem ou gostaria de ter.

“[…] Então temos a capa do álbum, a foto de uma garota em um vestido dançando ao redor de um pódio com uma cabeça de cavalo nele — ela obviamente teve uma visão da vida que ela estava encenando. É a minha tia na foto, e ela realmente se tornou uma dançarina, então aquela visão se tornou verdade. Isso realmente ressoou em mim porque eu passei a minha infância inteira sem brincar com bonecos mas brincando dentro da minha cabeça e encenando. É sobre isso que nossas canção tratam, eu suponho — visões e pequenos pedaços da vida que de alguma forma são transformados em música” — Ellie Rowsell à revista NME, em 2017

Um exemplo das pluralidades sonoras e de pontos de vista propostas pelo grupo em seu segundo trabalho é “Sadboy”, nona música do álbum e, particularmente, a minha favorita. A canção inicia-se com batidas simples de bateria acompanhadas de uma guitarra também suave, mas ao mesmo tempo poderosa.

“Who hurt you, sadboy?
There’s a dark cloud above your head
Who hurt you, sadboy?
You act like you’re already dead
But you think too much
Yeah you think too much” 

“Quem te machucou, menino triste?
Há uma nuvem negra acima de sua cabeça
Quem te machucou, menino triste?
Você age como se já estivesse morto
Mas você pensa demais
Sim, você pensa demais”

O primeiro verso, ao mesmo tempo sombrio e meigo, apresenta uma personagem reclusa em sua própria mente. O próximo verso acompanha o mesmo ritmo que o anterior, com variados tons vocais explorados pela vocalista e, em alguns momentos, a guitarra pesada de Joff Oddie surge para externalizar os conflitos da personagem junto aos gritos de socorro de Ellie. Já no clímax da canção, as batidas contínuas da bateria acompanham uma voz perturbadora, como se representasse os demônios internos da personagem, aliada à voz angelical de Ellie Rowsell.

“I was waiting
Waiting for anything to happen
Waiting for love?
I was just waiting for this not to hurt”

“Eu estava esperando
Esperando que qualquer coisa aconteça
Esperando por amor?
Eu só estava esperando que isso não machucasse”

A partir deste momento e até o final da música, a dualidade retração/expressão mistura-se de forma magnífica aos instrumentos, como se eles também estivessem colocando para fora todas as sensações ora confinadas.

No clipe da canção, essas visões são apresentadas através da atuação de Ellie, uma garota que vai a uma festa de fantasia (vestida de diabo, para fazer jus à proposta sonora) e que, entre um gole e outro de álcool, tem suas crises existenciais e se vê presa em sua própria mente. É legal observar que a produção do clipe conversa muito bem com a canção, uma vez que utiliza-se de efeitos visuais para expressar visualmente a experiência da música. Todas essas possibilidades artísticas presentes na canção são exploradas pela banda através de ferramentas técnicas, como os sintetizadores, que já eram vistos em muitas das músicas presentes no primeiro disco (“Freazy”, um ótimo exemplo), mas que em Visions of a Life ganham maior espaço. Nas apresentações ao vivo de “Sadboy”, por exemplo, quase todos os integrantes utilizam sintetizadores para distorção sonora, como Ellie e a sua usual dupla de microfones.

“Sadboy” é apenas um exemplo da pluralidade sonora e conceitual proposta por Wolf Alice em seu segundo trabalho: “Don’t Delete The Kisses” com sua declamação poética; “Beautifully Unconventional” e a pegada mais pop rock; ou também o punk de “Yuk Fuu”. Definitivamente, o grunge não é a única palavra capaz de representar o atual momento de Wolf Alice. Assim como foi anunciado pelo cientista Lavoisier em 1777 acerca do princípio de conservação das massas, “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. A frase não poderia fazer mais sentido à história da música e, no nosso caso, na experiência sonora promovida pela banda.

Embora a mídia insista em rotulá-la como a banda que trouxe “a volta do grunge”, Wolf Alice busca encontrar a sua própria identidade tendo como base não só o grunge, mas gêneros como o folk, o pop, metal, funk e eletrônica. Com o lançamento do seu terceiro álbum, Blue Weekend, previsto para junho, e o single “The Last Man on Earth” já disponível, a banda comprova que vai muito além dos rótulos, e consolida seu espaço no coração do público tanto quanto na música britânica.

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