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Loucura e confinamento: o terror psicológico em The Lighthouse

Dirigido e escrito por Robert Eggers e co-escrito por Max Eggers, The Lighthouse apresenta a conturbada convivência entre dois faroleiros isolados do mundo: Ephraim Winslow (Robert Pattinson), um jovem curioso e rebelde, e Thomas Wake (Willem Dafoe), um velho homem tagarela e arrogante. O roteiro foi inspirado em uma história real sobre dois faroleiros do País de Gales, durante o início do século XIX. Em The Lighthouse, Max e Robert Eggers criam um mundo de isolamento e de loucura. Se as sensações narrativas, imagéticas e sonoras propostas no filme ainda não forem o suficiente para conquistar o interesse do público, a riqueza de referências e simbologias construídas por Eggers também é um conteúdo a ser considerado.

Atenção: este texto contém spoilers!

A história de The Lighthouse

Lançado em 19 de maio de 2019, durante a 72º edição do Festival de Cinema de Cannes, The Lighthouse explora a solidão de Winslow e Wake, dois trabalhadores responsáveis por um enorme farol localizado em um ambiente completamente isolado e melancólico. Ambientado na Nova Inglaterra do século XIX, o filme começa com Ephraim Winslow chegando como um jovem faroleiro temporário e designado a trabalhar ao lado de Thomas Wake, um dos mais antigos guardiões do farol. O cotidiano taciturno que espera pelos dois personagens já está presente nos primeiros segundos do filme: no meio de puro mar, neblina e vento, Winslow e Wake são lançados à imensidão soturna da ilha, apenas com a companhia de inúmeras gaivotas e do som perturbador dos navios. Nesse momento, já é apresentado o personagem principal da história. O ponto de luz, vida, desejo e disputa dos dois personagens: o farol.

“Fique com as suas tarefas. A luz é minha!”, Wake decreta durante o primeiro jantar compartilhado. Ao jovem e iniciante faroleiro é imposto todos os trabalhos possíveis a serem feitos na ilha, exceto a vigia do farol durante à noite — feita exclusivamente por Wake. Dia após dia, as tarefas braçais são cumpridas exaustivamente por Winslow, o qual se sente cada vez mais atraído pelo proibido e inalcançável farol.

Winslow: “O que fez seu último vigia partir?”
Wake: “Morreu. Enlouqueceu. […] Ele acreditava que havia um encantamento no farol. Ele dizia que Santo Elmo [padroeiro dos marinheiros] lançou o próprio fogo nele. ‘Salvação’, ele disse.”
Winslow: “Lorotas!”

Em uma noite, à distância, Winslow flagra o ancião nu sob a luz do farol. Wake nota a sua presença e, a partir daí, a relação entre os dois homens torna-se cada vez mais íntima e conturbada. Em mais uma noite sem dormir, o jovem vai ao farol roubar o maço de cigarro de Winslow e começa a ouvir barulhos estranhos vindos de lá. Entre as frestas do farol, Winslow vê e ouve Wake gozar de prazer sob a luz, enquanto é rodeado por tentáculos semelhantes a de um polvo. É a partir dali que Winslow se vê completamente fascinado pelo farol e a loucura, ora proseada pelo velho faroleiro, passa a fazer parte de seus dias e noites.

As visões e alucinações tornam-se cada vez mais frequentes. Algumas delas são a presença de uma jovem sereia, materializada no início do filme por meio da figura talhada em madeira encontrada por Winslow no fundo de seu colchão. Cada vez mais perturbado, um dia o jovem mata uma gaivota — animal que o incomoda desde que chegou ali — mesmo com a profecia de Wake que matar gaivotas dá azar, pois elas carregam as almas dos marinheiros que viveram ali. Após esse acontecimento, tudo começa a dar errado: mesmo após finalizar o trabalho temporário, Winslow não consegue abandonar a ilha devido às fortes tempestades. Além disso, o jovem se vê cada vez mais assustado pelas histórias e ações do faroleiro ancião, além de se sentir freneticamente atraído pelo farol.

A loucura de Wake e o medo da ilha se tornam incontroláveis a Winslow. Mesmo diante da tempestade, ele decide deixar a ilha de canoa, mas é impedido pelo velho faroleiro. Após discussões e do desastre causado na casa devido à tempestade da noite anterior, o jovem mata Wake, como uma forma de pôr fim às insanidades do velho, além, é claro, de atingir o seu objetivo máximo: entrar no farol. O fim do jovem é o mesmo premeditado pelo guardião do farol: após tocar a luz e gritar de prazer, a última cena mostra Winslow sendo devorado por gaivotas, ao passo que o farol está completamente em ruínas.

A loucura e o confinamento em The Lighthouse

Para fortalecer a poderosa narrativa presente em The Lighthouse, Robert Eggers usou e abusou das possibilidades imagéticas e sonoras — resultado de muita leitura e pesquisa dele e de seu irmão. “Começamos a pesquisar tudo sobre os faróis de época e a comunidade marítima. O que essas pessoas estão comendo? O que eles estão vestindo? E onde eles estão morando? E como eles estão vivendo?”, comentou o diretor em entrevista à Vox, em 2019. O filme é de 35mm negativo preto e branco, além da tela quadrada e do uso e seleção certeiros das lentes, dos jogos de luz e dos filtros — que praticamente nos transportam aos tempos dos séculos XIX e XX. Todas essas escolhas técnicas — desenvolvidas por Jarin Blaschke, diretor de fotografia do filme — também auxiliam a transmitir a sensação claustrofóbica dos personagens diante do isolamento nos pequenos cômodos do farol.

Os sons também ensurdecem e sufocam; a trilha sonora assustadora, as sirenes, o barulho do mar, o simples andar dos personagens no chão velho e de madeira: diante do silêncio e do vazio da ilha, todo e qualquer ruído é intensificado pela sensação de desespero e solidão dos personagens. Em The Lighthouse, gradativamente, o confinamento e o exílio dos personagens os enlouquecem e, para além dos seres sobrenaturais, são todas essas sensações imagéticas e sonoras que mais aterrorizam o público.

As referências e simbologias em The Lighthouse

Por meio da intensa leitura e pesquisa dos irmãos Eggers, a estrutura narrativa do filme é lotada de referências históricas, literárias e mitológicas. As obras de autores como Herman Melville (Moby Dick), Robert Louis Stevenson (A Ilha do Tesouro, O Médico e o Monstro), H.P. Lovecraft (O Chamado de Cthulhu), Dante Alighieri (O Inferno de Dante), além da inspiração cinematográfica no Expressionismo Alemão, são claras referências em The Lighthouse. Diante de tantas alusões, a mais presente no enredo são as histórias mitológicas greco-romanas de Prometeu e Proteu.

As lendas apresentam Prometeu como o titã responsável por dar inúmeros conhecimentos aos humanos. Zeus, preocupado que aqueles seres pudessem se virar contra os deuses diante de tanta consciência, proibiu Prometeu de oferecer o principal conhecimento divino: o fogo. Entretanto, Prometeu não o ouviu. Esperto, curioso e ignorando a autoridade suprema de Zeus, Prometeu deu o fogo à humanidade. Como castigo, o deus dos deuses amarrou Prometeu nu em uma alta rocha e, todos os dias, uma águia comia o seu ventre. Ao fim do dia, os órgãos renasciam para que a ave pudesse bicá-lo novamente. Além disso, Zeus também castigou os seres humanos por meio de Pandora, a figura feminina enviada aos homens que trouxe desastres, guerras e ruínas aos homens. Em The Lighthouse, a lenda é bem semelhante à curiosidade de Winslow em tocar o farol, mesmo com a proibição de Wake. A última cena do filme, com Winslow sendo morto nu pelas gaivotas, além da sereia como principal ponto de delírio de Winslow, também nos remetem ao castigo dado à Prometeu e aos seres humanos.

Já Wake, o velho ancião do farol, carrega nítidas referências à Proteu — filho de Poseidon e Tétis e guardião dos seres que habitam os oceanos e mares. Pelo bom trabalho realizado, foi dado à Proteu o dom da profecia. Porém, o deus não gostava de atender a quem o procurava buscando respostas sobre o futuro. Sendo assim, ele se metamorfoseava em figuras monstruosas para afastar quem o solicitava buscando por resoluções vindouras. Em The Lighthouse, Wake carrega a função de ser o guardião do farol, assim como Proteu é o responsável pelos oceanos e mares. A partir do momento que Winslow começa a se sentir curioso e atraído pelo farol, Wake passa a construir as narrativas e figuras assombrosas que, gradativamente, enlouquecem o jovem faroleiro. Além disso, Wake constantemente assusta Winslow por meio de seus contos proféticos, como é o caso da proibição de matar as gaivotas e da obrigação de se manter distante do farol.

Todas essas referências mitológicas são unidas às simbologias sobre a psique humana. O importante e poderoso farol tem formato similar ao de um pênis, remetendo às discussões psicanalíticas sobre o conceito de falocentrismo. Existem análises sobre o filme que também colocam os dois personagens como sendo a mesma pessoa, simbolizando os conflitos internos e psíquicos do homem acerca de temas como a sexualidade, a solidão, a compulsão, o prazer e o poder. Entretanto, essas são apenas suposições e dependem do modo como cada um interpreta a história abstrata do farol e de seus singulares trabalhadores. Por mais que o filme suscite tais discussões, até mesmo dentro de um viés feminista, as imagens míticas que nos são apresentadas já garantem, por si só, uma história rica de conteúdo e de detalhes.

Em The Lighthouse, a técnica de jumpscare não se faz necessária. A partir de referências históricas, literárias e mitológicas, Max e Robert Eggers criam um mundo de isolamento e de loucura masculina — os dois pontos que, somados às sensações imagéticas e sonoras construídas, são os que mais aterrorizam quem assiste ao filme.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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