Categorias: LITERATURA

O terror brasileiro de Karen Alvares

“Curiosidade e medo sempre caminham juntos.”

Aos doze anos li meu primeiro livro de terror. Também aos doze anos li meu último livro de terror. Essa curta relação deveu-se a obra Saco de Ossos, de Stephen King — o medo que ela me gerou rendeu semanas e semanas de horríveis pesadelos e decidi que, dali em diante, histórias de terror não eram para mim. Mas aí, veio o nosso Especial de Dia das Bruxas e achei que podia ser uma excelente oportunidade para me aventurar nesse tipo de narrativa novamente. No entanto, não queria que esse retorno fosse qualquer retorno, não desejava ler qualquer coisa, queria ler uma história de terror escrita por uma autora brasileira — isso porque, ao longo de mais de dez anos estudando e trabalhando com literatura, ouvi pouco sobre escritoras desse gênero literário.

Foi assim que, entre pesquisas e rolar de feeds, descobrindo que existe um bom número de autoras de terror por aqui, encontrei Karen Alvares. Karen nasceu em Santos, litoral do estado de São Paulo, em 1987, e começou a mergulhar no mundo do fazer literário aos quinze anos, escrevendo fanfics de Harry Potter. Hoje, ela é considerada um expoente da literatura nacional de terror psicológico e suspense.

Quando decidi conhecer a obra de Karen, pensei em ler apenas um conto, para ver como era, para ver se conseguiria introduzir obras de terror em minhas leituras. Comecei por “O Fim e o Começo de Todas as Coisas” (Agência Magh, 2020). Depois, achei que era bom ler mais um, e foi a vez de “O Titereiro” (publicação independente, 2018). E aí, me vi com vontade de conhecer ainda mais e resolvi ler um dos romances da autora, Alameda dos Pesadelos (Cata-vento, 2014). É sobre essas três obras que falarei um pouquinho a seguir — vai que vocês sentem vontade de ler também?

“O Fim e o Começo de Todas as Coisas” foi finalista do prêmio Odisseia de Literatura Fantástica 2021, na categoria narrativa curta de terror — o evento Odisseia de Literatura Fantástica acontece desde 2012, em Porto Alegre, e tem como intuito fortalecer a produção e divulgação de obras de fantasia, ficção científica e horror; o prêmio literário começou a ser concedido em 2019. “O Fim e o Começo de Todas as Coisas” gira em torno de Cecília, uma mulher que se diz um tanto arrogante, e seu avô, Zeca, um senhor genioso e truculento. Na infância, a relação entre avô e neta era até gostosa, mas com o passar do tempo isso muda e brigas sem fim passam a acontecer. É só no fim da vida de Zeca, já com Alzheimer, que algum carinho volta a existir. Em meio a essa relação surge uma figura insólita que mexe com crenças e descrenças, que causa encantamento e pavor. E que gera um final nada esperado.

“Aconteceu tudo junto: o trovão e o clarão no mar. Num instante, eu estava tentando enxergar o carro à frente, no outro, o raio iluminava a praia e uma figura assomava na tempestade, erguendo-se do oceano […]

Passado um minuto, comecei a desembaçar o vidro com as costas da mão e tentei enxergar o mar novamente. Estreitei os olhos, mas tudo o que vi foi o contorno difuso da Ilha Porchat em meio ao céu escuro.”

Já em “O Titereiro” — sendo um tanto parcial, a narrativa da qual mais gostei —, tem-se a história de Laura, uma estudante de moda que viaja para um seminário e se hospeda em hotel bastante estranho: nele parece que o tempo parou, os atendentes têm olhares assustados e há um pianista que causa medo na mesma medida que atrai. A trama desse conto chega a soar um pouco clichê, ao iniciar a leitura você tem a sensação de saber o que vai acontecer. Mas então por que ele seria tão bom? Vocês podem perguntar. E eu respondo: pela forma como a história é contata, por causa dos detalhes que permeiam a narrativa. Você imagina o que vai acontecer, mas não consegue parar a leitura porque quer ver acontecer. Sabem aquelas histórias que fazem a gente gritar desesperadamente para o personagem “sai daí que é roubada”? Assim é “O Titereiro”.

“Duas notas secas em um piano […] Os pelos da nuca de Laura eriçam sem qualquer explicação. Ela se vira automaticamente para o som e seus olhos encontram os de um homem vestindo um terno antiquado, cor de chocolate ao leite, com uma gravata borboleta vermelha. Apesar da óbvia cafonice, o homem se cobre de uma inexplicável elegância: seu porte é austero, impactante. […] O homem sorri para Laura, mas logo se vira e volta a tocar.

Laura desvia o rosto com certa relutância, como se seus olhos não obedecessem à mente e teimassem em manter contato visual.”

Por fim, em Alameda dos Pesadelos, tem-se a história de uma mulher chamada Vívian, que perdeu pessoas importantes, teve vivências muito dolorosas e que é impulsionada a seguir pelo amor ao filho, Lucas. Esse romance mescla uma diversidade de assuntos. Há nele o terror de espíritos vingativos, há luta de bem contra o mal, paraíso e inferno. Mas há também culpa por decisões tomadas, luta por perdão, amores que não se acabam. Para além, Alameda dos Pesadelos é uma narrativa construída por um conjunto de pontos de virada, quando você acredita que nada mais pode acontecer, surge um fato que acarretará outra sequência de acontecimentos. É uma história que vai além de terror e suspense, é um livro que nos faz pensar na vida, na nossa vida.

“A vida é um círculo.

Na verdade, acho que tenho uma definição melhor. A vida é um jogo de tabuleiro; daqueles que você joga o dado e anda uma, duas, cinco casas. Se não aprender o que tem de ser aprendido na vida, será obrigado a voltar ao início e tentar de novo até conseguir. Se teimar nos mesmos erros, vai ter que voltar ao início do tabuleiro.”

As histórias de Karen Alvares trazem à tona atmosferas oníricas, causam expectativa, medo, emoção, numa escrita de estrutura simples e bastante fluida. Essas narrativas me convenceram de que eu posso ser um leitora de histórias de terror — quem sabe eu até tente reler Saco de Ossos, que tanto me gerou pesadelos.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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