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Ingrid Goes West: a #geraçãoinstagram vai ao cinema

Começo esta resenha de forma pouco ortodoxa, contando uma história que aconteceu comigo: no bar, com alguns amigos após uma aula da pós-graduação, um colega de sala, já sob os efeitos do álcool, soltou a frase “o Instagram está destruindo a minha vida”. Achei um tanto exagerada (como qualquer insight que saia de uma cabeça ébria), mas prestei atenção à história que se seguia: ele estava tendo sua vida prejudicada pelo aplicativo de fotos pois não aguentava mais ver a ex-namorada aparecendo em festas e com amigos aparentando uma felicidade e diversão sem fim. Só que o que meu colega se esqueceu de lembrar é que todo mundo é feliz no Instagram. Ou, pelo menos, aparentam ser.

Sim, aquele aplicativo de fotos em que você monta álbuns com filtros bonitinhos e é motivo de piada pelas famosas “fotos de comida”, é tido como a rede social mais danosa à saúde mental de jovens, de acordo com uma pesquisa feita pela instituição de saúde pública do Reino Unido, a Royal Society for Public Health. Afinal de contas, em um lugar onde indivíduos expõem seu cotidiano utilizando-se não apenas de um filtro bonitinho para tratar suas fotos, mas de um que seleciona o que quer mostrar para o mundo, você, do outro lado, espectador dessa realidade criada, tem sérias chances de sofrer de males como ansiedade, depressão e insatisfação com o próprio corpo, como o estudo apontou.

E é exatamente sobre essa premissa que o filme analisado é concebido. Ingrid Goes West é um filme indie estadunidense lançado em 2017 em festivais, ganhando elogios por onde passou. Indie não só no conceito, por ser um filme independente e de baixo orçamento, mas na estética também. Seu visual, como o próprio pôster de divulgação enfatiza, com uma pitada de neon oitentista, sua trilha sonora, suas referências e seus personagens, que não apenas vivem uma vida obcecada por likes e aparências, mas por terem como propósito de vida serem o mais cool e hipsters, descolados e “únicos” (ou seja, millennials) que puderem. Assim como a ideia da tribo social que leva o mesmo nome.

O filme nos conta a história de Ingrid (Aubrey Plaza), uma jovem neuroatípica que tem como objetivo de vida se tornar amiga de celebridades do Instagram (ou instacelebridades), transformando seu fascínio por essas pessoas em obsessão. Assim, quando perde a mãe e ganha uma herança, ela decide se mudar para Los Angeles, Califórnia, e fazer de tudo para se tornar a melhor amiga de sua nova obsessão: Taylor Sloane (Elisabeth Olsen), uma socialite famosa na rede que conhece ao ler uma matéria numa revista.

Não, o filme não faz uma crítica contundente e pessimista como o episódio “Queda Livre” (“Nosedive”, dirigido por Joe Wright) da série inglesa Black Mirror, onde a sociedade chegou ao máximo na sua obsessão por likes e aprovação, transformando as interações através das redes sociais em determinantes de seu lugar na sociedade, como salários, empregos e onde você vai morar. Na verdade ele vai pelo caminho contrário, tendo na ironia e sarcasmo a principal arma de crítica a esse comportamento social da década. No entanto, é curioso perceber o crescente número de produções que versam sobre o tema.

O que “Queda Livre” (2016) está para o que o sociólogo francês Guy Debord, que previu em sua obra A Sociedade do Espetáculo (1967), onde, no mesmo ano do “verão do amor”, ao criticar a sociedade de consumo e o mass media (espetáculo), através da cultura de imagens, entendia que a mesma passava por um esvaziamento no critério de qualidade dos conteúdos, tendo como termômetro do que é bom ou não o sucesso que faz. Pois é exatamente assim que seus personagens levam a vida. Ingrid partindo para Los Angeles à procura do sonho de ser tornar amiga de uma instacelebridade e viver, assim, seu conto de fadas de (auto) aceitação e pertencimento e Sloane, que vive seu sonho de digital influencer e, a cada foto, e legenda polvilhadas de hashtags e emojis, tenta afirmar para os outros e para si mesma que é uma garota descolada da Califórnia.  

A diversão do filme reside exatamente no ponto em que seus personagens são construídos a base de tintas fortes, de uma forma um tanto caricata da geração que recebeu a alcunha (e toda a implicância das outras que lhe antecederam) de millennial. No filme, a follower não é apenas uma seguidora, mas uma stalker (perseguidora), e seu objeto de desejo se revela como apenas uma garota do interior sem muita personalidade e superficial que se mudou para Califórnia e reproduz o que ela acha que os outros vão achar legal. Vive uma vida imaginada, mimetizando o cool que tanto lhe fascina. Seu marido é um jovem homem deprimido, porém com uma situação financeira confortável, que não aguenta sua realidade: nem seu emprego nem o que a esposa se tornou. Ele tenta ser um pintor, mas na realidade é um artista medíocre. Rodeando a digital influencer está o irmão mimado e encostado, que vive às custas de mesada, mas vive “viajando o mundo” e se entupindo de droga.

O clímax do filme se apresenta quando Ingrid nota o quão vazia e frívola é a vida de sua musa inspiradora mas, ao invés de dar a ela o impulso para se desvencilhar daquilo tudo ou expor aquele universo ao mundo, como fez a instacelebridade australiana Essena O’Neil que resolveu acabar com sua carreira de modelo de Instagram e usar sua fama conquistada para expor a realidade por trás de suas antigas fotos, Ingrid opta pelo contrário: ela quer o pertencimento ao squad, manter-se relevante e querida por aquelas pessoas. Afinal de contas, não se atravessa o país para conquistar seus “sonhos” e abdicar deles tão facilmente, mesmo que você já tenha visto seu lado feio.

O diretor e co-roteirista Matt Spicer, que tem no filme sua primeira direção de longa-metragem, nos apresenta mais que uma sátira de humor ácido, mas um espelho da realidade onde pessoas angustiadas e infelizes enchem o vazio de suas vidas através de autopromoções (pior, ganhando a vida com isso) de uma realidade forjada e/ou obcecadas por essas pessoas. Como é o caso de Sloane e Ingrid, respectivamente. Nos trazendo um certo conforto de que no Instagram nada é o que aparenta ser, mas deixando claro que no mundo real não tem filtros bonitinhos pra embelezar vidas tristes.

Lívia Maria Rocha – Mezzo Aquariana com ascendente em câncer (dizem que isso é bem complicado)/ mezzo inadequada para sociedade. Tem yorkshire de 2,5 kg que compensa o baixo peso com excesso de personalidade. Perde boas horas do seu dia vendo vídeos de bichinhos e tem uma memória de peixinho dourado. Ah, e também é uma pesquisadora em formação, em constante gerúndio, sempre pesquisando.

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