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Dickinson: a adolescência de uma poeta

Foi depois da morte de Emily Dickinson que Lavinia Dickinson, irmã mais nova da poeta norte-americana, encontrou cerca de 1.800 poemas inéditos guardados em seu quarto, onde passou a maior parte de sua vida, reclusa, escrevendo. Também foi depois de falecida que Emily Dickinson se tornou um dos mais importantes  nomes da literatura estadunidense, uma voz considerada já contemporânea no século XIX. Mas pouco se sabe da vida da artista. Nunca se casou, passou a vida inteira morando em Amherst, Massachusetts, e tinha o costume de usar cores claras. Além disso, trocava muitas cartas com a cunhada, Sue Gilbert, com quem supostamente mantinha um romance.

É em cima da falta de conhecimento da vida da poeta que Dickinson, série da Apple TV criada por Alena Smith, constrói sua história. Na trama, Emily (interpretada por Hailee Steinfeld, que também tem o crédito de produtora) é uma jovem poeta que sonha em ser publicada. No entanto, sua mãe (Jane Krakowski) está mais preocupada com que Emily aprenda a fazer as tarefas da casa e se torne uma boa candidata ao mercado casamenteiro. Somado a isso, o pai de Emily, Edward Dickinson (Toby Huss), pretende se candidatar ao Congresso dos Estados Unidos e proíbe expressamente a filha de publicar seus poemas e buscar qualquer tipo de conhecimento acadêmico, ideia que o deixa horrorizado.

Emily também possui um relacionamento amoroso secreto com a melhor amiga, a órfã Sue (Ella Hunt), que por acaso também está noiva do irmão mais velho da poeta, Austin Dickinson (Adrian Enscoe). O maior mérito da série está justamente não se preocupar em ser fiel à realidade, ao mesmo tempo que se atém à essência de uma Emily Dickinson à frente do seu tempo, como os seus próprios poemas. Na produção da Apple, Emily é uma jovem descolada, que sonha com a fama, é feminista, abolicionista e afirma nunca querer se casar, pois acredita que um marido possa tirar toda a pouca liberdade que tem como mulher para escrever.

Diferentemente da adaptação de Greta Gerwig para Adoráveis Mulheres, a modernização da vida de Emily Dickinson e dos jovens de Amherst é muito mais escrachada. Aqui, Emily fuma, dá festas quando os pais viajam e chama os amigos para usar ópio. Apesar da ambientação fiel à época, as coreografias são atuais e cheias de músicas que ouvimos hoje, com uma trilha sonora que vai de Billie Eilish à Lizzo. Emily também tem constantes alucinações, nas quais anda na carruagem da Morte (Wiz Khalifa), conversa com uma abelha gigante e vai ao próprio funeral, onde encara o seu maior medo: morrer afundada no esquecimento, sem nunca ter se tornado a grande escritora que sonhou.

Mas se por um lado Dickinson é feita para os jovens do século XXI se identificarem com os personagens, na mesma medida, eles não são isentos de preconceitos e pensamentos propícios à época. No episódio “Eu Tenho Medo de Possuir um Corpo”, quando Emily insiste para que Henry (Chinaza Uche) interprete Otelo em seu clube de leitura de Shakeaspare, ela não consegue se ver como uma mulher branca privilegiada para a época e considera as suas dificuldades equivalentes as do empregado da casa. Um homem negro que, apesar de estar do norte do país, lida o tempo todo com o fantasma da escravidão do sul. Inclusive, quem desperta a discussão para que Henry se retire da encenação por considerar inapropriado que um homem negro participe do clube é George (Samuel Farnsworth), um dos amigos de Austin que promete Emily em casamento e que jura nunca exigir que ela deixe de escrever.

Também é em Henry que mora uma das maiores tramas da segunda temporada e que faz com que ela pareça tão melhor que a primeira. Se os primeiros dez episódios tratavam da luta de Emily para se colocar e ser respeitada como escritora mesmo sendo mulher, a série consegue aprofundar e amadurecer suas questões, na mesma medida em que desenvolve melhor os outros personagens e problemas da época. Às vésperas da Guerra Civil Americana, Henry encontra em um Austin frustrado com o casamento com Sue o apoio financeiro para construir um jornal antiabolicionista no celeiro da propriedade dos Dickinson, ao mesmo tempo em que lida com a questão de colocar a sua família em risco por uma causa em que acredita.

Outros personagens negros também ganham mais desenvolvimento, como Hattie (Ayo Edebiri), empregada da recém-casada Sue. Escritora e, como se autodenomina, “freelancer”, é ela quem ganha voz, em determinada reunião do jornal, ao questionar por que a sua forma de usar o horror como metáfora na ficção é vista como inferior ao que os homens escrevem. Emily também não passa intocada pelos acontecimentos da época, pelo contrário. Depois do casamento de Sue e Austin, cada vez mais isolada em seu quarto escrevendo, ela é mais e mais dominada pelas próprias alucinações. Uma delas é Ninguém (Will Pullen), personagem conhecido dos seus poemas e, conforme descobrimos mais tarde, o futuro fantasma de um soldado americano.

Em contrapartida, é Sue quem não aguenta o peso da escrita de Emily, como a única confidente dos seus poemas. Quando lhe arranja um encontro em um dos salões que passa a organizar depois de casada com o editor do jornal Sprinfield Republican, Samuel Bowles (Finn Jones), conhecido por publicar mulheres, a Emily mais jovem e confiante entra em conflito com a sua versão atual, mais isolada e silenciosa: a fama vale a pena se o seu preço é expor todos os seus sentimentos para o mundo? A questão chega ao auge no episódio “Disseca a Cotovia”, quando a classe média alta de Amherst vai à ópera. Ao ver a artista Adelaide May (Kelli Barrett), Emily tem uma alucinação de Sue cantando um dos seus próprios poemas. Emocionada com a performance, a poeta se surpreende quando descobre que, para a soprano, o trabalho já se tornou completamente automático. Ela é quem dá nome a um dos maiores medos de Emily na segunda temporada, até então só expressos nas aparições de Ninguém: e se a obsessão com a fama e ser publicada na verdade for a sua ruína?

Ainda que os últimos dez episódios consigam despir a Emily Dickinson de Hailee Steinfeld — que transita muito bem entre os diálogos bem-humorados e a reclusão dentro de si — da confiança de querer ser publicada ao medo de se expor, é um pouco estranho que, em momento algum, a autora não se pergunte se seus poemas são realmente bons. Mesmo com todos ao seu redor a vendo como um pouco maluca e esquisita e, apesar da perspicácia, alguém que definitivamente nunca será publicada, é questionável até que ponto tanta confiança não soa artificial, especialmente para alguém que em vida só publicou dez poemas anonimamente.

Outro ponto negativo é que mesmo que consiga desenvolver e dar mais camadas a outros personagens — como a irmã mais nova de Emily, seus pais, e até mesmo Sue, que usa as festas que organiza como distração para os seus próprios fantasmas —, Dickinson ainda se sustenta em um elenco de apoio sem desenvolvimento, composto por conhecidos de Emily. A série usa desnecessariamente uma estrutura de high school americano, ainda que os personagens não estejam na escola. A trama do círculo social de Emily, composto por Jane (Gus Birney) como Queen B [“abelha rainha”] e suas fiéis seguidoras, além do clássico amigo gay, serve para pouco além de algumas piadas ocasionais.

Pelo menos os acertos são muito maiores do que os erros. Em momento algum os roteiristas caem na armadilha de colocar na boca dos personagens nomenclaturas contemporâneas, ao mesmo tempo que mantém vivas discussões atuais. Pelo mesmo motivo, historiadores não conseguem denominar se Emily e Sue de fato teriam um relacionamento lésbico, simplesmente porque na época não haveria um nome específico para a relação amorosa entre mulheres. Além do mais, a própria Emily se apaixona por outros homens ao longo da série, como o assistente do pai, Ben Newton (Matt Lauria), ou o próprio Sam Bowles, embora sempre veja Sue como o seu grande amor.

É interessante acompanhar a trama ficando mais profunda com o decorrer dos episódios, com o enredo ganhando mais camadas e, principalmente, acompanhar as escolhas que Alena Smith faz para trazer a Emily vívida da primeira temporada para a Emily mais isolada e introspectiva descrita nas biografias da autora. Assim como Emily parece perceber em certa altura da série, a graça está no percurso. É na infidelidade à realidade e em elementos de realismo fantástico que a série consegue se manter fiel a essência de quem poderia ter sido Emily Dickinson. Fica a expectativa para a terceira temporada — já em produção — de que, quanto mais mergulhamos na cabeça da jovem autora e no meio em que está inserida, mais interessante a trama se transforme.

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