Categorias: TV

Até que a morte nos separe: Why Women Kill e o patriarcado através dos séculos

Desde os primórdios o matrimônio tradicional entre um homem e uma mulher é concretizado com uma grande fala: “até que a morte os separe”. O noivo beija a noiva, eles vão para casa ter finalmente sua noite de núpcias, onde idealmente a mulher ainda é virgem. Com o tempo, essa tradição sofreu pequenas mudanças, mas os problemas de um casamento continuam basicamente os mesmos. A instituição ainda é dominada pelo patriarcado e apesar de cada um deles terem características diferentes, geralmente quem sai perdendo é a mulher — que hoje não só tem que trabalhar fora e manter sua independência financeira, mas também cuidar da casa e tomar cuidado para não “ferir” os sentimentos do seu parceiro. Why Women Kill entende isso bem demais.

Entre séries como The Good Wife e Star Trek: Discovery, o streaming da CBS All Access mostrou que, ao contrário da emissora aberta de mesmo nome, que acredita que obras “muito femininas” não dão audiência, existe muito espaço para uma narrativa focada em mulheres diferentes, plurais e cheias de nuances. É assim com Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) na obra que expande o universo de Star Trek e com Diane (Christine Baranski) e Luca (Cush Jumbo) no spin-off de The Good Wife — que, convenhamos, já superou o original em diversidade e talvez até mesmo em qualidade. Ao mesmo tempo que expande seu pequeno catálogo, a plataforma coloca mais mulheres no papel central, e Why Women Kill está aqui para provar este ponto.

Criada por Marc Cherry (que também é a mente por trás de Desperate Housewives), a série costura sua narrativa entre três períodos diferentes do século XX cujo o único ponto em comum é o patriarcado. O foco é colocado em três mulheres de personalidades distintas e expande seu escopo para explorar as pessoas ao seu redor, assim como os pontos em comum nas suas vidas, diferentes entre si mas ainda afetadas pelo patriarcado da mesma maneira. Além disso, elas também moraram na mesma casa no subúrbio norte-americano, embora em épocas diferentes.

Why Women Kill

A primeira narrativa acontece na década de 1960, com Beth Ann (Ginnifer Goodwin) e seu marido Robb (Sam Jaeger). E quando digo que eles são o casal típico da época, acreditem. Beth é uma mulher tímida e introspectiva, que tem um trabalho integral como dona de casa e faz do propósito da sua vida atender as necessidades de seu marido. Até certo ponto, ela aceita a tarefa com alegria e força de vontade. Isso até descobrir que ele mantém um caso secreto com uma garçonete loira, jovem e também um pouco ingênua. Dessa forma, ela entra em uma espiral de loucura para tentar parar esse pequeno caso — um jogo que se transforma em algo complicado, sentimental e revelador para a protagonista.

Alguns anos para frente, na década de 1980, está Simone (Lucy Liu) e seu marido Karl (Jack Davenport). Aparentemente, os dois têm uma relação baseada em respeito mútuo e afeto, mas assim como o marido de Beth Ann, Karl esconde um segredo crucial: ele é, na verdade, um homem gay que se relaciona com homens por anos, sempre escondido para sua companheira não descobrir. Simone, que é empreendedora, financeiramente independente, com um gosto caro para roupas e joias, e tem três casamentos no seu currículo, não aceita a condição com facilidade e muito menos está disposta a ser humilhada por seu companheiro em tal situação. No cenário colorido e extravagante daquela época, o seriado explora um período que é principalmente regado por uma forte transição dos costumes e do que é aceito ou não.

Apesar de Simone não ser submissa como Beth Ann, ela ainda sofre preconceito por ser uma mulher com vários casamentos e por ter enfrentado alguns divórcios. A mesma coisa se aplica a Karl e a trajetória da comunidade LGBTQ+ que, naquela década, lutava para encontrar seu lugar no mundo (ainda que hoje não seja muito diferente) e enfrentavam o preconceito ferrenho das pessoas devido ao surto de AIDS, sempre intensificado por desinformação e terror midiático.

Why Women Kill

A última narrativa finalmente alcança para o período atual, 2019, e foca na advogada super independente Taylor (Kirby Howell-Baptiste), que mantém um relacionamento aberto (que mais tarde se torna um poliamorista) com Eli (Reid Scott). O objetivo aqui é mostrar que apesar da mulher ter conquistado independência financeira e emocional, ela ainda pode sofrer gaslighting de um homem.

No final do primeiro episódio, que apresenta com êxito todas as personagens, cada uma delas aparece falando sobre o que, enfim, leva uma mulher a matar. O que elas dizem é que para descobrir a resposta, você tem que ouvir uma mulher. E no final, esse é o maior trunfo da série: mostrar o patriarcado por meio dos séculos, e como ele afeta mulheres que estiveram no centro da revolução e das mudanças e como, infelizmente, as coisas não mudaram tanto assim. É fácil traçar um paralelo entre a história das três mulheres, visto que todas que são subjugadas, traídas e, mais de uma vez, jogadas para escanteio. O que é distinto é a forma como cada uma delas lida com isso.

Why Women Kill também tem uma narrativa esperta e dinâmica, sendo que cada episódio começa com uma montagem divertida sobre paixão, morte ou até mesmo oferece uma pista sobre a trama no futuro. A abertura usa desenhos que remetem a quadrinhos clássicos, com uma música que fala de amor, e o seriado tem uma pegada engraçada, até que as coisas ficam reais demais, misturando seus elementos novelescos com um humor que não é cruel com seus personagens e suas situações, mas sensível e, por vezes, até comovente. Por meio dos episódios da primeira temporada da série, é possível analisar a trajetória das três protagonistas, mostrando como cada uma mudou a vida das pessoas ao seu redor e causou uma pequena revolução pessoal, sempre guiadas por sentimentos diferentes: amor, raiva, vingança ou simplesmente piedade.

Atenção: este texto contém spoilers!

Beth Ann e Rob (1960)

Why Women Kill

Para falar da trama de Beth Ann, é preciso falar sobre sua revolução silenciosa e tímida. Após descobrir da traição do marido, ela resolve criar uma relação de amizade com April (Sadie Calvano), que pode ser considerada “a outra” — um termo bem redutivo. Ao mesmo tempo em que essa narrativa vai tomando forma, o público fica ciente de outras duas coisas: a morte da filha de Beth Ann e o que aconteceu no dia em que ela morreu, além da história de uma das suas vizinhas, Mary (Analeigh Tipton), que sofre violência doméstica do marido.

Essa com certeza é a parte mais interessante da série. Não só porque Ginnifer Goodwin tem uma atuação que é praticamente perfeita como Beth Ann, mas também porque, na medida em que as peças vão se encaixando, é possível entender a complexidade dos sentimentos de todas as pessoas envolvidas na trama.

Quando a série finalmente chega no seu clímax, o espectador descobre junto com Beth Ann que seu marido vem traindo sua confiança por anos e que uma dessas mulheres com quem ele manteve um caso foi sua secretária. A mesma mulher, inclusive, foi a responsável por deixar o portão da casa aberto, facilitando para que a filha do casal, Emily, saísse e fosse atropelada — algo que Rob não hesitou por um segundo em colocar a culpa na esposa, jogando na sua cara que ela “nunca foi uma boa mãe”. Quando Beth Ann descobre essas mentiras acumulativas, começa a bolar um plano para matar não só o seu marido, mas também o esposo abusivo de Mary.

Why Women Kill

É importante assinalar que apesar de Beth ser a pessoa que orquestra o assassinato, ela é a única que mantém sua empatia intacta. Parece um conceito estranho, mas sua decisão vem após uma percepção bizarra de que, se ela não fizer isso, ela não seria realmente livre. Beth Ann dá uma chance para seu marido se redimir e, quando ele não o faz, ela segue em frente sabendo muito bem das consequências.

“Deve ser ótimo ser forte como você”, Mary diz para Beth Ann em determinado momento. E claro, Beth Ann é realmente forte — mas não do jeito errado que estamos acostumados a associar esse sentido da palavra com mulheres hoje. Ela é uma mulher tradicional, mas que fez o melhor que conseguiu diante das circunstâncias a que foi exposta. Mais do que isso, ela subverte o estereótipo da dona de casa nos anos 1960, com sentimentos complexos e empáticos. É só ver, por exemplo, o jeito com que ela trata April, a amante de seu marido; ou, até mesmo, a maneira como foi a única com coragem o suficiente para peitar o marido de Mary; ou simplesmente, ao dizer “chega”, decidindo não ser mais uma vítima das circunstâncias ou do que lhe era imposto na época.

Beth Anne mata por vingança, mas também por amor próprio.

Simone e Karl (1980)

Apesar da trajetória de Beth Ann ser a mais satisfatória, muito por causa do desenvolvimento da personagem, Simone foi a que levou o prêmio da mais sensível, com certeza. Sua história com Karl começa com uma série de clichês insuportáveis, como os casos do seu marido com outros homens — incluindo seu cabeleireiro —, e seu caso recente com um homem muito mais jovem e filho de sua melhor amiga. Mas ao longo dos capítulos, a relação dos dois se torna algo muito mais importante, uma amizade capaz de quebrar as barreiras de preconceitos típicos na década de 1980.

Lá para o meio da temporada, Karl descobre que está com AIDS ao mesmo tempo em que todos descobrem o caso de Simone com Tommy (Leo Howard). Privados de uma vida sofisticada e expulsos do seu ciclo social, os dois encontram conforto na relação genuína que eles desenvolveram e que, pela primeira vez, completamente baseada em honestidade, algo que eles não conseguiam ter com ninguém. O conforto que eles criaram entre eles é digno, lindo e tão cheio de cumplicidade que é impossível não torcer intimamente por eles. E uma história que começou como um clichê, se torna algo mais.

Quando Karl pede por misericórdia que Simone dê um fim na sua vida antes que ele entre em estado catatônico, ela atende seu pedido. A última cena entre eles é tão extravagante quanto sensível, algo que resume bem essa parte específica da série: o casal dançando tango, bem vestidos e esperando para serem separados definitivamente.

Ao contrário de Beth Ann, Simone não mata por amor a si própria, mas por amor ao próximo por meio de um ato de misericórdia e companheirismo. Uma mudança muito bem-vinda de ritmo na narrativa de Why Women Kill.

Taylor, Eli e Jade (2019)

Why Women Kill

Como já citado, a história de 2019 tem como principal objetivo explorar o casal moderno, suas mudanças e limitações. Ao contrário dos dois pares anteriores, a monogamia agora não é necessariamente uma regra, pelo contrário. Na dinâmica entre Taylor e Eli, os dois são bem sucedidos, financeiramente e amorosamente, o suficiente para que eles mantenham relações com outras pessoas sem que isso afete a dinâmica entre eles, ou o amor. Isso até a aparição de Jade (Alexandra Daddario).

Apaixonada depois de meses mantendo uma relação com ela, Taylor propõe que eles mantenham uma relação poliamorista. Ou seja, os três vão dividir uma cama, uma casa e serão, eventualmente, uma família. E é aí que o problema realmente começa.

Ao querer explorar uma relação que foge dos padrões heteronormativos, o roteiro entra em uma série de erros que são praticamente insuportáveis. Eli começa a se apaixonar por Jade, que por sua vez começa a manipular o homem para fazer suas vontades, ao mesmo tempo em que ela finalmente começa a mostrar indícios do seu passado violento e problemático. Enquanto isso, Taylor é literalmente jogada para escanteio e tenta acalmar a situação sozinha, sofrendo gaslighting por seu companheiro que joga (mais de uma vez) na sua cara que ela ganha mais dinheiro do que ele, ou a culpa quando pede que Eli não use drogas ou tente vender mais um roteiro assinado por ele.

Relacionamentos poliamorosos existem e são uma realidade, mas poucas séries falam sobre o assunto. Se Why Women Kill pretendia explorar uma relação moderna como essa, poderia ter simplesmente maneirado nos clichês ou simplesmente colocado um foco maior em Taylor — que é uma das únicas personagens negras da série, inclusive. Existia muito a se falar sobre a solidão de uma mulher no mundo moderno, ou até mesmo da pressão desses relacionamentos, mas a narrativa fica apenas na superfície. O problema também vai além e os atores tinham pouca química entre si. O que é uma verdadeira pena, porque entre trabalhos como The Good Place e Veronica Mars, Kirby Howell-Baptiste é uma das maiores promessas da TV norte-americana.

De qualquer forma, quando último episódio chega no seu ápice, Taylor tem o seu grande momento e mata Jade. O motivo, no entanto, é muito mais frio do que das outras protagonistas: apenas defesa pessoal. Um motivo completamente justo e necessário, talvez até passional aplicado nesse contexto, mas ainda que, de certa forma decai quando comparado aos outros.

Why Women Kill entre erros e acertos

renovada para uma segunda temporada, Why Women Kill encerra com um plano sequência que une todos os assassinatos, de forma muito bem feita. Não satisfeita, a série também mostra Beth Ann vendendo a casa para Simone e essa, por sua vez, vendendo para Taylor. É uma conexão bem-vinda e oferece um pequeno vislumbre do que aconteceu com cada uma delas no futuro. Um pequeno gesto do roteiro que diz “obrigado por nos acompanhar, volte para a próxima temporada!”

Por falar no segundo ano da série, ainda não foi divulgado se o elenco que conhecemos vai retornar. O que foi dito é que novas histórias com a mesma temática serão contadas, mais ou menos da mesma maneira como funcionam as antologias de American Horror Story e American Crime Story. Essa é a forma perfeita de se aprofundar em aspectos que ficaram superficiais da primeira vez e explorar outras décadas. O que não falta é material e períodos para falar sobre como o patriarcado ditou a vida de milhares de mulheres — e que elas, a sua maneira, fizeram uma revolução.

Eu nunca fui fã de Desperate Housewives e acho que o Marc Cherry tem uma voz que não sabe direito o que quer dizer, além de ter sérios problemas na hora de mostrar coração ou originalidade em suas tramas. Apesar dos deslizes, Why Women Kill consegue se distanciar disso. A série cria algo que é divertido mas ao mesmo tempo sentimental, uma mistura que garante um bom entretenimento e se afasta do conceito do que é considerado uma “personagem feminina forte”. Chega de rótulos, ou descrições fatalistas e enquanto a TV evolui e descobre isso, a série tenta acompanhar.

É tão comum ver narrativas que focam na morte de uma mulher ou simplesmente alguma tragédia, como estupro e relacionamento abusivo, que é interessante ver uma situação contrária. Apesar das protagonistas sofrerem com o sistema, é elas que estão no centro da ação e não são retratadas apenas como “a esposa” ou como “a amante”. E isso prova que, qualquer coisa que homens podem fazer, as mulheres fazem melhor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *