CINEMA

Entendendo a romantização de transtornos mentais na ficção: o caso de Shangri-La Suite

No ano passado, a Obvious Mag publicou um texto que buscava discutir a romantização de transtornos mentais em diferentes obras do cinema mainstream. As Virgens Suicidas, Garota, Interrompida e o Lado Bom da Vida eram algumas das produções citadas pela autora, Raquel Avolio, cuja similaridade estava ligada ao fato de todas, em maior ou menor escala, tratarem a depressão, o suicídio, distúrbios alimentares, a ansiedade e o sofrimento de seus personagens como algo fascinante. Meninas adolescentes, para as quais a tristeza havia sido fatal, são retratadas com graciosidade, beleza e muitos tons pastéis, enquanto hospitais psiquiátricos transformam-se em lugares aconchegantes onde garotas cantam e tocam violão escondidas de madrugada, quase como se o diagnóstico as tornassem mais complexas e interessantes, e suas jornadas, invariavelmente mais poéticas.

Em Shangri-La Suite (ou Kill The King, como o filme ficou mais conhecido), Eddie O’Keefe, diretor e roteirista, nos apresenta dois jovens mentalmente instáveis – Jack Blueblood (Luke Grimes) e Karen Bird (Emily Browning) – cujo caminho se cruza em uma clínica psiquiátrica nos Estados Unidos, em meados da década de 1970. Os motivos que os levam até lá são muito diferentes: criado por um pai violento que o culpava massivamente pela morte da mulher, que morrera ao dar luz ao menino, Jack cresce em um ambiente desprovido de amor, carinho e cuidado, sendo a música, principalmente o rock de Elvis Presley (Ron Livingston), seu único conforto. Anos mais tarde, Jack é enviado para a clínica Second Chances, como medida de segurança do governo norte-americano, devido ao seu vício em sedativos hipnóticos e sua crescente obsessão pelo Rei do Rock, e é ali que é diagnosticado com transtorno delirante. Considerado perigoso pelo médico responsável – Dr. Sanborn, interpretado por Alan Tudyk –, Jack passa a ser tratado com sessões diárias de terapia eletroconvulsiva, cuja dosagem possuía o dobro do recomendado.    

A experiência de Karen se distancia radicalmente desse cenário. Nascida no Tennessee, em 1956 – sete anos após Jack –, Karen é uma garota simpática, rica e bonita, cuja infância chegara muito perto de ser ideal. Vinda de uma família tradicional e de bem, e tida como modelo desde muito nova, os únicos traços de sua personalidade que a desviavam inteiramente do estigma de perfeição eram sua aversão à Igreja e uma estranha obsessão por armas de fogo. A decisão de interná-la em uma clínica psiquiátrica surge depois que Karen é expulsa de sua escola e torna-se viciada em drogas, álcool e sexo; uma realidade distante demais da menina perfeita de outrora. Em todo seu tempo na clínica – e também ao longo do filme –, no entanto, Karen se assemelha muito mais às garotas tristes da ficção; mulheres especialmente belas e especialmente jovens, delicadas e vulneráveis, cujo sofrimento se transforma no traço mais marcante de suas personalidades. Ela tinha tudo e, ao mesmo tempo, não tinha nada; como tantas garotas antes dela e tantas depois, Karen era apenas uma menina triste, que sonhava em viver uma vida extraordinária, enquanto implora de joelhos para ser salva.

Essa salvação surge na própria figura de Jack que, após descobrir o abuso sofrido por Karen na clínica, atira em Dr. Sanborn e em vários funcionários da Second Chances. Os dois, então, fogem para a Califórnia: primeiro, para matar Elvis Presley (daí o título alternativo do filme), a quem Jack acredita estar destinado a salvar (!) após de receber uma mensagem de sua mãe morta; depois, para conquistarem uma liberdade controversa, mas que lhes parece ideal em um lugar que – conforme Karen confidencia a Teijo (Avan Jogia), amigo de infância de Jack, mais adiante – estaria repleto de pessoas como eles. De longe, Karen Bird e Jack Blueblood, no entanto, são apenas dois jovens adoravelmente apaixonados, lindos e bem vestidos, que transam em piscinas de bolinhas coloridas, e cuja maior preocupação é o fato de não terem preocupação alguma. Não fossem ambos diagnosticados com transtornos mentais e fugitivos da polícia, eles poderiam ser apenas mais um casal de um road movie qualquer, explorando a América em busca do significado da existência humana, uma boa aventura ou o grande talvez.  

“Naquela tarde, Karen teve uma sensação que já não sentia há um bom tempo. Ela procurava coisas e rostos familiares nas nuvens do deserto, mas nada foi achado. (…) Durante o caminho para o Grand Canyon, ela escreveu uma pequena autobiografia em hieróglifos. Ela não contou para Jack ou Teijo, e ao chegar no Grand Canyon, ela a rasgou em pedacinhos e viu sua biografia cair até o fim, como neve.”

O que evidencia a insanidade de Jack são as vozes em sua cabeça, que o fazem cruzar o país para matar seu cantor favorito e o transformam num homem agressivo e instável, cujas dores tomam forma a partir de atos de violência – às vezes, contra si mesmo, mas quase sempre contra os outros. À medida que a história avança, Jack se torna cada vez mais paranoico; o que também é refletido na natureza de seus crimes, que assumem contornos cada vez mais sombrios. Por onde passa, Jack – e também Karen – deixa um rastro de sangue, que o coloca como uma das pessoas mais procuradas dos Estados Unidos à época, e só termina quando é ele mesmo morto em legítima defesa pelo homem que outrora desejou assassinar. O transtorno mental, no entanto, jamais o transforma num homem triste, tampouco vulnerável, mas alguém cuja masculinidade jamais é posta em questão. A loucura, que nas mulheres se transforma em sinônimo de histeria, vulnerabilidade e fraqueza, evocam em Jack a ausência completa de medo, além de força, juventude e liberdade, características que o tornam, ao mesmo tempo, atraente e perigoso. O fato de ser um homem branco e convencionalmente bonito apenas reforçam esse padrão; que é, ao seu próprio modo, também bastante problemático.  

Se por um lado, Jack é o sujeito de uma sociedade patriarcal, privilegiado desde o nascimento, por outro, a imposição de uma dita masculinidade, que rejeita qualquer traço de vulnerabilidade, o condena a um papel único e unidimensional, que ignora capítulos importantes de sua trajetória, como a ausência da figura materna e a relação conturbada com o pai. Mais tarde, é ele quem mata o próprio pai, quase como uma vingança não-planejada pelo sofrimento do passado; mas ele continua a ser o mesmo garoto assustado de sempre, encurralado entre os armários da cozinha, que tentava se proteger das agressões do homem a quem chamava de pai. Mesmo nesse último momento, Jack não é capaz de encará-lo nos olhos, o que diz muito sobre a pessoa Jack Blueblood, e menos sobre o assassino em série procurado pela polícia que ele eventualmente se tornou.

Em uma estrutura mais ou menos linear, Shangri-la Suite alterna momentos da trajetória de seus protagonistas – inclusive o próprio Elvis Presley, que vivencia um momento conturbado na carreira e é atormentado por fantasmas do passado – com outros de aspecto documental, na tentativa de investigar os motivos que levaram duas pessoas tão jovens a cometerem tantos crimes em tão pouco tempo. Rápido demais, todos chegam à conclusão de que, a Jack, surtos de violência eram mais do que esperado; seu diagnóstico, afinal, o levava a comportar-se de maneira equivocada, podendo tornar-se mais ou menos violento no processo. Karen, contudo, se transforma em uma garota misteriosa no imaginário popular dos norte-americanos. “Quem”, “como” e “por quê” são perguntas feitas à exaustão pela população, é claro, mas principalmente na mídia, numa tentativa de compreender o que levaria uma jovem rica e bonita a abandonar tudo e tornar-se foragida da polícia; quase como se beleza e riqueza devessem ser as únicas aspirações de uma mulher. Ao entrevistar um médico especializado em psicologia adolescente, Karen é comparada a Jackie Kennedy; uma mulher que também tivera tudo e, ainda assim, rejeitou suas possibilidades em busca de algo mais. Por quê?

“(…) Mas a garota, ela me intriga. Não sei o que dizer sobre ela. Ela é como Jackie Kennedy. Pais que a amavam, riqueza, bonita. Ela tinha todos os privilégios da vida. Devia ter sido debutante.”

Karen não fora debutante, tampouco desejava ser. Nos poucos momentos em que temos acesso aos seus pensamentos, desejos e angústias, quase sempre durante as sessões de terapia, descobrimos que, por trás do belo sorriso e do seu aspecto delicado, existia uma garota para quem o pior pesadelo seria viver uma vida banal de dona-de-casa, mãe e esposa perfeita, justamente o que ela, desde o nascimento, estava destinada a ser. Como as irmãs Lisbon, que buscavam sobretudo a liberdade, Karen também procurava uma forma de se ver livre do estigma de criança modelo e garota perfeita que a perseguira pela vida inteira. Nascida em meados da década de 1950 – uma época em mulheres eram massivamente e especialmente incentivadas a retornar ao lar, uma vez que seus esforços no mercado de trabalho já não eram mais necessários, visto que os homens retornavam às suas antigas funções no pós guerra –, Karen cresceu cercada por esse discurso que lhe dizia exatamente o que desejar para sua vida, algo que era reiterado em sua casa, onde mãe, pai e irmãos desempenhavam com perfeição os papéis que lhe foram impostos socialmente, de acordo com o manual dos comerciais de margarina. Sufocada em sua própria realidade, não é uma surpresa que a condição clínica de Karen tenha se alterado, tornando-a suscetível ao desenvolvimento de transtornos mentais; muito embora, no filme, os nomes jamais sejam dados aos bois.

Em A Mística Feminina, a ativista feminista, escritora e pensadora Betty Friedan se debruça sobre o que chama de “problema sem nome”, na tentativa de entender o que acontecia com as donas-de-casa norte-americanas da década de 1950; mulheres que tinham tudo, e ainda assim sentiam-se terrivelmente vazias. O problema, Friedan conclui, não era o fato dessas mulheres serem donas-de-casa, tampouco mães ou esposas, mas que as tarefas domésticas, a maternidade e o casamento fossem as únicas alternativas possíveis para elas. O fato de viverem sempre em função do marido, dos filhos e do lar era um preço alto demais a se pagar, sobretudo porque as desumanizava de maneira brutal, reduzindo-as ao papel místico da figura feminina, cujo único dever era pensar em todos, exceto em si mesma – uma configuração que visava não apenas a manutenção do status quo, mas também do modelo capitalista norte-americano, que não era pensado para garantir direitos iguais para todos. Essas mulheres padeciam no pedestal da perfeição, onde eram glorificadas e exaltadas, é verdade, mas só por se encaixarem perfeitamente nos moldes impostos pelo patriarcado.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o suicídio está entre as principais causas de mortes de mulheres entre 20 a 59 anos de idade no mundo todo, sendo a segunda principal causa entre mulheres de países de baixa e média renda da região do Pacífico Oeste. Além disso, embora a taxa de suicídios entre pessoas do sexo masculino sejam maiores, dados da OMS provam que, só entre 2010 e 2012, o índice de mulheres que tiraram a própria vida cresceu em quase 18% – um número que tende a crescer em países onde a diferença de gênero, o machismo e a cultura do estupro aparecem com mais força. Karen não possui tendências suicidas, mas ao seu próprio modo, também fora confinada a viver em pedestais desde a infância – a criança perfeita, a adolescente meiga, rica e bonita, etc etc –, eternamente vulnerável em uma sociedade que jamais lhe concedeu a posição de sujeito. Drogas, sexo e álcool foram as formas que ela encontrou de escapar, ainda que momentaneamente, de um mundo que a limitava brutalmente, ainda que a raiz de seus problemas estivessem fincadas em terrenos muito mais profundos. É difícil determinar com precisão o que levou Karen Bird a desenvolver um transtorno mental, mas é importante ressaltar que o machismo, as discrepâncias de gênero e a violência sofrida por mulheres todos os dias podem ser, sim, gatilhos em potencial. Assim, enquanto médicos, mídia, parentes e conhecidos se perguntam “por que Karen Bird fez o que fez”, “Karen ficou louca” ou “onde está Karen Bird”, e ela passa a ser conhecida nacionalmente como a “assassina de berço-de-ouro”, todos imediatamente perdem o ponto central da coisa toda; enquanto Karen, por outro lado, encontra a si mesma, talvez pela primeira vez em sua vida, em uma jornada perigosa, ao lado de um homem igualmente perigoso, com quem vive um relacionamento destrutivo, quase como se o perigo a transformasse naquilo que sempre almejara ser: extraordinária.

O que conhecemos sobre Karen, contudo, parte de uma ótima essencialmente masculina: tanto o narrador (Burt Reynolds) quanto o próprio diretor de Shangri-la Suite se apropriam, sobretudo, de sua imagem, e são eles quem contam sua história, transformando-a em uma figura idealizada e romantizada do que é não apenas ser mulher, mas uma mulher diagnosticada com transtornos psicológicos. A versão da personagem apresentada pelo filme não é a de uma mulher verdadeiramente assombrada pelos próprios fantasmas, alguém que sofre e sofre muito, de maneira crua e visceral, mas alguém cuja dor jamais é validada. O fato de ser interpretada por Emily Browning, uma atriz que já viveu outras três personagens mentalmente instáveis – Anna, em o Mistério das Duas Irmãs; Babydoll em Sucker Punch; e Eve, em God Help The Girl –, todas as três em produções dirigidas por homens, mostra, ainda, uma imagem tendenciosa no que diz respeito à garotas com problemas psiquiátricos – o que, mais uma vez, nos reduz a um estereótipo limitado e reducionista. Elas são especialmente doces e especialmente jovens, pequenas e delicadas, inevitavelmente brancas, potencialmente magras e convencionalmente lindas; não há espaço para ninguém que não se encaixe no padrão. Se o cinema – e a arte, de modo geral – e um reflexo da nossa sociedade, o que estamos comunicando com esse tipo de representação?

Karen Bird é muito mais do que uma garota a quem a tristeza serve tão somente para transformá-la em mistério, que embarcou em uma aventura inconsequente, cujo verdadeiro destino não era certo, menos ainda uma garota que dança sozinha ao por-do-sol e caminha em estradas vazias. Karen Bird, assim como Jack, assim como as irmãs Lisbon, assim como tantos outros personagens que tiveram suas trajetórias transformadas em tragédias esteticamente impecáveis, é um ser humano complexo, cujas dores, fosse ela uma pessoa de verdade, seriam tão reais quanto às minhas, ou a de cada uma de vocês do outro lado. Nós somos muito mais: complexas demais, incômodas demais, difíceis demais, humanas demais; ao mesmo tempo, somos mais do que nossas dores, nossas tragédias e nossos transtornos, ainda que todas elas sejam válidas e muito reais. Eddie O’Keefe ignora isso; nós não. 

“They’re gonna watch me disappear into the sun” [“eles me assistirão desaparecer no sol”, em tradução livre], diz Lorde, em Liability”, uma música que fala, acima de tudo, sobre ser uma mulher… difícil. Karen Bird, ironicamente, ela mesma uma mulher difícil, é quem me faz retornar a esse trecho quando, ainda no Grand Canyon, compartilha com Tijo que o sol irá se desfazer em cinco bilhões de anos. “Como qualquer estrela”, ela diz, acrescentando em seguida que, até isso acontecer, terá passado uma eternidade. Na cena, singular ao expor a humanidade de Karen, são os silêncios que dizem tudo; e ali, de forma inesperada, “Liability” também passa a ser sobre Karen Bird. E sobre mim. E talvez sobre vocês. E sobre todas as mulheres que sofrem, dia após dia, por serem quem são. Por serem assombradas por fantasmas terríveis; por se tornarem fardos tão logo seu lado mais humano vêm à tona. Não há nada de bonito, tampouco romantizável, em viver com um transtorno mental. Ao final de sua jornada, Karen foge em um carro roubado, sem deixar notícias ou rastros, sem saber o que aconteceu com Jack, o amor de sua vida, que jamais lerá o bilhete deixado para trás; desaparecendo ela mesma, sozinha, rumo ao sol.

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