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A representação feminina em Supernatural

Supernatural entrou para a história em 2015 como seriado sci-fi com o maior número de episódios exibidos, transformando-a na série mais longeva do gênero. Seu episódio de estréia foi ao ar em 2005, no canal norte-americano CW, e desde então já foram exibidas onze temporadas (com mais duas prometidas pelo próprio presidente do canal) e mais de 200 episódios. Supernatural é, muito provavelmente, uma das séries mais rentáveis da CW e a que conta com os fãs mais apaixonados e fervorosos – boa parte desses fãs, vale apontar, são mulheres. Então fica a questão: como uma série que trata suas personagens femininas tão mal pode ter tantas mulheres em sua base de fãs?

Atenção: a partir daqui, o texto terá spoilers das 11 temporadas de Supernatural.  

Quando nos questionamos, estamos fazendo isso também como fãs, visto que Supernatural é uma das nossas séries favoritas. É muito fácil se apaixonar pelo enredo intricado e pela bela relação dos irmãos Dean e Sam Winchester (interpretados por Jensen Ackles e Jared Padalecki, respectivamente), construída de forma tão honesta e delicada ao longo dos anos. No entanto, é impossível para nós, enquanto mulheres, ignorar que a representação feminina na série é bastante problemática, com personagens que poderiam ser melhor aproveitadas, mas que são trabalhadas de forma superficial e pouco convincente dentro da trama.

É curioso pensar, aliás, que toda a história só acontece por causa de uma mulher: a morte de Mary Winchester (Samantha Smith) durante a infância de Sam e Dean, marcou para sempre o pai dos meninos, John Winchester (Jeffrey Dean Morgan), que parte em busca de vingança e torna a caçada ao demônio que assassinou sua esposa seu objetivo de vida, mesmo que isso signifique relegar o cuidado dos filhos. A partir daí a trama e o drama se constroem, explorando a problemática relação entre pai e filhos, além da infância nada saudável dos meninos – o que, sem dúvida, adiciona mais camadas aos personagens, que se tornam cada vez mais completos e complexos. No entanto, tudo isso só acontece porque Mary – uma mulher com sentimentos, vontades e necessidades, uma pessoa que deveria ser tratada como um ser complexo, como qualquer ser humano – foi descartada logo no primeiro episódio, justificando a motivação por trás dos atos de John e, consequentemente, colocando a história em movimento.

Anos mais tarde, é a vez de outra personagem ser introduzida apenas para morrer (!) e servir de motivação para que os protagonistas se unam novamente por um “bem maior”. Jessica (Adrianne Palicki), namorada de Sam na faculdade, encontra o mesmo destino de Mary Winchester, fazendo com que o rapaz volte não só a trabalhar ao lado do irmão, Dean, mas criando uma espécie de conexão com seu pai, que viveu exatamente a mesma coisa e com quem Sam tivera uma relação bastante conturbada até então.

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Bela Talbot (Lauren Cohan)

Isso não quer dizer que não existam personagens que conseguem se manter na trama por mais de um episódio, mas é incrível que mesmo com maior tempo de tela, muitas dessas mulheres têm suas histórias individuais praticamente ignoradas e é comum que seus arcos terminem de forma cruel e absolutamente sem sentido. Na terceira temporada, por exemplo, conhecemos Bela Talbot (Lauren Cohan), uma caçadora de artefatos mágicos com um potencial enorme a ser desenvolvido, uma mulher extremamente complexa que poderia ter acrescentado muito mais na série, não fosse a má vontade dos showrunners em desenvolver sua trajetória de forma apropriada.

Ela cruza o caminho de Sam e Dean, apronta com os irmãos, mas encontra um fim trágico – consequência de um pacto feito anos antes com um demônio da encruzilhada. Por mais que esse seja o destino de qualquer um que decida fazer o mesmo, as motivações de Bela e a razão pela qual ela chegou ao extremo de realizar um pacto nunca são expostas para os irmãos que, inclusive, a tratam mal ao longo de toda a temporada, sem fazer ideia dos traumas pelos quais ela havia passado. Em “Time Is On My Side”, descobrimos que Bela sofreu com um pai abusivo, e que o pacto, muito mais do que uma forma de vingança, foi, ironicamente, a saída que ela encontrou para sobreviver.

Dentro da história, ela não chega a ser considerada uma vilã mas certamente era uma personagem ambivalente, que pensava em si mesma em primeiro lugar – o que, convenhamos, não é crime nenhum. Bela era uma mulher determinada, corajosa, que não pensava duas vezes em enfrentar um mundo que nunca foi gentil com ela e que, ainda assim, foi constantemente maltratada pela história, só para terminar sendo morta e enviada para o Inferno. Ninguém se lembra da sua morte ou dá a devida importância ao fato – e o que poderia ser uma história de superação e redenção, se torna mais uma participação vazia que tem como único objetivo ajudar os irmãos a enfrentar a ameaça principal da temporada.

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Anna Milton (Julie McNiven)

Desempenhando um papel não muito diferente, temos Anna Milton (Julie McNiven), uma anja que removeu sua própria graça para poder viver seus dias como humana. Num universo em que anjos são criaturas frias, que não questionam as ordens que recebem e desconhecem emoções, Anna se sentia cada vez mais insatisfeita. Sua fé, que tinha sido suficiente até ali, já não conseguia segurar seus questionamentos sobre seu papel no mundo e, principalmente, sobre o Deus que servia – e foi observando os seres humanos que ela encontrou uma saída para sua angústia. Anna aprendeu a amar aquela que seria a criação mais estimada do seu Pai e ao contrário de  outros anjos, passou a enxergar os humanos como seres superiores e extremamente complexos. Ela, que sempre fora um ser compassivo e sincero, valorizava as emoções humanas acima de tudo, em especial a lealdade, o amor e o perdão –conceitos que a fizeram tomar a decisão de abrir mão de seus privilégios e da sua própria natureza, abraçando um processo doloroso e extremamente traumático onde abdicou de seus poderes e foi em busca daquilo que desejava.

No entanto, mesmo como humana e desconhecendo seu passado no Céu, Anna nunca teve uma vida fácil. Sua infância foi marcada pelo medo constante de ser castigada pela sua desobediência, enquanto já adulta, ela é atormentada por vozes de outros anjos. São essas vozes, aliás, que a colocam no caminho dos dois irmãos – não sem antes ser tratada como louca e passar um tempo internada numa clínica psiquiátrica. Anna é perseguida por demônios que veem na sua habilidade uma forma de conseguir informações importantes sobre o Céu; e por anjos, que tem ordens expressas de exterminá-la. De repente, sua vida vira de cabeça pra baixo e ela perde tudo que construiu, mas mesmo assim continua ajudando Sam e Dean como pode – porque é o certo, porque é isso que tem que ser feito, porque existe algo maior acontecendo. Ela passa por cima dos próprios desejos e necessidades, se sacrificando em prol do tal “bem maior” – e morre justamente por ser essa pessoa.

Sua história dá uma guinada extremamente equivocada quando ela passa a ser tratada como vilã, provando que existem dois pesos e duas medidas, e que qualquer pessoa que se coloque no caminho dos Winchester (especialmente uma mulher) está contra eles mesmo que seu objetivo final seja basicamente o mesmo. Ao se colocar contra os irmãos, Anna passa a ser vista como um empecilho e é imediatamente sacrificada para que o caminho dos dois fique livre de novo. Sabe-se que muito do que aconteceu com ela tem a ver com a pouca aceitação do público, que nunca curtiu muito a personagem, mas não deixa de ser uma justificativa torta se pensarmos que muitos personagens (homens, claro) continuam aí até hoje, mesmo que não acrescentem nada na trama ou já estejam extremamente desgastados.

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Ellen (Samantha Ferris) e Jo Harvelle (Alona Tal)

Outras duas personagens importantes para a trama e para a jornada dos Winchester são Ellen (Samantha Ferris) e Jo Harvelle (Alona Tal) que aparecem pela primeira vez na segunda temporada. Viúva de um caçador, e uma ex-caçadora ela mesma, Ellen sempre receou que sua filha, Jo, seguisse esse perigoso caminho. As duas, talvez, façam parte da exceção a regra de dar finais medíocres para personagens femininas em Supernatural, mesmo que elas, de fato, morram de maneira a favorecer Sam e Dean em sua cruzada a fim de parar o Apocalipse. Todo o contexto desse desfecho tem um significado maior quando pensamos que a quinta temporada seria o final do seriado, mas não diminui o fato de que, novamente, mulheres ficaram no caminho para que Sam e Dean pudesse continuar.

Em Abandon All Hope”, quando o plano para matar Lúcifer dá errado, Jo é mortalmente ferida por hellhounds e, encurralada com a mãe em um loja de conveniências, as duas decidem se sacrificar de maneira a permitir que Sam e Dean continuem no caminho para derrotar o anjo caído. A carga dramática da cena final de mãe e filha é intensa, e toda a situação é dolorida, mas dessa vez, pelo menos, as mulheres em questão tiveram todo o controle da situação e sobre como deixariam esse mundo: como duas caçadoras valorosas, corajosas. Como mãe e filha que se apoiaram e amaram durante toda a vida.

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Jody Mills (Kim Rhodes)

Com menos duas personagens femininas em um elenco que é conhecido por não ter muitas delas, na quinta temporada fomos apresentados à xerife Jody Mills (Kim Rhodes). Jody aparece pela primeira vez no episódio Dead Men Don’t Wear Plaid”, quando Sam e Dean vão até sua cidade investigar um caso. Em um mesmo episódio Jody perde o marido e o filho, mas continua lutando contra os zumbis que invadem a cidade, terminando, até mesmo, por ajudar Sam a salvar Dean e Bobby no final. Logo de cara vemos como Jody é forte, corajosa e tem fibra, fazendo da personagem uma das mulheres mais badass de todo o seriado. Jody retorna nas temporadas seguintes lutando contra leviatãs e até mesmo indo em um encontro/emboscada com Crowley no episódio “Sacrifice”, da oitava temporada. Jody é utilizada por Crowley (Mark Sheppard) como meio para um fim, colocando a vida dela nas mãos do Winchester para que eles parem de tentar fechar os Portões do Inferno. Não é a primeira vez – e certamente não será a última – que a vida de uma mulher é colocada em risco como forma de barganha ou motivação para que os irmãos tomem alguma atitude. Uma saída de roteiro simples e batida que não lisonjeia em nada as personagens envolvidas.

Encontramos Jody novamente por duas vezes na nona temporada, sendo o emblemático “Alex Annie Alexis Ann” um dos mais importantes para sua jornada. Quando vampiros atacam, Jody, sozinha, decapita um deles e permanece no encalço dos demais junto dos Winchester. É nesse episódio em que Jody inicia um vínculo com Alex Jones (Katherine Ramdeen), que, posteriormente, será adotada pela xerife e mudará de nome, chamando-se Annie em seu recomeço. Em um seriado em que famílias são desfeitas e personagens femininas não costumam perdurar, é reconfortante ver que Jody e Annie, ambas com um passado de morte e perdas, conseguem se encontrar e iniciar um relacionamento de mãe e filha. O núcleo de Jody, inclusive, recebe um acréscimo nas temporadas seguintes quando Claire Novak (Kathryn Love Newton), por sugestão de Sam e Dean, passa a viver com elas. É uma nova configuração de família, uma xerife e duas adolescentes com passados trágicos, que acabam encontrando umas nas outras uma nova maneira de, pelo menos tentar, recomeçar.

Donna

Donna Hanscum (Briana Buckmaster)

Uma personagem pouco recorrente na trama, mas digna de nota, é a também xerife Donna Hanscum (Briana Buckmaster), uma mulher divertida e muito dedicada ao trabalho, mas que também é bastante insegura, em especial sobre a própria aparência. Donna foi abandonada pelo marido, um policial babaca que colocou a culpa do fim do relacionamento dos dois no sobrepeso de Donna – e é essa mulher machucada, sem auto-estima e que tenta a todo custo agradar que conhecemos em “The Purge”. É sua questão com o próprio corpo, aliás, que move seu episódio de estreia: disposta a qualquer coisa para ter um corpo dito perfeito, Donna se submete a um tratamento milagroso e misterioso que, mais tarde, descobrimos ser a forma que Pishtacos, criaturas mitológicas peruanas que se alimentam de gordura, encontraram para sobreviver.

Seu arco, no entanto, se desenvolve de maneira bastante positiva, especialmente se comparado ao de outras personagens. Com a ajuda de Jody, Donna se torna uma mulher segura de si, que acredita no próprio potencial e coloca no lugar qualquer homem babaca que ouse mexer com ela (inclusive e principalmente o ex-marido), sem deixar de ser carinhosa e querer sempre fazer seu melhor – duas características intrínsecas da personagem. As duas constroem uma amizade bastante promissora, ainda que sejam muito diferentes entre si, e conseguem deixar no ar a expectativa por mais episódios com as duas chutando muitas bundas por aí.

Há um movimento na internet, nascido do Tumblr, em que se pede um spin off de Supernatural com essas quatro personagens – Jody, Donna, Alex e Claire. Batizado carinhosamente de Wayward Daughters em referência a música Carry On Wayward Son, do Kansas, que faz parte da trilha sonora da série e é tida como hino para os fãs, a ideia é que a série derivada siga as quatro personagens lidando com as forças sobrenaturais, assim como Sam e Dean fazem há onze anos. O diferencial evidente desse spin off seria, obviamente, o elenco principal completamente feminino. Em um seriado famoso por seu tratamento nada lisonjeiro de suas personagens femininas, um spin off com quatro mulheres fortes e incríveis talvez seja tudo o que nós precisamos mas não sabíamos até agora.

Meg Supernatural

Meg (Rachel Miner)

Outro aspecto muito abordado por Supernatural em suas personagens femininas é a vilania. Apesar de emblemáticas e interessantes, mesmo elas não conseguem ser apropriadamente exploradas pelo roteiro. Meg (interpretada na primeira temporada por Nicki Aycox e por Rachel Miner a partir da quinta) é um demônio menor que cruza o caminho dos Winchester logo no início do seriado. Seguidora fiel de Lúcifer, Meg foi treinada no Inferno por Azazael como mestre de tortura e faz o possível para libertar o anjo caído de sua jaula. Em suas primeiras aparições, Meg bateu de frente com Sam e Dean e atrapalhou o percurso dos irmãos por diversas vezes. Após anos no encalço dos irmãos, Meg, em uma reviravolta interessante de acontecimentos, torna-se aliada deles e, assim como outras mulheres da série, é morta de maneira a assegurar que os Winchester sigam em frente.

Lilith Supernatural

Lilith (Sierra McCormick)

Já durante a terceira temporada, conhecemos Lilith (que é interpretada por várias atrizes diferentes ao longo da sua participação), um demônio de olhos brancos extremamente poderoso que também foi o primeiro a ser criado por Lúcifer. Sua história se baseia na da deusa Lilith, adorada na Mesopotâmia e na antiga Babilônia, mas ao mesmo tempo identificada como demônio, um espírito maligno portador de doenças e da morte, causador da luxúria, devorador de crianças e com uma breve relação com o vampirismo. Na crença tradicional judaica e islâmica, Lilith também aparece como a primeira mulher de Adão e é tida serpente que levou Eva a comer o fruto proibido.

Com uma mitologia tão rica, era de se esperar que Lilith não fosse uma personagem qualquer – o que, de fato, ela não foi. Possuindo especialmente crianças (o que só a torna ainda mais assustadora), Lilith tocou o terror na vida dos Winchester e trabalhou incessantemente para libertar Lúcifer de sua jaula – pelo menos até descobrir que seu destino estava selado desde o início e que, para que o anjo caído pudesse ser libertado de sua cela, ela precisaria morrer, que é o que realmente acaba acontecendo. Embora tenha tentado firmar um acordo com Sam e parar de quebrar os selos que libertariam Lúcifer, ela acaba sendo morta em “Lucifer Rising”, mostrando que era apenas uma peça fundamental do enredo, que precisava ser morta para que o Apocalipse pudesse ter início e a trama continuasse a se desenrolar.

Ruby Supernatural

Ruby (Katie Cassidy)

Mais ou menos na mesma época, também conhecemos Ruby (interpretada principalmente por Katie CassidyGenevieve Cortese), o demônio de uma bruxa da Idade Média que ajuda Sam a lutar contra alguns dos sete pecados capitais em “The Magnificent Seven” e, posteriormente, se torna uma personagem recorrente na luta dos irmãos contra os demônios. Suas motivações não são claras no início, mas seus métodos equivocados e sua postura contraditória diante de seus iguais deixam no ar a certeza de que algo muito errado pode acontecer a partir daí. Após a morte de Dean, no entanto, Ruby ganha, aos poucos, a confiança de Sam e passa a treiná-lo para que ele fortaleça seus poderes psíquicos com uma técnica à base de sangue de demônio.

Quando Dean retorna, os dois irmãos têm uma briga e seguem caminhos separados, já que Sam não acredita que Ruby possa estar escondendo alguma coisa ou ter qualquer tipo de má intenção. É quando a série revela que o demônio do olho branco é o último selo para a libertação de Lúcifer que tudo passa a fazer sentido e descobrimos, então, que durante todo o tempo Sam foi manipulado e que Ruby, no final das contas, só esteve plantando o retorno do anjo caído – e sua participação pode ser resumida exatamente dessa forma. Ainda que seja uma personagem icônica da série, frequentemente lembrada pelos fãs, Ruby também foi só uma peça, utilizada para levar a história para aquele que talvez seja seu ponto mais alto, e que foi morta tão logo alcançou seu objetivo.

Lydia

Lydia (Sara Canning)

A sétima temporada pode ter sido a pior de toda a história de Supernatural, mas à parte do enredo principal com os Leviatãs, os episódios focados em outros seres sobrenaturais e mitológicos não deixaram a desejar. O décimo terceiro episódio da temporada, “The Slice Girls“, foi centrado nas Amazonas (as guerreiras da mitologia grega) e é um episódio não só rido em mitologia como um dos poucos com uma representatividade adequada e essencial de mulheres na série.

No enredo, os Winchester estão investigando um de seus corriqueiros casos em que, dessa vez, homens na faixa dos trinta anos são assassinados, têm suas mãos e pés mutilados e trazem um misterioso símbolo gravado no peito. Ao que eles se inteiram dos fatos iniciais do caso, Sam decide fazer pesquisas enquanto Dean vai “investigar” cidadãos locais num bar. Ele então conhece Lydia (Sara Canning), uma mulher atraente com quem ele passa algum tempo conversando, só para terminar a noite em sexo na casa dela. Alguns dias depois, ele retorna e nota um comportamento estranho por parte dela.

O que acontece é que Lydia usou Dean para conceber uma criança e já estava prestes a dar a luz. Ela faz parte de um grupo de Amazonas que, no contexto da série, precisa se reproduzir a cada dois anos para dar continuidade ao seu grupo, mas acabam se vingando dos homens que as conceberam por terem sido adúlteros. No entanto, a importância delas na série não está ligada à vingança ao sexo masculino (até porque isso seria misandria, o oposto do que queremos alcançar com o movimento feminista, que é a igualdade de gêneros), mas sim a representação das mulheres como seres independentes, lutadoras, unidas, e com habilidades especiais como, por exemplo, a capacidade do crescimento acelerado.

Elas, inclusive, são capazes de gerar uma mudança drástica no comportamento de Dean, um personagem que até então era extremamente mulherengo. Ter descoberto uma criatura mítica como filha após o que ele acreditava ter sido uma simples one night stand fez com que ele tivesse que lidar com o dilema de matá-la ou não, colocando em xeque seu trabalho e aquilo que ele acreditava ser o certo. Gostaríamos de poder dar todo o crédito da mudança a uma percepção da produção da série sobre as falhas que cometeram por temporadas seguidas mas, aparentemente, esse não foi o caso.

Como estamos cansadas de saber, Dean é um personagem famoso por suas relações de única noite com diversas mulheres e é nesse contexto, também, em que aparece Lisa Braeden (Cindy Sampson). Muito embora Lisa considere Dean “a melhor noite de sexo de sua vida”, e que o relacionamento entre eles foi o de dois adultos que sabiam bem o que queriam, não dá pra dizer que sua participação na trama foi imprescindível além de ser um dos inúmeros casos de Dean. Tudo bem que Lisa tem um papel um pouco mais relevante na sexta temporada, mas, ainda, ela é apenas um ponto de apoio para toda a trajetória do Winchester mais velho.

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Abaddon (Alaina Huffman)

Outro exemplo interessante no que se refere a potencial desperdiçado é Abaddon (Alaina Huffman), um dos primeiro demônios, também criado por Lúcifer e escolhida para ser um dos Cavaleiros do Apocalipse, uma mulher com grande potencial e uma mitologia rica, mas que não é desenvolvida tanto quanto seria esperado. Ela se transforma na grande antagonista da nona temporada, mas o desfecho de sua personagem não é muito condizente com sua força e poder sobrenatural. Parece até uma saída fácil de roteiro para uma personagem que, até então, já havia tomado o controle do Inferno e sobrepujando Crowley com relativa facilidade. E com isso não queremos dizer que as vilãs devem permanecer vivas e dentro da história apenas por serem mulheres, mas é evidente o tratamento diferenciado que existe entre personagens masculinos e femininos. Enquanto o próprio Crowley é reinventado e reinserido no enredo temporada após temporada (assim como o anjo Castiel de Misha Collins), Abbandon, que poderia ser a inovação necessária em um enredo saturado, é imediatamente descartada.

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Rowena (Ruth Connell)

Na décima temporada, mais uma vilã de personalidade marcante foi introduzida na série. Rowena é uma bruxa escocesa, interpretada pela atriz Ruth Connell, e mãe de ninguém menos do que o Rei do Inferno, Crowley (nascido Fergus MacLeod). Seu dom de bruxaria é considerado natural, ou seja, seus poderes nasceram com ela e não foram adquiridos por meio de um pacto com um demônio. Sabe-se que sua juventude foi miserável antes de descobrir e dominar seus poderes, e sua personalidade egoísta, fria e cruel em grande parte foi desenvolvida a partir da dificuldade que teve em seu passado. Rowena é uma bruxa ambiciosa e de grande potencial, além de ser ex-membro do Grand Coven – o maior grupo organizado de bruxas, que a expulsou devido à má prática de magia, ainda mais considerando o nível do seu poder.

Sem temer machucar ou matar qualquer pessoa que entre em seu caminho, ela cruza o caminho dos Winchester durante suas tentativas de ascender ainda mais, e é tida como inimiga apesar de se aliar a eles temporariamente em troca de algo que a beneficie, como acontece durante o desenrolar do enredo principal da décima temporada. Preso à marca de Caim, Dean acredita estar sucumbindo ao poder que o tornará uma das criaturas que repudia, e numa incessável busca para salvar o irmão, Sam descobre uma maneira que envolve o uso de magia: a solução para a retirada da marca está contida no The Book of the Damned, cuja escrita está encriptada e requer o Codex das bruxas para decifrá-lo. Rowena e Charlie, então, se tornam peças importantes no jogo para que, mais uma vez, os Winchesters sejam salvos; Rowena sendo a bruxa que executará a magia, e Charlie sendo o cérebro que vai desenvolver um algoritmo que permita decifrar o Codex e o livro.

Ao que a participação de Charlie se encerra após esse episódio, Rowena permanece em cena, visando seu próprio objetivo – aumentar seu poder e presidir o Mega Coven – enquanto se alia a outras partes por interesse quando lhe convém. O fato de ter sobrevivido por séculos se dá justamente por esse aspecto de sua personalidade. Ter abdicado do amor por ser uma fraqueza é o que a mantém viva, e apesar de ter sido provado que ela é capaz de amar, o sentimento não é o suficiente para que ela abra mão de sacrificá-lo em prol de sua ambição. Embora seus trejeitos sejam ousados, sua personalidade é impiedosa, e mesmo essa característica seja negativa, dentro do contexto da série se torna essencial para que Rowena seja uma sobrevivente.

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Amara (Emily Swallow)

Assim que a marca de Caim é retirada de Dean Wichester, ao final da décima temporada, uma nova ameaça surge e, chamada apenas de Escuridão por um período, ficamos no mistério sobre o que seria essa energia em forma de fumaça negra que surge no horizonte dos Winchester. Logo nos primeiros episódios da décima primeira temporada sabemos que a Escuridão tem a forma de uma mulher e seu receptáculo atende por Amara (Emily Swallow). Nascida no primeiro episódio em meio ao caos que se formava, e demonstrando um crescimento acelerado pela sua natureza sobrenatural, enquanto menina Amara já demonstrava o nível de destruição de que era capaz e por isso foi rastreada e disputada por aqueles que queriam ter controle sobre o seu poder ou impedi-lo de imediato. No entanto, ao atingir a maturidade ela assumiu a si mesma em busca do seu objetivo como antagonista. Com o decorrer dos episódios descobrimos que Amara é a irmã de Deus e, aprisionada por ele durante milênios, busca vingança e a destruição de toda sua criação.

A dualidade desse enredo é ardilosa no que diz respeito ao fato de Deus representar a luz e a criação de todas as coisas enquanto a Escuridão representa, bem, a escuridão e a destruição. Por se tratar opostos, a polaridade negativa desse tema inevitavelmente teria de ser representada pelo feminino, para não contrariar a ideia disseminada do Deus que conhecemos, como o Pai de todas as coisas. Embora haja uma história no contexto da série que justifique a relação turbulenta entre os irmãos, e as motivações de Amara, graças ao que está escrito na religião, o final dessa disputa se torna um tanto óbvia. A complexidade do papel da Amara reside, então, no mistério de sua conexão de Dean.

Charlie

Charlie Bradbury (Felicia Day)

De todas as personagens, no entanto, a perda mais dramática foi, muito provavelmente, a de Charlie Bradbury (Felicia Day), uma hacker lésbica (também conhecida como o amor das nossas vidas) que posteriormente se tornou caçadora e ganhou bastante espaço dentro da trama – pelo menos até que os showrunners decidissem chocar o público com uma morte injustificável e desnecessariamente cruel. Charlie apareceu pela primeira vez na sétima temporada, em “The Girl With The Dungeons And Dragons Tattoo”,  e desde então passou a ser uma figura recorrente na história, aparecendo para ajudar os protagonistas sempre que necessário e, principalmente, nos dando um respiro de esperança e alegria. Numa trama onde o drama sempre foi a regra, nunca a exceção, Charlie foi a luz necessária para que todos continuassem acreditando que o bem, eventualmente, vence o mal.

Ao contrário de outras personagens que não tiveram a mesma chance, Charlie foi construída de forma bastante apropriada. Descobrimos, ao longo de três temporadas que, muito além do bom humor, do seu trabalho e da sua orientação sexual, Charlie é uma mulher com uma história complexa, difícil, que viu o pai morrer muito cedo e que precisou lidar com uma mãe em estado vegetativo enquanto crescia como pessoa e mulher. Mesmo assim, ela não se tornou uma pessoa amarga, muito pelo contrário. Charlie é uma mulher bem-humorada, otimista e determinada que se preocupa com minorias, se interessa por política e curte literatura fantástica, e está sempre disposta a lutar por aquilo que acredita e a defender seus amigos. Sua relação com os Winchester, aliás, se torna algo digno de nota justamente porque Charlie não se encontra numa posição imediatamente inferior, mas como uma verdadeira parte do time e uma irmã para os personagens principais.

Além disso, outro ponto bastante positivo é que a sexualidade de Charlie em momento algum ganha ares de fetiche, sendo representada de uma forma honesta e natural, exatamente como tem que ser – e aí é interessante observar como a história cresce ao retratar relacionamentos nas suas mais diferentes formas. Pela primeira vez, Supernatural nos apresentou uma mulher que podia, de fato, exercer um papel importante no time dos irmãos Winchester e entrar para essa família, uma mulher que recebia a atenção que merecia e vivia relacionamentos tão ou até mais interessantes do que os vividos pelos personagens principais – como, por exemplo, quando ela teve um romance com a Dorothy (Tiio Horn), de O Mágico de Oz –, mas que jamais foi definida pela sua vida amorosa. É por isso que se identificar com Charlie sempre foi tão fácil e natural. Ela se tornou uma das personagens mais queridas da série porque era, também, um pouco como todas nós, e num universo onde mulheres são tratadas constantemente como vilãs ou donzelas em perigo, ter uma personagem que ia contra esse estereótipo foi um passo importante – e é por isso, também, que sua morte foi um golpe tão cruel em todas nós.

Ao preferir encerrar o arco da personagem com uma morte tão fria, cruel e injustificável, a série reforçou sua posição diante de suas personagens femininas e mostrou que, numa série que nunca fez questão de tratar a morte como algo definitivo e que sempre esteve disposta a trazer de volta à vida personagens masculinos com uma frequência quase ridícula, existem dois pesos e duas medidas, e que mulheres não terão o mesmo privilégio, não importa o quão importante elas sejam para a história, muito menos para o público.

Em julho de 2015 aconteceu painel de Supernatural na Comic Con, e durante as perguntas abertas ao público, entre uma singela homenagem à campanha do Jared Padalecki, Always Keep Fighting, e uma pergunta ordinária sobre os atores participarem na decisão do curso dos seus próprios personagens, uma garota se levanta e pergunta exatamente o que todas nós gostaríamos de saber:

“Minha pergunta é para o Jeremy [Carver] e o Andrew [Dabb], mas eu gostaria que o resto do elenco também desse sua opinião sobre isso. Então, minha pergunta é: considerando que as mulheres têm sido frequentemente usadas para mover o enredo dos personagens masculinos, por que foi tomada a decisão de matar a Charlie e jogá-la numa banheira?”

Mark Sheppard, que interpreta o vilão Crowley na série, explodiu em gargalhadas enquanto o resto do elenco ficou constrangido e sem saber como agir. A cereja da torta de climão foi quando, de brincadeira, eles viraram as costas e isentaram-se da responsabilidade de responder àquela pergunta, uma atitude que, ainda que não intencional, foi no mínimo desrespeitosa. Jeremy Carver, showrunner da série, durante o hot spot, gaguejou e não conseguiu dar uma resposta plausível, dizendo apenas que em séries como Supernatural é inevitável que personagens queridos do público acabassem morrendo eventualmente. Jensen Ackles, por sua vez, numa tentativa frustrada de salvá-lo, disse que a princípio a personagem estava planejada para ter uma participação menor na série e foi sorte dela (!) ter permanecido por mais tempo – o que de forma alguma torna a situação menos problemática.

A falta de preparo diante dessa situação mostra o quanto Supernatural precisa evoluir na questão da representação feminina e como é importante que nós, mulheres e fãs da série, não nos calemos nunca. O recado foi dado e endossado pelo aplauso de muitas garotas que estavam na plateia do evento, mas esse é só o primeiro passo e nós não podemos parar nunca de nos questionar. Se os produtores da série ficaram constrangidos com a pergunta e perceberam que estamos cientes do que aparece na tela, talvez seja a hora em que eles finalmente colocarão a mão na consciência e de fato trabalharão para, senão reparar os erros que cometeram até então, pelo menos cuidar para a mesma barbaridade não continue ecoando em temporadas futuras, e que o curso dos papéis femininos seja crescente a partir de agora.

Tudo bem gostar de Supernatural – mas tudo bem também criticar as coisas que a gente gosta. Notar que nossos favoritos também são problemáticos e apontar tais questões com coerência só nos enriquece e nos coloca mais perto da solução de um problema que sim, existe, é real e precisa ser combatido. Só assim poderemos, um dia, ter uma série que contemple o universo feminino de forma honesta e trate suas mulheres como os seres complexos que são.

Texto escrito em parceria por Ana Luíza, Thay e Yuu

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8 Comentários

  • Responda
    Stephanie Fernandes
    13 de outubro de 2016 at 12:49

    Ah, claro que podemos justificar que Supernatural é seriado de machão, e que, no Universo Brucutu, o destino da mulher é irrelevante. Mas não podemos fechar os olhos para as atrocidades no roteiro que eles tem feito com as nossas queridas personagens femininas. Eles não injustiçaram só a Charlie não, eles praticamente jogam a Jody de lado e ela só aparece quando convém – hm, que coisa, né? E eu ainda não superei a morte das Harvelle, muito menos perdoei. E por mais que eu adorei eles terem usado Chuck como Deus, teria sido maravilhindo colocar uma mulher pra representar Deus – porque rivalidade entre irmãos fica muito mais bonito quando não tem guerra dos sexos envolvida, né. E teria sido uma puta reviravolta, e uma lufada de ar fresco num seriado lotado de testosterona.
    Já passou da hora dos produtores atualizarem o enredo deles, pelo menos no que diz respeito às personagens femininas que aparecem de vez em quando na série. Porque em pleno 2016, ficar usando mulher como muleta pra macho fica feio.
    E TRAGAM A CHARLIE DE VOLTA! Se virem pra explicar, não quero saber, se Dean e Sam vivem voltando, A CHARLIE TAMBÉM PODE, PÔ!

    • Responda
      Thay
      13 de outubro de 2016 at 20:06

      Ter Charlie de volta seria maravilhoso, se todo mundo volta, Charlie também pode!²
      E assim, acho que a CW não entende muito bem seu próprio público, sabe? Se SPN nasceu como série de macho brucutu, já não é assim faz tempo! Falta um tanto de tato por parte deles para entender melhor quem assiste e gosta de série.

      • Responda
        Ana Luiza
        13 de outubro de 2016 at 20:28

        Eu até entendo não colocarem a Jody como personagem fixa na história, mas seria muito bacana se fizessem um spin-off com ela por exemplo, sabe? E, no entanto, ninguém parece muito interessado em tirar essa ideia do papel. Mesmo que SPN tenha nascido como uma série ~pra macho~ ela já não é isso faz MUITO tempo (e a quantidade de mulheres na fanbase taí pra provar) e a CW continuar insistindo nisso é a prova de que eles tão cagando vários baldes pra tudo. Do fundo do coração, acho bem pouco provável que eles façam mudanças drásticas agora, mas né, fica aí a torcida.

        E CHARLIE MERECE MUITO VOLTAR, PLMDDS!

  • Responda
    Douglas Vasquez
    13 de outubro de 2016 at 17:33

    A pauta que eu sugeri <3
    Eu amo muito Supernatural, mas desde quando comecei a assistir (há uns 2 anos) e vi a série descartar personagens femininas incríveis e com um grande potencial a ser explorado irem para o saco, me fez ponderar coisas que não haviam passado pela minha cabeça em qualquer outro seriado antes.
    Afinal, com um público feminino TÃO grande, como é que a série pode ainda ser considerada pelos showrunners e a network como uma "série de macho"? Vale também ressaltar que 90% de todas as personagens mencionadas se relacionam amorosamente ou sexualmente com os Winchesters e no fim, morrem por "amarem" estes personagens. Qual é, it's 2016 THE CW!!!!!!!!!!!

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      Thay
      13 de outubro de 2016 at 20:03

      Essa é uma verdade! Embora eu ame Supernatural, não consigo entender como a CW fecha os olhos para esse tipo de coisa. Em pleno 2016, 12 temporadas depois e eles continuam cometendo os mesmos erros com as personagens femininas, é de chorar. Vamos ver o que acontece agora que Mary Winchester voltou (não tenho um bom pressentimento, sos).

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        Ana Luiza
        13 de outubro de 2016 at 20:20

        Mas taí uma coisa que a CW faz MUITO e não só em Supernatural, né? Amo a série, mas já passou MUITO da hora de começarem a tratar suas mulheres como elas realmente merecem. Elas são tão, senão mais fortes até que muito homem que já passou pela série e mesmo assim são elas que pagam o pato? Não, isso não faz o menor sentido.

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    Lorena
    13 de outubro de 2016 at 22:31

    eu nunca curti supernatural – um misto de não ser muito da vibe sobrenatural que obviamente é a essência da série e birra eterna do jared padalecki, já que era uma garota gilmore hater do dean desde cedo -, mas em um muitas horas a série acaba tendo personagens femininas bem interessantes. pena que elas poderiam ter tido mais destaque ou não caído na trope de bury your gays, mas né?

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      Thay
      13 de outubro de 2016 at 23:09

      A série tem uma galeria excelente de personagens femininas pena que, como a gente disse no texto, elas nem sempre tenham sua importância reconhecida. Elas poderia ter um destaque maior, histórias melhores, mas né, sempre utilizam a carta mais fácil que colocá-las como meios para um fim. E bury your gays foi triste demais, Charlie merecia muito mais.

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