CINEMA

Nancy Meyers e os sentimentos simplesmente complicados

Em sua resenha de Um Senhor Estagiário, filme mais recente de Nancy Meyers, Richard Lawson afirma que embora a diretora e roteirista receba menos reconhecimento do que merece por suas marcas registradas, um filme de Meyers é algo imediatamente identificável, da mesma maneira que é reconhecível um filme de Quentin Tarantino em seu próprio estilo. É uma comparação interessante não só porque Tarantino já revelou gostar de comédias românticas (além de provavelmente ser  a única pessoa além de mim que considerou Um Senhor Estagiário um de seus filmes favoritos em 2015), mas porque, quando paramos para analisar, é uma afirmação muito verdadeira – em termos de estilo e conteúdo, um filme de Nancy Meyers tem uma identidade muito própria que provavelmente nem todo mundo compra. São filmes sempre esteticamente agradáveis cujos cenários, especialmente os interiores, já se tornaram uma atração à parte, sempre em tons suaves, claros, com uma iluminação bonita. Seus temas são invariavelmente as relações humanas e a maneira como elas afetam diferentes personagens, especialmente as mulheres. Suas personagens têm conflitos que podem parecer pequenos quando colocados em perspectiva, mas que são relevantes para elas e, assim, são levados a sério – mas sem dispensar o bom humor.

Embora Nancy Meyers já tenha sido chamada de rainha das comédias românticas, seu filme mais recente, assim como seu primeiro no combo roteiro-e-direção, Operação Cupido, escapam à classificação. Operação Cupido é um filme Disney-para-a-família e ainda que o objetivo das irmãs gêmeas interpretadas por Lindsay Lohan seja reviver o casamento de seus pais separados, o principal relacionamento que vemos surgir e se firmar é entre as irmãs, que cresceram sem saber da existência uma da outra. Em Um Senhor Estagiário, Anne Hathaway interpreta uma empresária extremamente bem sucedida que precisa balancear sua vida profissional e familiar enquanto vê seu casamento aparentemente perfeito desandar aos poucos, mas é com seu estagiário idoso, interpretado por Robert DeNiro, que ela passa por uma trama bastante parecida com o clichê do ódio-ao-amor tão presente no gênero,  por meio da construção de uma bela amizade.

Em 2013, a imprensa reportou que a última tentativa de Nancy de fazer uma comédia romântica foi abortada. Ela partiu então para a comédia dramática (e obteve sucesso de bilheteria), mas continuou falando de amor da maneira pouco simplista que lhe é característica, como um elemento entre os muitos que compõem – e por vezes atormentam – a vida de suas protagonistas. Praticamente todas as protagonistas de Meyers são mulheres que trabalham, que são bem resolvidas profissionalmente e a quem o trabalho também é uma fonte genuína de prazer. Mas suas ocupações são reflexo de suas vidas privilegiadas: Erica (Diane Keaton), de Alguém Tem Que Ceder, é escritora, Jane (Meryl Streep), em Simplesmente Complicado, tem uma adorável padaria. Nancy Meyers fala sobre o mundo que conhece, e ele é um mundo onde dinheiro jamais é impedimento, um mundo onde todo mundo é branco e heterossexual, reforçando toda vez os padrões vigentes (especialmente entre os personagens mais velhos, faixa na qual a falta de diversidade é ainda mais gritante). É impossível negar que Nancy faz alguns dos filmes mais absurdamente brancos do cinema, e talvez ela errasse se tentasse fazer alguma coisa diferente disso, e talvez isso nem fosse algo que precisasse ser comentado se essa também não fosse a realidade da vasta maioria das histórias que Hollywood nos oferece – mas é.

Ao mesmo tempo, Meyers quebra com outros padrões questionáveis da indústria. Na obsessão hollywoodiana com a juventude, especialmente a juventude feminina, acaba sendo revigorante ver histórias de mulheres com mais de 50 anos que não são relegadas a simples coadjuvantes nas empolgantes vidas das pessoas mais jovens. Nancy Meyers as apresenta, pelo contrário, como mulheres para quem romance, animados grupos de amigas e vidas sexuais ativas e empolgantes são tão possíveis quanto cinematograficamente interessantes, para quem dúvidas e questionamentos continuam a acontecer, porque, afinal, são parte da experiência humana. Simplesmente Complicado saiu lá em 2009, no auge da moda Crepúsculo e de todos os triângulos amorosos possíveis entre os jovens e Meyers escolheu criar um triângulo amoroso entre Meryl Streep, Steve Martin e Alec Baldwin.

Alguém Tem que Ceder vai além. Nele, Erica se envolve com um eterno playboy interpretado por Jack Nicholson. Quando eles se conheceram ele estava saindo com a filha dela, mais uma das muitas mulheres bem mais jovens na sua lista. O roteiro de Meyers questiona explicitamente a maneira como a chegada da idade acontece com muitas diferenças para homens e mulheres diante da sociedade: um solteirão como o personagem de Nicholson é fascinante e se torna objeto de artigos de revista, enquanto para uma solteirona muito provavelmente restaria a chacota. Ele seria visto como alguém que sabia aproveitar a vida, ela como alguém com algum problema por não conseguir segurar um homem. Mas Meyers não para por aí: se os atores em Hollywood têm direito de envelhecer, mas as atrizes com quem fazem par romântico não, o filme subverte deliciosamente esse padrão ao apresentar um jovem Keanu Reeves que acha Erica uma mulher fascinante e faz de tudo para conquistá-la. Ninguém fica mais surpresa do que ela, que tem certeza de que o interesse dele só poderia ser por sua filha.

Um Senhor Estagiário é estrelado por uma jovem mulher, mas discute o etarismo, ou a discriminação baseada na idade, através da figura de sua própria protagonista, que enxerga seu estagiário idoso como um funcionário decorativo. Se a discriminação etária é um problema sério no mercado de trabalho, talvez em nenhuma outra indústria ele fique tão evidente – porque é só olhar – quanto em Hollywood. Uma pesquisa do ano passado revelou que somente 11% dos personagens nos 100 filmes de maior bilheteria no Estados Unidos tinham 60 anos ou mais. Como etarismo e sexismo andam de mãos dadas, 72% desses personagens eram homens. Os estudos de Martha Lauzen apontam ano após ano que o problema é mais profundo: personagens acima de 40 (!) anos são cerca de 50% de todos os personagens masculinos; mas entre as personagens femininas o número fica na casa dos 30%. Some-se a isso o fato de protagonistas masculinos envelhecerem, mas seus pares românticos não. Foi nesse cenário que Nancy Meyers tornou protagonistas de suas comédias românticas Meryl Streep e Diane Keaton, à época do lançamento de Simplesmente Complicado e Alguém tem que Ceder com 60 e 57 anos. Os dois filmes arrecadaram mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias.

***

Um filme de Nancy Meyers não apenas se detém a uma realidade específica e propositalmente limitada, mas também isola essa realidade das muitas arestas que existem no mundo para além de nosso controle. Quando assisti a Um Senhor Estagiário, li um comentário que chamou minha atenção: ele destacava que tudo no filme era tão perfeitinho que nunca tinha tráfego nas ruas de Nova York nem nunca fazia um dia cinza. E era verdade mesmo. É como se os personagens vivessem num mundo à parte onde nem mesmo o clima se revolta. Em Operação Cupido, Annie e Hallie, as garotas que se descobrem irmãs gêmeas num acampamento de verão, são colocadas numa “cabana de isolamento” para resolverem suas desavenças, aparentemente distantes do resto das crianças e também sem a supervisão de um adulto. É ridículo, mas também é a maneira que Meyers usa para isolá-las num espaço onde se veem obrigadas a confrontar uma à outra e, passado esse estágio, se descobrem amigas e, aquela coisa, também irmãs. Gosto dessa imagem porque ela resume o que Nancy Meyers faz em seus filmes: em um mundo fictício ideal sem atrito ou resistência do ar, ela enfoca exclusivamente as vidas internas de seus personagens cheios de… bem, sentimentos.

Quando a Anna Vitória fez sua defesa das comédias românticas por aqui no ano passado, ela argumentou que esse gênero, assim como os filmes de terror, se sustenta com força no princípio da suspensão de descrença: “isso quer dizer que para apreciá-los, para realmente apreciá-los, você precisa se soltar das amarras da realidade e acreditar.” A ligação entre esses dois gêneros me voltou à memória quando eu assistia mais uma vez à O Amor Não Tira Férias, dentre todos o meu favorito. Nele, Amanda (Cameron Diaz) abre a porta no meio da noite na casa de uma desconhecida, numa cidade estranha para ela, e não só se depara com Jude Law, mas mais tarde vem a descobrir que ele também é solteiro, viúvo, pai das filhas mais adoráveis do mundo, editor de livros e tem uma vaca no quintal. Me parece uma trama tão improvável quanto a muito repetida história da família americana branca de classe média que se muda para uma casa velha buscando um recomeço e logo descobre que as portas batendo são na verdade espíritos malignos. Para bom proveito do filme, no entanto, você precisa acreditar.

Gosto da história de Amanda no filme, mas ela é um pouquinho pitoresca demais, Cameron Diaz é protagonista de comédias românticas demais, Jude Law tem olhos azuis demais. A trama que realmente faz o filme é a de Iris (Kate Winslet), que atravessa o oceano para tentar se libertar de um amor tóxico por um homem que nunca quis se comprometer com ela, mas se encontra comprometido com outra mulher e que nesse meio tempo também não deixa Iris seguir em frente, reaparecendo com suas migalhas em troca de dedicação e amor genuínos. Uma vez em Los Angeles, Iris estabelece duas relações sólidas com personagens que, não por acaso, trabalham na indústria do cinema e estão ambos dispostos a acreditar que amor pode ser algo a mais. Ela cria uma forte conexão com seu vizinho de 90 anos, um roteirista da época de ouro de Hollywood que indica a ela dezenas de filmes cujas protagonistas possuem sempre aquilo que chama de gumption– ou uma forte presença de espírito, iniciativa, energia –, numa mensagem não exatamente cifrada. O momento catártico de Iris no filme, em que a trilha sonora de Hans Zimmer é mais marcante, é aquele em que ela finalmente se vê capaz de dispensar Jasper de sua vida, tomando enfim as rédeas daquela situação; na direção oposta, o momento catártico de Amanda é quando ela consegue abrir mão de um controle exagerado sobre seus sentimentos. Ao chorar pela primeira vez desde a adolescência, ela se vê enfim conectada a eles novamente.

Quando Iris vai acompanhar seu vizinho a um evento em homenagem a ele organizado pelo Sindicato dos Roteiristas, recebe dele um daqueles pequenos buquês que as meninas em filmes adolescentes americanos sempre ganham de seus pares para o baile de primavera. Ele pede desculpas de antemão se aquilo representava um sentimentalismo cafona (ou “corny”). Mas Iris responde que gostava do que é cafona, que estava procurando por mais cafonice em sua vida. Mais de dez anos mais tarde, na sua rodada de entrevistas para a imprensa na ocasião do lançamento de Mulher-Maravilha, a diretora Patty Jenkins afirmou odiar a palavra “cheesy” – outro termo para sentimentalismo banal, ou cafona – e que não aguentava mais viver num mundo em que o cinema precisa fugir de histórias sinceras, que queria contar uma história sobre uma heroína que acredita em amor e no poder transformador dele. Foi uma escolha deliberada, mas isso não me impediu de ler críticas citando em tom de deboche a mensagem sobre amor reafirmada pelo filme, considerando-a uma ingenuidade do roteiro.

A filmografia de Nancy Meyers deixa claro que ela acredita em sentir, sentir muito, sem ironia e sem cinismo, sem medo de ser chamada de cafona, aceitando tudo aquilo que se tornou “brega” ou “bobo” simplesmente por ser sincero. Se é importante desconstruirmos o amor romântico idealizado ou então extremamente problemático que Hollywood nos vende, bem como as narrativas que o tornam o centro exclusivo e absoluto das vidas das personagens femininas, tratá-lo sempre com cinismo também é uma visão limitada e limitante de um sentimento que faz parte de nossas vidas e que nem sempre é bom, nem sempre faz bem, mas que também pode ser tudo isso, pode mudar e transformar. Quando Anne Hathaway em Um Senhor Estagiário precisa encarar que seu casamento tem problemas sérios e refletir sobre o que terminá-lo e não ter mais seu marido em sua vida significaria para ela, Nancy Meyers está reconhecendo que relacionamentos requerem esforço e dedicação e que não existe algo tão simples quanto o felizes para sempre ao esmaecer do vídeo. Não é por acaso que depois de um longo e carregado diálogo em que Amanda e seu par em O Amor Não Tira Férias tentam estabelecer a logística de seu potencial relacionamento intercontinental Imogen Heap canta, ao fundo, just for now.

Mas existe algo de genuinamente comovente em ver uma personagem como Amanda correndo na neve depois de derrubar algumas lágrimas, ou uma como Iris soltando um gritinho vitorioso depois de deixar para trás alguém que lhe fazia tão mal. As conexões que elas estabelecem ao longo do filme as tocam e as transformam de um jeito positivo, e é bonito acompanhar. É complicado, é mais complicado do que nos filmes e eu não acredito por um minuto que qualquer dia desses eu ou você vamos abrir a porta para um estranho no meio da noite e ele vai ser uma versão de Jude Law que costura e tem uma vaca. Mas acredito no quanto Amanda queria sentir as lágrimas escorrendo mais uma vez, e acredito em seu riso genuíno ao senti-las molhando seu rosto.

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1 Comentário

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    Clarissa Amariz
    14 de junho de 2017 at 19:54

    ótimo texto! Amo os filmes da Nancy, mas achei muito importante todas as questões problematizadas 🙂 Parabéns!

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