CINEMA

Crítica: Me Chame Pelo Seu Nome, um elogio ao desejo

Dizem que um grande amor é aquele que não é eterno na prática, mas na memória, enquanto o amor da sua vida, esse sim, é para sempre. Li isso em um texto sobre relacionamentos que afirmava esse fatos com base em ciência nenhuma, e embora acredite cada vez menos na determinação universal de um único e eterno amor para toda vida (que é tão longa!), acredito no poder que alguns encontros podem ter de ser eternos, ainda que não durem. Desde que foi lançado, Me Chame Pelo Seu Nome foi definido muitas vezes como a história de um Primeiro Amor ou a história de um Amor de Verão, mas sinto que estarei lhe fazendo mais justiça se escolher olhar para o filme de Luca Guadagnino como a história de um Grande Amor.

Foi no verão de 1983, quando Oliver (Armie Hammer), um americano, foi passar o verão na villa italiana da família de Elio (Timothée Chalamet), cujo pai, interpretado por Michael Stuhlbarg, é professor, e todo ano recebe um aluno para trabalhar como assistente de pesquisa e gastar o resto do tempo aproveitando o local idílico da melhor forma que puder. Elio, que tem 17 anos, é imediatamente fisgado pela postura confiante de Oliver, de 24, um homem que parece existir no mundo com uma segurança displicente que quase passa por arrogância, mas que atrai o olhar e a atenção do garoto, que quer ser parte daquilo de um jeito que ele nem entende como.

“Você é tão lindo que não consigo dizer nada na sua cara, porque olha a sua cara!” – não há melhor forma de resumir os sentimentos de Elio por Oliver do que através da canção “Gorgeous”, de Taylor Swift, uma música deliciosamente dramática sobre desejar tanto uma pessoa que o sentimento te leva a uma jornada de encantamento, tristeza, raiva, fissura e impotência, tudo ao mesmo tempo. Não há nada tão dramático assim sobre Me Chame Pelo Seu Nome, mas o filme traz o desejo latente em sua atmosfera, circundando os personagens principais em suas conversas truncadas, mas cheias de provocações, nos olhares que duram sempre dois segundos a mais e precisam ser disfarçados; uma tensão  que qualquer proximidade física é uma descarga de energia em potencial. Essa energia não está apenas entre Elio e Oliver, mas se manifesta em tudo ao redor: no sol de verão, na beleza da Itália, nas frutas maduras e suculentas, na juventude dos personagens, na fartura da mesa, no contexto de opulência e privilégio que permite que aquela família viva uma realidade hedonista, como pessoas cosmopolitas, intelectuais, admiradoras das artes, da ciência e de tudo que há de bom e bonito no mundo.

Em determinado momento, Elio, seu pai e Oliver acompanham o resgate de uma estátua grega do fundo do mar, a escultura de um homem helenístico que é a materialização de um ideal do que é belo e perfeito. Nos créditos iniciais do filme, se vê uma sequência de imagens com estátuas parecidas. Oliver logo ganha das pessoas da casa o apelido de muvi star, e o que são as estrelas de cinema que não figuras que trazem o Olimpo para mais perto dos mortais? Armie Hammer, com seus 1,96m de altura, é a versão viva desse ideal, personificando aquilo que o crítico Chico Fireman chamou de “estereótipo básico do tesão gay”, um homem loiro de olhos azuis, o príncipe encantado. Timothée Chalamet também não deixa de representar uma outra idealização: corpo magro e franzino, feições delicadas, extremamente jovem, ele é o que chamam de twinkie, quase uma versão LGBTQ+ da figura da ninfeta (ou lolita), que fetichiza garotas jovens.

Essa fantasia branca representada pelos dois, combinada com a diferença de idade entre os personagens, poderia facilmente cair numa dinâmica questionável de relacionamento, mas o roteiro de James Ivory, baseado no livro do egípcio André Aciman, conduz a trama com muita delicadeza e nuance. Mesmo inseguro de início, Elio possui muita agência sobre o romance que se desenvolve entre eles, ao passo que Oliver vai se distanciando do arquétipo de deus grego para se permitir viver a vulnerabilidade daquela situação, de modo que os dois alcançam um equilíbrio que possibilita esse encontro que mistura suas histórias, seus corpos, e seus nomes.

Essa entrega também diz muito sobre o trabalho dos atores e da direção de Guadagnino, que destaca corpos e gestos e encontra na dupla, principalmente em Chalamet (que, aos 22 anos, se tornou o ator mais jovem nos últimos 80 anos a ser indicado a um Oscar de Melhor Ator), uma linguagem corporal enérgica e desajeitada, e um rosto que permite uma enorme gama de emoções em poucos minutos, como na incrível cena final. Não há cenas de sexo explícito, o que pode parecer anticlimático para um filme construído em torno do tesão, mas são justamente esses gestos carregados de intimidade que fazem Me Chame Pelo Seu Nome ser erótico de uma forma até mais marcante que uma esperada cena de sexo – quase um subgênero quando se trata de filmes sobre relacionamentos homoafetivos, como o diretor explica em entrevista – poderia alcançar. Sim, estou falando do pêssego.

“Não tivemos nenhuma limitação. Também acho que pode ser um conhecimento inconsciente meu que muitos filmes gays se orgulham de ser explícitos. (…) Não sei. É um voyeurismo barato, eu diria. Por ser também um voyeur, me orgulho por ter um senso mais respeitável e sofisticado de voyeurismo do que a necessidade de encarar o sexo de outras pessoas.”, disse Guadagnino ao Vulture.

Outro ponto relevante é que o filme não se preocupa em definir a orientação sexual dos personagens. Tanto Elio como Oliver se envolvem também com mulheres ao longo do filme, e o fazem por prazer e não protocolo, o que faz da história muito mais uma narrativa bissexual do que um romance gay, que é como Me Chame Pelo Seu Nome vem sendo classificado de forma mais ampla. O livro, narrado em primeira pessoa por Elio, deixa a questão da bissexualidade do garoto muito mais clara: Oliver não é o primeiro homem pelo qual ele sente atração, e Marzia (Esther Garrel) não é sua primeira experiência sexual, mas o encontro com Oliver e os relacionamentos simultâneos o ajudam a entender e afirmar sua sexualidade (coisa que nos anos 80 provavelmente era bem mais complicada). Essa nuance se perde um pouco no filme, mas a pressa em definir Elio e Oliver como homens gays diz mais sobre a forma como ainda invisibilizamos as pessoas bissexuais do que uma suposta omissão do roteiro.

De muitas maneiras, Me Chame Pelo Seu Nome parece existir numa bolha isolada da realidade. Na prática, o longa foi filmado na própria casa de Luca Guadagnino em Crema, na Itália, onde os atores ficaram isolados por um mês, além do tempo de filmagem, num processo de preparação que consistiu em assistir filmes italianos antigos, ouvir música clássica e power-pop dos anos 80, e se apaixonar uns pelos outros. A equipe do diretor trabalha com ele há 25 anos, o que contribui para a construção desse ambiente de proximidade e intimidade. Dentro da história, pouco acontece além do romance entre Elio e Oliver; a vida de seus pais, sempre recebendo convidados para jantar, funciona como ruído de fundo, e essa vida interior intensa da casa se contrasta com o mundo silencioso lá fora, representado por uma cidade praticamente deserta.

Esse isolamento também é refletido pela forma livre e sem conflitos que Elio e Oliver vivem seu relacionamento: os pais de Elio percebem até mesmo antes dele a atração que existe no ar, um sentimento que é encorajado, ainda que de forma sutil e indireta, e depois reafirmado no final. Assim, o filme se esquiva de todos os conflitos e tragédias clássicas que costumam marcar a narrativa de casais homoafetivos, como O Segredo de Brokeback Mountain e Carol (e até Moonlight, mas de uma forma diferente) para citar outros títulos de mesma temática que marcaram as temporadas de premiações dos últimos anos. Nem mesmo a AIDS, tema central quando se pensa a década de 80, aparece no filme, que se passa em 1983 e não 1988, como no livro, uma escolha do diretor justamente para evitar que a epidemia se tornasse um problema para a história. 

Essa suposta alienação política e social de Me Chame Pelo Seu Nome não é um defeito. Inácio Araújo, crítico da Folha de São Paulo, escreveu que o “excesso de felicidade” prejudica o filme e o torna monótono. Se existe um subgênero de filmes LGBTQ+ identificados pelo clichê do sexo explícito, outro lugar comum mais perigoso é aquele que dita que a narrativa desses personagens precisa ser sempre marcada pela tristeza, pela vergonha, e não raramente pela morte. Ao escolher um caminho diferente, o que a história faz é preencher uma lacuna de representatividade que pode até ser clichê e monótona em narrativas sobre casais heterossexuais, mas ainda é uma novidade a ser celebrada quando é o amor de dois homens, que recebe assim um tratamento mais universal.

Excesso de felicidade também é uma leitura rasa quando pensamos no final do filme. Não é spoiler dizer que Elio e Oliver não ficam juntos para sempre. Apesar de não gostar de definir Me Chame Pelo Seu Nome como uma história de primeiro amor ou de um amor de verão, reconheço que as duas etiquetas são adequadas, e as duas nos dizem logo de cara que esse romance acaba. Há dor e sofrimento, como se deve ter, como toda história especial merece ser sentida depois do fim, mas a lição, presente num monólogo de pai para filho que muitas pessoas vão querer copiar no diário (como o Frank Ocean deve ter feito), é a de que o medo ou a consciência da dor não podem nos privar da felicidade que acompanha toda experiência significativa.

O Grande Amor é essa lembrança que guardamos como se fechada num globo de neve, num armário de uma casa de verão na Itália isolada do resto do mundo. Lembrar de tudo, mesmo depois do fim, é o maior ato de amor e a coisa mais gentil que podemos fazer por essa lembrança, e também por quem éramos e por quem amamos, e é isso que faz um grande amor ser eterno. “É desconcertante rever o grande amor”, canta Chico Buarque ao lado de Tom Jobim numa de suas músicas mais bonitas, verso que logo é sucedido por “mas quando me lembro são anos dourados”.

Me Chame Pelo Seu Nome recebeu 4 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Ator (Timothée Chalamet), Melhor Roteiro Adaptado (James Ivory) e Melhor Canção Original (“Mistery of Love”, de Sufjan Stevens)

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2 Comentários

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    Ana Beatriz
    12 de Fevereiro de 2018 at 22:45

    Esse foi um dos meus filmes favoritos nesses lançamentos do Oscar, juntamente com Lady Bird. Eu estava na expectativa faz meses pra ver o longa, e ele não me decepcionou. Um dos pontos que eu mais gostei também foi essa não necessidade de definir e colocar rótulos nos personagens.

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    Luma
    13 de Fevereiro de 2018 at 21:05

    Eu senti tudo nesse filme! Cara, achei belíssimo, solar e instigante. Senti o verão na pele, o sabor das frutas <3 Que experiencia, ainda mais depois de ler o livro. Amo o cinismo do Oliver e a sensualidade contida do Elio. Não me decepcionou em nada.

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