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Emily, a terceira garota Gilmore

“Por que vocês odeiam o Dean e amam a Emily?”

Quem perguntou isso foi uma amiga. A pergunta não foi diretamente pra mim, mas eu senti como se fosse. Eu odeio o Dean (Jared Padalecki). E amo a Emily (Kelly Bishop). Emily Gilmore é a minha personagem favorita de Gilmore Girls. O argumento da minha amiga: os dois erram, muito, e isso é inquestionável, mas por que perdoamos a Emily e continuamos tratando o Dean como, bem, o Dean que ele é? Era uma dúvida sincera e me empenhei genuinamente pra tentar respondê-la. Por que eu odeio o Dean e amo a Emily?

A primeira coisa que veio na minha cabeça foi Kelly Bishop, essa atriz perfeita que dá o coração necessário a uma personagem que, em mãos erradas, poderia facilmente ser reduzida a apenas uma de suas tantas camadas. Emily Gilmore não é apenas o seu característico revirar de olhos, a postura perfeita, os terninhos Chanel ou os eventos do DAR (Daughters of The American Revolution), tampouco é facilmente classificável como mãe, esposa e avó controladora ou, por outro lado, mãe, esposa e avó desesperada por amor e reconhecimento. Emily Gilmore é isso tudo, e é graças à Kelly Bishop que podemos reconhecer a perfeita dama da sociedade na mulher de robe florido que toma uísque e fuma um cigarro atrás de outro num acesso de fúria – e vice-versa.

Dentre as tantas coisas maravilhosas presentes nos trailers do revival de Gilmore Girls, a minha favorita foi a perspectiva que insere, talvez pela primeira vez, Emily Gilmore como uma personagem central na série. Três gerações, diz o vídeo, reconhecendo que o seriado é tanto sobre Emily como é sobre Lorelai (Lauren Graham) e Rory (Alexis Bledel), uma perspectiva necessária para se entender compreender de verdade a complexidade da série e de seus relacionamentos. Numa história que possui no seu centro as relações entre mães e filhas, não seria de todo errado dizer que tudo começa com Emily: mães, filhas e avós são, antes de tudo, mulheres, e se existe algo que Emily representa e desafia ao mesmo tempo, é o papel tradicional da mulher em uma sociedade patriarcal.

Quando classifica a mulher como o segundo sexo, Simone de Beauvoir quer dizer que em relação ao homem ela sempre vai ser o Outro – o complemento, o apêndice, algo que não existe de maneira dissociada de seu sujeito essencial, se estamos falando em sofisticados termos sociológicos. Na sétima temporada, Richard (Edward Hermann) sofre um infarto e precisa fazer uma cirurgia. Emily surge no hospital, imparável como sempre, e logo começa a tomar as devidas providências: contratar um novo chef, planejar a nova dieta do marido baseada em peixe, ligar para o advogado, pensar no futuro. Lorelai critica o pragmatismo da mãe naquela hora dramática, e é então que Emily desaba.

EMILY: É preciso lidar com essas coisas.

LORELAI: Não, é preciso lidar com o fato de que o papai pode estar morrendo. Você está lidando com ligações e listas de tarefas. Você não é secretária dele. Você é a esposa dele.

EMILY: Sim, e o que você sabe sobre ser esposa de alguém? Você tá casada há, sei lá… 40 dias? Isso não é nada. Seu pai e eu estamos casados há mais de 40 anos. Há dois terços da minha vida tenho sido esposa de Richard Gilmore. Eu administro a casa dele. Planejo suas refeições. Compro suas roupas, faço festas pros seus colegas de trabalho. Quando ele perde os óculos, eu os encontro. Quando ele quer um drink, eu faço pra ele. Se ele não consegue lembrar o nome da esposa de um colega, eu sopro em sua orelha. É isso que eu faço — eu cuido dele. Esse é meu trabalho. Isso é quem eu sou. Se eu pudesse fazer a cirurgia dele agora, é isso que eu estaria fazendo, mas eu não posso, está fora do meu alcance. Está fora do meu alcance e não tem nada que eu possa fazer que não esperar. Eu posso perdê-lo, Lorelai. Ele é toda a minha vida, e não tem nada que eu possa fazer.

Emily Gilmore

Emily, como toda mulher privilegiada de sua geração, foi criada com o objetivo final de ser uma esposa. Ela teve boa educação, se formou em uma universidade de prestígio, teve acesso a uma formação cultural sofisticada, aprendeu a receber, servir, a usar todos os talheres e a mandar em empregadas, tudo isso pra estar pronta para ser escolhida por um homem rico e bom, de nome nobre e bonito, e então cuidar da sua casa, ser mãe de seus filhos e estar no centro de tudo pra garantir que não lhe falte nada. Emily é o Outro de Richard, mas a recíproca não é verdadeira. Richard, como todo bom homem branco americano, é senhor da vida pública, com seu emprego na seguradora, suas viagens de negócio, seus contatos importantes; Emily, também como boa mulher branca americana representante das décadas de 50 e 60, é senhora da vida privada, atrás de seu grande homem, cuja vida não funciona sem seu olhar atento, e que nunca recebe o devido reconhecimento por isso. Não importa o quão impecável e indispensável ela seja, Emily sempre vai ser o segundo sexo.

E aí temos Lorelai. Criada no mesmo ambiente e com os mesmos ideais de sua mãe e todas as mulheres que vieram antes dela, Lorelai é de uma geração diferente e veio ao mundo como antítese e negação do mundo que os pais representam. Quando ela engravida na adolescência, apesar da fuga da norma que isso significa, Emily e Richard chegam com a solução pronta: que ela então se case com Christopher (David Sutcliffe), que deve aceitar o emprego perfeitamente aceitável na empresa de Richard (de seguros, dentre todas as coisas), e comece sua vida de mãe e esposa assim como Emily. E todas as mulheres que vieram antes dela.

Ao fugir de casa, Lorelai não está só rompendo com sua família, ela está negando tudo aquilo que sua mãe é e representa, daí todas as camadas de mágoa, culpa e ressentimento que tumultuam o relacionamento das duas, tão mais difícil e complexo do que aquele que a filha tem com o pai. Emily se sente rejeitada pela filha como mãe e como mulher, da mesma forma que Lorelai se sente rejeitada como filha, já que não nasceu nos moldes esperados pelos pais, e como mulher, pois ousou ir além. Amo muito todos os episódios que Emily se aproxima do mundo da filha porque existe uma mistura muito doida de sentimentos: é um pouco de orgulho, por ver que Lorelai conseguiu conquistar tudo aquilo sozinha; um pouco do prazer proibido de estar desafiando o seu próprio lugar pré-estabelecido, como na segunda temporada, em que elas saem pra beber juntas e Emily dança com um homem que não é seu marido; e uma montanha de ressentimento, porque, de certa forma, Lorelai é tudo que Emily poderia ter sido e não foi. E isso dói demais, mesmo na pele de uma mulher que na maior parte do tempo parece estar confortável com o papel que lhe foi designado.

Emily Gilmore

Rory é a chance que Emily tem de tentar de novo e fazer as coisas darem certo. É por isso que em troca do dinheiro para as mensalidades de Chilton, ela pede a presença das duas nos jantares de sexta. Sim, existe algo de controle nesse gesto, mas existe também uma tentativa desesperada de proximidade. Quando Rory larga Yale e briga com a mãe, Emily decide acolhê-la como não acolheu a filha quando esta rompeu com aquilo que era esperado. Ela transforma a vida bagunçada de Rory em seu projeto e faz da neta numa versão de si própria, possível futura líder das Filhas da Revolução Americana, porque ela acredita de verdade que esse é um caminho bom e seguro pra Rory seguir. Não foi esse, afinal, o seu próprio caminho?

EMILY: Richard, não estou entendendo o que está acontecendo. As coisas têm andado bem, menos a questão do sexo.

RICHARD: As coisas não têm andado bem. No momento em que fomos contra a Lorelai, nós perdemos.

EMILY: Você age como se isso fosse minha culpa. Ir contra a Lorelai foi sua ideia. Eu estava perfeitamente disposta a ir em frente com o plano que nós três fizemos.

RICHARD: Andando com o Logan, participando do DAR, planejando festas.

EMILY: O que tem de errado com o DAR? Nós concordamos que ela precisava de um trabalho.

RICHARD: Festas beneficentes? Chás? É fútil e sem significado. Ela tem mais pra fazer, mais para ser. Eu não quero essa vida pra ela.

EMILY: Você não quer a minha vida pra ela. Não quer que ela seja como eu.

Quando Rory sai da casa dos avós de modo bem parecido com o que Lorelai fizera 20 anos antes, Emily sente de novo o peso do erro e da culpa. Ela sabe que só estava tentando fazer o que era melhor, e mesmo assim falhou — como mulher, como mãe e como avó. Tentar fazer o melhor não é sinônimo de fazer o certo, e é por isso que Emily erra. Muitas vezes. Ela é mesmo controladora, autoritária, elitista e manipuladora, mas acredito de verdade que sua intenção é sempre boa. Aprendemos com Emily uma poderosa lição de empatia, já que ela aprende a duras penas ao longo da série que aquilo que é melhor pra ela não necessariamente é o melhor pra todo mundo. Empatia não é fazer com os outros o que gostaríamos que fizessem conosco, mas sim se colocar no lugar do outro e fazer aquilo que ele gostaria.

A gente vê que a personagem se transforma quando ela resolve dar uma casa de presente pra Lorelai, que vai se casar com Luke. Ela sabe que a filha não vai querer uma festa de casamento extravagante, muito menos morar em Harford numa mansão como a que ela cresceu. Por isso, ela vai até Stars Hollow, lugar que Lorelai escolheu pra viver, procura uma casa na região que tenha a ver com o gosto da filha, leva em consideração suas peculiaridades, seus gostos, suas preferências – mesmo aquelas que ela não concorda ou não entende (todas, a começar pelo homem) – porque é isso que Lorelai quer, portanto é o melhor pra ela.

São momentos como esse que me fazem acreditar plenamente no bom caráter de Emily, longe da posição de antagonista que muita gente insiste em colocá-la. Isso, claro, aliado ao excelente texto de Amy Sherman-Palladino e a interpretação excepcional de Kelly Bishop, que me arranca as risadas mais gostosas e também as lágrimas mais sentidas. É por isso que odeio o Dean e amo a Emily. Dean nunca teve espaço para se desenvolver na série e o roteiro não perde tempo nem gasta suas sutilezas transformando-o em algo além de um cara ciumento, controlador e que adora falar alto. Parte de mim gosta da ironia que é ver os papéis se inverterem, onde uma mulher é falha, complexa e moralmente ambígua de um jeito interessante e positivo, enquanto o homem é simplesmente péssimo por falta de desenvolvimento.

Por que amamos Don Draper e odiamos a Emily? Essa é a pergunta que eu gostaria de fazer.  

Gilmore Girls: A Year In Life nos apresentará a uma Emily Gilmore até então inédita. Viúva, ela estará pela primeira vez enfrentando a realidade de existir como seu próprio sujeito essencial. O trailer dá todas as dicas: Emily questionará seu guarda-roupa e os móveis de sua casa, e vai ter a chance de descobrir como é viver sem ser a esposa — ou o Outro – de alguém. Chegou a hora de Emily Gilmore finalmente descobrir quem é.

Emily Gilmore

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9 Comentários

  • Responda
    Couth
    25 de novembro de 2016 at 11:31

    EU AMO A EMILY DEMAISSSSSS

  • Responda
    Iara Araujo
    27 de novembro de 2016 at 09:33

    Oi! Façam outro texto analisando a Rory no revival, por favor!

    • Responda
      Ana Luiza
      30 de novembro de 2016 at 15:44

      Oi, Iara! Está nos nossos planos 😀

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    Bruna
    28 de novembro de 2016 at 06:55

    Oi meninas!

    Achei que vocês fossem fazer um texto sobre a Lane também… 🙁

    • Responda
      Thay
      28 de novembro de 2016 at 10:46

      Não esquecemos da Lane, ela ainda está em nossos planos! =)

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    Monique Químbely
    10 de dezembro de 2016 at 00:26

    OBRIGADA por esse post, Anna. É sempre muito bom saber que não estou sozinha quanto a opiniões sobre seriados, sobre Gilmore Girls então nem se fala.
    Pra mim é tão simples amar Emily e odiar o Dean que se alguém viesse com uma pergunta dessa minha resposta sairia no nível feelings are the only facts. Sem contar que muita gente nem reconhece de verdade os problemas do Dean. De certa forma, assim como a Rory é tida como a garota perfeita, ele é o tempo inteiro pintado como bom moço não só pelo público mas pelos personagens. E isso me irrita, porque parece que as atitudes dele são tudo coisa de garoto apaixonado, o que só me faz odiá-lo mais. Emily tds veem os seus problemas e às vezes só eles, como a Lorelai muitas vezes faz por exemplo 🙁
    Assisti a série pela primeira vez antes do revival o qual terminei hoje, então tds os diálogos citados estão fresquinhos na minha mente <3

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    Le
    14 de janeiro de 2017 at 09:57

    Amei o texto! Não odeio o Dean tão pouco o amo mas amo realmente a Emilly 😍

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    Isabela
    14 de janeiro de 2017 at 11:55

    Olha, primeiro eu quero falar que concordo com a maioria de seus textos. Porém, sobre a Emily tenho alguns pontos a levantar. Ok, eu adoro gilmore girls, acho uma série que trata de assuntos importantíssimos com maestria e adoro o humor bem fundamentado de ritmo acelerado. Porém, não nego que a série cometeu vários erros, e que tinha potencial para ser muito mais do que foi. Entendo todos os pontos citados da Emily e concordo, porém discordo da parte que ” mas acredito de verdade que sua intenção é sempre boa.”. Emily possui valores extremamente errados, apesar de justificáveis por conta de seu meio, mas mesmo assim imperdoáveis na minha opinião. Tratar pessoas mal por elas serem mais pobres, como ocorre com o Luke, ou ridicularizar e maltratar empregadas (motivo principal pelo qual não gosto da Emily) são sinais sim de crueldade. Então, não gosto do Dean e nem da Emily, sim, inclusive, apesar do Dean ser um babacão, acredito que Emily por suas atitudes cruéis é ainda mais detestável.

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    Gabriela
    16 de janeiro de 2017 at 09:13

    Eu amo o Dean e amo a Emily, mas não amo nenhum dos dois o tempo todo.

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