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Crítica: The Crown e a solitária rainha Elizabeth

The Crown, a nova produção original da Netflix, foi vendida como a série mais cara já desenvolvida pelo serviço de streaming. Enquanto uma trama que promete contar histórias de pessoas reais – com o perdão do trocadilho – é fácil entender o motivo de custos tão elevados: a série encanta pela beleza grandiosa de seus cenários, pelo rigor de suas vestimentas e pela caracterização impecável dos atores escalados, tudo para nos transportar para uma época de turbulências políticas e sociais em um Império que acaba de sobreviver a uma extenuante grande guerra e ainda precisa lidar com outros tipos de agitações, inclusive a ascensão ao trono de uma jovem mulher, Elizabeth.

Aviso: este texto contém spoilers!

A série não enrola para começar a desenvolver seu enredo e logo no primeiro episódio somos convidados do casamento da então Princesa Elizabeth (Claire Foy) com Philip da Grécia e Dinamarca (Matt Smith), ainda no ano de 1947. Sabemos das aulas de História que casas reais são famosas por arranjarem casamentos de acordo com a melhor conveniência, mas aqui, entre Elizabeth e Philip, foi tudo realizado de comum acordo e por amor. Philip, ao se casar com Elizabeth, precisa abrir mão de todos os seus títulos e de sua posição como oficial da Marinha Britânica, além do fato, é claro, de aceitar estar sempre hierarquicamente abaixo de sua esposa. A princípio isso não parece um empecilho para o bom relacionamento do casal, mas com o desenrolar dos episódios começamos a perceber que ficar sempre em segundo plano acaba por deixar o príncipe consorte incomodado – o que faz com que seja praticamente impossível não lembrar da Rainha Victoria e seu príncipe consorte, Albert

O casamento de Elizabeth é apenas o primeiro estágio de mudança na vida da princesa. Com a saúde de seu pai, Rei George VI (Jared Harris), cada vez pior, é questão de tempo até que ela tenha que substituí-lo no trono. Embora Elizabeth seja a primeira filha, ela não cresceu com a intenção de, um dia, assumir a Coroa visto que, durante sua infância, o Rei era o irmão mais velho de seu pai, Edward VIII (Alex Jennings). Edward abdicou do trono para poder viver com a mulher que ama, divorciada, que, de acordo com as rígidas leis da Igreja Anglicana, jamais poderia se casar com alguém da realeza. Ao abdicar de sua posição, Edward coloca seu irmão mais novo no trono e a pequena Elizabeth, na época com 10 anos, entra na linha de sucessão para ser a próxima monarca.

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A fim de começar a introduzir a filha nos deveres do reino, o Rei George VI decide enviá-la, junto de Philiph, para uma longa viagem pelos territórios britânicos. O Rei, diagnosticado com câncer, vê seus dias chegarem ao fim mas precisa deixar Elizabeth a par de tudo o que acontece no reino. Dessa maneira, a Princesa parte em uma longa viagem que a deixará longe de casa e dos filhos, os pequenos Príncipe Charles e Princesa Anne, enquanto o pai tenta se restabelecer. Infelizmente o pior acontece e George VI falece enquanto Elizabeth está longe, fazendo com que ela tenha que retornar às pressas para a Inglaterra com o propósito de assumir seu lugar de direito.

E, ao guardar luto pelo seu pai, deve guardar luto por outra pessoa, Elizabeth Windsor, pois essa agora foi substituída por outra pessoa, Elizabeth Regina. Duas Elizabeths estarão frequentemente em conflito. O fato é, a Coroa deve ganhar. Deve sempre ganhar.

Com apenas 25 anos de idade, Elizabeth agora é a Rainha Elizabeth II da Inglaterra e sente logo de início o peso e o fardo que é usar a coroa. A série retratou de maneira delicada e poética esse interlúdio da vida da monarca, mostrando como ela teve pouco tempo para assimilar a perda de seu pai e sua ascensão ao trono. Em um instante Elizabeth e Philiph estão desfrutando da hospitalidade do Quênia para, no momento seguinte, a Princesa ser proclamada Rainha. Embora tenha sido instruída a vida inteira a respeito das leis britânicas e da constituição, Elizabeth sente-se pouco apta ou preparada para exercer a função. A Rainha precisa lidar com homens muito mais velhos e experientes do que ela e que, por diversas vezes, a tratam de maneira condescendente apenas por ela ser uma jovem mulher, ou seja, nada de novo sob o sol. Dentre a galeria de homens poderosos e políticos com os quais tem que lidar está, inclusive, o Primeiro Ministro Winston Churchill, interpretado maravilhosamente por John Lithgow

The Crown aposta muito na dualidade entre os políticos de carreira e a monarquia, enfatizando por diversas vezes a importância de cada uma das partes para a condução do, até então, Império Britânico. Winston Churchill já é um homem idoso, aproximando-se dos 80 anos de idade, e foi o responsável por liderar a Inglaterra na luta contra o nazismo, enquanto Elizabeth é jovem e carece de traquejo para lidar com as obrigações de sua posição. Churchill já é um homem calejado da vida pública e sabe manejar as pessoas conforme sua necessidade, utilizando-se de sua inteligência e sarcasmo afiado para fazer valer sua posição. Se, a princípio, ele vê uma Elizabeth crua e insegura, ao final dessa primeira temporada a enxergará como a Rainha forte e resoluta que conhecemos hoje em dia.

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É fato que estar em uma posição de poder exige muito mais da mulher do que do homem. A eles os erros sempre são perdoados, esquecidos ou ignorados, enquanto para elas é praticamente um decreto permanente de fracasso. Se isso ocorre no dia-a-dia, ou mesmo em Hollywood, o que dirá em uma instituição tão antiga quanto a monarquia britânica? Por essas e outras que Elizabeth está sempre atenta ao seu dever e faz o possível para ser a melhor Rainha para seu povo. Isso fica bem evidente, inclusive, em uma passagem muito simbólica em que ela solicita aulas particulares com um tutor. Moldada desde jovem para ser “bela, recatada e do lar”, Elizabeth sente que há um grande vazio em sua educação: como toda menina de uma casa real, Elizabeth aprendeu a bordar, a tocar piano, a ser bela e quieta, mas nunca tomou lições mais abrangentes ou básicas, educação a que todos deveriam ter acesso; em seu medo de não ser suficientemente inteligente para lidar com seus ministros e demais políticos que viesse a encontrar, Elizabeth procura por seus próprios esforços se instruir.

Nunca deixe que vejam que ostentar a Coroa é, muitas vezes, um fardo.

Em seus primeiros anos de reinado – a temporada de estréia de The Crown se propõe a cobrir os dez anos iniciais – todos parecem sentir que podem manipular Elizabeth da maneira como acham melhor. Considerando a relativa ingenuidade e inexperiência da Rainha, todos aos seu redor – do Primeiro Ministro, ao tio e ex-Rei Edward, até sua avó, Rainha Mary (Eileen Atkins) – pensam saber o que é melhor para ela. Elizabeth, no entanto, com diplomacia ímpar, consegue navegar por meio de interesses pessoais travestidos de conselhos e ainda faz todo mundo acreditar que os está aceitando. A Rainha pode ser jovem e inexperiente, mas possui a garra e fibra necessária para entrar na galeria das grandes rainhas britânicas – que é, como sabemos, fato consumado.

Ao mesmo tempo em que tem que lidar com suas obrigações de Rainha, Elizabeth também precisa manejar o marido. Desde que abriu mão de seus títulos e posição na Marinha Britânica, Philip parece se ressentir da esposa. Apesar de no início do relacionamento o príncipe consorte encarar a situação da melhor maneira possível, tudo muda de figura quando Elizabeth decide manter seu nome de família, Windsor, no lugar de adotar o sobrenome de Philip, Mountbatten, como nome da casa real presidida por ela.

Philip a acusa de retirar dele sua carreira, sua casa e seu nome quando se casou, mas ele sabia desde o princípio que seu dever, enquanto príncipe consorte, seria exatamente esse: estar lá para apoiá-la. Essa cena em especial me arrancou um risinho de escárnio pois, quando uma mulher se casa, em qualquer que seja a sociedade ou qualquer que seja seu status, é exatamente isso o que se espera dela: que abra mão de sua carreira em prol da nova família, que abandone sua casa e sobrenome, assumindo o do marido em retorno. Philip não encara essa perspectiva da maneira como seria esperado, suas ambições e machismo parecem ser maiores do que seu dever como príncipe consorte, e isso causa algumas turbulências no casamento com Elizabeth. A figura de Philip, na série, é caracterizada como um bon vivant, saindo para clubes de cavalheiros, voltando tarde para casa completamente bêbado. É difícil nutrir simpatia pelo príncipe consorte quando ele parece se esquecer completamente de suas obrigações, nutrindo mágoas fora de lugar.

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Outra situação que exige cuidado por parte de Elizabeth é o relacionamento entre sua irmã, Princesa Margaret (Vanessa Kirby) e o Capitão Peter Townsend (Ben Miles), antigo cavalariço do Rei George VI. Assim como aconteceu com Edward, Margaret se apaixona por um plebeu e encontra resistência por parte da família para prosseguir com o relacionamento. Como se não bastasse o fato de Townsend não ser de família nobre, ele é casado e pai de dois filhos. O relacionamento entre a Princesa e o cavalariço nasceu enquanto ele ainda estava casado e trabalhava no Castelo de Buckingham, mas só veio a público quando Townsend se divorciou. O empecilho enfrentado pelo casal é o mesmo pelo qual o antigo Rei passou: para se casar com um homem divorciado, a Princesa Margaret, como não conseguiu o apoio dos parlamentares, precisaria abdicar de seu título e privilégios. Como se não bastasse isso, Elizabeth, na posição de Rainha e chefe não só da monarquia como da Igreja Anglicana, fica dividida entre fazer o que é melhor para sua família e o que é melhor para a Coroa.

Essa não foi a primeira vez – e certamente não será a última – em que Elizabeth precisou ponderar a respeito de seus deveres enquanto Rainha, colocando na balança as várias mulheres que existem dentro dela. A trama a situa questionando sua posição no mundo por diversas vezes, tentando encontrar um equilíbrio entre todos os papéis que precisa cumprir. A questão sobre como conciliar a mulher que ela é, a mãe, a irmã, a esposa e a Rainha estão muito presentes nesses primeiros anos de reinado, fazendo com que Elizabeth se questione por diversas vezes a respeito de como deve proceder. E além de todas essas dúvidas e de ter que lidar com o mundo predominantemente masculino, Elizabeth ainda tem que suportar o julgamento de todos que pensam serem melhores do que ela para a posição que ocupa.

Eu sei que estou cercada de pessoas que acham que poderiam fazer melhor. Mas, para o bem ou para o mal, a coroa pousou na minha cabeça.

The Crown consegue navegar entre diferentes tramas, nos mostrando um pouco da rotina repleta de regras do Palácio, os trabalhos do Primeiro Ministro e um pouco da intimidade de seus personagens. Podemos acompanhar os primeiros vestígios de como a mídia se torna obsessiva com relação a vida pessoal da realeza – há, por exemplo, uma perseguição de carros em que jornalistas e fotógrafos assediam a Princesa Margaret e o Capitão  Townsend. Para mim, pelo menos, foi impossível não relacionar o fato com a morte da Princesa de Gales, Diana, em 1997 após uma perseguição de carro por Paris. O fato é que a realeza tem uma mística que encanta as pessoas – o que é até mesmo apontado pela série – e todos ficam de olho esperando pelos próximos passos dessas pessoas que, tirando o manto, o cetro e a coroa, são tão humanos quanto qualquer um de nós.

Fato é que portar a Coroa é uma função solitária. Embora Elizabeth possa contar com conselheiros e familiares, o fardo estará sempre sobre seus ombros, a decisão será sempre dela. A série da Netflix foi ótima em demonstrar esse lado difícil da monarquia, como encarar as obrigações e conflitos pode ser desgastante. Certamente há o glamour dos bailes, jóias e vestidos, mas tudo isso aparece apenas como um paliativo para um dos cargos mais difíceis de se ocupar.

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Esqueça Elizabeth Windsor. Agora é apenas Elizabeth Regina.

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11 Comentários

  • Responda
    Elisa
    11 de novembro de 2016 at 19:52

    Nossa, linda critica, falou tudo oq eu senti!
    Com certeza essa foi a série mais linda que eu ja vi, em todos os quesitos. Chorei logo nos primeiros capítulos e estou mto anciosa para a próxima temporada!

    • Responda
      Thay
      11 de novembro de 2016 at 20:44

      Obrigada, Elisa!
      ‘The Crown’ me conquistou totalmente, é uma série cuja trama vai um pouco além do que estamos acostumadas quando o assunto é realeza, né? Não é só um mar de rosas com bailes e tiaras, tem muita pressão envolvida. Pena é ter que esperar um longo ano até a segunda temporada. 🙁

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    Maria de Fátima de Alvarenga Falieri
    14 de janeiro de 2017 at 17:29

    Acabei de assistir The Crown e, amei. Fiquei encantada de como foi contada a trama, o figurino, as paisagens, as locações dos cenários e, principalmente os atores.
    Grande série, vou ficar esperando ansiosa a próxima temporada.

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      Thay
      15 de janeiro de 2017 at 10:58

      A série é ótima e muito bem feita, é mesmo de encantar!

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    Mari
    11 de março de 2017 at 18:09

    Amei demais essa série… linda, maravilhosa e emocionante *-* E, se me recordo bem, o nome do episódio em que Elizabeth é coroada é “ilusão”. Tenho que ver tudo de novo, antes da estréia da próxima temporada! =)

    Parabéns pela crítica. Melhor que já li sobre a série. s2

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      Thay
      11 de março de 2017 at 21:18

      Nossa, obrigada Mari!
      Amei muito ‘The Crown’, (acho que dá pra notar pela crítica) e estou pensando seriamente em fazer outra maratona antes da 2ª temporada!

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    EDUARDO FREITAS MARTINS
    12 de março de 2017 at 01:35

    Pelo menos pra mim, de longe a cena mais tocante foi quando a Rainha Mary cortejou a neta como Rainha.

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    Malu
    13 de março de 2017 at 16:26

    Adorei a série. É impressionante a semelhança da real princesa Margareth com a atriz escolhida.

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      Thay
      13 de março de 2017 at 19:37

      ‘The Crown’ tem um elenco incrível, o pessoal da escalação de atores fez um ótimo trabalho!

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    TAYLANA SANTOS
    17 de março de 2017 at 10:20

    Oi Thay! Sou a Tay rsrs adorei sua crítica, muito bem exposta! Amei a série e já estou aguardando a próxima temporada.

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      Thay
      17 de março de 2017 at 11:16

      Oi Tay! (:
      Obrigada pelo comentário! As expectativas estão altas para a próxima temporada, espero que a Netflix não nos decepcione!

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