CINEMA

Crítica: Estrelas Além do Tempo

Algumas histórias nos emocionam e nos tocam de maneira muito especial. Algumas histórias fazem com que a gente se identifique com seus protagonistas, em um nível nunca antes imaginado; que nos coloquemos em seus lugares e fiquemos a pensar em como deve ter sido viver tudo aquilo. Algumas histórias ganham nossos corações enquanto outras nos enchem de emoção. Talvez por isso o cinema seja uma indústria tão avassaladora: por um par de horas somos transportados para outra realidade, outro momento da história, outras lutas. Estrelas Além do Tempo é um desses filmes que nos faz sentir todas essas coisas e além, como amor, carinho, tristeza, orgulho. As autoras dessa crítica são meninas brancas que não fazem a menor ideia do que é sofrer racismo ou ser julgada pela cor de sua pele, são meras telespectadoras de uma história que não vivenciaram nem vivenciarão, mas que se viram totalmente emocionadas e verdadeiramente encantadas com a trajetória dessas figuras escondidas na História.

A segregação racial é um capítulo da história dos Estados Unidos que vem reverberando até hoje. Com início logo após o encerramento da Guerra Civil, relaciona-se à segregação baseada em discriminação racial, separando negros de brancos no uso de instalações públicas e privadas, cerceando as oportunidades de moradia, acesso a cuidados médicos e do impedimento da obtenção de educação de qualidade e bons empregos. Os assentos no transporte coletivo eram separados – aos negros eram reservados os assentos do fundo dos ônibus, por exemplo –, havia instalações sanitárias para pessoas brancas e pessoas de cor, e até mesmo o matrimônio entre pessoas brancas e negras era impedido por meio da Lei da Integridade Racial.

Todas essas leis e comportamentos preconceituosos encontram sua origem no passado escravocrata dos Estados Unidos: no século XIX os estados do norte do país se opunham veementemente a escravidão, o que despertava a ira dos grandes governantes sulistas que ameaçavam retirar seus estados da União se o direito de possuir escravos fosse desrespeitado. Após uma sangrenta luta armada que ficou conhecida como a já citada Guerra Civil, os estados do sul, derrotados, decidiram impedir que os negros, não mais escravos, tivessem seus direitos civis e políticos reconhecidos, sempre trabalhando para que permanecessem socialmente inferiores. Organizações como a Ku Klux Klan trabalhavam para disseminar o terror entre a população negra enquanto figuras da lei como juízes, prefeitos e chefes de polícia, atuavam de maneira conjunta a fim de impedir que os negros conseguissem ascender socialmente.

Foi apenas a partir de meados de 1960 que o quadro começou a mudar, quando pequenas faíscas de resistência passaram a estourar por todos os cantos dos Estados Unidos – desde o protesto solitário da costureira Rosa Parks que se recusou a ceder seu lugar a um homem branco em um ônibus de Montgomery, no Alabama, o que impulsionou o boicote aos ônibus da cidade e, consequentemente, o Movimento dos Direitos Civis da população negra que começava a ganhar as ruas das cidades do sul sob o símbolo do jovem Martin Luther King; à Suprema Corte dos Estados Unidos que declarou inconstitucional a segregação racial nas escolas públicas do país. Contudo, mesmo com a decisão da Suprema Corte e o apoio do então presidente John F. Kennedy, muitos locais, especialmente em estados do sul dos Estados Unidos, se recusaram a acatar a decisão, empilhando obstáculos na trajetória de pessoas que clamavam por direitos tão básicos quanto o acesso à educação. É durante esse período conturbado – e mais do que necessário – da história norte-americana que somos apresentados às três protagonistas de Estrelas Além do TempoKatherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe); mulheres inteligentes, determinadas e multifacetadas que, embora tenham traçado jornadas muito distintas, compartilharam a realidade de uma sociedade racista que as negava condições e direitos básicos de vida e trabalho.

O filme é ambientado em 1961, um ano de mudanças intensas e eventos históricos que marcaram não apenas de maneira permanente a história dos norte-americanos, mas também do mundo. A construção do Muro de Berlim, um símbolo concreto da barreira política e ideológica imposta por norte-americanos e soviéticos após a Segunda Guerra Mundial, deu início ao período em que a Guerra Fria se aproximava do seu ápice. Foi o mesmo ano em que John F. Kennedy chegou à Casa Branca, que os Estados Unidos cortaram relações com Cuba, e que a Corrida Espacial ganhou força e se tornou uma concreta realidade com a chegada do primeiro homem ao espaço – o russo Yuri Gagarin. Katherine, Dorothy e Mary assistiram a todos esses eventos de perto, e não apenas porque viveram essa época, mas porque trabalhavam na NASA como mentes proeminentes das ciências exatas, ainda que a segregação racial as colocasse em alas exclusivas para pessoas de cor – o que, ironicamente, acontecia em uma organização que tinha como lema “For the Benefit of All” [Para o Benefício de Todos]. Dentro da NASA, no entanto, a realidade era radicalmente diferente: negros continuavam a ter um espaço limitado, ocupar posições inferiores e receber salários que não condiziam com suas funções; enquanto homens brancos recebiam o crédito por trabalhos que, muitas vezes, não eram seus – ao menos, não inteiramente.

Katherine, Dorothy e Mary, por sua vez, encontravam-se em uma posição de dupla vulnerabilidade: por serem mulheres e por serem negras – uma opressão infinitamente maior e mais dura, e que precisa ser reconhecida, admitida. Elas tiveram uma participação ativa e crucial na corrida pelo espaço, visto que Katherine era excepcional com cálculos de geometria analítica, Dorothy foi visionária em se adiantar no aprendizado autodidata do sistema FORTRAN do novo computador da IBM – tecnologia tão inovadora que ninguém no departamento sabia operá-lo –, e Mary tinha grande aptidão para engenharia, embora ainda fosse impedida de exercer a profissão, uma vez que os cursos requeridos pela NASA como qualificação obrigatória não aceitavam negros em suas salas de aula. Mas eram essas mesmas mulheres de talento inegável, que precisavam provar a si mesmas em tempo integral: no ambiente de trabalho, é claro, mas também em sua própria comunidade, quando homens questionavam sua aptidão para realizar um trabalho tão complexo e geralmente tidos como masculinos.

Após a Segunda Guerra Mundial, muitas mulheres retornaram às antigas tarefas domésticas e deu-se início ao período que ficou conhecido como baby boom: quando a taxa natalidade de países como Estados Unidos, Inglaterra e França cresceu de forma abrupta. De repente, mulheres que exerceram papéis fundamentais durante a guerra passaram a reservar-se novamente às atividades do lar e ao cuidado dos filhos, uma consequência da redefinição de valores ocorridas nessa mesma época. Quando trabalhavam, essas mesmas mulheres exerciam funções muito específicas, quase sempre ligadas ao cuidado e serviço daqueles que realizavam o trabalho de verdade – no caso, os homens – e que remetiam à atividades domésticas, tal qual atender telefonemas, anotar pedidos de almoço, servir café, organizar a agenda de seus chefes, etc. A ciência, por sua vez, sempre foi um ambiente tido como masculino, embora muitas mulheres tenham sido fundamentais para os avanços e descobertas ocorridos ao longo do tempo.

É por isso que, além dos obstáculos impostos por uma sociedade racista, Katherine, Mary e Dorothy precisavam atravessar as barreiras da misoginia em um ambiente onde a grade de funcionários era quase exclusivamente composta por homens brancos, que silenciavam sistematicamente cada uma dessas mulheres e tentavam a todo custo mantê-las longe das posições que elas verdadeiramente mereciam ocupar. Em determinado momento do filme, Mary é questionada pelo seu superior – um homem judeu, que perdera os pais durante a Segunda Guerra Mundial – sobre o fato de ainda não ser uma engenheira, ao que ela responde que, se fosse um homem branco, já o seria: uma verdade tão dura quanto a sutileza com a qual a personagem traz à tona o privilégio dos homens brancos ao seu redor. É esse mesmo privilégio que faz com que Mary precise não só enfrentar o fato de ser uma mulher em um ambiente predominantemente masculino, mas principalmente bater de frente com a segregação racial e as leis descriminadoras da Virgínia que a impediam ter acesso a uma faculdade e ao curso de engenharia em sua cidade – uma luta que, embora fosse individual, era também um ato político.

Ao mesmo tempo, Dorothy buscava a ascensão em seu meio de trabalho. Conhecida por liderar, embora sem o devido reconhecimento, o grupo de computadores da NASA – um grupo de mulheres negras que faziam inúmeros cálculos –, Vaughan viu seu emprego e o de suas colegas ameaçados com a chegada do grande computador da IBM, que resolvia cálculos em ritmo inimaginável à época e punha em risco toda a classe de computadores. Além do seu tempo, Dorothy procurou então ler e aprender a linguagem utilizada pelo sistema, e, assim que a dominou, fez questão de ensinar o mesmo às suas colegas. Isso, a longo prazo, conferiria a essas mulheres a segurança do emprego: Dorothy Vaughan e suas colegas tornar-se-iam as principais operadoras do sistema de cálculo, pois ainda que a máquina fizesse o trabalho pesado, alguém ainda teria que opera-lá. Esse arco da história, interpretado pela grandiosa Octavia Spencer, rendeu-lhe uma indicação de melhor atriz coadjuvante.

Katherine, por sua vez, trabalha no mesmo grupo de Dorothy, até ser selecionada para auxiliar a equipe responsável pela corrida espacial. O grupo necessita da melhor mente para cálculos analíticos, e Katherine desde pequena demonstra afeição pelo mundo dos números. Sendo uma mulher negra em um ambiente majoritariamente masculino e branco, a protagonista é desdenhada desde o primeiro momento, vindo a sofrer ataques racistas e sexistas. Em uma emblemática cena, Katherine, ao buscar café, se depara com um bule etiquetado para pessoas “de cor”, o que significaria que só dali poderia beber seu café – antes disso, havia apenas uma cafeteira e da primeira vez que ela tirou café de lá – a cafeteira “dos brancos” – seus colegas haviam ficado visivelmente incomodados. Ninguém se acusa, é claro, o que piora a situação. Como diria Elie Wiesel, um escritor judeu que sobreviveu aos campos nazistas: “Neutralidade ajuda o opressor, nunca o oprimido. Silêncio encoraja o tormentador, nunca a vítima”. A neutralidade e o silêncio dos seus colegas não demonstra que eles não sabem o que havia acontecido, muito pelo contrário, eles sabem e, de forma tácita, concordam com a situação. Não bastasse isso, no filme, todas as vezes que precisa ir ao banheiro, Katherine precisa correr uma milha até o banheiro designado para pessoas “de cor”, o que evidencia a segregação até mesmo na NASA. É uma cena que, pela trilha sonora aplicada, parece um alívio cômico, mas que passa muito longe disso. Carregando seu trabalho do dia, ela precisa correr entre os prédios de salto simplesmente para se aliviar, o que para qualquer pessoa seria uma situação de dor e constrangimento. Ela passa por essas opressões em prol de obedecer às regras absurdas do estado em que vive, ainda que sua mente seja intelectualmente superior a de seus colegas. Além disso, a protagonista não só precisa se provar em meio ao seu trabalho, mas também em sua vida privada. Em uma interação com o coronel Jim Johnson (Mahershala Ali), que mais tarde se tornaria o par romântico de Katherine, ele deixa escapar o estranhamento – sexismo – que sente ao ver uma mulher negra trabalhando na NASA, ao que Katherine responde: “And yes, they let women do things at NASA and not because we wear skirts, but because we wear glasses!” [“Sim, eles deixam mulheres fazerem coisas na NASA e não é porque usamos saias, mas porque usamos óculos!”]

Entrelaçando as histórias dessas três mulheres nós conseguimos vislumbrar um pouco das diferentes formas de opressão a que foram submetidas durante toda a vida. Desde o policial, no comecinho do filme, que suspeita das três ao abordá-las em uma rodovia, com o carro quebrado e paradas no acostamento; aos colegas de trabalho que não escondem o sentimento de superioridade para com elas, principalmente na figura do arrogante engenheiro Paul Stafford (Jim Parsons), que impede que Katherine tenha acesso a informações que ela precisa para dar prosseguimento aos seus cálculos, e de Vivian Mitchell (Kirsten Dunst) e seu racismo cordial e velado, quase como aquela velha história do “não sou racista, mas”. Ambos os personagens personificam a figura do típico branco que se acha superior sem motivo algum a não ser aquilo que aprenderam em sociedade desde crianças – o que, de maneira alguma, abona suas ações.

Estrelas Além do Tempo se destaca como um filme emblemático e importante não apenas por promover o resgate da memória de mulheres incríveis e escondidas – e nesse quesito, o título original, Hidden Figures, soa ainda mais impactante – mas como um filme em que mulheres negras são o foco total e completo da história. Em Americanah, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie escreve sobre a importância da figura de Michelle Obama, e como ela foi fundamental para que mulheres negras passassem a se sentir representadas, como isso influenciou a cultura pop. Finalmente, aquelas mulheres tiveram a oportunidade de ver alguém como elas exercer o papel de primeira-dama, a protagonista, e viver uma história de amor e construir uma família feliz ao lado do homem mais poderoso do país. Talvez, pela primeira vez em bastante tempo, essas mulheres viram uma oportunidade real de se tornarem as estrelas, e não mais se contentar com os estereótipos que as limitavam e desumanizavam de forma cruel – algo que Estrelas Além do Tempo também faz, e faz maravilhosamente bem. Katherine, Dorothy e Mary não são tratadas como personagens estereotipadas ou coadjuvantes da protagonista branca: elas são pessoas completas e multifacetadas, com diferentes papéis a empenhar dentro da narrativa e da sociedade em que estão inseridas, e traços de personalidade e histórias muito distintas. São mulheres profissionais, que trabalham e estudam; são mães, esposas e filhas. São mulheres que se apaixonam, que se frustram, brigam, mas que também se divertem com as próprias amigas e que amam suas famílias. Toda a história de Estrelas Além do Tempo é trabalhada de maneira a destacar as trajetórias de Katherine, Mary e Dorothy, cada uma delas com caminhos distintos a traçar e diferentes obstáculos a remover – e isso é o que torna o filme tão querido e especial, principalmente para as mulheres negras que podem, finalmente, se ver representadas por meio de personagens tão inteligentes, fortes e decididas.

O tom relativamente leve e positivo da narrativa do filme não busca maquiar a dura realidade de ser uma mulher negra na Virgínia dos anos 1960, e isso fica visível em diferentes cenas no decorrer do longa como quando, por exemplo, Dorothy está na biblioteca com os filhos e não pode pegar livros de determinadas prateleiras por serem apenas para brancos; quando Mary precisa recorrer à justiça para conseguir, finalmente, estudar engenharia em uma escola apenas para brancos; ou quando Katherine precisa se deslocar várias vezes ao dias, por uma distância absurda, apenas para usar o banheiro das pessoas de cor. Embora, como dissemos logo no início dessa crítica, sejamos meninas brancas e em outro contexto de tempo e espaço, é impossível não se emocionar com a trajetória dessas mulheres – e chorar com elas, rir com elas, e torcer e vibrar por cada uma das conquistas delas.

Estrelas Além do Tempo é um filme importante e em diferentes esferas de narrativa: há a questão racial, a questão dos direitos civis, do sexismo, da representatividade e, por que não, do feminismo. É um filme que, com delicadeza e sensibilidade, consegue levantar questões que ainda estão em voga, que ainda se fazem tão necessárias e importantes de serem debatidas; que mostra que essas mulheres estiveram presentes o tempo todo, cumprindo seu papel tão arduamente quanto qualquer pessoa ali, em tempos em que a disputa pela liderança exercia uma grande pressão nos Estados Unidos e era sentida em maior grau pelas pessoas que trabalhavam para as conquistas espaciais acontecerem. O filme, que em momento algum faz uso de grandes reviravoltas e é inegavelmente um feel good movie [filme para sentir-se bem], consegue agradar ao mesmo tempo em que cutuca feridas ainda muito abertas da história estadunidense – e do racismo em geral. Em meio a momentos descontraídos, a realidade dura do racismo é jogada na telona, o que deve deixar desconfortável aqueles que têm teto de vidro – ainda bem.

Estrelas Além do Tempo recebeu 3 indicações ao Oscar, na categoria de: Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer), Melhor Roteiro Adaptado (Allison Schroeder e Theodore Melfi). 

Crítica escrita em parceria por Ana C. VieiraAna LuízaThay e Yuu.

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2 Comentários

  • Responda
    Andrei Aibel
    20 de fevereiro de 2017 at 16:56

    Esse filme é tão bom que quando saí do cinema, falei pra Ana que no dia que saísse a review, ia aparecer aqui pra declarar todo meu amor.
    Cá estou. Esse filme é sensacional, por infinitos motivos. Merece o Oscar de olhos fechados.

    • Responda
      Thay
      20 de fevereiro de 2017 at 20:26

      E não é? Também é meu favorito dessa leva do Oscar: consegue tratar de questões super importantes de uma maneira delicada, com atrizes mega competentes e uma história inspiradora. <3

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