CINEMA

Crítica: Dolores, os amores são o que menos importa

Dolores

Passada nos primeiros anos da década de 40, a obra dirigida pelo argentino Juan Dickinson conta a história de Dolores (Emilia Attías), uma mulher argentina filha de pais escoceses que vive na Europa por muitos anos até que, depois de receber a notícia da morte da irmã, resolve voltar ao seu país de origem sob o pretexto de fugir da Segunda Guerra Mundial. Na verdade, o interesse principal de Dolores é estar perto do cunhado, Jack Hillary (Guillermo Pfening), por quem era apaixonada durante a adolescência.

Aviso: este texto contém spoilers!

Chegando na fazenda da família, onde Jack vive com o filho (interpretado pelos gêmeos Felipe e Mateo Flossdorf) e sua irmã (Mara Bestelli), Dolores se depara com um estado de total decadência. Afundado em dívidas, Jack mal sai do quarto durante o dia e passa as noites bebendo no clube, enquanto a fazenda se deteriora. É ela quem assume o controle da situação para colocar tudo em ordem. Ocupando o lugar que antes pertencia à irmã, ela passa a cuidar do sobrinho Harry junto com Flory (a irmã de Jack), organizar as contas e os negócios da família e trazer Jack de volta ao convívio familiar.

O que vemos em Dolores é uma personagem principal proativa e decidida, que incorpora diversas características tipicamente consagradas no imaginário popular ao sexo masculino. Dolores é uma mulher independente exótica, profissional, estudada que passou muitos anos morando no exterior e não se encaixa exatamente no cenário da fazenda, nem no estereótipo feminino clássico. Essa energia ativa e cosmopolita se transfere eventualmente para o figurino. Seu guarda roupa sofisticado e chamativo contrasta com o de Flory, simples e discreto. Dolores é vista frequentemente usando calças em cena – peça que não fazia tradicionalmente parte do vestiário feminino da época, apesar de começar a ser adotada por sua praticidade e conforto ideais para o trabalho na fábrica e no campo – como forma de enfatizar os traços “masculinos” da personalidade.

Dolores

É evidente o prazer que Dolores tem em assumir o controle das situações, ocupar posições de liderança e mandar. Esses traços não eram, e até hoje se pode dizer que ainda não são, parte da posição esperada da mulher na sociedade. Apesar disso, não são características incomuns de mulheres específicas dentro de diversas obras – mulheres essas que se destacam da massa uniforme formada por todas as outras mulheres. Esses traços podem eventualmente ser admitidos em mulheres isoladas, que superam expectativas e, ainda que de forma sutil, transcendem ligeiramente o seu sexo, mas eles nunca são admitidos de forma generalizada, como traços possíveis a mulheres no geral.

Ao “seduzir” ativamente o cunhado, Dolores também ocupa uma posição dúbia. Se, por um lado, nós mulheres somos socializadas para ser passivas e “atrair a presa”, e nunca ir até ela; por outro, ainda existe sobre nós o mito da mulher sedutora e traiçoeira, herdeira de Eva, que está determinada a levar o homem para o pecado. Dolores de certa forma escapa do estereótipo ao ocupar um papel ativo na conquista, mas se prende a ele por um outro viés, atuando no papel de “corruptora”.

É interessante ressaltar que, apesar de toda a aura transgressora que cerca Dolores, ela não se afasta das obrigações da feminilidade. Mesmo as características masculinas incorporadas no figurino e na personalidade da personagem são revestidos de uma roupagem marcadamente feminina. A Dolores certamente desafia a concepção tradicional do papel da mulher na sociedade, mas ainda assim não chega perto de subverter o papel de gênero, no que podemos ver claramente a preocupação do cinema de se manter atualizado com a sociedade, mas sem desafiar realmente o status quo.

Dolores

O outro lado da moeda da personalidade “agressiva” de Dolores é sua relação com Octavio Brand (Roberto Birindelli), o viúvo descendente de alemães dono da fazenda vizinha. Se no relacionamento com Jack a protagonista ocupa o papel ativo, com Octavio ela volta ao papel passivo feminino tradicional. É ele quem toma a iniciativa em todas as etapas, ainda que Dolores nunca ocupe o lugar meramente acessório. Os dois relacionamentos formam contrapontos claros entre si.

Apesar de tudo, eu não acredito que o slogan escolhido – “uma mulher, dois amores” – tenha sido muito apropriado. Sim, Dolores é uma mulher e durante o filme ela vive dois “amores”, mas os relacionamentos românticos estão longe de ser o elemento mais importante da história.

Estamos acostumadas a considerar que as maiores e mais importantes histórias que uma mulher pode viver na vida e na ficção são as grandes histórias de amor. Que a mulher se realiza no casamento e na família e que isso vai necessariamente ser o ápice das nossas vidas. Dolores é formada em contabilidade, morou sozinha na Europa por anos, administra a fazenda, gerencia os negócios, tira a família do buraco, cuida do sobrinho carente, além de saber se impor e tomar o controle das mais variadas situações. Ela não é só e nem principalmente uma mulher com dois amores, ela é muito mais – e o final surpreendente comprova isso muito bem.

Dolores estreia nos cinemas brasileiros dia 30 de março de 2017.

Dolores

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2 Comentários

  • Responda
    Carol Vidal
    22 de março de 2017 at 17:36

    A história parece bem interessante. Vou querer conferir no cinema!

    • Responda
      Paloma
      7 de abril de 2017 at 16:15

      É nó mínimo curiosa, realmente!

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