CINEMA

Brooklyn: Para além do triângulo amoroso

Recentemente, assisti Brooklyn (2015) pela segunda vez, um dos meus filmes favoritos da temporada de premiações deste ano. Ele conta a história de Eilis (Saoirse Ronan), uma jovem irlandesa que migra sozinha para os Estados Unidos nos anos 50, deixando para trás família, amigos e toda a vida que conhecia até então, em busca de um futuro melhor – um futuro que não pode ser comprado, como bem lembra sua irmã mais velha, Rose (Fiona Glascott), logo nos primeiros minutos de filme.

A partir daí acompanhamos de perto a jornada Eilis enfrentando não só os dramas que envolvem uma mudança tão radical – a dificuldade em se adaptar, a saudade constante de casa, a perspectiva de nunca mais ver alguém que se ama, a insegurança, etc –, mas as dificuldades de uma jovem que está se descobrindo e assumindo, talvez pela primeira vez, as rédeas da própria vida.

Esse, aliás, foi um dos motivos que fizeram com que eu me identificasse tão profundamente com o filme. Ele traz à tona questões que fazem parte da vida de qualquer pessoa e faz perguntas que muitas vezes não conseguimos responder. O que você quer? Quais são os seus sonhos? Você estaria disposto a abrir mão de qualquer coisa para correr atrás deles? Qual o preço a ser pago pelo futuro que desejamos? É um filme delicado e extremamente sensível, que me fez – e continua fazendo – pensar muito na vida, na minha vida: escolhas, oportunidades e amadurecimento inclusos no pacote.

No entanto, tenho notado uma certa tendência em que as pessoas tratam Brooklyn como o filme pouco relevante sobre uma jovem irlandesa que se vê dividida entre dois amores, e que só foi indicada ao Oscar para cumprir cota. Tenho lido bastante sobre ele desde fevereiro, quando assisti pela primeira vez, e é inacreditável como a maior parte das críticas e comentários se apegam ao romance – que é, sim, uma parte importante da trama, mas que não é a única, muito menos a mais importante.

Isso me fez pensar muito em algo que escuto frequentemente quando se fala em histórias protagonizadas por mulheres – seja no cinema, na literatura ou na televisão: a ideia de que histórias centradas nos dramas femininos são “coisa de mulherzinha” – algo fútil, inferior e vazio, uma coisa bobinha pra se passar o tempo.

Sabe-se que a indústria cinematográfica (e do entretenimento, de um modo geral) é um universo predominantemente masculino e isso, obviamente, é refletido de várias formas, incluindo não só a representação equivocada da mulher no cinema, mas a validade de uma obra de acordo com o papel da mulher dentro dela. Não por acaso, temáticas vistas como “femininas” (família ou o amor, por exemplo) costumam ser encaradas com menos seriedade, enquanto gêneros tidos como “masculinos” (guerra, super-heróis, policial, etc etc) são vistos como algo importante, grande, essencial.

O mesmo acontece quando homens decidem mostrar sua perspectiva diante das tais temáticas “femininas” e são imediatamente elevados ao posto de gênio. Um exemplo clássico é o diretor Woody Allen, que é considerado um dos mestres do cinema ainda que frequentemente fale sobre o amor e a vida, de um modo geral. Não digo que o que ele faz não é válido, muito pelo contrário, mas percebem o sexismo presente aí? Uma mulher falando de amor é bobinho, fútil, mas quando um homem resolve falar, aí sim todo mundo para e fica em silêncio, afinal estamos vendo uma representação válida, importante e profunda sobre o tema. Por outro lado, uma mulher que faz o caminho contrário e passa a protagonizar (ou escrever) histórias sobre super-heróis, guerras ou qualquer outra temática vista como “masculina”, é imediatamente posta como fraude. Tira essa mina daí, não tem nada a ver, etc etc. Ou seja, existe sim uma resistência e existe sim um duplo padrão.

Ainda que não seja dirigido nem escrito por uma mulher (ele foi dirigido pelo John Crowley e o roteiro é assinado pelo Nick Hornby), Brooklyn cai no estereótipo do “filme de mulherzinha” – pouco relevante, bobinho, que só serve pra passar o tempo – porque mostra, de forma delicada e muito honesta, a vida de uma mulher: suas escolhas, amores, conflitos e indecisões, mesmo que tudo isso não esteja ligado ao gênero, mas à jornada que trilhamos, homens e mulheres, enquanto seres humanos.

É por isso que, embora o romance seja um ponto importante da trama, ele jamais poderia ser considerado o único, muito menos o mais importante. Eilis está, acima de tudo, trilhando seu próprio caminho e fazendo escolhas que vão refletir no seu futuro, e nesse sentido, ter um homem ao seu lado é um mero detalhe. Porque ficar na Irlanda não significa estar com Jim Farrell (Domhnall Gleeson) e voltar para os Estados Unidos não significa ficar com Anthony Fiorello (Emory Cohen). A pergunta chave não é com quem ela vai ficar, mas sim onde ela vai ficar, e é incrível como toda a perspectiva do filme muda quando nos damos conta disso.

O conflito aqui é causado porque, de repente, Eilis se vê com mais oportunidades do que quando foi embora pela primeira vez, e é natural que ela coloque tudo numa balança antes de tomar sua decisão. Particularmente, me aborreceu um bocado vê-la considerar uma volta para a Irlanda – um lugar que, até então, nunca tinha valorizado seu potencial –, mas eu consigo entender seus motivos, eu consigo enxergar que voltar não é sinônimo de fracasso, muito menos de fraqueza, especialmente depois de um episódio tão dramático, e que ficar perto da família e de tudo aquilo que já é conhecido, confortável, significa muito. De novo, estamos falando sobre amadurecimento, sobre escolhas, sobre uma mulher trilhando seu próprio caminho, tentando fazer o melhor com aquilo que tem e aceitando que suas escolhas terão consequências, que a angústia e o sofrimento são inevitáveis, mas que podemos aprender com tudo isso.

Deduzir que Brooklyn é o filme sobre uma mulher que não consegue decidir entre dois amores é a saída fácil de quem supõe que a vida de uma mulher gira em torno de seus romances, quando na verdade existe um iceberg inteiro – enorme, complexo e maravilhoso – esperando para ser explorado. Eilis, assim como muitas de nós, está em busca de oportunidades que a façam crescer à altura do próprio potencial, abrindo mão de algumas coisas, respondendo perguntas difíceis demais, e consequentemente encontrando seu lugar no mundo. Ela está construindo algo só seu – único e precioso –, quebrando a cara no caminho, é claro, mas levantando para contar essa história, e é uma pena que mais gente não consiga enxergar a importância de tudo isso.

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1 Comentário

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    Deise
    30 de maio de 2016 at 17:53

    Exatamente! Escrevi sobre Brooklyn e se fosse pra me basear só no conflito amoroso, achei que o filme deixou a desejar (em termos de construção de personagens e relações. O personagem de Dumnhall Gleeson, por exemplo, nós mal chegamos a conhecer), maaaaaas não me importei com isso e gostei do filme justamente porque pra mim isso não foi o mais interessante ou essencial. Legal mesmo foi ver a trajetória da protagonista, seu amadurecimento e desenvolvimento, assisti-la tomar as rédeas de sua vida e fazer suas próprias escolhas. E achei que o filme fez isso de forma bem tocante e sensível, com um resultado final empoderador.

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