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Brooklyn: para além do triângulo amoroso

Dentre os muitos candidatos da temporada de premiação de 2016, Brooklyn talvez seja meu favorito. Centralizado na trajetória de Eilis (Saoirse Ronan), uma jovem irlandesa que migra sozinha para os Estados Unidos, o filme teve uma passagem modesta pelas principais premiações do cinema norte-americano (ao contrário das premiações europeias, onde alcançou maior reconhecimento), mas isso não é realmente importante.

Mais do que uma história sobre imigração, Brooklyn é, também, um filme sobre crescimento pessoal: ao mudar-se para outro país, Eilis não apenas precisa lidar com a dificuldade em se adaptar a um lugar que não conhece, a saudade constante de casa e a perspectiva de nunca mais voltar para sua terra natal, como também precisa assumir as rédeas da própria vida — o que, consequentemente, a leva a descobrir mais sobre si mesma, sobre a pessoa que está se tornando e sobre a mulher que quer ser. Como o livro no qual é baseado, Brooklyn trabalha questões muito humanas e inegavelmente complexas, e para as quais nem sempre há uma resposta definitiva. O que você quer? Quais são os seus sonhos? Qual o preço do futuro que almejamos? Em sua jornada, Eilis é confrontada por muita dessas perguntas — e é justamente em sua busca por respostas que a mágica acontece.

Na era dos grandes espetáculos, Brooklyn brilha em sua sutileza, na sensibilidade e delicadeza de uma história aparentemente tão simples, mas não por isso menos fascinante. Há espaço para o amor e para a alegria tanto quanto há para o incômodo, a tristeza e a saudade; para o cuidado e a ternura tanto quanto para a raiva e a decepção. Em uma narrativa que existe dentro dos limites do que significa ser humano, ser é o que precisamente a torna extraordinária.

Entretanto, desde o seu lançamento, é perceptível a tendência de opiniões que o consideram um filme pouco relevante sobre uma jovem irlandesa dividida entre dois amores, e que só foi indicado ao Oscar para cumprir tabela, estabelecendo-se como o representante britânico da vez. De fato, grande parte das análises publicadas desde a sua estreia se apegam ao romance — uma parte importante, é verdade, mas não por isso a única, tampouco a mais importante —, atribuindo certa inferioridade à obra; inferioridade esta tão comum em narrativas centradas em mulheres.

A indústria do cinema — e do entretenimento, de maneira geral — é um ambiente extremamente masculinizado. Se é verdade que mulheres sempre fizeram parte dela, fosse à frente ou atrás das câmeras, é verdade também que a balança nunca lhes foi favorável — o que fica óbvio não apenas ao analisar a maneira como mulheres são representadas em obras de ficção, mas em sua ausência em determinadas funções, sua tímida presença em grandes premiações, sobretudo em categorias técnicas, e a validade de uma obra de acordo com o papel que desempenham.

Ao mesmo tempo, muitas temáticas vistas como “femininas” (dramas familiares ou romances, por exemplo) costumam ser vistos como menos seriedade, especialmente quando dirigidos por mulheres, enquanto gêneros tipicamente “masculinos” (guerras, dramas policiais, etc.) são tidos como histórias sérias e importantes, seja do ponto de vista financeiro, seja narrativo. O contrário não é muito melhor: enquanto o cotidiano visto e protagonizado por mulheres é continuamente invalidado, o mesmo não pode ser dito pelos homens, que frequentemente fogem ao mesmo destino. Diante deles, o amor, o romance, a família e o cotidiano adquirem contornos mais profundos, passíveis de complexas análises que dificilmente, ou com alguma resistência, são dispensadas ao sexo oposto.

Nesse sentido, Brooklyn ocupa uma espécie de lugar intermediário: embora não seja dirigido nem escrito por uma mulher (John Crowley e Nick Hornby são responsáveis pela direção e pelo roteiro, respectivamente), o filme encontra-se marcado pelo mesmo estereótipo reducionista daqueles que se recusam a projetar-se em alguém que não eles mesmos, ainda que esse alguém viva experiências tão complexas quanto seria possível a qualquer ser humano. Assim, embora o romance seja um ponto importante na trama, Brooklyn jamais o considera o mais importante. Eilis está diante de uma escolha, mas essa escolha não é sobre com quem ficar e sim sobre quem ela é e qual versão de si mesma deseja ser: aquela que existe na Irlanda, ao lado da mãe e em um mundo que conhecera por uma vida inteira, ou do outro lado do oceano, nos Estados Unidos, onde ela descobriu-se novamente; Jim Farrell (Domhnall Gleeson) e Anthony Fiorello (Emory Cohen) são apenas personificações de duas vidas muito diferentes e é entre essas duas vidas que suas escolhas são feitas.

Ao ver-se com mais oportunidades em sua terra natal do que quando a deixou pela primeira vez, é natural que Eilis coloque o futuro novamente numa balança. Se é frustrante vê-la considerar o retorno para um lugar que só passaria a valorizá-la muito mais tarde, seus motivos são perfeitamente compreensíveis e não tornam nenhuma de suas experiências menos significativas ou especiais. Em uma história que tanto fala sobre escolhas e amadurecimento, sobre trilhar o próprio caminho e aceitar as consequências de suas decisões, ponderar sobre o que fazer em seguida é o mínimo para que ela possa viver em paz com sua decisão — e se angústia, sofrimento e saudade são inevitáveis, há muito o que se aprender com tudo isso também.

Deduzir que Brooklyn é o filme sobre uma mulher que não consegue decidir entre dois amores é a saída fácil de quem supõe que a vida de uma mulher gira em torno de seus romances. Eilis é uma mulher em busca de oportunidades que a possibilitem crescer à altura do próprio potencial. Às vezes, isso significa abrir mão daquilo que se quer, mas às vezes, essa é a única maneira de encontrar um lugar no mundo — e no meio do caminho pode ser que ela encontre um amor. Ou um emprego. Uma casa. Amigos. Uma nova família.

Que jornada fascinante, afinal.

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1 comentário

  1. Exatamente! Escrevi sobre Brooklyn e se fosse pra me basear só no conflito amoroso, achei que o filme deixou a desejar (em termos de construção de personagens e relações. O personagem de Dumnhall Gleeson, por exemplo, nós mal chegamos a conhecer), maaaaaas não me importei com isso e gostei do filme justamente porque pra mim isso não foi o mais interessante ou essencial. Legal mesmo foi ver a trajetória da protagonista, seu amadurecimento e desenvolvimento, assisti-la tomar as rédeas de sua vida e fazer suas próprias escolhas. E achei que o filme fez isso de forma bem tocante e sensível, com um resultado final empoderador.